CAPÍTULO 1 – FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
1.3 A formulação de políticas públicas para a convivência com o Semiárido do Brasil
1.3.3 Programa de combate à desertificação e mitigação dos efeitos da Seca
O Programa de Ação Nacional de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (PAN-Brasil), é apresentado como instrumento norteador para a implementação de ações articuladas no controle e no combate à desertificação, bem como para a ampliação dos acordos sociais envolvendo os mais diversos segmentos da sociedade, em busca da
transformação da realidade das Áreas Susceptíveis à Desertificação (ASD), no âmbito das políticas de desenvolvimento sustentável (BRASIL, 2004, p.20).
O PAN-Brasil de Combate à desertificação, é o início da concretização do compromisso assumido pelo país diante das Nações Unidas em 1997. A sua elaboração foi concluída em 2004, após um ano de discussões em reuniões estaduais e nacionais entre os atores sociais envolvidos, os quais irão desempenhar papel central na sua implementação. O processo foi iniciado em 1977, na 1ª Conferência das Nações Unidas sobre a desertificação, em Nairobi, Quenia. O que após outros eventos internacionais, como a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Rio-92, converteu-se, em 1994, na primeira Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação – CCD – (MMA, 2006, p. 15).
Além das secas, as zonas áridas e semi-áridas do mundo caracterizam-se pela presença da desertificação, fenômeno natural cujas relações causais estão referidas ao clima e ao uso inadequado dos recursos naturais (...), solo, água e vegetação. Significa dizer que a semi-aridez, a desertificação e as secas constituem fenômenos naturais associados, cujos efeitos são potenciados pela ação do homem. A degradação ambiental nos espaços sujeitos à aridez e à semi-aridez alcança o seu limite com a desertificação. (BRASIL, 2004, p. 22)
Alexandre Araujo (2002, p. 11) esclarece que seca e desertificação são fenômenos distintos, mas relacionados. Para o autor, a desertificação é um círculo vicioso de degradação crescente, onde a ação de políticas inadequadas de uso dos recursos naturais tem agravado as carências naturais e humanas do semiárido. Segundo o PAN-Brasil, desertificação é a degradação da terra nas regiões áridas, semiáridas e subúmidas secas, resultante de vários fatores, entre elas as variações climáticas e atividades humanas. Por degradação da terra entende-se como redução ou perda da produtividade econômica ou biológica e da complexidade dos ecossistemas, causadas pela: erosão do solo, deterioração das propriedades do solo e perda da vegetação natural.
Entre as consequências da desertificação está a perda anual de 24 bilhões de toneladas da camada arável do solo, o que afeta negativamente a produção agrícola e o desenvolvimento sustentável das regiões impactadas (BRASIL, 2004, p. 23), ou seja, 33% da superfície da terra, onde vivem cerca de 42% da população mundial. Para Dirce Suertegaray (1996, p.251), o processo de desertificação mais abrangente poderá corresponder ao efeito conjunto da dinâmica climática ao longo do tempo histórico e dos processos e formas de trabalho da população da área e ainda da dinâmica climática atual. A autora caracteriza o
problema da desertificação no Brasil, apontando possibilidades de recuperação de áreas degradadas, desde que se faça o estudo aprofundado da biodiversidade articulado à sociedade da região. Ela aponta o reflorestamento com vegetação nativa como opção de recuperação da área, uma vez que a vegetação típica tem o poder de resiliência em seu habitat. Florestar com vegetação exótica exige ainda mais estudos. Suertegaray (1996, p.283) exemplifica o caso do Rio Grande do Sul que introduziu o eucalipto com fins industriais, fato que poderá provocar outros problemas ambientais, ao nível do solo, das bacias hidrográficas e da fauna.
Em 2003, Ana Santana analisou a legislação ambiental brasileira relativa às formações vegetais e aos recursos hídricos e sua relação com a proteção da cobertura vegetal do semiárido. O autor afirma que as políticas públicas implantadas no bioma Caatinga têm acelerado o processo de devastação da rica biodiversidade e da cultura local. Portanto, urge uma nova mudança de percepção quanto à proteção da Caatinga, pelos atores sociais, tanto políticos como jurídicos, para que a lei, mesmo com deficiências, possa proteger o bioma com eficácia. Souza (2003) escreve sobre os Projetos Públicos de Desenvolvimento no Semiárido Sergipano, os seus impactos ambientais, o controle e a efetividade desses projetos, tomando Poço Redondo como referência. Seu texto revela que o componente ambiental é apenas retórico para satisfazer às formalidades, uma vez que falta internalizarão desse conteúdo nos atores envolvidos (SOUZA, 2003, p. 140).
Melo (1999, p.15) alerta para os riscos ambientais que a população tem provocado com o uso indevido dos recursos naturais, o que aumenta a sua própria vulnerabilidade. Entre esses usos estão a pecuária extensiva e a agricultura inadequada ao semiárido, além de uma falta de desenvolvimento das forças produtivas na zona semiárida, que tem levado a população ao desmatamento para uso de energia (carvão e lenha) e utilidades (móveis, cercas, construções), originando, então, zonas de desertificação.
Definir os limites dos usos dos recursos naturais é o grande desafio da atualidade. Essa decisão exige a conexão do conhecimento de diversas ciências e da comunidade na tentativa de encontrar os procedimentos condizentes com as características naturais e sociais da região. O enfrentamento do problema da seca e da desertificação recai em uma abordagem transdisciplinar das pesquisas sobre os temas de modo que possam encontrar alternativas sustentáveis na convivência com o semiárido (ARAUJO, 2002, p. 15). No sentido de orientar
os meios mais adequados ao combate à desertificação o PAN-Brasil (MMA, 2006, p. 26), com base na Declaração do Semiárido (DAS), estabelece os seguintes eixos temáticos:
Redução da Pobreza e da Desigualdade
Gestão Democrática e Fortalecimento Institucional Ampliação Sustentável da Capacidade Produtiva
Preservação, Conservação e Manejo Sustentável dos Recursos Naturais.
O Programa de Ação Estadual de Combate à Desertificação e dos Efeitos da Seca (PAE-Sergipe), foi elaborado nos moldes do PAN-Brasil, através de oficinas e reuniões estratégicas das quais participaram representantes das sociedades organizadas dos municípios localizados em ASD, especificamente as do Alto Sertão sergipano, bem como os técnicos das instituições estaduais e municipais atuantes no território mencionado, além da consultoria da Secretaria Estadual do Meio Ambiente. O PAE-Sergipe apresenta o contexto do meio semiárido do Estado, as fragilidades e capacidade produtiva de sua ASD, bem como a metodologia definida para alcançar os cinco objetivos elencados e discutidos nas suas especificidades:
1. Reduzir a pobreza e evitar o êxodo rural;
2. Garantir a segurança alimentar e nutricional para as famílias das ASD; 3. Garantir a segurança hídrica e universalização do saneamento básico;
4. Garantir a conservação, preservação e uso sustentável da biodiversidade como combate às mudanças climáticas;
5. Desenvolver mecanismos para efetivar a implementação das políticas, programas e projetos de combate à desertificação.
Lohan Oliveira (2012) pesquisa o processo de desertificação no município de Gararu, semiárido sergipano e constata que há pontos da margem do São Francisco com processo de erosão provocada pela retirada da vegetação pelo pecuarista, fato que confirma a relevante participação da agropecuária na economia municipal, cujo fracasso é colocado como motivador para o êxodo rural. Segundo o autor, este cenário deu origem à implementação de projetos governamentais (operação carro-pipa, cisterna, CrediAmigo, distribuição de sementes, entre outros) para estimular a permanência da população no meio rural, mas de
forma geral a fragilidade com a qual os projetos vêm atuando no município mantém o nível de pobreza e de dependência da população em relação ao poder público, “tais investimentos estão focados nos efeitos e pouco se preocupam com a solução para a origem dessa problemática” (OLIVEIRA, 2012, p.35), isto é, o processo de desertificação, que para combatê-lo, as políticas, dialeticamente, inibem e ao mesmo tempo projetam a insustentabilidade do semiárido. Apesar de identificar falhas quanto à distribuição do Programa Garantia-Safra em um dos cinco povoados examinados, o autor destaca a importância desse benefício na composição da renda familiar do município.
O Programa Garantia-Safra, é citado pelo PAN-Brasil como um dos programas implementados pelo Governo Federal com o objetivo de promover a convivência com o semiárido. Segundo o documento, este programa, que garante um seguro para as famílias de agricultores que tiverem suas colheitas prejudicadas pela seca, faz parte de um conjunto de ações governamentais que preconiza o aumento da produtividade da terra, a reabilitação, conservação e gestão sustentada dos recursos hídricos, tendo em vista melhorar as condições de vida da população das ASD (BRASIL, 2004, p. 112).