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Capítulo 3. HGPEs no Brasil: A fé, a esperança, a indignação e o medo pelas imagens

3.2. A Esperança

3.2.4. A feliz união televisão & política – 2002

3.2.4.1. Programa 5 – “Começa agora o programa Lula”

A campanha eleitoral de 2002 representa o início da estreita conjugação entre programas políticos e televisão. O auge do desenvolvimento da tecnologia de produção e transmissão audiovisual e a profissionalização da produção das campanhas televisivas

permitiram um casamento feliz entre a estrutura inerente da produção televisiva e a construção da propaganda política para o sistema audiovisual.

Essas condições técnicas e tecnológicas vão favorecer a inserção do HGPE como

programa genuinamente televisivo: o horário eleitoral entra na grade de programação

televisiva como sequência natural, ou seja, seu formato é muito mais parecido, agora, com o formato dos programas das redes de televisão do que se viu nas campanhas anteriores, devido à ampliação das técnicas de filmagem, cenografia e edição e o crescimento de profissionais ligados à área.

Sem interdição da Lei104, a propaganda eleitoral alcança um nível intenso de

espetacularização, utilizando efeitos visuais de última geração e trazendo à cena profissionais vindos das próprias emissoras de TV, como apresentadores reconhecidos, jornalistas, atores e artistas consagrados do público.

As condições de emergência do discurso durante a campanha de 2002 são favorecidas pelo momento político que o país vinha atravessando ao final do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso. A inflação começava a crescer novamente, acenando para uma possível falibilidade do Plano Real; o dólar estava em crescente alta; a renda do trabalhador diminuía e o desemprego alcançava quase 12% da população economicamente ativa. Além disso, a chamada “crise do apagão”, que desencadeou um racionamento de cerca de 20% do consumo de energia elétrica no país, também contribuiu para um clima de rejeição do governo em exercício, o que favorecia o imaginário social da mudança dos caminhos do Brasil e, assim, favorecia também o discurso de oposição.

104 A legislação que proibia o uso de imagens externas é substituída pela legislação de 1997, a qual

Figura 21 - Programa Lula 20 agosto 2002. Tempo: 00:00:01 – 00:00:58

Locutor: Atenção, Brasil! Começa agora o programa Lula Presidente. Lula: Boa noite, Brasil. Começa agora o nosso primeiro programa do Horário Eleitoral. E eu faço questão, antes de qualquer coisa, de agradecer à minha equipe que, durante praticamente todo esse ano, esteve ao meu lado dias inteiros, às vezes, noites inteiras, dando, cada um, o melhor de si, para que pudéssemos ter hoje nas mãos um programa de governo à altura do Brasil que todos nós queremos construir.

A cenografia é construída de modo semelhante à dos telejornais então em transmissão: à época, era recorrente o cenário que deixava ver a redação do jornal televisivo, como símbolo do trabalho com a notícia, símbolo de trabalho de equipe. Na cenografia do programa de Lula, é possível observar o lugar de trabalho da equipe, a grandiosidade da equipe e a importância da equipe: dentre os membros que aparecem na

cenografia, destacam-se sujeitos políticos já reconhecidos socialmente, como José Genoíno, então candidato a governador do Estado de São Paulo; Eduardo Suplicy, senador; Aloízio Mercadante, candidato a senador; José Dirceu, então candidato a deputado federal; José Alencar, candidato à vice-presidência. Em meio a rostos conhecidos, rostos figurativos. A técnica do elenco de figuração, própria das telenovelas, se aplica à produção do programa político televisivo.

O movimento da câmera alcança a mesa onde estão instalados Aloísio Mercadante, José Alencar e José Dirceu e começa a se aproximar, quando o locutor convida o telespectador a fixar-se na tela (“Atenção, Brasil!”) e anuncia o início do programa a partir de uma enunciação performativa (“Começa agora...”). Nesse momento, o corpo de Lula preenche a tela e se instala entre José Alencar e Aloízio Mercadante, lugar que ocupa o centro do primeiro plano, portanto, o foco da cenografia televisiva.

Ao ocupar o foco do primeiro plano, o corpo de Lula guia o olhar espectador para o tema principal da cenografia: o corpo do sujeito político. Instalado nesse lugar de observação principal do espectador, Lula profere o verbo: “Boa noite, Brasil. Começa agora o nosso primeiro programa do Horário Eleitoral.”. Transferindo a performatividade da enunciação para si, Lula incorpora a posição do apresentador do

programa, figura central das demais produções televisivas do gênero. Incorporando a

figura do apresentador, o corpo do candidato aciona a memória social ligada à figura do apresentador dos programas de entretenimento, que conduz o programa que apresenta e é responsável por ele, a ponto de ter seu nome como título do próprio programa que conduz (como Domingão do Faustão, Programa do Gugu, Xou da Xuxa, etc.). Assim como nos programas do gênero, o programa do candidato também leva seu nome: “programa Lula Presidente”.

Incorporando a liderança do programa, Lula dá a ver a figura do líder. Líder do programa, líder da equipe, líder do país. Nesse deslizamento entre lideranças, Lula alicerça sua persona sobre a base do administrador competente: ele dá a ver a capacidade de liderar um programa e toda uma equipe (que já se mostra numerosa na introdução do programa), o que faz deslizar os efeitos de sentido para a liderança do país. Tais efeitos de liderança são passíveis de suscitar, para o momento histórico em questão, os efeitos da esperança: a esperança em um outro candidato considerado competente para mudar os rumos do país.

A partir de então, a sequência do enunciado televisivo vai reforçar, gradativamente, a figura do líder em potencial, do administrador do país. Após reforçar os efeitos de sentido de líder da equipe, agradecendo o árduo trabalho dos membros que a compõe, o sujeito-líder toma nas mãos uma encadernação que se assemelha, em tamanho, à um documento em folha ofício e profere o verbo: “...para que pudéssemos ter hoje nas mãos um programa de governo à altura do Brasil que todos nós queremos construir.” A harmonia entre imagem e verbo legitima tais efeitos de sentido: o dizer

verdadeiro do trabalho da equipe (a equipe estava realmente trabalhando) e o

alicerçamento de um projeto que está documentado, portanto, está oficializado, é real. Por fim, a graduação do líder atinge seu auge, quando todos os membros da equipe se põem de pé e aplaudem. O aplauso pode estar ligado a três elementos: o programa de governo que foi produzido, o Brasil novo que todos queremos e o presidente que escolhemos. Em todos os elementos, a liderança recai sobre o corpo do sujeito político que profere o verbo, instaurando, definitivamente, a persona que tomará lugar nas demais apresentações dos programas: o líder que sabe governar. Esse saber é o elemento que vai fazer surgir os efeitos de sentido ligados à esperança de um país melhor e visualizados pela imagem do corpo do homem político. A esperança, assim, se associa ao próprio indivíduo. Inserindo-se sob a forma do espetáculo televisivo, o programa dá a ver um candidato que se apresenta e se define, obedecendo a uma nova ordem do olhar que torna cada vez mais atrativo o espetáculo político na TV.

3.2.4.2. Programa 6 – “a vida dos brasileiros vai melhorar muito”