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Professora de Inglês da rede estadual é formada em Letras

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A PESQUISA DE CAMPO

Entrevista 4 Professora de Inglês da rede estadual é formada em Letras

(Português/Inglês) e Espanhol. Seu pai trabalhou como gerente de indústria e concluiu o Ensino Superior no curso de Administração. Sua mãe cursou o Ensino Médio e atualmente trabalha como doméstica. A professora leciona na rede estadual há 15 anos e possui experiência na rede privada.

Na entrevista em questão pudemos observar que, para a professora, há dois tipos de educação: a educação moral responsável pelos princípios éticos e de boas maneiras e a educação escolar que podemos entender como os conhecimentos científicos acumulados. Para ela, a função da escola limita-se aos conteúdos escolares. Já a educação moral cabe, portanto, à família.

[...] Que tem pais que acha que a escola que educa, eu acho que a educação se dá em casa, acho que quem... “sabe assim”, dá os princípios pra um filho, que ensina ética, moral, ensina tudo, é pai e mãe, não é escola. Tem muito pai e mãe que acha que é a escola que tem que ensinar conteúdo e educar o filho.

Ao apresentar os defeitos morais como disposições decorrentes da má educação familiar, a professora tende a isentar a escola de sua responsabilidade no terreno da educação de valores. De acordo com a entrevistada, se a escola interviesse nesse domínio, estaria cumprindo um papel que não lhe diz respeito, descaracterizando dessa forma sua real função, que é a transmissão de conhecimentos científicos.

Quando questionada sobre a diferença entre a escola pública e a particular, a entrevistada não faz menção à influência do capital econômico e do capital cultural no processo de escolarização. Ao descrever a diferença entre o ensino público e o ensino privado, ela limita-se a destacar os diferentes modos de comportamento do professor nas duas redes de ensino.

[...] A privada você tem que “assim”, que dançar conforme a música dos alunos, eles que mandam, porque eles que pagam, eles que mantém a escola. Então “assim”, não pode falar alto, não pode nem pensar em... em “assim”, uma bronca mais forte, porque eles quem mantém a escola. A pública eu acho que “assim”, que você é mais você sabe? Fala o que você pensa, da bronca em quem tem que dar...

[...] Eu acho “assim” que na pública, porque “assim”, com essa estabilidade você às vezes fala coisa que não deve, você é meio grossa, você fica nervosa...

Observa-se que, mesmo reconhecendo a diferença de capital econômico existente entre os alunos, a professora destaca o comportamento do professor como o principal aspecto de distinção entre as duas redes. Entretanto, entendemos que essa diferença de comportamento está diretamente relacionada às diferenças de classe que permeiam o ambiente escolar. Esse confronto desigual faz com que o professor, ao se deparar com alunos de uma classe social inferior, sinta-se na liberdade de expressar-se de forma desrespeitosa, considerando que ele é consciente da submissão apresentada pelos alunos dos baixos segmentos sociais frente a uma autoridade instituída. Porém, quando se depara com alunos de uma posição social elevada, o professor demonstra ter mais cautela quanto à sua maneira de se comunicar.

Ao longo de sua intervenção sobre esse tema, a entrevistada acaba se encaminhando para uma postura contraditória. Ao ser questionada sobre a influência da diferença de classe no relacionamento entre o professor e o aluno, a professora relata que, mesmo numa condição social mais privilegiada, consegue manter um bom relacionamento com os alunos, não deixando que as diferenças sociais interfiram.

Quando questionada sobre a qualidade do ensino oferecido na escola privada, a entrevistada responde:

Eu acho que é muito jogado porque é muita coisa, eu acho que é muito jogado “sabe”? “Assim”... Elas engolem aquilo, mas eu acho que assimilar tudo “assim”, de verdade eu acho que não, é uma farsa, é uma “assim”, como vou dizer? É um fingimento, na minha opinião.

É interessante notar que, apesar de apontar o ensino privado como uma farsa, quando questionada sobre o futuro escolar de sua filha, ela opta pelo ensino privado. Segundo a professora, “pública jamais”.

O motivo pelo qual a entrevistada faz sua opção pela escola particular, encontra-se, segundo ela, na figura do professor.

Porque eu acho que o professor de escola pública, hoje em dia que a maioria é efetivo, eles são acomodados... “Se eu faltar não vou pra rua”, “se eu coçar na sala de aula eu não vou pra rua”, “se eu lixar a unha não vou pra rua”. Nada vai pra rua, então “sabe assim”, são acomodados, isso é o que eu vejo sabe? Eu acho “assim”, como fala? A estabilidade faz ficar acomodado...

Por este trecho, é possível verificar que, segundo a professora, os motivos que fazem com que ela opte pelo ensino privado decorrem do pouco envolvimento da corporação docente na educação pública. Esta situação é resultado da estabilidade profissional adquirida pelo professor ao ingressar no sistema público de ensino por meio de concurso.

Contudo, quando indagamos sobre o baixo desempenho dos alunos que fracassam, a professora destaca que o principal fator para o sucesso ou fracasso escolar do aluno está na vontade deste em aprender, e não no envolvimento ou compromisso do professor com sua função.

[...] Eu acho que depende do aluno em passar em faculdade pública, depende do aluno sabe? Se esforçar em casa sabe? E dar o sangue mesmo...

Com certeza, vai muito do aluno, porque “assim”, tem aluno também, que o pai cobra, paga escola particular e o aluno “tá” pouco se “lixando”.

É esforço pessoal, eu acho que é esforço pessoal, é “assim”, a criança querer ser alguém na vida futuramente. Pode ser pobre, se tiver esforço acho que você vai longe.

Depende só dele, depende só dele eu acho, do aluno.

“Assim”, o que ela oferece é um “ponta-pé”, um empurrão, mas não é nem “assim” um dedinho do que sabe? Ele tem que... Ele por si próprio ir atrás e correr, estudar sozinho... Dá um “ponta-pé” a escola, mas sabe? Eu acho que “assim”... Ele sozinho tem que ir sabe? E procurar e se esforçar e estudar, por conta dele.

Ao mencionar a força de vontade do aluno como o principal fator para o seu bom desempenho escolar, a professora evidencia o peso da ideologia docente na ocultação das causas sociais do fracasso escolar. Essa tomada de posição da professora nos leva a formular uma indagação: Se o bom desempenho escolar do aluno depende da sua força de vontade em aprender, quais os reais motivos que levam a professora a optar pelo ensino privado para seus filhos, já que uma boa educação resulta do esforço pessoal do aluno e não do comprometimento do professor?

Diante desta indagação, a professora utiliza a ideologia do mérito e da diferença individual para desviar-se de uma análise mais profunda sobre as causas sociais do fracasso escolar. Ao justificar a sua preferência pela escola privada, pelo fato de o professor da rede pública se mostrar pouco preocupado quanto à aprendizagem dos alunos, a entrevistada procura desviar a atenção para longe do fenômeno da inferioridade da qualidade do ensino oferecido na rede pública.

É possível afirmar que a dificuldade em reconhecer que o ensino público oferece uma educação de má qualidade decorre do fato de a professora lecionar nesta mesma rede. Reconhecer a inferioridade do ensino oferecido na escola pública implica em um questionamento sobre o seu próprio trabalho enquanto professora.

De acordo com Saes, o professor, enquanto membro da classe média, se utiliza de um discurso fundado no princípio da meritocracia, ocultando os seus verdadeiros interesses. Para o autor, o professor enquanto membro de uma classe social:

... não pode ter interesse em que as chances, na vida econômica, profissional e social, das crianças potencialmente capazes das classes trabalhadoras manuais sejam aumentadas, pois isso significaria a diminuição, em termos relativos, das chances dos próprios filhos. Na verdade, o culto a meritocracia é uma ideologia de segundo grau; vale dizer, uma argumentação que presta cobertura ao compromisso orgânico da classe média com o seu verdadeiro interesse de classe. (SAES, 2005, pg. 105)

A entrevistada pensa que, para os professores, o ensino público se mostra mais vantajoso, pois ele lhe oferece estabilidade. Entretanto, quando pensa nos seus filhos, o ensino particular aparece como mais interessante, pois apresenta

melhores índices de qualidade. A preferência por trabalhar no ensino público pode ser percebida nas falas que se seguem:

[...] Pisa em ovos na escola particular pra falar com os alunos, a pública não. E eu sou assim, eu falo o que eu quero “assim”, não falo palavrão, mas dou bronca, sou eu, e lá não, na particular não, não era eu... Tinha sempre “assim”, que falar pensando no que você tava falando, pisando em ovos. Eu não gostei da experiência.

“Assim”, eu Milena, prefiro mil vezes escola pública de lugar de periferia sabe?

Além da ênfase no esforço individual como caminho para o sucesso escolar, a professora destaca também o pouco comprometimento familiar como outro aspecto importante para explicar o baixo rendimento dos alunos.

[...] Eu acho que o que mais influência na diferença de uma pra outra é a cobrança dos pais, que cobram os pais de escola particular, porque querem ver o filho ser alguém na vida “né”, porque tão gastando. Escola pública não, o pai sabe? Tanto faz, como tanto fez, a maioria, não são todos.

Tem aluno que vai pra escola sem se alimentar, que não dormiu bem por frio “né”? Que não tomou um banho decente... “Assim”, o pai bate em mãe, enfim... Um contexto familiar que influencia o aluno na escola, no rendimento escolar dele “né”?

Porque pai e mãe sabe? São “assim”: ah meu filho, assim “tá” bom sabe? É zero, na estrutura familiar Sil, é zero. Um monte... “assim”, o pai “tá” preso ou mãe que apanha do pai, não tem “sabe assim”? Um pai que fale: “não filho, você tem que estudar, ser alguém na vida. Uma mãe que fale isso... Enfim, pra eles sabe? “Tá” ali, não paga água, não paga luz, come arroz feijão e banana... e “tá” bom

A partir dos relatos destacados, verifica-se que, ao mencionar problemas como desestruturação familiar, bebida, drogas ou mesmo o relacionamento dos pais, a professora demonstra ter uma visão estereotipada das famílias de classe popular. Desta forma, observa-se que, assim como nas demais entrevistas realizadas, ela compartilha do mito da desestruturação familiar como causa da dificuldade de aprendizagem.

Verifica-se que, os principais argumentos utilizados pela professora para justificar o baixo desempenho escolar, centram-se no pouco interesse familiar pela vida escolar de seus filhos e no desinteresse do aluno. Neste último aspecto,

observa-se a forte presença da ideologia meritocrática, já que o bom desempenho escolar irá depender do esforço empenhado pelo aluno para aquisição dos conteúdos escolares.

Ao analisarmos algumas falas da professora, constatamos que ela desconsidera as questões sócio-econômicas e a sua influência no desempenho escolar dos alunos. Desta forma, a entrevistada faz dos alunos e das suas famílias os principais responsáveis por seu fracasso.

[...] pode ser coincidência ou não, mas os bons alunos a maioria tem pai, tem mãe sabe? Uma família, pai, mãe e irmão... uma família. E os maus alunos não, vai em reunião, é a vizinha, é uma tia, e uma avó, não tem pai não tem mãe ou se tem, são largados, cada um mora num canto ou “tá” preso, ou “tá”... Enfim, é uma... bagunça “né”? E uma zona, uma bagunça... Pode ser coincidência ou não, mas é a minha experiência, que os bons alunos, a maioria têm uma estrutura familiar, não digo “assim”, que tem dinheiro, não tem dinheiro, mas sabe? Tem “assim”... pai, mãe... enfim, família.

Ah, eu acho que isso é o principal Sil... O contexto familiar... Eu acho sabe? Eu acho que família é tudo na vida de alguém sabe? Ter “assim”, um lar descente, ter uma alimentação boa sabe? Ter... Enfim, um pai e uma mãe sabe? Tudo assim certinho, não digo com riqueza, em dinheiro, mas enfim, uma casa descente sabe? Um lar descente com estrutura, um pai que se dê bem com a mãe, que não tenha bebida, que não tenha droga, que não tenha violência sabe? Eu acho que isso é tudo pra uma criança ser alguém na vida.

` Também nos chamou a atenção o fato de que a professora recorre à sua própria história de vida para dar caução empírico à tese do esforço individual, veiculada por ela durante toda a entrevista. Nota-se que, ao relatar parte de sua história, ela encontra aí um argumento digno de comprovação da veracidade de seu discurso; ou seja, o bom desempenho do aluno é resultado de seu esforço pessoal. Desta forma, ela afasta as causas sociais e justifica o fracasso escolar por meio de questões individuais.

[...] Vejo por mim, que não estava nem aí com nada, repeti a sétima série e era escola particular... “Tava” nem aí com nada, eu pulava muro de casa (risos), eu era a rebelde sem causa, tinha tudo o que eu queria, tudo “assim”, de comer, de vestir, de calçar, tudo, eu tinha vida de rainha e era rebelde sem causa entendeu? Era assim uma escola maravilhosa, tinha tudo o que eu queria e era “assim”, super revoltada, rebelde sem causa.

Eu, que estudei a vida inteira em escola particular e era uma “vagal”. Odiava estudar, matava aula sabe? Dormia em aula, dormia no banheiro da escola (risos), e foi a vida inteira em escola particular e era uma ”vagal”. De freira, que só tinha mulher religiosa, imagina? Eu só aprontava, eu só aprontava e era uma nota a escola. Então e aí? Sabe? Valeu a pena o investimento em mim? Eu acho que não. Sabe? Foi muito dinheiro com tudo, com uniforme, material, mensalidade, foi muito dinheiro a vida inteira que os meus pais investiram em mim e eu sabe? “Assim”, não dava valor nenhum. Então sabe? Eu acho “assim”, depende oitenta por cento do aluno querer “sabe assim”? Ser alguém na vida...

Recorrendo à sua experiência enquanto aluna, a entrevistada procura comprovar a teoria de que o esforço individual é o principal fator que determina o sucesso escolar. Para dar sustento à sua argumentação, a professora recorre também à história de vida do próprio marido, conforme podemos observar a seguir:

[...] por exemplo, o Arnaldo, ele sempre estudou em escola pública e conseguiu passar na USP, por quê? Ele chegava em casa e por conta dele, ele ia estudar sozinho sabe? Sozinho “assim”, sem pai cobrar, sem mãe cobrar, por conta dele, porque ele queria ser alguém na vida. Com dez anos de idade já pensava em fazer faculdade. Então acho sabe? Vai muito da criança.

[...] O meu marido conta, que ele chegava em casa e estudava cinco horas seguidas sabe? Então “assim”, é só o aluno “sabe”, se esforçar que tem chance sim, de pública ou de privada.

Ao tomar como exemplo sua própria história de vida e a de seu marido, a professora confirma sua hipótese a respeito do esforço individual e afasta qualquer possibilidade de uma análise que leve em consideração a situação econômica e social do aluno. Ele confirma sua ideologia meritocrática ao destacar que não valorizava os estudos, mesmo tendo condições financeiras e estudando em ótimos colégios, diferentemente de seu marido, que, apesar de apresentar uma condição social inferior à sua, sempre valorizou a educação e se dedicou à escola. Foi o esforço empenhado por ele que, segundo ela, lhe garantiu uma vaga na USP (Universidade de São Paulo).

Por meio desta comparação, a entrevistada procura encontrar subsídios para afastar qualquer possibilidade de uma análise sociológica que leve em consideração as questões econômicas e sociais, e seus reflexos no fracasso escolar. Mesmo consciente da diferença de classe existente entre os alunos, ela não relaciona essa diferença ao desempenho escolar. Suas análises são muito superficiais, pois não

chegam a relacionar o sistema escolar com o contexto social. Logo, a ideologia da entrevistada a impede de identificar as causas sociais do fracasso escolar.

Ao descrever o declínio social vivido por sua família nos últimos anos, a professora demonstra o quanto à queda de poder aquisitivo influenciou na degradação de seu status pessoal.43

[...] O meu pai ganhava muito bem, até eu ter dezesseis anos. Ganhava muito bem mesmo, era gerente de multinacional, aí quando eu tinha dezesseis anos, dezesseis anos pra dezessete anos ele pediu a conta, e “assim”, a minha vida financeira, ela “assim”, despencou. De dez caiu pra menos dez.

Ao mencionar os motivos pelos quais escolheu o magistério, ela deixa claro o quanto as questões econômicas influenciaram em sua trajetória profissional.

Por falta de opção. Eu queria ser advogada, não tive condição financeira em pagar uma faculdade de Direito. Até passei em várias faculdades, mas particulares. Não tive condição, aí “assim”, foi por eliminação.

Nota-se que, dentro das condições objetivas que possuía o Magistério não era o caminho desejado, mas sim o mais viável. Logo, fica nítida para a professora a influência do estoque de capital econômico familiar (reduzido) na escolha de seu futuro profissional.

Entretanto, mesmo ciente desta influência, a entrevistada tende a negar o peso deste capital na trajetória escolar do aluno. A incapacidade de fazer qualquer análise quanto ao futuro escolar do mesmo, levando em consideração as condições socioeconômicas, impede-a de verificar a influência exercida pelo capital econômico e pelo capital cultural no processo de escolarização.

Mesmo se considerando classe média, e os alunos classe baixa, a professora não extrai nenhuma conseqüência pedagógica desta diferença de classe nem avalia a sua repercussão nos resultados escolares apresentados por eles. Logo, qualquer explicação que leve em consideração a condição de classe do aluno fica à margem

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Sobre esse assunto ler: Masson T.C. O perfil ideológico do docente da rede pública estadual; um estudo de caso. São Bernardo do Campo: UMESP, 2007.

de seu discurso ideológico sobre as causas do fracasso escolar das classes populares.

O texto da entrevista indica também que, quando necessário, a professora recorre a outros argumentos para explicar as diferenças individuais.

[...] Porque eu acho que quem não tem o dom, não consegue passar o conteúdo pro aluno, tem que ter o dom.

Neste trecho da entrevista, manifesta-se a ideologia do dom, acionada para justificar a competência ou não competência do professor em sua tarefa de transmissão de conteúdo. É interessante notar que a entrevistada vale-se de duas ideologias opostas (ideologia do dom e ideologia do mérito pessoal), a fim de defender a legitimidade de sua posição enquanto professora.

De acordo com Saes (2007), ao recorrer à ideologia do dom, o professor encontra neste argumento uma forma de reagir contra a degradação de seu status profissional; mas ao se relacionar com um grupo que está hierarquicamente abaixo, a professora tende a recorrer à ideologia do mérito pessoal. Mais especificamente: é nas relações horizontais - como, por exemplo, nas relações com os demais professores - que a entrevistada se utiliza da ideologia do dom, a fim de justificar a sua permanência na carreira docente, mesmo quando todos os fatores externos lhe parecem desfavoráveis. Vejamos a passagem abaixo:

[...] Enfim, e “assim” lá na escola, a sala “tá” com 45, 50 aluno. A sala entupida! Sabe aquela sala que no calor é insuportável de cheia, aquele mau-cheiro? Aí olha, “Deus é pai”. E é um tal de “sabe”, “fulano me beliscou, puxou meu pé, puxou minha mão, puxou meu cabelo” e fica aquele inferno, um inferno sabe?

[...] eu comecei sem gostar nenhum pouquinho e hoje em dia eu gosto do que eu faço. Não amo loucamente, “ai não vivo sem o que eu faço”. Vivo, não amo “assim” loucamente, mas gosto bastante. Porque se não, eu não agüento não. Se não gostasse bastante, acho que eu não agüentaria.

Além da ideologia do dom, constatou-se no depoimento da professora a presença de uma nova ideologia que justifica as diferenças individuais. Esta consiste na idéia das aptidões naturais, que se caracteriza por habilidades transmitidas através do patrimônio genético.

[...] Acho que a genética da... influencia também. Eu acho “assim”, tem gente que já nasce mais inteligente e outros mais “assim”... Burro é uma palavra forte, mas menos “assim”... desprovidos de inteligência (risos)... Se você falar que alguém é burro, é feio. Então tem pessoas que são desprovidas de inteligência sabe? É da pessoa concorda?

Em ambos, tanto em genética como em Deus, acho que é uma união das duas coisas. Em ambos eu acredito.

Ah, porque são mais inteligentes mesmo, sabe? Tem aluno sabe? Com QIs diferentes, altos, médios, baixos...

Em conformidade com os estudos de Saes,

“... a ideologia das aptidões genéticas vai ser utilizada para descaracterizar as desigualdades de classe como a verdadeira causa das diferenças de

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