4. O Pânico na TV: enquadrado e enquadrante 91
4.3. As celebridades no Pânico na TV
4.3.1. Programa 1
O Programa 1 teve um total de 43 citações118 a celebridades. Percebemos ser possível dividir este número em quatro tipos de utilização:
Compondo o primeiro tipo de utilização percebido, celebridades foram acionadas para criar sugestão de similaridade na aparência entre pessoas interpeladas e as celebridades citadas por 12 vezes. Salvo uma exceção, este uso foi feito em tom depreciativo que aponta para dois lados: tanto para a pessoa interpelada quanto para a celebridade citada em tom jocoso. Ângela Rô Rô, por exemplo, foi citada para designar uma senhora acima do peso que estava em Ibiza. Ao ser abordada por Christian Pior, que repetia o seu bordão “Coragem!”, uma tarja apareceu na tela para dizer: “Ângela Rô Rô esparramada na praia. É carne que não acaba mais.”. O interessante é perceber que, nestes casos, nomes de celebridades não são apenas nomes próprios que as designam. Passam a designar características. São transformados, assim, em léxico corrente, em adjetivos, quase sempre usados para depreciar. Maria Bethânia, um outro exemplo, foi citada duas vezes (em duas edições diferentes) para “designar/adjetivar” duas mulheres distintas, que tinham em comum o cabelo longo, volumoso e anelado.
Como segundo tipo de utilização, e por nove vezes, celebridades foram citadas como sendo a temática de alguma atração119 . Como exemplo, podemos citar Luciano Huck que, com o episódio do roubo de seu Rolex, foi o tema do “Guevara News”, sem ter entrado em interação com personagens ou apresentadores do programa.
118 Este número diz do total de citações e não de quantas celebridades foram citadas. Algumas delas foram citadas mais de uma vez.
119 Não contabilizamos, nesta subcategoria, aquelas celebridades que foram conteúdo ou tema dos quadros que promoveram interação entre elas e os personagens/apresentadores do programa. Neste caso, elas entraram na categoria Celebridades em Interação.
Por seis vezes, celebridades foram citadas para promover, anunciar ou apresentar quadros e atrações do programa. Como exemplo deste terceiro uso, temos Débora Secho, Sabrina Sato e Joana Prado, citadas por Bola como as mulheres mais desejadas do Brasil e que já foram fotografadas por J.R. Duran, pretenso anfitrião do “Bola Visita” do Programa 1. Para este uso, percebemos uma regularidade de um tom elogioso, quase cínico. O que parece estar em jogo é a necessidade de engrandecer a vítima que o Pânico na TV promete ter como alvo.
O quarto tipo de utilização é, em parte, parecido com o que vimos acima. A diferença é que a citação do nome da celebridade não tem como objetivo promover um quadro ou atração, mas o programa como um todo. Por três vezes, foram citadas celebridades no sumário editado na tentativa de agregar determinados significados e valores à edição em questão. No Programa 1, fizeram uso dos nomes de Martin Luther King, Che Guevara e John Lennon, fazendo referência à idéia de revolucionários em quem os telespectadores deveriam se inspirar como preparação para o que iriam ver no Pânico do dia.
Os demais casos de celebridades citadas (13) dizem respeito a usos diversos. Entre outros, em piadinhas tolas: como Camila Pitanga, Carlos Manga e Marília Pera, citados por Insônia Abrão ao informar que teriam sido atacados por um maníaco que queria apenas fazer uma salada de frutas. Ou mesmo para enquadrar determinada situação: quando, por exemplo, o rosto de Dedé Santana entra na tela ao término da piada acima, tendo como fundo musical o tema da A Praça é Nossa. O que traz a idéia de “a mesma praça, o mesmo banco”, o mesmo ultrapassado humorista, a mesma fórmula de piada.
A primeira edição analisada foi a que teve o maior número de celebridades em interação (32). Percebemos que todas estas se encontram no quarto bloco do programa, aquele que concentra as principais atrações do dia. Para as celebridades em interação, não tivemos como criar regularidades, pois as interações são muito diversas. No entanto, pudemos perceber que, das 32 celebridades que entraram em interação com integrantes do
Pânico, 28 são celebridades por terem suas atividades diretamente vinculadas à televisão: são atores, apresentadores ou telejornalistas. Não que as outras quatro não circulem pelo universo midiático, e pelo televisivo mais particularmente, mas suas atividades, as que os tornaram conhecidos (e, portanto, conteúdo para a mídia) são de outra natureza – ainda que ganhem na TV sua visibilidade. Nesta edição tivemos um esportista (Fernando Meligeni), um cantor (ex-integrante do grupo BROZ), uma performer (a drag-queen Salete Campari)
e uma celebridade “carnavalesca” (Nana Gouveia). Além disso, pudemos perceber que das 28 celebridades televisivas, 20 são da Rede Globo, o alvo preferido do programa. A própria diversidade de celebridades em interação – mesmo as 20 da Globo não podem ser reunidas em um grupo homogêneo, tivemos desde Suzana Vieira, atriz de mais longevidade na fama, a Marjore Estiano, debutante como protagonista de novela – nos apontou interações muito diversas. No entanto, a utilização desta categoria nos ajudou a localizar as interações distintas mais emblemáticas – nesta e nas outras edições analisadas – que serão levadas à análise de enquadramento.
A categoria das celebridades como campo semântico recortou 23 falas do Programa 1. Percebemos que tais falas, por certas regularidades que apresentam, podem ser reagrupadas em quatro usos principais. Nesta edição, o campo semântico em questão foi acionado 12 vezes como temática de abordagem a populares, pessoas comuns ou aspirantes a celebridade. Estas 12 vezes se deram em um quadro apenas, o “Vesgo e Sílvio”, e em interações com apenas uma pessoa: Dona Matilde. Um exemplo é a pergunta que Vesgo faz a ela: “Você é famosa?”, que teve como resposta: “Não sou famosa mas eu vou ficar”. Este quadro, por conjugar grande número de celebridades em interação e o “caso” de Dona Matilde, foi selecionado para a etapa seguinte de nossa metodologia.
Dos outros usos do campo semântico de celebridades que encontramos, um se parece, em sua finalidade, com os usos que o programa faz de celebridades citadas para promover, anunciar ou apresentar suas atrações e quadros. No Programa 1, tivemos cinco desta utilizações. Um exemplo bastante ilustrativo é a expressão “nata da Rede Glóbulo” encontrada na locução do sumário editado para anunciar o quadro “Vesgo e Sílvio”. Mais uma vez, e através de um recurso discursivo mais geral (não focado em uma celebridade, mas na idéia de celebridade), vimos a necessidade que o programa tem de engrandecer aquilo que promete “aterrorizar”.
Outra utilização, aparentemente oposta à que vimos acima, foi acionada três vezes no Programa 1. Trata-se de usar o campo semântico de celebridades para desmerecer a festa ou evento em que se encontram as celebridades. Como exemplo, temos a fala de Vinelson Rubens referindo-se à tentativa de entrevistá-lo por parte de repórteres de outros programas que cobriam a mesma festa:
Quando começa faltar artista, eles vêm entrevistar a gente do Pânico? (...) O que falta de famoso não faz, né gente?
Em um movimento de auto-depreciação (que mostra que os integrantes do Pânico
não querem receber o status de famosos) e de depreciação dos famosos presentes – e, portanto, do evento em questão –, vemos uma estratégia de complementação ao enaltecimento anterior. Dessa forma, e sem grandes riscos ou esforços – já que não estão em interação direta com nenhuma celebridade –, o programa parece querer demonstrar que está cumprindo a promessa de subjugar os famosos ao papel de vítimas.
O último dos usos recorrentes ao campo semântico de celebridades que encontramos nesta edição diz respeito à valorização deste status na tentativa de promover um produto ou uma marca em algum merchandising. Utilizado por duas vezes, podemos citar como exemplo a fala de Emílio “Você pode ficar famoso!” expressa como atrativo para que os espectadores criem conteúdos para o TIM Studio.
No total, entre citadas, em interação e como campo semântico, o Programa 1 apresentou 98 celebridades. Dentre estas, os que mais apareceram foram Luciano Huck, Che Guevara e Alemão (ex-BBB): duas vezes cada um.