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4.1 ESCOLHA METODOLÓGICA

4.4.2 Professores – Ensinando a ler e a escrever

Os professores são reconhecidamente nas falas dos alunos assim como os “deuses” da sala de aula. Não têm defeitos, só virtudes. É essa a pressão fundamental do ambiente do ensino-aprendizado nas classes de alfabetização. Ser visto como uma entidade especial é sempre uma responsabilidade. Isto porque o grande desafio do professor está em saber assimilar esse respeito, às vezes exagerado, e fazer com que o aluno saiba compreender o valor do aprendizado, perguntando, questionando. Ou seja, estando presente diante das dúvidas e não se sentindo intimidado diante da aura idealizada do professor.

Portanto, diante dessa realidade captada através da presença na sala de aula, o estudo define algumas questões para entender a relação do professor com o universo da alfabetização de jovens, adultos e idosos. Por exemplo, neste envolvimento, a pesquisa trata de questões, como a posição dos professores diante

das propostas de alfabetização apressadas, as características da alfabetização de adultos, sugestões para a melhoria do trabalho em sala de aula, dificuldades enfrentadas na sala de aula, incentivo para a presença dos alunos na escola, dificuldades no processo de ensino e aprendizagem, a importância da motivação no ambiente da alfabetização, e o registro do significado do ensinar a ler e a escrever.

Diante do questionamento sobre as propostas de alfabetização apressadas, as professoras entendem que não dá para o aluno aprender a ler e a escrever, respeitando os objetivos da EJA, nessas condições. Elas dizem que:

Alguns até conseguem. Aqueles que já sabem alguma coisa. Mas, também as campanhas de alfabetização em massa, às vezes, são a única chance que eles têm de chegar à educação, principalmente nos lugares mais distantes. Eu não acredito em ações de alfabetização rápidas, como as de Paulo Freire. Ele é uma questão à parte. Não se pode trazer a genialidade de Paulo Freire para o ambiente sacrificado da EJA. Hoje, nós trabalhamos com professores que tiveram uma formação deficiente. Tem professor que, às vezes, está ensinado e tem menos conhecimento que o próprio aluno. (P1)

Eu acho que alfabetizar rápido é impossível. Alfabetizar em 45 dias, por exemplo, eu acho que foi um sonho de Paulo Freire. Pra mim até hoje ninguém conseguiu alfabetizar bem e ligeiro. Além de ensinar a ler e a escrever, a gente tem de passar valores para melhorar a vida dos alunos. É difícil responder na pressa a todos os compromissos da alfabetização. (P2) Eu não acredito na alfabetização em um ano. Eles podem até reconhecer, identificar e decodificar símbolos, mas não têm o conhecimento necessário para interpretar o que estão lendo. Eles precisam de tempo para usar a linguagem e a escrita de maneira adequada, para colocá-las a seu favor no cotidiano. Num texto simples, eles se complicam. O comprometimento do Governo Federal deve ser com o letramento. A impressão que dá é que objetivo são os números e não os alunos. (P3)

Tomando como base as respostas apresentadas e ainda marcando o tempo necessário para o aprendizado, a contribuição de Torres (2001, p. 40) enfatiza que as metas para a educação para todos (Jontiem, Tailândia, 1990) definiam as necessidades básica num sentido amplo. Ou seja, incluindo nesse conceito:

Conhecimentos, destrezas e valores indispensáveis para sobreviver, participar plenamente da cidadania, desenvolver as próprias capacidades, estar informado e capacitado para tomar decisões fundamentais e continuar aprendendo dentro de um marco de educação e aprendizagens permanentes. (p. 40)

Referindo-se ao fato de que a educação para todos encolheu, a autora coloca que os indicadores relativos à educação de jovens e adultos continuam centrados na alfabetização (definida, de acordo com o uso tradicional, em termos de “saber ler e escrever”), não se referem à educação básica [...] no sentido amplo - satisfação de necessidades básicas de aprendizagem (p.30).

Das características das classes de alfabetização, as professoras têm opiniões comuns. Ou seja, para elas trata-se de um espaço de alunos vindos de situações econômicas pobres, participativos nas aulas quando os assuntos são de seu interesse. Também um lugar que reúne pessoas que exigem uma proximidade de atenção do professor. Nesse último item, elas reforçam a necessidade da presença de um professor com perfil para as classes de alfabetização de adultos. Para exemplificar, vale citar a fala da professora P3:

É um espaço para o professor realmente compromissado com a alfabetização. Um professor que realmente lute pela transformação e o crescimento dos alunos, como pessoa e como trabalhadores. Professores interessados em formar cidadãos. Há muitos professores que se dedicam de corpo e alma à alfabetização. Mas, há outros que não têm perfil para ensinar o jovem, o adulto e o idoso.

Para contribuir com essa questão, Ribeiro (1997, p. 46) registra que “algumas das qualidades essenciais ao educador de jovens e adultos são a capacidade de solidarizar-se com os educandos, a disposição de encarar dificuldades, como desafios estimulantes, bem com traduzir confiança na capacidade de todos de aprender e ensinar”. Para ela, coerentemente com essa postura, o educar deve procurar nos educandos, suas expectativas, sua cultura as

características e problemas do seu entorno próximo, suas necessidades de aprendizagem (p.46).

A preocupação das professoras entrevistadas quanto às sugestões para a melhoria do trabalho na sala de aula se concentra na necessidade de encontros freqüentes para tratar das questões do cotidiano da sala de aula; de um suporte de texto, como uma apostila, para ajudar na construção dos caminhos do ensino e aprendizado (os professores têm de trazer todo o material necessário para as aulas); e para a questão do Governo Federal rever a forma de tratar as questões da educação. Como contribuições, destacam-se:

Acho que se tivesse uma apostila, as aulas ficariam mais dinâmicas. Hoje, o professor faz fotocópias ou então passa tudo no quadro. Os alunos não gostam de copiar coisas do quadro. Copiam um pouquinho e já estão cansados. O professor precisa estar atento para trazer para a sala de aula atividades complementares. É claro que a apostila precisaria ser constantemente renovada, incluindo temas atuais. (P2)

É mais pra dizer para o governo e as pessoas que dirigem a educação que revejam a forma de ensinar. Acho que tudo está ultrapassado. O aluno pode dizer que aprendeu a ler, mas ele não entende o que lê. Ele sabe qual é a função da escrita? Ela sabe o que é cidadania? Sabe votar? Não sabe. A pressa de ensinar faz com que o aluno aprenda só assinar o nome. As verbas são anunciadas, mas chega muito pouco para o professor na sala de aula. (P3)

Entre as dificuldades enfrentadas na sala de aula, as professoras apontam com mais ênfase a questão das faltas. Como diz:

Eu acho complicado a questão das faltas. A gente começa um trabalho, mas sempre ocorre alguma coisa – o patrão não libera, horas extras, o desemprego, os problemas de saúde. Sempre um problema, isso é difícil. (P3)

Percebe-se, nessa questão das faltas, uma certa frustração do professor diante da realidade que não permite a seqüência de um trabalho. Elas até falam das propostas de sorteios e outros incentivos para garantir a presença do aluno em sala

de aula. Mas, sempre acabam lamentado o fato de que o alunos das classes de alfabetização não conseguem estar na sala de aula o tempo necessário para definir o seu aprendizado. Eles aprendem os conteúdos, mas perdem tudo ou quase tudo nas longas ausências da sala de aula.

O incentivo para o aluno estar na sala de aula também registra na contribuição das falas a necessidade de se proporcionar um ambiente atraente para o processo-ensino aprendizagem. Nesse aspecto, a professora P1 diz:

A gente tenta proporcionar um ambiente gostoso. Recebe os alunos com música. Pergunta como foi o dia de cada um. Faz tudo para eles se sentirem integrados no grupo. Se alguém falta, a gente se preocupa em saber o que aconteceu. É uma situação difícil, porque têm “n” fatores que tiram os alunos da sala de aula. Muitos não saem de casa por medo de arrombamentos. Outros não têm com quem deixar os filhos. Outros começam a trabalhar à noite.

Também bem próximo a esse incentivo está a questão da motivação para o aprendizado. Aqui, as professoras são unânimes em afirmar que a motivação é um fator chave para elevar a auto-estima dos alunos. Elas dizem:

É uma questão básica. Os alunos precisam se sentir parte da escola. Isso é fundamental, porque a escola precisa dos alunos e os alunos precisam da escola. (P1)

Se o professor não motivar os alunos, eles desanimam e deixam a escola. A gente tem que estar sempre trazendo coisas novas, diferentes. Eles enjoam de tudo. Trazer um filme que tem relação com o que eles estão estudando, aprendendo. Tirar eles da sala de aula. Ir ao cinema, teatro e outros lugares de interesse dos alunos. (P2)

A motivação tem que estar nas partes – professor e aluno. O professor vai até uma altura, convidando, tentando fazer a aula de acordo com o interesse do aluno. Mas, se o aluno não quiser, não sentir necessidade de aprender para a sua vida pessoal e de trabalho, o professor não tem muito mais o que fazer. (P3)

Como os professores colocam a auto-estima como fundamental na relação do aluno com o aprendizado, o apoio teórico de Antunes (2003, p. 9) surge como

orientador para a questão, ele diz ”cada pessoa é, e sempre será, um verdadeiro universo de individualidade; suas ações, seus motivos e sentimentos constituem paradigma único”. Daí a importância da presença do professor como um caminho de motivação constante, entendendo as diferenças da sala de aula. Para motivar o aluno, o professor precisa ter uma proximidade com a psicologia, para encontrar caminhos que possam reverter o quadro da falta de interesse em aprender e, mesmo encontrar soluções para a sua ausência da sala de aula.

O momento da descoberta do aluno do sabor do ler e escrever ganha na contribuição dos professores a descrição como o instante mais compensador dos esforços concentrados da sala de aula. Assim, esse encontro representa nas falas a recompensa mais valiosa no trabalho das classes de alfabetização, principalmente de jovens, adultos e idosos. Recordando cenas desse encontro do aluno com o saber ler e escrever, os professores assinalam que:

É o sabor da gente ver o aluno ser mais. A satisfação de sentir que ele está aprendendo, de se colocar no mundo e de ser percebido pelo mundo. Esse é o verdadeiro significado do saber. Quando eles sabem seguir uma instrução sem pedir ajuda ou depender de outros, eles se sentem motivados. Eles se tornam independentes, reconhecidos. Eles tomam seus rumos e vão em busca de outros conhecimentos. (P1)

É um encontro maravilhoso. Tanto para os pequenos como para os adultos o momento do aprendizado é mágico. Quando a gente vê que o aluno entendeu a atividade é uma recompensa. Principalmente para aqueles alunos adultos que estão começando na leitura e na escrita. (P2)

Tanto para a criança como para o adulto é uma emoção. Só que na criança tudo parece automático, quando a gente vê ela já sabe. Já com o adulto, ele mesmo se surpreende com o fato de de repente ver que sabe ler e escrever. Eles sempre pensam que vão demorar muito mais, porque para eles tudo é muito difícil. Ensinar a ler e a escrever é como desvendar o mundo para os alunos. É muito bom abrir janelas, mostrar o mundo das letras. Mostrar que ler é até melhor que viajar, muitas vezes. (P3)

Por meio desse caminho traçado pela emoção do encontro do aluno com o saber ler e escrever, o professor das classes de alfabetização de jovens e adultos

marca a sua presença no importante momento do resgate de uma dívida histórica do país. Como assinalam Pereira e Gomes (2002, p. 21):

A educação de pessoas jovens e adultas se constitui em uma ação que objetiva a possibilidade de se oferecer respostas a esse significativo contingente da população que se encontra em um mercado de trabalho cada vez mais exigente, que impõem novas posturas e saberes como exigência para o ingresso no mundo do trabalho.