Capítulo 3. HGPEs no Brasil: A fé, a esperança, a indignação e o medo pelas imagens
3.1.4. A fé do povo – 2010
3.1.4.3. Programa 8 – “Amigo de verdade”
Programa de José Serra, do dia 18 de setembro de 2010
Figura 15 - Programa Serra – 18 de setembro de 2010 – Tempo: 19’08” – 20’00”
Locutor: Amigo de verdade é assim: sempre dá um jeitinho de aparecer...
Serra: Tudo bem? Homem: Beleza? Serra: Eu tô ótimo! Homem: Prazer.
Locutor: Chega e quer logo saber de tudo... Serra: Oito filhos?
Mulher: Oito filhos. Serra: Nossa!
Mulher: Vinte e cinco netos.
Locutor: Ri com a gente, faz graça...
Serra (dirigindo-se a uma criança): E esse cabelo, hein? Você não quer me dar um pouquinho?
Mulher (mãe da criança): Esse cabelo eu não dou não. Serra: Olha, só isso já chegaria pra mim.
Locutor: Divide a prece...
Serra (lendo a Bíblia): “Tudo o quanto tiver a mão pra fazer, faze-o conforme as tuas forças, porque no além para onde tu vais não há obra, nem projetos, nem conhecimento, nem sabedoria alguma.” Eu sigo isso. Tudo o que eu tenho que fazer eu faço além das minhas forças. Interessante a senhora ter me dado isso. Obrigado.
Locutor: E recebe em troca carinho e admiração...
Mulher: Você é um homem de honra, o senhor é um homem que cumpre com a sua palavra.
Locutor: Esse é José Serra.
Apesar de trazer um grande fragmento do enunciado nesta análise, ressaltamos que nosso interesse repousa no aspecto em que se faz presente, no enunciado, a expressão de uma fé religiosa/cristã. A escolha do recorte do fragmento se dá a partir da compreensão de que há uma sequência discursiva em que os elementos se constroem em uma determinada cadeia de efeitos de sentido e que os efeitos associados à fé começam a ser construídos em pontos anteriores ao recorte que trata unicamente da leitura da bíblia. Assim, nosso foco se voltará para o funcionamento do tema em questão – a fé religiosa/cristã –, o que significa que não nos debruçaremos sobre outros aspectos do enunciado, a menos que eles sejam significativos para a análise que buscamos apresentar.
A sequência discursiva traz como elemento imagético vários “recortes” (frames,
takes ou tomadas de cena) que representam situações cotidianas vividas pela pessoa do
candidato José Serra, fazendo circular efeitos de sentido associados a um aspecto da
persona do candidato: aquela na qual ele pertence ao povo. Esse aspecto reforça o
imaginário social ligado ao indivíduo político carismático, de origem simples e que conhece as mazelas que afligem a parcela menos favorecida da população, e favorece paradigmas de leitura que reforçam o caráter intimista da relação político/eleitor, como:
esses efeitos são impulsionados pela intervenção oral do locutor que inicia a sequência com uma oração principal que se abre a vários apostos: “Amigo é assim:”; cada aposto (manifestado em cada intervenção do locutor94) antecede uma tomada de cena diferente
e orienta os efeitos de sentido na composição de situações cotidianas da vida do candidato.
Estabelece-se uma identidade: o indivíduo que a imagem dá a ver é o amigo, e, antes mesmo que os valores desse amigo materializado na imagem sejam apresentados ao telespectador/eleitor, a própria emergência da palavra amigo já suscita efeitos de sentido positivos ligados a ela, construídos historicamente e cristalizados na memória social, que favorece a recepção do enunciado de maneira otimista. Afinal, é bem mais fácil fazer aliança com um amigo que com um inimigo.
Dentre os valores positivos atribuídos à figura do amigo que se apresenta
também como candidato, aquele que nos chama à atenção é o valor da religiosidade/fé,
instaurado pela oração apositiva “Divide a prece.” subordinada à oração principal “Amigo é assim:” na medida em que a imagem dá a ver o indivíduo político sentado à uma mesa, em companhia de um casal evangélico95, lendo a bíblia.
Ainda que possa não fazer parte de uma memória social construída historicamente, a instauração do valor religioso na definição do sujeito amigo constrói uma memória discursiva e realoca o sujeito político dentro de um grupo representativo (cerca de 90% da população96) da sociedade brasileira: o grupo dos brasileiros que
afirma ter alguma religião. Sendo a Bíblia a literatura comum à maior parte das religiões brasileiras, a ação de ler a bíblia que a imagem dá a ver do candidato José Serra não associa o indivíduo a uma religião específica, mas constrói a figura do homem que crê em Deus.
Após a leitura de um trecho da bíblia, José Serra se endereça à mulher (presente no cenário, mas ausente da cena) e afirma: “Eu sigo isso. Tudo o que eu tenho que fazer
94 Orações apositivas do locutor: 1) ...sempre dá um jeitinho de aparecer; 2) ...chega e quer logo saber de
tudo; 3) ...ri com a gente, faz graça; 4) ...divide a prece; 5) ...e recebe em troca carinho e admiração.
95 A definição é possibilitada pela aparência do corpo da mulher, pelo tipo de vestimenta e,
principalmente, pelo comprimento dos cabelos – sabe-se que a doutrina evangélica não permite que as mulheres exibam os cabelos curtos ou cortados.
96 Segundo dados do Censo Brasil 2010 – disponível em
ftp://ftp.ibge.gov.br/Censos/Censo_Demografico_2010/Caracteristicas_Gerais_Religiao_Deficiencia/tab1 _4.pdf , acesso em 21 jun 2013.
eu faço além das minhas forças.” Ao realizar a afirmação, o indivíduo também reafirma para si a identidade religiosa que lhe vem sendo atribuída desde a intervenção oral do locutor juntamente com a tomada cenográfica que torna visível a representação da leitura da bíblia. O verbo seguir acompanhado do demonstrativo isso em função de objeto direto da oração promove, em níveis diferentes, efeitos de sentido relativos à religiosidade: num primeiro nível, pode-se seguir a orientação contida na bíblia que se
acaba de ler: a orientação sobre a realização das atribuições terrenas; num segundo
nível, seguir isso também leva aos efeitos de sentido ligados a seguir os preceitos da
Bíblia, seguir os preceitos de Deus – o que promove sua identidade enquanto
pertencente ao rebanho de Deus, ao povo de Deus; ainda num terceiro nível, “eu sigo
isso”, aliado à imagem, que dá a ver um casal evangélico que acompanha a leitura da
bíblia97, também permite o deslizamento para “eu sigo essa religião”. José Serra é,
assim, um igual a seus eleitores, porque também é povo e também crê em Deus. Além disso, ele também seria evangélico.
Pode-se observar, nos programas da campanha de 2010, a emergência de uma espécie de dispositivo de arquivo (GUILHAUMOU e MALDIDIER, 1997) no que tange ao tema da fé observado desde os programas da campanha de 1989. Ainda que se observe uma descontinuidade do tratamento ao tema ao longo das campanhas, é possível acompanhar um movimento de intensificação no tema da fé – culminando na campanha de 2010 – que atinge o indivíduo político, o próprio candidato, proporcionando a construção de identidades que se estabelecem em duas vertentes: uma que atinge o candidato enquanto seguidor dos preceitos divinos e o coloca ao lado do eleitor, do cidadão comum, do povo; outra que alça o candidato à própria divinização e o coloca efetivamente, pela comparação, ao lado do corpo sagrado, ao lado de (um) Deus, fazendo deslizar os sentidos do paternalismo político ao paternalismo divino e, consequentemente, opacificando a visibilidade de uma fé na crença religiosa em favor de uma fé do tipo religiosa para com a imagem do corpo político e, no limite, para a intensificação de paradigmas de leitura que reforçam a atuação divina sobre a atuação
97 O espectador/eleitor compreende que se trata de pessoas evangélicas a partir de um conjunto de signos
consolidados no imaginário social: a ausência de imagens sacralizadas pelo catolicismo (os santos), a vestimenta dos indivíduos que aparecem junto ao candidato (os fieis evangélicos não são vistos, habitualmente, usando camisetas e/ou roupas com estampas), o cabelo comprido da mulher que acompanha o candidato na cena.
política, como, por exemplo, o de operar milagres (essa seria uma das possibilidades de interpretação do enunciado sobre a transposição do Rio São Francisco: a operação de um milagre para o povo nordestino). Assim, cria-se, pelo sincretismo do enunciado televisivo, uma imagem a ser vista, a se tornar visível, reforçando, assim, a relação entre a política e a religião que, historicamente posta, não cessa no período pós-ditadura e se intensifica no regime democrático (do início do século XXI) exercido na atualidade.