Eixo 4: Legislação Propostas
3.2 Saúde mental e trabalho nas agendas do Ministério do Trabalho e Emprego e da Presidência da República
3.2.2 Programa Brasil Próximo/Presidência da República
O Programa Brasil Próximo é um Acordo de Cooperação feito entre o Brasil e cinco regiões italianas, com o objetivo de apoiar e desenvolver ações em diferentes partes do Brasil, a partir de quatro frentes: desenvolvimento local, economia da cultura, políticas sociais e cooperativismo. O eixo cooperativismo é composto por diferentes grupos de trabalho interministeriais, com a participação de algumas entidades da sociedade civil, para discussão e elaboração de planos de ação para os distintos ramos do cooperativismo.
O tema da saúde mental e das cooperativas sociais tonou-se pauta do Programa em 2005. A SENAES compunha o grupo de ministérios e entidades da sociedade civil que participavam do acordo discutindo o tema do cooperativismo e do comércio justo. Nessa época o GT Saúde Mental e Economia Solidária estava reunido e selava a parceria da SENAES com a ATSMAD/MS. Cientes do interesse e da relação estreita da saúde mental com o tema das cooperativas sociais e com a experiência italiana nessa área, a SENAES
85 Participaram do PlanSeQ Ecosol 2008 a Rede de Economia Solidária em Minas Gerais, Rede CONCRAB
de Assentamentos, Rede Abelha, União de Cooperativas de Agricultura Familiar e Economia Solidária, Rede Fruticultura – Sabor Natural do Sertão, Rede Cooesperança, Rede Arte Sudeste, Rede Solidária da Pesca, Rede de Comércio Justo e Solidário. Foram qualificados 5.765 trabalhadores/as de EES e educadores/as (MTE/SENAES, 2010:142). O relatório final da entidade responsável pelo acompanhamento e sistematização das informações sobre o convênio não oferece dados específicos sobre os trabalhadores que são usuários da rede de saúde mental.
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convidou a ATSMAD/MS a participar das reuniões do acordo e propor a inserção do tema na agenda da cooperação.
Devido às experiências significativas desenvolvidas na Itália no campo do Cooperativismo Social, à similaridade entre as legislações dos dois países e o interesse crescente pelo tema no Brasil, foi formado um grupo de trabalho específico sobre Cooperativismo Social no âmbito do Acordo de Cooperação, coordenado pela ATSMAD/MS em parceria com a SENAES e a coordenação do programa. Além da saúde mental e da economia solidária, o grupo reuniu representantes dos Ministérios da Fazenda, do Desenvolvimento Agrário, Justiça, Direitos Humanos e, da sociedade civil, a UNISOL Brasil. Ao longo dessa parceria a saúde mental e a economia solidária sustentaram o tema dentro do acordo, com contribuições pontuais e inconstantes dos outros setores.
Em junho de 2006 foi realizado o primeiro seminário do Acordo sobre cooperativismo, precedido por uma cerimônia que oficializou a cooperação entre os
governos brasileiro e de cinco regiões da Itália87. O seminário teve como objetivo conhecer
os modelos, a legislação e a forma de organização dos sistemas cooperativos brasileiros e italianos, bem como discutir e apresentar propostas de cooperação entre os dois países neste campo específico (BRASIL/PR, 2006:1).
O debate específico sobre cooperativismo social foi realizado na mesa
cooperativismo, desenvolvimento e inclusão, que reuniu o então deputado Paulo Delgado, autor da lei 9867/1999, que institui as cooperativas sociais no Brasil; Pedro Gabriel Delgado, coordenador da ATSMAD/MS, e Teresa Monnerat, uma das fundadoras da Cooperativa Social da Praia Vermelha, do Rio de Janeiro – RJ. Compuseram a mesa dois palestrantes italianos Simone Mattioli, representante da Liga de Cooperativas Italianas –
Legacoop e Roberto Cavallini, representante de uma cooperativa de consumo. A mesa foi coordenada por Alexandre Navarro Garcia, à época secretário de ciência e tecnologia para inclusão social do Ministério de Ciência e Tecnologia. Os brasileiros apresentaram o cenário nacional, os entraves da lei brasileira, o diálogo com a experiência italiana da
87 O encontro foi realizado pela Presidência da República do Brasil em conjunto com as regiões italianas e
em parceria com os Ministérios do Planejamento, da Fazenda, do Desenvolvimento Agrário, da Agricultura, do Trabalho e Emprego, da Ciência e Tecnologia, da Indústria e Comércio, da Saúde, do Desenvolvimento Social, das Relações Exteriores, da Caixa Econômica Federal, do Banco do Brasil, com a Organização das Cooperativas do Brasil, com a CONCRAB, com a UNICAFES, com a UNISOL e com a Universidade Federal do Paraná.
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província de Trieste, e os italianos apresentaram as tipologias das cooperativas sociais na Itália e a função social dessas cooperativas.
Após as mesas os participantes do seminário se organizaram em grupos de trabalho temáticos para trocas de experiências e informações sobre o cooperativismo social no Brasil e na Itália. Os principais pontos debatidos pelo grupo sobre inclusão social foram: 1) as diferenças operacionais das cooperativas de tipo A e de tipo B definidas pela legislação italiana; 2) financiamento das cooperativas e a responsabilidade do Estado nesse processo; 3) a questão da incapacidade para o trabalho atrelada à saúde mental amparada pelo código civil brasileiro e a ausência de um marco jurídico específico para os grupos formados pelos usuários de saúde mental nos serviços, 4) necessidade de apoio do Estado desde a formação até a sustentabilidade dos grupos e a possibilidade de criar um consórcio de cooperativas sociais para facilitar a comercialização dos produtos; 5) a questão da tributação e isenção de impostos a cooperativas sociais, a existência de organizações que representam as cooperativas sociais na Itália como, por exemplo, a Legacoop Sociale; e 6) o número mínimo para formação de uma cooperativa que na Itália é de 3 pessoas e, no Brasil, de 20 pessoas (HARDER & SILVA, 2006).
Após esse evento, as reuniões da comissão de cooperativismo social foram retomadas em abril de 2007, com a participação do Ministério do Desenvolvimento Social, Ministério da Saúde, Ministério do Trabalho e Emprego, Presidência da República e
Unisol Brasil. Nesta ocasião a Unisol88 apresentou a proposta de realizar um seminário em
parceria com a Legacoop. Representantes da Presidência da República e da SENAES ofereceram apoio ao evento. O seminário Economia Solidária e cooperativas sociais:
inclusão, ressocialização e trabalho digno, ocorreu em julho de 2007, na cidade de Santo André-SP, e reuniu iniciativas de diferentes partes dos país com o objetivo de debater o tema do Cooperativismo Social a luz de experiências italianas.
O evento teve peso político no campo da economia solidária, com a participação de políticos ligados ao Partido dos Trabalhadores, base política da Unisol BRASIL. A partir deste evento, a Unisol passou a investir de forma mais sistemática no ramo do cooperativismo social, arregimentando pessoas ligadas ao partido para defesa de suas
88 A Unisol era representada no Acordo de Cooperação com a Itália por Nilson Tadashi, que mais tarde
assume a gestão da política de economia solidária no município de São Bernardo do Campo-SP, apoiando inciativas da saúde mental.
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pautas políticas a partir desta nova agenda, conquistando espaços, inclusive, dentro do campo da saúde mental. Além de Luis Dulce, então ministro chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República; e Luiz Marinho, então Ministro da Previdência Social; o evento contou com as presenças de Paulo Vannuchi, à época Secretário Especial de Direitos Humanos; Paul Singer, Secretário Nacional de Economia Solidária, e Pedro Gabriel Delgado, então coordenador da ATSMAD/MS, todos ligados ao Partido dos Trabalhadores. O evento teve pouca repercussão no campo da saúde mental.
Como marco conceitual para definir cooperativa social, a Unisol utilizou como referência o modelo e a legislação italianos, “empreendimentos que têm como objetivo principal a melhoria da vida das pessoas em dificuldades permanentes ou temporárias” (UNISOL BRASIL, 2007a:3). E acrescentou que:
As cooperativas sociais devem suprir as necessidades temporárias ou permanentes de: 1) Pessoas carentes; 2) Jovens; 3) Idosos; 4) Pessoas excluídas socialmente, entre as quais: usuários de drogas; com dificuldades psicológicas; pessoas com dificuldades de (re)inserção social (ex-detentos); portadores de necessidades especiais (op cit).
O conceito de cooperativa social proposto pela Unisol agregou ao público alvo definido pela lei brasileira o segmento “pessoas carentes”, interpretado aqui como pessoas em situação de pobreza. A Unisol vem defendendo desde este encontro a inclusão de catadores de materiais recicláveis como segmento do cooperativismo social, o que vem gerado protestos de alguns setores da saúde mental.
Entre os objetivos das cooperativas sociais, a Unisol elencou neste evento: perseguir bens gerais para a comunidade, por meio da promoção humana e da integração social dos cidadãos; gerenciar serviços sociais, de saúde e educacionais; atuar em diferentes atividades - entre as quais: agricultura, industrial, comercial ou serviços – gerando trabalho como meio de inclusão e ressocialização das pessoas em desvantagens temporárias ou permanentes; garantir os direitos de todo ser humano, a começar pela qualidade do cuidado pelo estado; e responder às necessidades sociais, complementarmente à atuação do estado, de maneira qualificada por meio de profissionais capacitados para tanto (op cit).
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O seminário trouxe contribuições importantes aos debates sobre o marco jurídico do cooperativismo social. O documento final do evento, elaborado pelo assessor jurídico da Unisol, Marcelo Mauad, recomendou a elaboração de um novo projeto de lei e enumerou uma série de pontos que precisariam ser revistos ou incluídos em uma nova lei (UNISOL BRASIL, 2007b). As contribuições da Unisol foram incorporadas ao documento base da Conferência Temática de Cooperativismo Social, realizada em 2010, com objetivo
de subsidiar as resoluções deste encontro89.
No ano seguinte, em setembro de 2008, conforme agenda do acordo de cooperação, foi realizada uma oficina preparatória para a missão brasileira à Itália. A oficina contou com representantes do governo e da sociedade civil organizada e teve como resultado a elaboração de um conjunto de recomendações e questões para a delegação brasileira, que serviram como guia para a missão à Itália. As questões abordavam temas desde a relação do Estado com as cooperativas sociais (ações de apoio, fomento, marco jurídico, políticas públicas, avaliação e monitoramento); passando por questões relativas à gestão das cooperativas sociais (relação com o mercado, sustentabilidade, aspectos tributários e trabalhistas, apoio técnico, remuneração dos sócios, etc.); até informações sobre o perfil do quadro de associados (benefícios sociais, grupos mistos, questões específicas sobre pessoas em restrição de liberdade, etc.).
A missão ocorreu entre os dias 27 outubro e 1 novembro de 2008, visando reunir informações que subsidiassem as ações do governo brasileiro no campo do cooperativismo social, a partir do contato com diferentes formas de atuação do cooperativismo social italiano. A delegação brasileira contou com a participação de representantes da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República - SEDH/PR, da Secretaria Nacional de Economia Solidária do Ministério do Trabalho e Emprego, do Ministério da Justiça – MJ, do Ministério da Fazenda – MF, do Ministério da Saúde – MS e da Presidência da República - PR. Representando a sociedade civil organizada, compuseram a delegação membros do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, da Associação dos Amigos da Colônia Juliano Moreira, da UNISOL/BRASIL e da Universidade de Brasília – UnB. A Secretaria-Geral e a Chefia de Gabinete da Presidência
89 Para uma discussão aprofundada sobre o marco jurídico do cooperativismo social brasileiro e italiano ver
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da República coordenaram a missão90. Apesar da ATSMAD/MS estar à frente do processo
de mobilização dos debates acerca do tema do cooperativismo social, junto ao Acordo, desde 2005, o Ministério da Saúde não autorizou a participação de membros da assessoria técnica da área, justificando que nenhum deles era servidor público federal, a decisão final foi a indicação de um representante do departamento a que a área estava vinculada.
A missão compreendeu visitas a experiências de cooperativismo social nas províncias italianas de Pesaro, Bologna e Trieste. Além de reuniões com agentes governamentais e entidades da sociedade da civil atuantes neste campo. Como resultado foi delineado um conjunto de propostas a serem desenvolvidas em parceria com as regiões italianas por meio do acordo de cooperação. Segundo relatório final da delegação brasileira, as propostas foram as seguintes: 1) realização de oficina para socialização das informações coletadas durante a missão, bem como para discussão de uma proposta de cooperativismo social conforme as especificidades da realidade brasileira; 2) constituição de um Grupo de Trabalho Interministerial com o objetivo de propor ações para o desenvolvimento e apoio às cooperativas sociais; 3) elaboração de proposta de reformulação do marco jurídico sobre cooperativas sociais; 4) desenvolvimento e apoio na elaboração de material técnico e de divulgação sobre o cooperativismo social; 5) realização de ações de capacitação e formação no tema cooperativismo social; 6) fomento de intercâmbios entre brasileiros e italianos para troca de experiências no campo do cooperativismo social; 7) apoio na formação de brasileiros em cursos oferecidos por instituições italianas no campo do cooperativismo social (BRASIL/PR, 2009:22).
A série de propostas elencada acima permaneceu sem resposta efetiva até meados de 2010, quando, a partir das reuniões da comissão de cooperativismo social, foi criada a proposta de um programa interministerial para apoio ao cooperativismo social - PRONACOOP SOCIAL.