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4 PRINCIPAIS PROGRAMAS DE EDUCAÇÃO DE MASSAS DO MOBRAL

4.5 Programas de Desenvolvimento Comunitário – PDC

4.5.2 Programa de Educação Comunitária para Saúde – PES

Conforme exposto anteriormente, o Programa de Educação Comunitária para a Saúde (PES) teve origens comuns ao PRODAC ambos, baseados nos princípios da ação comunitária, surgem da diversificação do MOBRAL, em sua tentativa de sobrevivência institucional e efetivação do proclamado Sistema de Educação Permanente.

Sobre esta adoção de uma linha de ação comunitária, Paiva (2003, p. 393) salienta que Era preciso, sem negar o discurso do êxito, abrir mão da tarefa alfabetizadora, mas incorporar – tal como fazia Ministério da Educação na época - elementos do discurso alternativo, em relação à educação popular e encontrar um campo de ação alternativo à alfabetização em nome do qual o movimento pudesse justificar tanto técnica quanto politicamente sua sobrevivência.

Procurando reforçar sua atuação no campo da saúde e complementar a ação dos demais programas, o MOBRAL lançou em 1976 o PES, com os objetivos:

Geral:

Propiciar a melhoria das condições de saúde das populações residentes na área de atuação do Programa, principalmente as mais carenciadas, através de trabalho de natureza educacional

Específicos:

1) motivar e possibilitar mudanças de atitude em relação à saúde;

2) estimular e orientar a comunidade para o desenvolvimento de ações que visem a melhoria das condições higiênicas e alimentares e dos padrões de saúde, a partir das necessidades sentidas;

3) desenvolver uma infra-estrutura de recursos humanos, pertencentes às comunidades a serem atingidas pelo Programa, para atuação no campo de educação para a saúde;

4) integrar esforços aos de entidades que atuam na área de saúde e outras a fim de maximizar recursos para uma efetiva melhoria das condições de saúde, saneamento e alimentação. (BACKHEUSER et al., 1979, p.314).

Em virtude destes objetivos, o MOBRAL buscou estabelecer uma metodologia fundamentada na mobilização da comunidade, para organização de grupos chamados Grupos Participantes que seriam os agentes executores no âmbito municipal, juntamente com o Encarregado do Programa de Educação Comunitária para a Saúde (ENPES). O ENPES era responsável pela orientação dos monitores que coordenavam os Grupos Participantes, e pela integração e envolvimento de entidades e comunidade em geral no PES.

Para a implantação e desenvolvimento do programa foi produzido um material de apoio com livros, folhetos e cartazes com conteúdos ligados à área de saúde, higiene e alimentação, além de roteiros com instruções sobre os fundamentos da metodologia e a

dinâmica do PES, para a orientação dos monitores e grupos participantes. O treinamento dos recursos humanos envolvidos no PES foi realizado em duas esferas: estadual, para os recursos humanos envolvidos na coordenação e supervisão; e municipal, para os recursos humanos envolvidos na execução. (BACKHEUSER et al., 1979).

Ainda em 1976, foi utilizado o rádio como forma de ampliar o alcance do programa, além de informações sobre saúde e saneamento, o PES- via Rádio (transmitido em cerca de 300 emissoras de 24 unidades da Federação), enfatizava a importância da participação da população, para o levantamento e a resolução dos problemas das comunidades carentes sob o ponto de vista socioeconômico.

Entre as ações realizadas e divulgadas pelo PES, com o apoio de entidades conveniadas estão: a construção de fossas, casas, redes de esgoto, poços artesianos, depósitos para guardar alimentos, depósitos de lixo, e criadouros de animais; a criação de farmácias comunitárias; o encaminhamento de pessoas para vacinação, tratamentos médicos e odontológicos; o recrutamento de analfabetos para o PAF; a orientação sobre assuntos referentes aos cuidados com o corpo, planejamento familiar, aposentadoria, cultivo de hortaliças e criação de animais, entre outros.

No relatório anual referente às atividades de 1978, o presidente do MOBRAL Arlindo Lopes Corrêa declarou que:

O programa de Educação Comunitária para a Saúde registrou 661.000 participantes, durante o ano, em 22 Unidades da Federação, sendo que 70% dos 23.682 grupos conveniados funcionavam na zona rural. Suas atividades de construção de fossas, implantação de hortas, encaminhamento de pessoas à vacinação e para consultas etc., mantiveram-se em nível elevado. (CORRÊA, 1979, p. 07).

Em sua dissertação: “Entre vacinas e canetas: as apropriações dos saberes médicos nas publicações do Movimento Brasileiro de Alfabetização – MOBRAL (1970-1985)” José Maxsuel Lourenço Alves analisou o material didático do PES, o conteúdo de seus programas e radionovelas sobre saúde, os relatórios anuais de atividades, e as cartas trocadas entre os monitores do PES e o MOBRAL Central. Em seu estudo o pesquisador chama atenção para os números de atendimentos que apresentaram astronômicas somas de pessoas atendidas:

No relatório em estudo, enquanto palavras defendem a integração das ações, no momento da demonstração dos resultados, eles são apresentados como isolados. [...] Desse modo, uma única pessoa poderia ser atingida com várias das ações, mas na hora da contabilização esta pessoa apareceria como um dado em cada uma das estatísticas, provocando o leitor a imaginar que uma quantidade muito grande de pessoas estava sendo afetadas, quando na verdade as mesmas pessoas estavam nos diversos programas. [...] De todo modo, manipulados ou não, estes números corriam o país através das

publicações do MOBRAL. Eles davam visibilidade às ações Mobralenses e sua capacidade de atingir os recantos do país, o que não quer dizer que nestes lugares ele conseguisse fazer grandes transformações. [...] desenhava- se uma alternativa à saúde pública sem a movimentação das velhas peças do tabuleiro, que permaneciam em seus confortáveis lugares, enquanto o MOBRAL ensaiava uma ação para a saúde, que se pretendia transformadora, à revelia das estruturas sanitárias, políticas, econômicas, sociais e culturais que permaneciam as mesmas, tornando difíceis os sonhos de salubridade plantados nos desejos dos monitores mobralenses. (ALVES, 2015, p. 208- 209).

Segundo os organizadores do programa, a ação educativa do PES deveria atuar “no sentido de estimular nos indivíduos e na comunidade a capacidade de refletir sobre seus problemas, defini-los de maneira precisa, propor e executar as soluções possíveis.” (BACKHEUSER et al., 1979, p.315).

Sobre este aspecto Alves (2015, p.283-284) esclarece que o MOBRAL,

[...] ensinava a população a identificar e buscar maneiras de solucionar seus problemas sanitários. O princípio é de que com o MOBRAL o aluno mobralense aprendeu a gerir a própria vida e a de seus companheiros de modo salubre. Feito isso, caberia a ele criar as condições necessárias para realizar a transformação prometida em seu cotidiano.

Desse modo, a representação do MOBRAL transfere a responsabilidade ao aluno, pois dada a lição, as doenças seriam conseqüência da desatenção da população, não da falta de estrutura.

Por meio da análise dos objetivos e da metodologia adotada pelo PES observa-se a tendência do MOBRAL de utilizar a vertente da ação comunitária para promover seus programas e incentivar, de maneira reguladora, a atuação da comunidade, entidades e lideranças locais em prol da resolução de seus problemas.