4 APRESENTAÇÃO DO CASO DE ANÁLISE
4.1 PROGRAMA DE MOBILIDADE INTERNACIONAL
4.1.1 Programa Ciência sem Fronteiras
O Programa Ciência sem Fronteiras buscou promover a consolidação, expansão e internacionalização da ciência e tecnologia, da inovação e da competitividade brasileira por meio do intercâmbio e da mobilidade internacional.
A iniciativa foi fruto de esforço conjunto do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e do Ministério da Educação (MEC), por meio de suas respectivas instituições de fomento – CNPq e CAPES – e Secretarias de Ensino Superior e de Ensino Tecnológico do MEC.
Foi criado pelo Decreto nº 7.642, de 13 de dezembro de 2011. O Programa Ciência sem Fronteiras teve por objetivo geral, nos termos do art. 1º do documento legal:
Art. 1º [...] propiciar a formação e capacitação de pessoas com elevada qualificação em universidades, instituições de educação profissional e tecnológica e centros de pesquisa estrangeiros de excelência, além de atrair para o Brasil jovens talentos e pesquisadores estrangeiros de elevada qualificação, em áreas de conhecimento definidas como prioritárias (BRASIL, 2011a, s/n).
No lançamento do Programa, em 13 de dezembro de 2011, a Presidenta da República, Dilma Rousseff, proferiu um discurso na cerimônia de regulamentação do Programa Ciência sem Fronteiras e de anúncio de chamadas públicas para bolsas de estudo no exterior, no qual esclarece que:
Apresentar à sociedade brasileira a proposta do Ciência sem Fronteiras, bolsas-sanduíche da graduação ou as bolsas-sanduíche da pós-graduação e cursos integrais de doutorado, bem como trazer para o Brasil pesquisadores seniores e pesquisadores jovens para contribuírem com a universidade brasileira. O decreto de regulamentação do Ciência sem Fronteiras, para monitoração, acompanhamento desse processo e a garantia de uma integração entre os diferentes agentes, permitindo suporte aos estudantes brasileiros no exterior. Os jovens brasileiros e brasileiras, progressivamente, tenham acesso à melhor educação disponível no mundo, não só neste programa, mas em todos os programas de educação e ciência e tecnologia do país. O governo é defensor de educação de qualidade, da creche à pós-graduação. A valorização dos professores e sabemos que o vínculo das universidades com qualquer instância de estudo e de educação no Brasil é a qualificação e a qualidade do professor (BRASIL, 2011c, s/n).
A proposta do programa era proporcionar 101 mil bolsas no período de 2010 a 2015 para promover intercâmbio, de forma que alunos de graduação e pós- graduação cursassem disciplinas para seu currículo acadêmico e fizessem estágio no exterior com a finalidade de manter contato com sistemas educacionais competitivos em relação à tecnologia e inovação.
Além disso, buscava atrair pesquisadores do exterior que quisessem se fixar no Brasil ou estabelecer parcerias com os pesquisadores brasileiros nas áreas prioritárias definidas no Programa, bem como criar oportunidade para que pesquisadores de empresas recebessem treinamento especializado no exterior (BRASIL, 2011a).
Para atender a seus objetivos, o Programa CsF concedeu bolsas de estudo em “instituições de excelência no exterior” nas seguintes modalidades: graduação sanduíche; educação profissional e tecnológica; doutorado sanduíche; doutorado pleno; e pós-doutorado.
Foram concedidas, ainda, bolsas no País para pesquisadores visitantes estrangeiros e para “jovens talentos6”. Os estudantes e pesquisadores do CsF tiveram o seu treinamento nas melhores instituições e grupos de pesquisa disponíveis, prioritariamente entre os mais conceituados para cada grande área do conhecimento de acordo com os principais rankings internacionais.
Os parceiros no exterior foram organizações tradicionais no campo de colocação e suporte de estudantes, ou mesmo consórcios das principais universidades locais, os quais eram responsáveis por definir, juntamente com a CAPES e o CNPq, os melhores cursos e instituições nos seus respectivos países. As instituições foram avaliadas a cada chamada e o destino dos bolsistas foi adequado à medida que era recebido o retorno do relatório dos bolsistas (BRASIL, 2011a).
Os estudantes participaram de um processo de seleção através do site do Programa Ciência sem Fronteiras e da Universidade, devendo ser vinculados a alguma Instituição de Ensino Superior e no curso que contemplasse as áreas prioritárias do Programa; ter a proficiência na língua exigida pelo país de destino; ter sido classificado com nota do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) com no mínimo 600 pontos considerando os testes aplicados a partir de 2009; se alunos de graduação, ter concluído no mínimo 20% e no máximo 90% do currículo previsto; e possuir bom desempenho acadêmico.
A comissão do Programa Ciência sem Fronteiras realizava a seleção dos estudantes contemplados, garantindo-lhes os seguintes itens: mensalidade de bolsa; auxílio-instalação; bilhete aéreo e seguro saúde. Esta bolsa era para o período de 12 meses, podendo estender-se até 18 meses quando estava incluso o curso de idiomas (DRI CAPES, 2015). Após selecionados, os estudantes comunicavam a sua Instituição de Ensino, a mesma fazia a conferência dos documentos e homologava
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Jovens Talentos são candidatos que devem cumprir com os seguintes requisitos: Demonstrar atuação altamente relevante em pesquisa nas áreas e temas definidos como prioritários no Programa Ciência sem Fronteiras; assumir o compromisso de desenvolver pesquisas ou tecnologias em instituições no País; apresentar proposta a ser desenvolvida pelo período de até 03 anos; possuir destacada produção cientifica ou tecnológica, qualitativa e quantitativamente. Fonte: http://www.cienciasemfronteiras.gov.br/web/csf/bolsa- jovens-talentos. Acesso: 03 abr. 2018.
sua candidatura. Posteriormente, a Instituição faria as orientações devidas para a mobilidade.
Para os pesquisadores, o programa teve como objetivo criar oportunidades de cooperação entre grupos de pesquisas brasileiros e estrangeiros de universidades, instituições de educação profissional e tecnológica e centros de pesquisa de reconhecimento padrão internacional. Tendo também o intuito de ampliar o desenvolvimento científico do Brasil, em pesquisas de relevância para o meio acadêmico, atraindo também incentivos e financiamentos para os Projetos (BRASIL, 2011a).
Na concessão das bolsas para os estudantes, foram contempladas originalmente as seguintes áreas:
Engenharias e demais áreas tecnológicas; Ciências Exatas e da Terra; Biologia, Ciências Biomédicas e da Saúde; Computação e Tecnologias da Informação; Tecnologia Aeroespacial; Fármacos; Produção Agrícola Sustentável; Petróleo, Gás e Carvão Mineral; Energias Renováveis; Tecnologia Mineral; Biotecnologia; Nanotecnologia e Novos Materiais; Tecnologias de Prevenção e Mitigação de Desastres Naturais; Biodiversidade e Bioprospecção; Ciências do Mar; Indústria Criativa (voltada a produtos e processos para desenvolvimento tecnológico e inovação); Novas Tecnologias de Engenharia Construtiva; Formação de Tecnólogos (BRASIL, 2015, s/n).
O custo médio das bolsas concedidas no âmbito do Programa Ciência sem Fronteiras variava de acordo com o país de destino do bolsista, levando em consideração a modalidade de bolsa, o período da concessão, área prioritária do curso, realização (ou não) de cursos de idiomas no exterior, o período acadêmico no qual o bolsista se encontrava, localização da cidade onde a instituição de ensino superior no exterior estava instalada, entre outros fatores (BRASIL, 2015).
De acordo com a Capes e o CNPq, foram concedidas, entre 2011 e 2014, 101.446 bolsas, conforme a evolução mostrada no quadro 5, com todas as modalidades do programa, como: graduação, pós-graduação, mestrado profissional, jovens talentos, pesquisadores visitantes.
Quadro 5 – Ciência sem Fronteiras Bolsas concedidas 2011 a 2014 Bolsas concedidas 2011 3.621 2012 16.420 2013 39.196 2014 42.209 Total 101.446 Fonte: CAPES e CNPq, (2016).
No quadro 5 percebemos que a cada ano o Programa Ciência sem Fronteiras propôs atingir uma parcela da demanda, até gerar o resultado de chegar ao ano de 2015 com 101 mil bolsas concedidas. No ano de 2013 e 2014 foram o período de mais frequência de bolsas contempladas, conforme aumento do interesse dos estudantes e pesquisadores.
Em relação às Universidades de Ensino Superior de Pernambuco que foram contempladas pelas bolsas de estudos, no período de 2011 a 2014, o quadro 6, explica como as Universidades se destacaram com as oportunidades dos estudantes de graduação e pós-graduação.
Figura 1 - Distribuição de Bolsas Implementadas por Instituição de Origem
Fonte: CAPES e CNPq, (2016).
Na figura 1, a Universidade Federal de Pernambuco se destacou entre as demais, pois teve maior número de estudantes contemplados no Programa CsF. Em seguida, a Universidade Federal Rural de Pernambuco e a Universidade de Pernambuco.
Em relação à participação ministerial na execução financeira do Programa Ciência sem Fronteiras, verificava-se uma maior participação, em termos financeiros, do Ministério de Educação (MEC).
O total gasto com o programa desde 2012 até o valor apurado em 3 de novembro de 2015 foi de cerca de R$ 10,5 bilhões. Desse total das despesas, o Ministério da Educação contribuiu com aproximadamente 66% e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, 34% (BRASIL, 2015, s/n).
De acordo com a Capes e o CNPq, os gastos com o CsF atingiram os valores informados no quadro 6. Atualizando os dados de custo total do Programa até 3 de novembro de 2015, foram apurados, conforme indicado, o montante de R$10.463,5 milhões, com a ressalva de que a variação em relação aos valores divulgados pelo Executivo se deve à impossibilidade técnica de precisar os valores de 2012.
Quadro 6 – Investimentos do CsF 2011-2015
Ano Dotação Final Empenhado
2011 R$ 43.159.816,91 R$ 107.755.813,50 2012 R$ 763.533.594,57 R$ 728.224.766,26 2013 R$ 2.028.510.646,00 R$ 2.100.712.032,83 2014 R$ 3.340.236.852,00 R$ 3.422.366.915,74 2015* R$ 4.158.396.415,00 R$ 3.595.758.651,96 Total R$ 10.333.837.324,48 R$ 9.954.818.180,29 *Dotação final e valores empenhados atualizados em 16 de outubro de 2015.
Fonte: CAPES e CNPq, (2016).
O investimento na educação foi importante para possibilitar aos estudantes de graduação e pós-graduação uma nova oportunidade de investir em sua capacitação acadêmica e profissional, possibilitando também melhores índices para o Brasil de pesquisas.
No entanto, a forma que envolveu a criação do Programa foi responsável por problemas em sua fase inicial de implementação, pelo menos em parte solucionados.
Com a criação do CsF, surgiram algumas dificuldades para compatibilizar os acordos existentes com a nova iniciativa. Foram reportadas, ainda, algumas dificuldades de comunicação das universidades, ou de parte delas, com as agências
financiadoras e as instituições estrangeiras. Não se trata de dificuldades de resolver problemas envolvendo os bolsistas no exterior, mas de participação no processo que levava ao fechamento de acordos (BRASIL, 2015).
O processo de seleção de alunos igualmente apresentou alguns problemas. Cabe ressaltar, porém, que nos parece adequado que se mantenha a prerrogativa das universidades de adotar processos próprios de seleção, fundamentados no mérito acadêmico, respeitados os critérios estabelecidos pela CAPES e pelo CNPq.
As Universidades que já mantinham iniciativas nessa área decerto mostraram-se mais preparadas para aplicar critérios próprios. Mas houve instituições que, pelo menos nas primeiras seleções, certamente em decorrência da repentina oferta de vagas, não foram exemplarmente criteriosas nesses processos.
Além disso, outro problema identificado no CsF, mais especificamente na forma como vinha sendo implantado, residia na barreira do idioma. As deficiências no domínio de línguas estrangeiras, particularmente do inglês, criaram dificuldades no processo de seleção e no aproveitamento dos estudos no exterior (BRASIL, 2015)
Portanto, diante deste desafio, o MEC criou, por meio da Portaria nº 973, de 14 de novembro de 2014, o Programa Inglês sem Fronteiras / Programa Idiomas sem Fronteiras (IsF). A sigla IsF indicava, inicialmente, o Programa Inglês sem Fronteiras (instituído em 2012), que depois passou a incorporar outros idiomas, tornando-se Idiomas sem Fronteiras e mantendo a mesma sigla. As principais ações do IsF consistem na oferta de cursos de idiomas presenciais em universidades federais, no acesso a curso de inglês e de francês on line auto instrucional (My English On line e Français sans Frontières) e na aplicação de testes de nivelamento e proficiência. A iniciativa foi bem-vinda, mas deveria ter sido criada algum tempo antes do lançamento do CsF (BRASIL, 2014).
A principal inovação do CsF consistiu em estender a internacionalização para o ensino de graduação. Anteriormente, essa ação praticamente se limitava à pós- graduação, estando, portanto, ligada mais à pesquisa do que ao ensino. Ainda que a pesquisa mereça prioridade, o ensino igualmente precisa do processo de internacionalização, como fonte de estímulo à circulação de novos conhecimentos e à adoção de novas metodologias e práticas educativas.
A manutenção de um programa de mobilidade internacional, de que o Brasil precisava ser acompanhada de investimentos, por fontes públicas e privadas, no desenvolvimento de projetos de pesquisa e nos laboratórios das universidades e demais instituições científicas nacionais.
Trata-se de medida fundamental para garantir que os ganhos de programa dessa natureza não fiquem restritos ao nível pessoal, mas que sejam compartilhados com outros estudantes e pesquisadores (BRASIL, 2015).
De fato, a internacionalização de universidades e o desenvolvimento de redes internacionais de pesquisa abriam novas possibilidades para carreiras internacionais e para a cooperação científica, o que não significava necessariamente a perda de recursos humanos de alta qualificação pelos países em desenvolvimento.
O Ministério da Educação (MEC) anunciou em abril de 2017 o fim do CsF, com os dados financeiros, abordando o valor total gasto neste projeto:
O Programa Ciência sem Fronteiras concedeu entre 2011 e 2016 a soma de cerca de R$10,5 bilhões ou para a concessão de 101.446 bolsas, o que perfaz uma média de R$103 mil por bolsista (BRASIL, 2015, s/n).
O valor de concedido por bolsistas era para suprir os custos com as mensalidades, moradia, passagem, dentre outros, pelo período de um ano. E em relação ao custo-benefício, o investimento em Ciência, Tecnologia e Inovação apesar de alguns equívocos tenham sido cometidos em sua implementação inicial, o Programa foi capaz de aumentar a visibilidade internacional da educação superior brasileira.
Ademais, lançou bases mais firmes para a inserção das universidades e outras instituições brasileiras em programas de cooperação internacional no campo da pesquisa científica.
Apesar das limitações do CsF em priorizar algumas áreas de atuação e tecnologia, a escolha desse programa, foi pelo aspecto global que o CsF se propôs a atingir, no sentido de agregar o ensino, pesquisa, cultura, o aprimoramento do idioma, além da internacionalização das instituições, tornando estudantes e docentes mais qualificados profissionalmente e academicamente.
4.2 ASPECTOS DA MOBILIDADE INTERNACIONAL NA VISÃO DOS