2.2 PROGRAMAS BRASILEIROS DE FOMENTO AO ARTESANATO
2.2.3 PROGRAMA CAIXA DE APOIO AO ARTESANATO BRASILEIRO
A Caixa Econômica Federal, criada em 1861, é o maior banco público da America latina e o principal agente de políticas públicas do governo federal. É responsável pela coleta e gestão de dados contáveis e gerenciais de todos os órgãos da Federação. Dentro desse contexto, a gestão da Caixa e seus programas estão alinhados com gestão do Governo Federal
Segundo Sílvia França, consultora regional de Comunicação e Marketing da Caixa Econômica Federal, a Caixa Cultural é a estrutura de marketing paralela à área de negócios e logística da Caixa Econômica Federal, e corresponde à Diretoria de Marketing ligada diretamente à Presidência e às regionais de Comunicação e Marketing, responsável pelas ações de patrocínios, eventos e assessoria de imprensa do banco.
Figura 6 - Caixa Cultural
Fonte:
http://www.caixacultural.com.br/html/main.ht ml
Acesso em 23/03/2012
A Caixa Cultural é dividida em três braços principais: o marketing esportivo, de patrocínio e cultural e possui grandes complexos culturais, compostos por galerias, teatros, áreas de exposição e salas de memória, em seis capitais brasileiras: Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Recife e Salvador.
A Caixa Cultural apoia diversos setores culturais como teatro, artes plásticas, fotografia, dança, música e artesanato, através de Programas de Patrocínios, por exemplo, o Programa Caixa de Apoio ao Patrimônio Cultural Brasileiro e Gente Arteira. Como o principal agente de políticas públicas do Governo, sendo Política o conjunto de orientações das ações relativas a
50 um determinado tema, uma das orientações atuais para os Programas da Caixa é estimular seus patrocínios, como diz Sílvia França:
“a CAIXA sempre teve essa área cultural e a gente sempre patrocinou tudo que foi possível dentro das leis de incentivo a cultura, tanto pela lei ROUANET quanto as leis municipais. A gente tem uma orientação, e essa rede na qual eu sou a representante aqui da região norte do Paraná, é que faz essa ativação – vamos colocar assim – dos patrocínios dentro das leis municipais de incentiva a cultura. Esse seria o papel, a estrutura da área cultural dessa empresa. Uma das coisas que a gente tem, a CAIXA tem muito incentivo na área de patrocínios, (...) E aí sim, a gente segue uma diretriz. A CAIXA é uma empresa pública, portanto, do governo. A gente segue as políticas públicas. Os nossos patrocínios, os nossos incentivos são dentro da política do governo, seja esse governo qual for.”
O alinhamento de Política (amplo) e Programas (setorial) também fica claro em outra fala de Sílvia França, em entrevista:
“O ultimo Governo Lula, você tinha um direcionamento pra gerar o microcrédito e gerar a inclusão bancária. O que a CAIXA faz? Os nossos projetos, mesmo os culturais, tem uma orientação pra estar gerando a inclusão bancária. A própria escolha do artesanato foi, claro, uma experiência que deu certo, digo, patrocínios locais de artesanato. Aí se criou o edital nacional, porque a gente viu que era uma linha que você tava estimulando o microcrédito. Você tava estimulando a produção o desenvolvimento das pessoas, né? De quem antes não tinha uma oportunidade. A gente tem... pra você ter ideia, nós fizemos até um outro patrocínio, até regional, aqui, pessoal da economia solidária, de estimular, através do patrocínio, a geração de empregos. E o artesanato é também... Só que, geralmente, as pessoas só empregam a si, elas não empregam outras pessoas, mas
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aí, dentro da economia solidária, se formavam grupos, criavam empresas, microempresas, e geravam emprego. Então, isso tá dentro da diretriz que a empresa adota na área de marketing. Não é específica do cultural. O cultural faz parte de uma estratégia maior de marketing, que tá sempre aliada ao que determina o Governo Federal.”
O Programa de apoio ao Artesanato da Caixa Cultural foi criado em 2003, como o nome Artesanato Brasil com Design, e tinha a finalidade de promover a interação entre artesanato e design, aprimorando a atividade artesanal das comunidades beneficiadas ao agregar novos conceitos às peças produzidas. A finalidade das peças, segundo Tamie Takeda, era a utilização dessas como brindes artesanais em uma ação de relacionamento da CAIXA com clientes. Com o amadurecimento do Programa, a partir do lançamento do edital de 2008, para execução em 2009, o Programa passa a se chamar Apoio ao Artesanato Brasileiro com foco no desenvolvimento das comunidades artesãs e de sua sustentabilidade, na valorização do artesanato tradicional e da cultura brasileira, contemplando todo o processo produtivo, desde a aquisição da matéria-prima até a comercialização do produto, a partir do entendimento que essas questões não poderiam ser atendidas com o formato anterior de atuação. Em 2009, o Programa Caixa de Apoio ao Artesanato Brasileiro destinou R$ 550.000,00 a 16 comunidades em todas as regiões do país.
Os objetivos do Programa são: a) Fortalecimento do valor cultural agregado ao artesanato tradicional, desviando o foco do objeto à preparação das pessoas; b) Promoção da autoestima do artesão; c) Compromisso com a sustentabilidade dos artesãos, avaliando as propostas de acordo com a demanda apresentada pela própria comunidade.
Os critérios atuais são: a) Caráter tradicional do artesanato; b) Características socioeconômicas das comunidades artesãs a serem beneficiadas; c)Sustentabilidade do projeto apresentado; d) Criatividade das soluções propostas para a melhoria da produção das comunidades artesãs. E ainda, segundo o web-site da Caixa Cultural: Manejo sustentável da matéria-prima para a produção artesanal e a adequação das unidades produtivas aos princípios de Economia solidária, Comércio justo, a qualidade artística.
52 2.3 O DESIGN NOS PROGRAMAS DE APOIO AO ARTESANATO NO BRASIL
“Para o designer permanece a lição de como tudo que se projeta também reflete um projeto de sociedade e de como é importante, portanto, manter sempre uma consciência clara do tipo de sociedade que se deseja projetar.” Rafael Cardoso
As fontes de informação do PAB não citam o Design especificamente, mas tratam da possibilidade de intervenção de áreas do conhecimento na produção artesanal com a finalidade de melhorias, por exemplo, ampliar canais de comercialização, e capacitação de artesãos para o mercado competitivo. Essas informações são muito amplas, e, nessa pesquisa, não foi possível encontrar informações mais específicas sobre a orientação acerca de intervenções no Programa.
Adélia Borges relata que, em entrevista por email concedida por Sérgio Nunes de Souza, diretor do Departamento de micro, Pequenas e Médias Empresas do MINC, “revela números irrisórios.”. E cita como exemplos: “Em 2010 foram realizadas atividades de capacitação em nove estados, para cerca de 250 artesãos e apoiado sete feiras ou eventos para comercialização do produto artesanal, nos quais os artesãos comercializaram 201.317 peças, que resultaram num faturamento de R$ 4 milhões”. E ainda, apenas 60 mil artesãos cadastrados no Sistema de Informações Cadastrais do Artesanato Brasileiro, visto que, em estimativa do IBGE, acredita-se que existam 8,5 milhões de artesãos no país, deste, 85% são mulheres.
Já o Termo SEBRAE possui um capítulo dedicado à orientação para Intervenção, até porque mais que um Programa, o SEBRAE também é executor de projetos. Para o SEBRAE, “a lógica de intervenção dos projetos começa e termina no mercado e pressupõe a realização de um conjunto de atividades sequenciais cuja responsabilidade pela execução requer a colaboração de toda a infraestrutura de apoio ao artesanato.”. Segundo o gráfico seguinte, partindo do Mercado e finalizando na Produção, em sentido horário:
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Gráfico 1
Partindo do Mercado para a Produção e retornando ao Mercado
Fonte: Termo de Referência Atuação do Sistema SEBRAE no Artesanato
Todas as etapas descritas no gráfico, são também etapas de um Projeto, ou seja, de uma atividade projetual, que o Design pode atuar em todas elas.
A etapa de Identificação da Demanda abrange pesquisas de mercado, do público (motivações e hábitos de compras, fidelidade a produtos e serviços, nível de gasto, grau de satisfação, entre outros.), da concorrência e uma análise dos produtos mais consumidos, e as limitações encontradas. A orientação do SEBRAE também sugere um olhar prospectivo com estudo de tendências.
A Identificação e Análise da Oferta implicam conhecer os artesãos e seus produtos, sua capacidade produtiva, os diferenciais dos produtos, etc. Essa orientação de atuação dos agentes do SEBRAE visa conhecer a produção artesanal local, identificar a possibilidade de organizações cooperadas e de organização de uma rede de comércio local. Assim como a Análise da Concorrência pretende conhecer produções artesanais em um contexto amplo como, por exemplo, o artesanato latino-americano ou as reproduções industriais de produtos artesanais, até as tipologias do artesanato local.
É na Etapa de Melhoria e Desenvolvimento de Novos Produtos que encontramos a sugestão de colaboração de designers para desenvolver um produto novo, ou atualiza um existente. O
54 Termo ainda diz que: “Conhecido o perfil do público-alvo, a partir da análise da demanda, será possível desenvolver e oferecer um produto coerente com as expectativas de seus consumidores.” O que está em consonância com a ideia de que o processo de intervenção deve partir do mercado, mesmo com a observação que é feita em seguida: “Criar novas linhas de produtos, com uma estética mais despojada e depurada, dirigida ao mercado consumidor de maior poder aquisitivo, pode ser, em algumas situações, uma alternativa para valorizar os produtos e aumentar sua produção, porém sem perder de vista a iconografia, o simbólico e o estético que caracterizam sua cultura de origem.”.
Assim, para o SEBRAE, o desenvolvimento de novos produtos e embalagens não só é uma possibilidade para a atuação do design, mas é uma orientação de intervenção dos projetos a serem executados.
A quinta etapa refere-se à Melhoria e Desenvolvimento de Processos, com a finalidade de tornar a produção mais ágil e competitiva, e pode se dar na substituição ou beneficiamento da matéria-prima, troca de instrumento de trabalho, uso de novas ferramentas, mudança na técnica, na forma, da aparência ou da função, e ainda, no modo de apresentar comercialmente.
Para o SEBRAE, o argumento de que mudanças nos processos e produtos são modos de descaracterizar o trabalho ou afastá-lo de sua pureza original é fruto de uma preocupação ingênua com a cultura popular, defendendo que o artesanato deve ser adequado às mudanças tecnológicas e que não é possível preservar os artesãos das influências do mercado e do meio cultural em contínua mudança. E a necessidade de adotar ferramentas inovadoras se justifica pela exigência do mercado consumidor.
Uma dessas ferramentas é o design, visto como “uma forma efetiva de agregar valor aos produtos e serviços das micro e pequenas empresas.”, e ainda, a indicação geográfica, que, segundo o Termo, tem papel importante em função da tradicionalidade da produção.
A indicação geográfica e seus selos de certificação são as orientações do SEBRAE para a etapa de Agregação de Valor. Na etapa Capacitação, o termo indica que são oferecidos cursos e treinamentos aos artesãos e aos técnicos que atuarão no processo de intervenção com a justificativa que “qualquer mudança em um modo de produção implica uma mudança comportamental daqueles envolvidos nesse processo.”. Também enfatiza que generalizar metodologias e conteúdos pode ser arriscado se estas metodologias foram geradas entre outros contextos socioculturais diferentes daqueles onde serão aplicados.
55 Como orientação da etapa Promoção Mercadológica, o termo faz diferenciação entre as estratégias pela conceituação que utiliza, separando as Produções por tipologia, como na tabela seguinte:
PRODUÇÃO ESTRATÉGIA DE PROMOÇÃO
Arte Popular Valorização da Personalidade
Artesanato Indígena Não se recomenda interferência nos
processos ou produtos, considera que o artesanato indígena dispõe de seus próprios canais de comercialização. O apoio deve estar focado na garantia dos direitos e preservação da cultura.
Artesanato Tradicional Evidenciar sua história, usar selos de certificação de origem e apresentação em catálogos.
Artesanato de Referência Cultural Incremento na diversidade de produtos, consultorias em design para desenvolvimento de coleções, intervenções em processos e produtos.
Artesanato Conceitual Produtos inovadores em pequenas séries, geralmente comercializados em lojas especializadas.
Trabalhos Manuais Agregar valor cultural, organizar formalmente, e estimular participação coletiva em feiras e exposições.
Tabela 2
Concluindo, a etapa da Comercialização, considerada pelo SEBRAE o maior desafio para o artesanato. A finalidade do direcionamento é promover acesso direto ao consumidor final, eliminando o atravessador, gerando maior renda para o artesão e permitindo contato direto que proporciona troca de informações importantes para adaptação dos produtos aos clientes. Outro direcionamento estratégico de comercialização do SEBRAE é promover redes de comercialização organizadas localmente entre os artesãos, criando estruturas de distribuição em atacado.
56 Fica claro, a partir da leitura do Termo SEBRAE, que a orientação do órgão para a produção artesanal é adequar às demandas do mercado, e, Segundo Adélia Borges esse é um “objetivo largo que pode propiciar equívocos.”. Também podemos perceber que o gráfico apresentado pelo SEBRAE para direcionar as intervenções parte e finda no mercado, característica da visão empreendedora que pretende ser estimulada nos artesãos. Esse mesmo gráfico poderia partir e findar da produção, o que permitiria outra leitura, que prioriza o artesão e a preservação de sua cultura e seus hábitos de vida.
Para a Caixa Cultural, a intervenção do design não pode comprometer o valor cultural agregado ao artesanato tradicional em favor de uma estética dominante, das tendências de mercado e da indústria cultural. No que se refere ao design, esse pode contribuir para o aprimoramento do artesanato no que se refere ao seu aspecto funcional, por exemplo, a resistência do material.
O Programa Artesanato Brasil com Design tinha o foco na peça, produto final do artesanato e de seus contextos de criação, e os artesãos eram selecionados para participar do programa por um grupo de especialistas do campo do design, que avaliavam as condições dos produtos e suas adequações aos seus padrões estéticos. Segundo Tamie Takeda: “A intervenção do design era conceitual, não apenas funcional. A preocupação da Caixa com a autoestima do artesão passou pelo entendimento de que a intervenção conceitual do design sobre as peças artesanais reforçava implicitamente o discurso de outra estética, deixando a entender que o artesanato teria seu valor a partir do momento em que fosse “adequado” aos padrões de “bom gosto”.”.
O Programa Artesanato Brasil com Design se preocupava com o escoamento da produção artesanal, adquirindo peças de comunidades artesãs em grande escala, e em promover oficinas de aprimoramento de técnicas de produção. Segundo a avaliação da Caixa, verificou- se que muitas não souberam aplicar os recursos obtidos com a venda das peças e multiplicar os frutos do benefício recebido. Esse resultado justificou a mudança no foco do novo Programa Apoio ao Artesanato Brasileiro, buscando criar condições para que o artesão encontre suas próprias necessidades a serem atendidas, assim, com a aproximação da comunidade. A expectativa atual da Caixa é que o Design proporcione melhor qualidade ao produto final, segundo Sílvia França. Ou seja, que as peças sejam entregues em conformidade com o produto piloto apresentado na inscrição do edital.
O Programa tem o objetivo de que os grupos alcancem autogestão apresentando suas próprias demandas, porém, é importante perceber que um edital anual sem premissa de continuidade
57 desconsidera o ritmo de mudanças na produção artesanal. O estágio de autogestão é muito difícil de atingir, como cita Ana Andrade, que por exemplo, o grupo produtivo que alcançou um estágio satisfatório, que ela poderia chamar de autogestão, foi formado pelo projeto e tem acompanhamento do projeto O Imaginário por nove anos.
Segundo Adélia Borges: “os técnicos de programas de financiamento e fomento, em geral querem, num prazo o mais curto possível, resultados os mais significativos possíveis.” E esse é o ponto crucial entre esses gestores e os designers, para os quais, ainda segundo Adélia, o prazo mínimo para se obter um bom resultado é um ano. Dois ou três ainda seria um prazo mais adequado.
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