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Metodologia Geral

RESULTADOS/ TECELAGEM

para costura, acabamento e seleção.

- escolher o barbante, tecelagem na sede e em casa.

- tudo na medida certa; -tingimento.

-procurar elementos para tintura, tingir, desenrolar o barbante, tecelagem.

- tecelagem na sede e em casa.

RESULTADOS/ ORGANIZAÇÃO

- não percebe diferença. -não vê muita diferença, apenas que foi mais corrido para cumprir o prazo.

RESULTADOS/ TECELAGEM

-melhorou devido a prática.

-cuidado no acabamento para ser selecionado.

- pegou mais habilidade;

-aprendeu novidade.

- diz que brigou muito por ter que padronizar, mas aprendeu muito.

-melhorou porque tinha que seguir medidas; -usa fita métrica em tudo o que faz agora.

-aprendeu a ter mais cuidado; -mais responsabilidade pelo produto que será comprado por alguém.

-foi bom, mas ainda pode ser melhor.

REFLEXOS ATUAIS - a tecelagem melhorou bastante. - o tingimento ainda é muito usado;

-o uso das fibras.

-uso do bambu e do tingimento natural. QUANTIDADE PRODUZIDA / RESULTADO FINANCEIRO Produziu 13 jogos / R$ 260,00 Produziu 10 jogos / R$ 200,00

Produziu 08 jogos / R$160,00 Produziu 18 jogos + costura / R$ 458,00 Produziu 05 jogos / R$ 100,00

Produziu 05 jogos / R$ 100,00

O QUE É DESIGN -não sabe -é coisa de moda, mas não

sabe ao certo.

- alguém que faz projeto, desenha e ajuda o outro a produzir.

- novas idéias;

-confere medidas, cuida da conformidade; -novas técnicas.

- o estilo de cada um. - é o modelo, cores, materiais.

DESIGN NO PROJETO -não sabe - não sabe - em todas as artesãs, que planejam

e fazem.

-não sabe. -cada um tem um designer

dentro de si.

-no trabalho das artesãs.

OBSERVAÇÕES -atualmente, é multiplicadora na escola. -quando tinha um designer, dava

opinião, mudava o trabalho.

-diz que, atualmente, vive para o teares.

-em 2009 começou a dar aulas para crianças e também ficou responsável pelo atendimento na loja da sede.

-se capacitou em costura para o projeto da CAIXA, e também começou espontaneamente a desenvolver desenhos com bambu nos jogos, para diferenciar.

86 TABELA 4 – ENTREVISTAS COM A PRESIDENTE DA OSCIP E A MESTRE-ARTESÃ DO GRUPO

PRESIDENTE DA OSCIP LÍDER DAS ARTESÃS

PERCEPÇÃO DOS PROCESSOS - Dona Nilza (mestre-artesã), Lucyana (designer) e Maria amélia (coordenadora); as três trabalhando nas contas, estruturas e no tingimento.

-Todas as artesãs na produção das peças;

- Seu José desenvolvendo outras funções.

RESULTADOS - houve uma organização para realizar o projeto, com começo, meio e fim.

- “essa organização influenciou no que somos hoje, mas não é o que somos”

- O projeto alcançou seus objetivos;

- O edital valorizou as peças, reconheceu o trabalho.

- ajudou bastante financeiramente;

-a tecelagem melhorou bastante pelo desempenho das mulheres;

- o acabamento melhorou bastante;

- as artesãs se organizaram para trabalhar melhor;

-as fibras e os tingimentos melhoraram produtos.

REFLEXOS ATUAIS - O tingimento, cada vez experimentando mais plantas;

- Trouxe bastante aprendizado.

- O tingimento

O QUE É DESIGN - Escolha da forma;

-Pesquisa para realizar um produto final;

- Antenado no mercado.

- “explica o final das coisas”

-melhora o acabamento;

-O trabalho fica mais caprichado.

87 TABELA 5 – TABELA GERADA PELA COMPARAÇÃO ENTRE AS ENTREVISTAS REALIZADAS COM AS INTEGRANTES DO GRUPO TEARES ALEGRIA E REPRESENTANTES DA CAIXA ECONÔMICA FEDERAL

EDITAL CAIXA SILVIA FRANÇA TAMIE SILVA GRUPO TEARES ALEGRIA

OBJETIVO - Desenvolvimento de comunidades e sua sustentabilidade;

- Valorização do artesanato tradicional; - Contemplar todo o processo produtivo desde a produção à comercialização.

- Qualificar a produção;

- Facilitar o processo de comercialização; - Divulgar o grupo;

- Ampliar a capacidade produtiva; - Produto final de qualidade.

- Sustentabilidade do artesão (multiplicar frutos do benefício recebido);

- Fortalecimento e disseminação do artesanato; - Organização do grupo;

- Capacitação dos membros; - Fortalecimento da estrutura.

(avaliação dos objetivos atingidos)

- Valorizou a história do distrito e da tecelagem;

- Viabilizou realizar o tingimento natural e o uso do bambu; - Houve uma experiência de organização para realização do

projeto, mas ela não continuou após o fim do patrocínio; - Não gerou auto-sustentabilidade após o fim do patrocínio. CRITÉRIOS - Manejo sustentável da matéria-prima;

- Adequação aos princípios da Economia Solidária;

- Qualidade artística;

- Caráter tradicional do artesanato; - Impacto positivo na comunidade.

- Envolvimento da comunidade; - Qualidade do produto (bom brinde); - Não há critérios de distribuição geográfica; - Trabalho comunitário e autêntico.

- Valor cultural;

- Promoção da auto-estima do artesão; - Características sócio-economicas; - Criatividade nas soluções propostas.

CONTRAPARTIDA - A CAIXA receberá 10% da produção de um modelo;

- Todo material de divulgação deve conter as logos da CAIXA e do Governo Federal; - Direito de uso de imagem de interesse da CAIXA.

- É uma estratégia de Marketing da CAIXA; - O grupo já tinha a contrapartida social inerente;

- Os produtos que a CAIXA compra compõe brindes empresariais e são catalogados.

- O projeto manda algumas opções e a CAIXA escolhe 1 produto;

- Totalizaram 100 jogos, a última remessa (aproximadamente 30 jogos) foram entregues 100% em tingimento natural e fibra de bambu, alcançando o objetivo.

- 100 jogos não representam 10% da capacidade produtiva do grupo, mas houveram outros produtos na mesma época.

DESIGN - Espera do Designer que dê qualidade ao produto final;

- Aprimorar a técnica e propor o quê fazer com a técnica dentro do mercado;

- Abre novas leituras da técnica.

- Não pode comprometer o valor cultural em favor de uma estética dominante;

- Pode contribuir com o aprimoramento do material e da funcionalidade.

- Está no planejamento dos processos produtivos; - Pesquisa de tingimentos;

- Acabamento e qualidade; - Material gráfico e embalagem; - Controle da padronização.

CONTINUIDADE - Não existe orientação;

- Percebe que alguns grupos se repetem com novos produtos.

- Não existe premissa de continuidade; - Edital anual.

- A continuidade é uma dificuldade pois não há estabilidade em projetos de um ano, que não garantem estabilidade. - O projeto é definido como “um projeto com começo, meio

e fim” ACOMPANHAMENTO

DO PROJETO

- Conheceu bem o projeto; - Realizou entrevistas; - Seleciona o produto final;

- Percebeu uma grande evolução na padronização e no acabamento.

- Também grande evolução nos outros produtos do grupo.

- A CAIXA foi bem participativa;

-Apoio real em acompanhamento e disponibilidade.

OBSERVAÇÕES - O artesanato é também uma linha que estimula o

microcrédito (direcionamento do governo Lula.) - A maior necessidade do grupo era padronizar.

- O projeto pediu o teto (R$50 mil), a CAIXA ofereceu R$ 25 mil, então, o projeto reduziu o tempo pela metade, mas não alterou a contrapartida

88 4.2 SISTEMATIZAÇÃO DOS RESULTADOS DAS TABELAS

A partir da comparação entre as respostas do envolvidos no Estudo de Caso, podemos considerar alguns fatores de convergências e divergências. A finalidade de sistematizar esses resultados é simplificar a interpretação dos dados.

Assim, em tópicos, apresentamos a seguir os resultados:

· Em relação aos objetivos: O desenvolvimento e capacitação da produção foram alcançados, também houve aumento da renda gerada e valorização da cultura local. Porém, a situação atual do grupo demonstra que o objetivo de gerar sustentabilidade financeira e de organizar a comercialização do grupo não foram alcançados.

· Em relação aos critérios: todos os critérios são considerados compatíveis com o grupo contemplado.

· Em relação à contrapartida: A contrapartida foi atendida, considerando a flexibilidade do patrocinador, que aceitou algumas peças sem conformidade (fios industrializados);

· Em relação ao acompanhamento do grupo: A instituição patrocinadora e o grupo produtivo se mostraram satisfeitos com o acompanhamento e a relação estabelecida durante o projeto.

· Em relação à continuidade: A divergência está na necessidade de desenvolver estruturas mais sólidas e estabilidade, que contemple o objetivo de gerar sustentabilidade financeira, dificuldade apontada pelo grupo em projetos com “princípio, meio e fim”. Como o Programa não tem nenhuma premissa de continuidade, não existe nenhuma garantia de continuidade do patrocínio, caso essa necessidade seja diagnosticada.

· Em relação ao design: A tabela demonstra uma divergência dentro da própria instituição patrocinadora, quando, na primeira entrevista, defende a adaptação da técnica ao mercado, alterando o produto; e na segunda entrevista, fica claro que a alteração do produto “em favor de uma estética dominante” não é aceita; o design ainda tem participação fundamental no

89 planejamento das atividades, inovação nos processos e na questão da conformidade do produto (qualidade e acabamento).

A partir dos tópicos apresentados acima, podemos definir as questões principais de divergência, para, a partir delas, compreender quais são as principais divergências entre o designer e o grupo, e ainda, entre o grupo e o Programa financiador. São eles:

Os objetivos definidos pelo Programa, como a sustentabilidade financeira, que não foi alcançada na fase posterior ao projeto, visto que o próprio agente financiador é também o único comprador da produção. Durante o decorrer do Projeto não houve a abertura de outros canais de comercialização que teriam a possibilidade de continuidade após o tempo de execução do Projeto, porque a Caixa era a única compradora da produção de jogos americanos.

Em relação ao Design, podemos perceber que o entendimento do grupo está ligado ao senso comum de que o design trabalha com a forma. Embora pareça satisfatório pelo grupo, não há uma compreensão geral da atuação do design, como podemos perceber no quadro abaixo. Muito da relação bem sucedida entre designer e grupo vem da empatia entre eles, fator possível somente com o tempo e possibilitado pelo acompanhamento prévio ao Projeto.

Percepção do design pelos envolvidos

“um profissional de design, eu acho que é alguém, justamente, que busca essa harmonia com a forma que se cria alguma coisa de uso pessoal, ou de utilitário. Então, ele vai buscar a forma o formato, vai buscar a textura, a cor. E também vai estar sempre antenado e ligado ao que está acontecendo agora, nesse sentido do mercado, do mercado em geral, do comércio, interno, externo, no exterior...” Maria Amélia A. Melo.

“O que é design? Mais ou menos... eu imagino que é uma pessoa que explica pra gente o final das coisas, o final de um trabalho pra ter um acabamento mais melhor... o acabamento melhor e também o trabalho, né? Porque fica bem mais caprichado com uma designer por perto.” D. Nilza.

“Design pra mim, na minha concepção, é alguém que faz um projeto, desenha e ajuda outra pessoa a produzir, na minha concepção, no meu entendimento...Ah... acho que somos todas nós, porque a gente não tem mais um designer profissional, então a gente tem que fazer, a gente planeja o que quer fazer, e a gente mesmo pega e faz.” Claudinéia.

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“É um modelo que a gente trabalha? As cores, os materiais? Pode ser?” Irene.

Ainda acerca da questão do design, as representações do Programa apresentam divergências a respeito da atuação do designer, que, para a representante local, pode representar uma adequação da técnica no produto e, para a representante nacional, não deve alterar a forma em favor de uma estética dominante.

Talvez o ponto mais crucial entre o grupo e o Programa seja a questão do tempo de execução do Projeto. Com a alteração do valor de patrocínio, houve a alteração do tempo de execução, que passou de um ano para seis meses. Se dois ou três anos são visto como um tempo de duração mais adequado para que o trabalho apresente bons resultados, fica claro que, para o grupo, o Projeto é visto como um investimento pontual, que possibilita a concretização de inovações, porém não gera estruturas mais sólidas, que possibilitariam o objetivo de autogestão. Assim, a continuidade do trabalho, que é apontado como principal fator de fortalecimento do grupo, não é considerado pelo Programa, que informou que não existe premissa de continuidade do Projeto após um ano, que é a duração possível do apoio financeiro.

91 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O trajeto desse trabalho tem como ponto de partida o estudo da Cultura Brasileira, o caminho do nosso artesanato e a formação do design brasileiro. Acredito que o maior fator de convergência desses três temas está na diversidade brasileira e no processo de aceitação dessa mesma diversidade como nossa maior riqueza.

A marginalização do artesanato, considerado rústico e sem sofisticação, está ligada ao pensamento do design racionalista implantado no início da formação e ensino do design no país, que buscava formas limpas e priorizava a função do artefato. Nesse contexto, o design brasileiro trabalhava com referências externas, com nítida dificuldade em encontrar uma identidade própria.

No momento em que alguns designers brasileiros voltaram seu olhar ao Artesanato, a princípio, na expectativa de aí encontrar essa identidade ou mesmo enquanto área de atuação inicia um processo de aproximação entre eles. Assim, o artesanato ganha espaço no mercado e nas escolhas dos consumidores em lojas de decoração, desfiles de moda e galerias das grandes cidades. Enfim, ocorre uma resignificação do artesanato enquanto produto, como explica Rafael Cardoso: “O olhar é também sujeito a transformações no tempo, e aquilo que depreendemos do objeto visto é necessariamente condicionado pelas premissas de quem enxerga e de como se dá a situação do ato de ver.”.

Essa mudança na percepção do produto artesanal não reflete necessariamente o processo sofrido dentro da produção e nos produtores, os próprios artesãos. Nesse processo, atualmente, podemos perceber alguns equívocos. Alguns deles refletem uma característica da cultura brasileira de sobrepor o conhecimento formal, ou erudito, da formação superior ao conhecimento popular, e o mesmo se repete na relação entre o Design e o Artesnato, sem respeito ao espaço do artesão que está sendo interferido pelo designer. Essa relação já foi vastamente criticada, mesmo assim, ainda está muito presente em algumas relações que se estabelecem nessa aproximação entre o Design o Artesanato.

É preciso conhecer e compreender os hábitos, as motivações e a rotina do artesão, ou melhor, das artesãs, porque fica claro o protagonismo da mulher no setor artesanal. E esse dado nos diz algumas coisas, como: se a maioria dos grupos produtivos do país está situada nas zonas rurais, são compostas por mulheres, geralmente, casadas e de baixa escolaridade, as atividades artesanais representam a renda complementar das famílias e são incorporadas às atividades domésticas dessas mulheres. Assim,

92 o tempo e o ritmo são questões importantes a serem consideradas ao elaborar um projeto de intervenção de design em uma produção artesanal.

Outra questão importante está na relação afetiva e pessoal do trabalho artesanal, e ela fica clara quando constatamos que ações pontuais não apresentam bons resultados, não só porque não alcançam mudanças de comportamento, também porque é necessário tempo para que se consiga uma relação de empatia entre designer e artesão, fundamental para intervir sem desrespeitar as particularidades de cada grupo, e para que não se reproduza a relação pretensiosa de subordinação do conhecimento popular ao conhecimento formal.

Como cita Adélia Borges, “vamos aprender com o erro, e o erro decorre basicamente de uma coisa: da falta de respeito. Quando a gente não respeita o artesão, estou convencida de que é melhor deixar quieto do que intervir sem cuidado, com pretensão. O potencial de periculosidade de uma intervenção mal feita é alto e seus efeitos são muito nocivos.”.

E, a partir dessa mesma lição de respeito, também devem ser pensados os Programas de Fomento à produção artesanal. Assim como foi dito pela representante do Programa da Caixa Econômica Federal que o Programa está em um processo de amadurecimento, assim todas as ações, Políticas, Programas e Projetos da área também estão, e por isso mesmo, devem refletir a respeito dos resultados que esperam dos grupos apoiados, de quê maneira e em quanto tempo. Refletir para que as Políticas sejam realmente orientadas para o bem da população e não para gerar números ou publicidade para os patrocinadores.

Os órgãos que desenvolvem as Diretrizes das Políticas Públicas do setor também deveriam conhecer a rotina e as motivações das artesãs, melhor ainda que fosse possível acompanhá-las presencialmente, para que as particularidades do trabalho artesanal também fossem consideradas, juntamente com os números de pesquisas qualitativas que servem de base para o desenvolvimento dessas diretrizes. O grupo Teares Alegria é um exemplo da dificuldade de se categorizar os tipos de produção artesanal. De acordo com a Tipologia desenvolvida pelo SEBRAE, o grupo não se encaixa na categoria Artesanato Tradicional, afinal tem apenas sete anos de produção, mesmo estando enraizado na cultural local, pois trabalha com crianças e adolescentes, e ainda, segundo Maria Amélia Melo, das aproximadamente 500 famílias da região, em pelo menos 300, uma pessoa é tecelã. Tão pouco pode ser chamado de Trabalho Manual, pois, mesmo utilizando fios industrializados em seus trabalhos, é inegável que o grupo é representativo de sua comunidade, utiliza recursos e signos locais.

93 A categoria Artesanato de Referência Cultural talvez seja a mais adequada, quando se pretende categorizar, visto que consiste em: “produtos cuja característica é a incorporação de elementos culturais tradicionais da região onde são produzidos. São, em geral, resultantes de uma intervenção planejada de artistas e designers, em parceria com os artesãos, com o objetivo de diversificar os produtos, porém preservando seus traços culturais mais representativos.”.

Ainda assim, segundo Maria Amélia Melo, o grupo é pioneiro com o trabalho de tecelagem na região, ou seja, a tecelagem não existia na região anteriormente, não tem origens culturais no local, fato claro em um município que tem apenas 77 anos de formação. Porém o grupo também não trabalha com série, cada peça é criação exclusiva de cada artesã.

A dificuldade em categorizar o grupo se deve à dificuldade ao tratar das manifestações culturais dinâmicas como algo estático, e categorizar tampouco é a intenção deste trabalho, a reflexão proposta é exatamente entender que cada caso é diferente, mesmo que pertencentes à mesma categoria.

O mesmo vale para a atuação do designer no grupo, visto que cada artesã tem total autonomia pela peça que desenvolve, a busca por padronização ou produção em série, mais que uma dificuldade, implica uma mudança no comportamento coletivo. E, nesse caso, quando o grupo participa de um Programa de orientações bem definidas nesse sentido, como o Programa da Caixa Econômica, a atuação do designer corresponde ao Enfoque Promotor da Inovação, citado por Gui Bonsiepe, que consiste em: “Advoga a autonomia dos artesãos para melhorar suas condições de subsistência, muitas vezes precárias. Nesse caso, a participação ativa dos produtores é requerida.”.

Finalmente, é interessante notar como a Intervenção de Design, ligada a Projetos patrocinados por Programas de execução das Políticas Públicas, está inevitavelmente ligada às diretrizes do Governo Federal da respectiva gestão, e assim, apoiada, porém limitada por elas.

Ana Andrade, coordenadora do Laboratório O Imaginário Pernambucano, deixa isso claro quando diz que a captação de recursos para a execução de seus projetos depende do que está sendo ofertado pelos agentes financiadores, e dos objetivos dos mesmos. Assim, os projetos são adaptados aos editais lançados.

Outro exemplo que pode limitar é a orientação da não pulverização de investimentos, e a priorização pelo investimento inicial em detrimento do investimento constante por um tempo maior que, em um projeto de design, poderia parecer mais coerente. Ou ainda a ideia de que uma grande encomenda

94 acompanhada por um patrocínio proporcione aumento da capacidade produtiva do grupo, desconsiderando a continuidade da produção e a viabilização de comercialização após o período de patrocínio.

Segundo Adélia Borges: “Vejo que o pressuposto básico dessa aproximação, dessa troca, deve ser o respeito pelo ritmo de trabalho do artesão, respeito por signos que resistem há tempos, respeito por todo sistema de símbolos que se encerra num objeto, pela boniteza torta dos objetos feitos a mão. Não vamos levar para o universo do feito a mão as condições do feito a máquina, perderia a graça e o encanto. Isso é bem importante.”.

É importante enfatizar que o trabalho junto aos grupos de produção artesanal não se trata apenas do produto ou dos processos, a principal mudança deve ser a do comportamento do artesão, e essa é uma mudança progressiva e demorada. Ana Andrade usa a expressão: “as pessoas precisam de tempo pra se apropriar dele (do novo comportamento), querer e acreditar, depois mudar de fato.” E ainda: “muitas vezes as pessoas que financiam querem aquele resultado imediato pra botar no outdoor… e na verdade não é bem assim, é um processo bem demorado, e essa é a maior dificuldade.”.

Minha avaliação do projeto, como designer participante, é positiva porque trouxe muitos benefícios para o grupo. Mas acredito que, com o fim do projeto que foi previsto para 1 ano e reduzido para seis meses, o grupo estava em um ritmo de produção que não correspondia mais à demanda. A renda gerada individualmente diminuiu muito, pois não havia mais a garantia da venda do que era produzido, e ainda, os profissionais envolvidos não tinham mais suas remunerações garantidas. É claro que o grupo se readaptou às novas condições, buscou novos patrocinadores e enfrentou muita dificuldade para se manter ativo até os dias de hoje, mas, em relação aos objetivos de gerar autogestão e viabilizar comercialização, acredito que o tempo não foi suficiente. Até porque, durante o processo, a Caixa foi praticamente o único cliente de jogos americanos do grupo. O edital fala que a Caixa receberá 10% da produção, mas, no caso do grupo, representou, praticamente, 100% da produção de jogos. Paralelamente aos jogos, a produção de outras peças continuou praticamente igual, mas a renda gerada aumentou muito com os jogos, fato que não teve continuidade após o projeto.

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Uma grande encomenda, em atacado, demanda adaptação dos processos e padronização dos produtos. Essas intervenções podem tanto criar uma dependência do interventor, uma vez que a produção