1. INTRODUÇÃO
1.7.5. Principais documentos legais, normas e convenções sobre a invasão biológica
1.7.5.2. Documentos referentes a água de lastro e bioinvasão
1.7.5.2.2. Programa de Gerenciamento Global de Água de Lastro
Em 1999, a preocupação com a questão da bioinvasão por água de lastro se tornou significativa e fez com que fosse criado o Programa GLOBALLAST, apoiado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e pelo Fundo para o Meio Ambiente Global (GEF).
A finalidade do programa era de sensibilizar os Governos dos Países-Membros em relação aos impactos negativos da bioinvasão por água de lastro de
navios. Além disso, visava acelerar a adesão dos países às novas normas da IMO, ou seja a Resolução A.868(20) (idem., GLOBALLAST, 2008).
Anteriormente o Programa GLOBALLAST era intitulado “Remoção de Barreiras para a Implementação Efetiva do Controle da Água de Lastro e Medidas de Gerenciamento em Países em Desenvolvimento” (LEAL NETO; JABLONSKI, 2004).
Os objetivos deste programa consistem em promover ações coordenadas nos países em desenvolvimento como Brasil, China, Irã, África do Sul e Ucrânia, a fim de gerir e proteger os ecossistemas dos impactos negativos da invasão de espécies exóticas, nocivas e/ou patogênicas via água de lastro (GLOBALLAST, 2009; SILVA et al., 2004).
Para cumprir estes objetivos, os países deveriam: “estabelecer um grupo interministerial para cuidar do assunto; desenvolver uma política nacional voltada para o problema; incrementar as pesquisas sobre o assunto; implementar normas de controle; desenvolver programas de monitoramento marinho; estimular a cooperação regional” (idem. p. 5).
Estes países foram escolhidos por representarem as principais regiões em desenvolvimento no planeta e os resultados obtidos com este programa serviriam para identificar as dificuldades e possibilidades na sua implantação.
O programa foi implementado a partir de março de 2000 e final previsto para 2003, no entanto o prazo foi estendido até setembro de 2004, sete meses após a Convenção Internacional Sobre Água de Lastro (LEAL NETO; JABLONSKI, 2004).
No Brasil, o Programa GLOBALLAST foi coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente, mais especificamente pela Secretaria de Qualidade Ambiental nos Assentamentos Humanos e Gestão Integrada dos Ambientes Costeiro e Marinho (GERCOM), ainda, auxiliados por força tarefa nacional formada pelas seguintes instituições: Agência Nacional de Vigilância Sanitária, Agência Nacional de Transportes Aquaviários, Companhia das Docas do Rio de Janeiro, Diretoria de Portos e Costas, Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente, Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, Instituto de Estudos do Mar Almirante Paulo Moreira, Jardim Botânico do Rio de Janeiro, PETROBRAS, Universidade Federal do Rio de Janeiro além de representantes de Organizações Não-Governamentais e empresas de transporte marítimo (idem.).
O local de aplicação, no Brasil, do Plano de Trabalho Nacional foi o Porto de Sepetiba, RJ e as seguintes atividades forma propostas neste plano: “Comunicação, Educação e Mobilização, Avaliação de Risco, Medidas de Gestão de Água de Lastro, Conformidade, Monitoramento e Efetivação, Cooperação Regional e Recursos e Autofinanciamento” (ibidem.).
Na fase inicial de aplicação do projeto o pouco conhecimento dos impactos causados pelas invasões biológicas por água de lastro foi considerado o principal obstáculo, pois sem isso, tornava-se difícil a tomada de decisões efetivas para combater o problema.
Foi criado, então, um Plano de Comunicação direcionado aos atores diretamente envolvidos bem como á população em geral, no qual foram elaborados materiais de divulgação além da contribuição dos cientistas com a realização de pesquisas relacionadas ao tema (idem.).
Segundo estes mesmos autores, para se conhecer o risco de um porto ser objeto de invasão de espécies exóticas via água de lastro, é necessário identificar o nível e o tipo de risco de introdução. Deve-se concentrar atenção em determinadas espécies e buscar conhecer a forma de introdução, e a forma de estabelecimento no novo local. Além disso, é importante conhecer os recursos naturais locais e quais podem ser afetados no caso de uma bioinvasão.
De acordo com a IMO, cada país pode ser flexível no gerenciamento da água de lastro e pode optar por aplicar planos uniformes, que atinjam todos os navios da mesma maneira, ou planos de risco relativos, abordando navios que representem maiores riscos.
Determinados países vêm aplicando sistemas de seleção de navios com base na avaliação de risco por viagem, ou seja, aos navios considerados de alto risco medidas mais rigorosas seriam tomadas. Porém, para se afirmar o grau de risco, é necessária informação de qualidade disponível, o que nem sempre é possível.
Para auxiliar na escolha do sistema a ser adotado, os portos devem realizar uma avaliação de risco genérica, que identifica os portos de origem de tomada de lastro mais freqüentes. Desta forma, será possível encontrar prováveis indicadores de similaridade ambiental que permitam focalizar os portos mais ecologicamente semelhantes, que contribuam significativamente para a bioinvasão, resultando em prováveis riscos globais (idem.).
A IMO recomenda aos Países –membros, a realização de levantamentos da biota dos portos e divulgar as espécies exóticas já conhecidas. Assim, o levantamento da biota aquática na região portuária é fundamental para se avaliar o habitat natural das espécies nativas, bem como conhecer as invasoras que já tenham causado impactos em outras localidades (ibidem.).
O Porto de Sepetiba, incluído no Programa GLOBALLAST também realizou este estudo. Primeiramente, foi realizada uma compilação de dados anteriormente obtidos para a região e buscou-se sistematizar as informações sobre a composição específica, abundância das espécies e distribuição espaço-temporal (idem., 2004).
Os grupos abordados foram: bactérias, protozoários, fitoplâncton, zooplâncton, ictioplâncton, fitobentos, zoobentos de substratos consolidados e inconsolidados e nécton, seguindo a metodologia do Centro de Pesquisa em Pestes Marinhas Introduzidas (Centre for Research on Introduced Marine Pests - CRIMP) que trata de um modelo de levantamento de dados para espécies exóticas adotado em 34 portos australianos (idem.).
Inicialmente a intenção do Programa era criar uma forma geral para se gerenciar a água de lastro nos países pilotos, para depois desenvolver medidas próprias para cada localidade, incluindo legislação nacional, conforme a solicitação da IMO. Tal solicitação também estabelece as seguintes Diretrizes: “- treinamento e formação da tripulação de navios; procedimentos para navios e Estados do Porto (Port State); procedimentos para registro e informação; procedimentos operacionais dos navios; considerações relativas ao Estado do Porto; imposição e monitoramento pelos Estados do Porto; considerações futuras com relação à troca da água de lastro” (idem., p. 16).
No Brasil, a Fundação Universidade Federal do Rio Grande (FURG – Programa TRAIN-SEA-COAST) em parceria com a Unidade Central de Apoio do Programa, lotada em Nova Iorque, promoveram em maio de 2003, o curso “Introdução à Gestão de Água de Lastro”.
Este programa utilizou a metodologia denominada Train-X5 que trata de treinamento interativo das Nações Unidas para aprimoramento de Recursos Humanos. Tal método consistiu de atividades como leituras, discussões orientadas, atividades em grupo e testes para medir o conhecimento adquirido (idem.).
Participaram deste Programa, vários especialistas convidados a fornecer os conhecimentos básicos em relação aos impactos causados pela água de lastro para
os atores envolvidos com o problema. Os participantes do curso eram ligados a instituições brasileiras ambientais, portuárias, marítimas e acadêmicas (idem.).
De acordo com os autores, é fundamental o estabelecimento legal nacional para atender às exigências das Diretrizes da IMO e a aplicação prática de sua Resolução A.868(20) pode exigir mudanças nas leis nacionais ou criação de novas leis, ou seja, é necessário revisões das leis e normas para auxiliar na implementação das Diretrizes.
A efetivação de medidas de gestão de água de lastro necessita de verificação de conformidade de acordo com as metas estabelecidas nas Diretrizes das IMO ou legislação nacional. Além disso, prevê o monitoramento da água de lastro para verificar o cumprimento do plano de gestão e fiscalização dos navios (ibidem.).
Tais sistemas de gerenciamento devem ser flexíveis para adequar-se às especificidades dos países e regiões. Porém a conformidade somente terá resultados positivos se os oficiais e tripulantes conhecerem os motivos e requisitos do plano de gerenciamento da água de lastro. Desta forma, o sistema de gerenciamento deve incluir manuais informativos aos comandantes e às autoridades marítimas ao método e exigências de aplicação do sistema de gerenciamento de lastro (idem.).
Com a finalidade de se padronizar os métodos de amostragens em tanques de lastro, de 7 a 11 de abril de 2003 ocorreu no Rio de Janeiro o “I Workshop Internacional sobre Diretrizes e Padrões para Amostragens de Água de Lastro” em parceria com o GLOBALLAST o Ministério do Meio Ambiente (idem.).