3 OS EDUCADORES DO AGRUPAMENTO VERTICAL
3.2 A PROFESSORA E SUA TURMA
A professora do agrupamento vertical entrevistada tinha vinte e dois anos, era solteira, formação em magistério, tinha segundo grau e estava cursando o último semestre do curso de psicologia. Já trabalhava há cinco anos, o mesmo tempo de formada. Considerava-se uma pessoa de nível sócio-econômico semelhante aos de seus alunos, de classe média. Morava com a família, em residência própria, no bairro da escola, a uma distância aproximada de dois quilômetros, percorridos de bicicleta ou de carona no carro do pai.
A questão da diferença sócio-econômica entre alunos, professores e auxiliares já foi mais acentuada no INDI/Bibia. Este aspecto freqüentemente era discutido entre a professora Júlia e eu. Questionávamos a diferença gritante de poder aquisitivo na maioria dos casos e que fazia parte também da realidade de outras escolas particulares de classe média de Brasília. Muitas vezes, coloquei em discussão que os conflitos em relação à autoridade que outros educadores expunham em encontros dos quais participei fora da escola, eram provenientes do fato de que, muitos alunos do final do primeiro grau e do segundo, recebiam de mesada um valor maior do que o salário de seus professores. A condição do professor de acompanhar os eventos, tais como cinema, teatros, shows, cursos etc., era quase inexistente. Na “roda das novidades” era uma humilhação. O aluno conhecia “in loco” o que o professor tentava ensinar no conteúdo da grade curricular, porque durante as suas férias tinha tido a oportunidade de viajar por lugares tanto no Brasil quanto no exterior, que o professor nem poderia imaginar conhecer um dia.
Com o passar do tempo, uma certa mudança foi se processando e, em sua maioria, as professoras passaram a acompanhar a condição sócio-econômica de seus alunos, ou seja: moram no mesmo bairro, em residências de padrão semelhante, têm carro, são
solteiras e ainda vivem com os pais, não precisando dispor de seus vencimentos para o sustento da casa, podendo arcar, apenas, com seus gastos pessoais o que alivia sua família, mas também não compromete seus vencimentos.
Esta discussão apresenta-se muito atual e sugere amplos estudos, uma vez que se constitui um fato consumado na maioria das escolas particulares e, com algumas exceções, na rede pública.3
O que observei em minha prática pessoal como consultora e executora de diversos cursos, treinamentos e planejamentos é que a indisciplina e a falta de respeito para com o professor estão intimamente ligadas a dois fatores: o econômico e a falta de solidez de conhecimentos do professor. O primeiro espelha uma inversão de valores patrocinada pela família; o segundo se torna um problema quando o aluno, percebe a fragilidade/inexperiência do professor.
A experiência de trabalho da professora com agrupamento vertical conforme nos relata, aconteceu no INDI/Bibia e não teve, anteriormente, contato com outra forma de agrupamento como o horizontal. Sua escolha pelo magistério surgiu por dois motivos: sempre quis ser professora e a passagem por esta formação contribuiria para parte prática do seu curso na faculdade cuja a escolha recairia na Psicologia. Sua inclinação era para a especialização na área infantil.
“Antes desta escola não. Não com este nome. Eu trabalhei quando me formei na mesma sala com jardim I e jardim II, na mesma sala antes daqui. Era um AV indireto.”
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ZAGURY, Tânia. O adolescente por ele mesmo. p. 46. “Formar e informar o jovem, atender aos objetivos dos conteúdos de ensino ter um bom relacionamento com os alunos pode ser extremamente difícil para os professores, sobretudo numa época em que a escola vem sofrendo problemas crescentes.
O primeiro deles e talvez o mais importante é o próprio desprestígio com que o ensino e os professores são tratados, em termos de política de governo. Mudam os partidos no poder, mas a situação continua a mesma. Salários achatados, status diminuído, cursos de formação de qualidade questionável, desprestígio profissional... Parece que um elemento que diferencia o julgamento do jovem é exatamente a classe social a que pertence.”
Quanto ao acompanhamento da professora e seu trabalho, planejamento, treinamentos, supervisões, atualização e registros, pela escola, é sistematizado da seguinte maneira:
Fazemos um relatório quinzenal das atividades que foram feitas. Quanto ao planejamento, a gente faz a cada semana. Você prepara algumas atividades, mas algumas crianças trazem alguma novidade e se adapta o planejamento em cima do que ela trouxe. Você dá uma prioridade ao interesse da turma. Caso não tenha algum interesse aparente, você puxa e acaba colocando no seu planejamento. Quanto às supervisões, tem uma psicóloga. Terça e quinta ela está na escola, à tarde. Ela desce4 e vê como está a sala. Qualquer coisa, a gente também leva algum problema pra ela. Também a Júlia aparece na sala e participa. A Júlia é a diretora. Ela também dá orientação pedagógica e discute a avaliação das crianças. Quanto aos treinamentos, temos treinamento no início e na metade do ano. As reuniões de estudos, mais ou menos uma vez por mês. Num sábado, chama a escola inteira5. Tem contador de estórias, dinâmicas corporais. A reunião com os pais acontece a cada início de semestre letivo eles vem à escola para conhecer o professor, a rotina. A cada bimestre tem a entrega de avaliação, que é individual.
Em relação a sua turma coloca, que a mesma tem um nome escolhido pelas crianças:
O nome da nossa turma é AV Dinossauro. No início do ano, as crianças escolhem, fazem a votação. Tem muitos alunos que se interessam por dinossauro e motivam o resto da turma e trazem sempre material. Então, o nome da nossa turma é AV Dinossauro.
O turno no qual ela trabalhava era o vespertino, de quatorze às dezoito horas. Contava com o trabalho de uma auxiliar6. Sua turma era composta por dezessete alunos que eram distribuídos dentre as seguintes faixas etárias:
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A expressão “ela desce” se explica por ficar a sala da direção, professores e apoio técnico num nível um pouco mais alto, dando a impressão de uma pequena rampa.
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Estes encontros são os mensais, que a escola promove com as famílias, alunos, professores, direção e corpo técnico. Quanto às reuniões de estudo ou cursos promovidos pela escola, desta forma elas não acontecem. O que existe são as trocas de informações durante as supervisões, os treinamentos e algumas palestras que também são abertas à comunidade.
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No início do ano, nós temos crianças de um ano e meio até quatro, mas no fim, agora, nós temos: quatro alunos de dois anos, cinco alunos de três anos, quatro alunos de quatro anos e dois de cinco anos. De uma forma geral, a distribuição por sexos é metade/metade. Nós temos sete meninos e oito meninas. Por idade, se tem uma divisão muito diferenciada, tem mais meninas de cinco anos do que meninos.7
Quanto aos centros de interesse, a disposição física e as atividades em sala, que no agrupamento vertical do INDI/Bibia se caracteriza pela oferta diversificada e a livre escolha, o relato da professora é o que segue:
A sala8 deve ter uns dez por dez metros. Não sou muito boa de números. Nós temos cinco mesas que comportam quatro cadeiras em cada mesa. Dá uma média de vinte. Caso a gente precise pode buscar mais mesas e mais cadeiras. Nós temos quatro centros: um de leitura, onde tem livros infantis, um colchão e almofadas onde as crianças vão ler lá; o centro da construção onde tem bloquinhos, peças de encaixe, peças de madeira onde eles vão fazer seqüências, vão construir coisas Eles constroem casas maiores que eles, armas, fazem seqüências no chão, fazem todo este trabalho em três dimensões; tem o centro de dramatização que imita uma casa, onde tem um berço, um sofá, cozinha com mesas e cadeiras, fogão, pia, geladeira, armário e utensílios. Eles adoram também. As meninas procuram mais este centro e os meninos procuram mais o centro da construção. Isso fica livre pra eles. E o centro de artes, onde a gente dá as propostas de artes, os trabalhinhos, pintura, massinha, modelagem. Nosso material básico é papel ofício, guache, anilina, cola, tesoura, revistas, giz de cera, serragem, areia colorida, massinha, argila.
Nós sempre tentamos intercalar as atividades-extras. Na semana, um ou dois dias a gente trabalha mais com atividade física. No final da aula, conta uma historinha contada diferente, uma brincadeira de visita, eles curtem de montão.
Um dos momentos importantes do agrupamento vertical, e em geral na pré- escola, é o da chegada à sala e a recepção da criança que é entregue por alguém da família, ou de confiança, para a professora ou a auxiliar. Vitória e Rossetti-Ferreira9 completam:
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Embora a professora se refira a dezessete alunos e no total da distribuição de idade e sexo, apareçam quinze, o que constatei posteriormente é que, naquele dia, duas crianças não haviam comparecido à aula, nem eu nem a professora nos demos conta dos nossos cálculos.
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Cada sala do agrupamento vertical mede 56.75 metros quadrados.
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Processos de adaptação na creche. p. 57. Cabe esclarecer que, para mim, esta afirmação se aplica a criança de 0 à 6 anos, em processo de adaptação, seja na creche, no agrupamento vertical ou outro nome que se queira dar, de maneira mais intensa na primeira experiência, podendo se tornar ameaçadora quando as respostas da escola não são positivas para a criança. Não descarto, também, a mesma preocupação com crianças e adolescentes excessivamente tímidos ou com histórias escolares inadequadas e constrangedoras, independente da faixa etária e do grau de ensino.
A maneira como a família e, em especial, a mãe vê a entrada do filho pequeno na creche exerce uma influência marcante sobre a reação da criança. A relação muito intensa existente entre eles determinará que muitas das emoções da mãe, nesse momento, serão percebidas e expressas no comportamento da criança.
A professora explica este primeiro contado quando relata:
Este primeiro momento a gente pode ver de duas formas. Uma é a adaptação dela que precisa muito da aproximação da professora com AV. Tem que estar no mesmo nível, você recebe a criança, não fazendo o contato, tirando do colo do pai. Tenta mostrar os agrados que a sala oferece. Tem muitos recursos que interessam diretamente à criança. Vai com brincadeira. Feita a adaptação você tem a rotina, é feito rodinhas, a professora acolhe a criança que trouxe novidades, as músicas, para a criança se colocar diante da turma.
Como os pais sentiram o processo de adaptação de seus filhos no agrupamento vertical foi possível perceber em seus relatos:
“Se adaptou facilmente. Chegou no primeiro dia, falei com a professora, ela entrou na sala. Ela entrou na sala, não teve dificuldade nenhuma. Sempre cheguei no portãozinho, deixei ela com a Luciana, que é a moça que pega as crianças. Ela nunca não quis ficar. Nunca disse, hoje eu não quero ir para à escola. De manhã, ela acorda cedinho, põe o uniforme (Mãe de uma aluna de quatro anos)”;
“A adaptação não foi muito boa, mas eu acho e tenho certeza que foi por minha causa, demorou uns dois meses porque eu estava ali do lado. Ele deixava a professora e ia me chamar. Ele sempre ia na minha sala. Para mim e para ele foi muito difícil conciliar (Mãe de um aluno de dois anos e quatro meses e professora do agrupamento vertical)”.
A adaptação entre crianças é mais facilitada e, entre idades diferentes, tem apresentado respostas satisfatórias, porque repete, de certa forma, a convivência familiar, mas com outras hierarquias. Isto significa que os papéis que são vividos ou reproduzidos compõem o imaginário da criança, perpassado por suas experiências concretas, assimiladas de sua relação com os adultos. Nos estudos de Moro10, com crianças de idades misturadas, a atuação do adulto se manifestou mediadora, como vemos a seguir:
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Identificamos ou qualificamos essa participação como: mediadora, quando o adulto ativa as trocas entre as crianças, trocas que então “passam” por ele ou nele tendem a centralizar-se; assim, tenta ele provocar confrontos de opiniões e de realizações, chamando a atenção das crianças para o que outras fizeram, disseram; ou orientadora, quando encaminha as crianças para a execução das tarefas previstas, sem centralizar ou regular suas trocas, limitando-se apenas a colocar-lhes oportunamente observações ou perguntas desafiantes, sem precisar servir de eixo pra o confronto de respostas.
A professora continua, em sua fala, a esclarecer que a adaptação e a convivência quando realizadas pelas próprias crianças e, no caso do agrupamento vertical, com idades distintas, o resultado é uma relação de solidariedade desde o início.
Isso é engraçado. Essa diferença de idade, as crianças, elas se ajudam muito, ao mesmo tempo que brincam separado. Na hora das atividades, elas vão buscar um grupo semelhante ao seu. Na rodinha, existe uma ajuda mútua entre as crianças maiores para com as crianças menores. Ajudam a calçar sapatos, a falar, a desenhar. Se estimulam muito. Isso desperta, na criança menor, um maior desenvolvimento. Com isso, a criança maior cria um vínculo, uma responsabilidade. Eles não discriminam as pessoas por conta da idade.
O INDI/Bibia conta com uma equipe técnica na pré-escola que comparece com profissionais como a diretora pedagógica e orientadora, uma psicóloga que também atende ao primeiro grau e uma orientadora que acompanha as turmas e possibilita que a professora dinamize as orientações fornecidas pela diretora nas supervisões.