POLÍTICAS PÚBLICAS DE SAÚDE MENTAL
1.2 O campo da saúde mental
1.2.1 Tendências dentro do Movimento Antimanicomial
A polarização do Movimento Antimanicomial em dois ramos principais tem se traduzido em ações e posicionamentos políticos muitas vezes conflitantes. A partir de 2001, quando ocorreu o último evento unificado do Movimento Antimanicomial, os dois ramos, Movimento Nacional da Luta Antimanicomial e Rede Nacional Internúcleos de Luta Antimanicomial, começaram delinear formas de organização, dinâmicas internas e pautas reivindicatórias próprias. Além de disputas pela condução da política nacional. O MNLA e a RENILA possuem diferenças tanto organizacionais, quanto no que diz respeito
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à sustentação política e financeira. O perfil dos militantes também é diferente o que influencia os processos de participação e integração de usuários e familiares em cada um dos ramos (VASCONCELOS, 2004; 2007;2012).
O MNLA tem suas origens no Movimento de Trabalhadores da Saúde Mental que, em 1987, em Bauru-SP, inaugurou uma nova etapa do movimento agregando usuários e familiares e mobilizando militantes em todo território nacional. A partir daí vários núcleos do movimento foram sendo mobilizados em torno da luta pela substituição do modelo manicomial de assistência à pessoa com transtorno mental. O texto da Carta de Baurú, que se tornou um manifesto nacional pelo fim dos manicômios, traz em seu conteúdo um discurso marcado pelo grupo que o profere: os trabalhadores. Esta carta não apresenta princípios ou forma de organização do movimento, apenas anuncia um novo momento da mobilização dos trabalhadores da saúde mental, agregando a sua luta outros movimentos e agentes sociais.
Carta de Baurú
Um desafio radicalmente novo se coloca agora para o Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental. Ao ocuparmos as ruas de Bauru, na primeira manifestação pública organizada no Brasil pela extinção dos manicômios, os 350 trabalhadores de saúde mental presentes ao II Congresso Nacional dão um passo adiante na história do Movimento, marcando um novo momento na luta contra a exclusão e a discriminação.
Nossa atitude marca uma ruptura. Ao recusarmos o papel de agente da exclusão e da violência institucionalizadas, que desrespeitam os mínimos direitos da pessoa humana, inauguramos um novo compromisso. Temos claro que não basta racionalizar e modernizar os serviços nos quais trabalhamos.
O Estado que gerencia tais serviços é o mesmo que impõe e sustenta os mecanismos de exploração e de produção social da loucura e da violência. O compromisso estabelecido pela luta antimanicomial impõe uma aliança com o movimento popular e a classe trabalhadora organizada.
O manicômio é expressão de uma estrutura, presente nos diversos mecanismos de opressão desse tipo de sociedade. A opressão nas fábricas, nas instituições de adolescentes, nos cárceres, a discriminação contra negros, homossexuais, índios, mulheres. Lutar pelos direitos de cidadania dos doentes mentais significa incorporar-se à luta de todos os trabalhadores por seus direitos mínimos à saúde, justiça e melhores condições de vida.
Organizado em vários estados, o Movimento caminha agora para uma articulação nacional. Tal articulação buscará dar conta da Organização dos Trabalhadores em Saúde Mental, aliados efetiva e sistematicamente ao movimento popular e sindical.
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Contra a mercantilização da doença; contra uma reforma sanitária privatizante e autoritária; por uma reforma sanitária democrática e popular; pela reforma agrária e urbana; pela organização livre e independente dos trabalhadores; pelo direito à sindicalização dos serviços públicos; pelo Dia Nacional de Luta Antimanicomial em 1988!
Por uma sociedade sem manicômios! (Carta de Baurú, Baurú-SP, 1987)
Após o evento em Baúru, o MNLA organizou uma série de encontros nacionais, alternando entre encontros que reuniam trabalhadores, usuários e familiares e encontros de usuários e familiares. Dois encontros nacionais de usuários e familiares precederam o I Encontro Nacional da Luta Antimanicomial. O primeiro aconteceu em 1991, na cidade de São Paulo, no ano seguinte aconteceu o segundo encontro, sediado no Rio de Janeiro. O terceiro encontro de usuários e familiares, realizado em Santos-SP, aconteceu em 1993, logo após o I Encontro Nacional da Luta Antimanicomial, ocorrido em Salvador. No terceiro encontro de usuários e familiares foi escrita a Carta de Direitos e Deveres dos Usuários e Familiares dos Serviços de Saúde Mental. A carta, na primeira pessoa, declara desde o princípio quem são seus autores. Os usuários iniciam o documento informando ao leitor o porquê do termo usuário, situando de quem parte o discurso e quais são suas reivindicações.
Utilizamos a expressão “usuário”, assim como se utiliza a expressão “técnicos”, para designar situações específicas. Na verdade nós, usuários entre aspas, somos pessoas, seres humanos totais integrais, acima das condições circunstanciais dos Serviços de Saúde Mental. Entretanto, as pessoas neste movimento não se chamam uns aos outros de usuários, mas companheiros, participantes e amigos.
Queremos ser autores do nosso próprio destino. Desejamos a verdadeira integração na sociedade.
Direitos sociais (Carta de Direitos dos Usuários e Familiares dos Serviços e Saúde Mental. Santos, 1993:1)
Sobre os familiares, a carta apresenta apenas seus deveres, que são “[...] cuidar do seu parente enfermo e prestar-lhe toda a assistência necessária” e “[...] colaborar com o serviço que presta atendimento a seu parente” (Carta de Direitos dos Usuários e Familiares dos Serviços e Saúde Mental. Santos, 1993:3).
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Até a formação da RENILA, em 2004, o MNLA realizou mais três encontros nacionais da Luta Antimanicomial e mais dois encontros nacionais de usuários e familiares. Segundo o documento de criação da RENILA, denominado “Manifesto pela Luta Antimanicomial: em boa companhia”, foi no IV Encontro Nacional de Usuários e Familiares em Goiânia, no ano 2000, e no V Encontro Nacional do Movimento da Luta Antimanicomial, em Miguel Pereira, no ano de 2001, onde se acirraram as incompatibilidades entre grupos dentro do Movimento. Em 2002, na Plenária Nacional do MNLA, em São Paulo, a separação foi definida e, a partir daí, um grupo dissidente começou a se organizar no que seria hoje a Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial.
Atualmente o MNLA organiza-se em núcleos ou fóruns autônomos, com representação em todos os estados brasileiros, não havendo escala hierárquica entre eles. Há ainda uma Secretaria Nacional Colegiada responsável pela articulação nacional do
movimento e por projetos desenvolvidos pelo MNLA13. O movimento não conta com
financiamento ou apoio econômico de entidades de classe, os próprios militantes são responsáveis por garantir fundos para realização dos eventos e outras atividades do MNLA. Esse é um ponto complexo já que, por um lado, justifica o posicionamento do MNLA de buscar formas de organização mais autônomas e menos verticalizadas, por outro lado, torna o cotidiano e a manutenção organizacional do movimento difíceis. Por isso, a comunicação e a disseminação de informações são extremamente frágeis, ficando a mercê do voluntarismo e da militância (VASCONCELOS, 2012:62). Alguns dos militantes mobilizam articulações importantes para o movimento no meio acadêmico, mas com baixa capacidade de envolver usuários e familiares que, em sua maioria, possuem pouca escolaridade e baixa renda.
Em texto recente, Vasconcelos avalia os impasses políticos atuais do movimento e lista uma série de questões importantes para sua perenidade, que vão desde sua organização interna, suas relações tanto internas quanto externas, até a elaboração de estratégias políticas de luta. Nesse artigo, o militante do MNLA admite que se a
13 Fonte: http://movimentonacionaldelutaantimanicomial.blogspot.com.br/2011/11/blog-em-
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organização permanecer desarticulada internamente e enfraquecida externamente acabará fragmentada e dispersa em suas ações políticas (op cit, 2012).
Em contrapartida, a RENILA tem uma articulação estreita com o Conselho Federal de Psicologia e suas sedes regionais, possui apoio financeiro e político dessa entidade e, desde 2011, compõem a base política da coordenação ATSMAD do Ministério da Saúde.
Segundo integrantes da RENILA seu desligamento do MNLA se justifica pela impossibilidade de sustentar o diálogo dentro do movimento, em sua carta de princípios a Rede colocou:
nossos fóruns nacionais passaram a reproduzir a mesma violência que sempre combatemos nas instituições manicomiais. No VI Encontro de Usuários e Familiares, em Goiânia, 2000, e no V Encontro Nacional do Movimento da Luta Antimanicomial, em Miguel Pereira, 2001, tal violência manifestou-se de forma intolerável, impossibilitando a abordagem das divergências, o enfrentamento dos impasses e a tomada das decisões. Nossa participação na plenária nacional de São Paulo, em 2002, representou a última de numerosas e infrutíferas tentativas para colocar em pauta estes problemas e procurar saná-los. Desde então, afastamo-nos de um espaço organizativo que já rompera há muito com os princípios libertários e democráticos de sua origem, partindo para a constituição da Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial (RENILA, 2003).
Desde então, a RENILA tem se organizado em núcleos regionais, perfazendo um total de 19 núcleos em 12 estados brasileiros. A Rede é coordenada por um colegiado composto por dois representantes de cada estado, escolhidos entre os núcleos de seus estados de origem. O colegiado é eleito a cada encontro nacional, previsto para ocorrer a cada dois anos. A adesão à RENILA é feita por pedido endereçado à rede nacional, onde o solicitante deverá declarar estar de acordo com os princípios da carta de fundação da RENILA e apresentar sua organização local caracterizando-a como núcleo da luta antimanicomial. A vinculação individual à Rede é feita através dos núcleos, que muitas
vezes se confundem com associações e outros tipos de organizações de atuação regional14.
14 Informações retiradas do sítio eletrônico da RENILA, que está vinculado ao Observatório de Direitos
Humanos do Conselho Federal de Psicologia. Disponível em: http://osm.org.br/osm/sobre/, acesso em: 20.09.2013 as 13hrs:40min.
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Os núcleos são as bases da Rede e tem autonomia para sua própria organização. A carta de princípios da RENILA define os núcleos como
[...] organizações autônomas e militantes de portadores de transtorno mental, seus familiares, trabalhadores de Saúde Mental, etc, que empreendam efetivamente, a nível local ou estadual, as ações e os enfrentamentos exigidos pela construção de uma sociedade sem manicômios (RENILA, 2003).
Enquanto pauta política os dois ramos do Movimento Antimanicomial compartilham os ideais da reforma psiquiátrica pelo fim dos manicômios. A forma de organização, as alianças e meios de prover e tornar concreto esse ideal é que divergem na prática. Com a dissidência da RENILA do MNLA, as disputas em torno da Coordenação Nacional de Saúde Mental do Ministério da Saúde se acirraram, com conflitos entre lideranças dos ramos do movimento e, em algumas ocasiões, entre lideranças de um mesmo ramo. Apesar da unidade no ideal da reforma psiquiátrica, a existência de duas tendências dominantes no Movimento Antimanicomial acaba por se manifestar no desenho e na condução da Política Nacional de Saúde Mental.
Não é possível desprezar o fato de que as gestões dos governos, principalmente federal, são influenciadas pela filiação a determinado grupo político, consequentemente a um dos ramos do Movimento Antimanicomial. Atualmente, ano de 2014, a gestão da ATSMAD/MS é coordenada por um grupo de São Paulo que possui uma relação estreita com lideranças do Fórum Mineiro de Saúde Mental, vinculado à RENILA, que fazia oposição à gestão anterior. Este exemplo mostra que o fato de um militante estar no governo não necessariamente o desvincula de suas bases de origem, na medida em que são as articulações entre movimento social e poder público que sustentam esse lugar institucional. Há também aqueles casos em que a opção política é por uma pessoa estritamente técnica e não por um militante, o que não tem sido comum nos últimos 20 anos na gestão da Política Nacional de Saúde Mental brasileira, conforme mostra o quadro a seguir.
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Quadro 3. Coordenadores e vice-coordenadores da ATSMAD/MS.
Ano Coordenadores/vice-coordenadores Naturalidade Formação 1991 Domingos Sávio de Oliveira
Eliane Seidel Rio de Janeiro-RJ psiquiatra, carreira do Ministério da funcionário de Saúde, militante do movimento antimanicomial, fundador do Instituto Franco Basaglia. 1993/
1994 Eliane Seidel Brasília-DF psicóloga, professora da UnB. 1995 Alfredo Schetmann Rio de Janeiro-RJ psiquiatra, funcionário de
carreira do Ministério da Saúde.
1998 Ana Pitta
Alfredo Schetmann Salvador-BA psiquiatra, UFBA, militante do movimento professora da antimanicomial e autora de livros importantes sobre temas relativos à saúde mental e à reforma psiquiátrica.
2000 Pedro Gabriel Godinho Delgado Alfredo Schetmann
Rio de Janeiro-RJ psiquiatra, ex-coordenador de saúde mental do Rio de Janeiro, professor do Instituto de Psiquiatria da UFRJ. Autor de livros importantes sobre temas relativos à saúde mental e à reforma psiquiátrica.
2011 Roberto Tycanori Fernanda Nicácio
São Paulo-SP psiquiatra, coordenador de saúde mental de Santos-SP durante o governo Davi Capistrano, professor da UNIFESP.
terapeuta ocupacional, professora da USP. Participou da reforma santista no mesmo período em que Tycanori foi coordenador.
Fonte: elaborado pela pesquisadora.
Entre os espaços consolidados institucionalmente para diálogo com o governo federal, os dois ramos do Movimento Antimanicomial participam da Comissão Intersetorial de Saúde Mental (CISM), que tem assento no Conselho Nacional de Saúde (CNS). Participam também de Grupos de Trabalho, comissões, reuniões, entre outros dispositivos criados pela ATSMAD/MS para diálogo sistemático com usuários, familiares e trabalhadores. Outro espaço de diálogo entre sociedade civil e poder público são as Conferências Nacionais e suas etapas preparatórias, onde as reivindicações dos movimentos sociais tornam-se diretrizes para a construção de políticas públicas.
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