Valhei-nos, São Tomás: do Princípio da Subsidiariedade à “Reforma” do Aparelho de Estado no Brasil
4. O Plano Diretor da Reforma do Aparelho de Estado no Brasil (1995) e seu entorno
4.2 O programa de FHC (1994)
O Programa Mão à Obra, Brasil (representado pela famosa imagem da mão aberta) indicava os eixos centrais do que viria a ser a administração Cardoso que se estenderia por dois mandatos, entre 1995 e 2002. Seu mote era a construção de “um novo projeto de desenvolvimento” (CARDOSO, 1994, p. 8-18) que se adequasse, de um lado, a uma naturalizada “internacionalização dos processos de produção e comercialização” (CARDOSO, op. cit, p. 11), e complementarmente ao “esgotamento de nosso modelo de desenvolvimento baseado na industrialização protegida” (CARDOSO, p. 14).
Vieira (2000, p. 175) observa que o programa tucano de então “se orienta por dois princípios básicos, a descentralização (...) e [por] novas formas de articulação com a sociedade civil e o setor privado”. De fato, esta dupla determinação é todo um programa que vai orientar, como sustentamos, não só a política educacional como a “Reforma” do Estado no seu conjunto. Com efeito, o programa de governo de Cardoso (Op. cit, p. 97) sublinhará que:
(...) por isso, o governo de Fernando Henrique vai estimular a divisão de responsabilidades com o Poder Público local e regional, e incentivar uma maior presença da comunidade na formulação de planos e orientação de investimentos.
Não custa lembrar que a descentralização está presente em muitas áreas e tem precedente na própria instituição, desde 1988, do Sistema Único de Saúde – SUS. Eis que emerge no texto do então candidato Cardoso95 o que parece ser seu dogma, o binômio descentralização-participação:
95 As idéias do texto “Mãos à obra, Brasil: proposta de governo” se manterão, grosso modo,
essencialmente no plano de governo posteriormente adotado e, como se verá com mais minúcia adiante, no Plano Diretor da Reforma do Aparelho de Estado.
196 (...) é necessário reformar o Estado: aprofundar a democratização,
acelerar a descentralização e a desconcentração e, sobretudo, ampliar e modificar suas formas de relacionamento com a sociedade, definindo novos canais de participação e novas formas de articulação entre o estado e a sociedade (CARDOSO, op. cit., p.
208, grifos nossos).
É pertinente a observação de Vieira (2000, 176), segundo a qual os temas da descentralização, que abre a perspectiva de parcerias com a “sociedade civil” e o da privatização das funções até então do estado “se imbricam mutuamente e nem sempre é possível delimitar com precisão a fronteira entre um e outro”.
Assim, se a “Reforma” do Estado, como sublinha Pereira (Op. cit., 17), está estruturada em quatro pilares (reformas administrativa, fiscal, da previdência, além da privatização das empresas públicas), o programa de Cardoso começa falando em parcerias com a sociedade civil ou, quando muito, se referindo ao “setor privado”, como numa maneira de atenuar o sentido fundamental da reforma que era a privatização. Dessa maneira, Cardoso indica que o “ramo estatal” deveria se debruçar sobre o “atendimento das questões sociais”, enquanto o “ramo privado”, igualmente comprometido com a coisa pública, deveria se interessar pelos investimentos em infraestrutura (CARDOSO, op. cit., p. 201-202). Aí já está integralmente o significado profundo da participação da sociedade civil, a saber, a atenuação das fronteiras entre o público e o privado.
Mãos à obra, Brasil desdobra a partir daí os passos necessários à reconfiguração do aparelho de Estado brasileiro: criar novos canais institucionais de participação popular, promover espaços de negociação de conflitos e apoiar formas novas de parceria entre os diferentes níveis de governo (CARDOSO apud VIEIRA, op. cit., p. 176). E, no caso da educação, o próprio papel do Ministério da Educação será pautado por este axioma:
O MEC atuará fundamentalmente na busca de parcerias para o
financiamento e gestão do ensino médio (...) Quanto aos cursos
profissionalizantes, os principais interlocutores na busca de parcerias
para o financiamento e gestão serão as redes SENAI, SENAR,
SENAC e congêneres, o MTb e a iniciativa privada, particularmente o setor empresarial (CARDOSO, op. cit., p. 20, grifos nossos).
No que respeita ainda a esta articulação fundamental entre descentralização e privatização, Vieira (2000, p. 187) observa que ela se expressa como um princípio
197 orientador do planejamento estatal. Tanto que em Mãos à Obra, Brasil, o planejamento alicerçado na descentralização terá caráter público-privado (VIEIRA, op. cit., p. 188)
Nessa moldura, o amálgama entre descentralização e privatização, referido por Vieira, como lembrado mais acima, se desenvolve. A gestão descentralizada, operada com a participação dos “atores sociais” concernidos setorialmente, se coloca como instrumento direto da privatização de parcelas inteiras dos serviços de Estado. É o caso, para ficar num exemplo, da política que Mão à Obra, Brasil propõe para o setor de Ciência e Tecnologia (C&T). O programa de Cardoso (apud VIEIRA, op. cit. p. 177 – grifos nossos) prevê para C&T uma “parceria entre setor privado e governo, entre universidade e indústria, tanto na gestão quanto no financiamento do sistema brasileiro de desenvolvimento científico e tecnológico.” Note-se que, nesse caso, a parceria leva imediatamente à uma gestão compartilhada entre o setor público e o setor privado que inclui o financiamento público-privado.
Neste espírito, o programa de Cardoso para a educação é uma versão setorial, como se poderá comprovar adiante, dos cânones da reforma do aparelho de Estado. A ideia de um estado “leve”, com funções gerenciais e responsabilidade distributiva e redistributiva se insinua com transparência em Mãos à Obra, Brasil:
(...) não cabe à União a responsabilidade direta pelo ensino básico. A política federal, por isso mesmo, consistirá em fornecer estímulos e instrumentos aos estados e municípios para que eles possam desempenhar a tarefa que lhes cabe... (CARDOSO, op. cit., p. 11).
Desta perspectiva se deduz a competência que resta ao Estado, por exemplo, em matéria educacional: “(...) Serão reduzidas a responsabilidade do Ministério da Educação como instância e a interferência direta da União nos estados e municípios.” (CARDOSO, op. cit., p. 113).
Estas poucas e não exaustivas observações mostram que a segunda geração de reformas, onde a redução do Estado aos seus pressupostos essenciais por meio da liquidação de sua “face social”, tal como preconizado pelas instituições multilaterais, foi recepcionada de maneira plena do ponto de vista da burguesia local. Aliás, de um ponto de vista político, é sobre esta base que se operará o reagrupamento dos setores decisivos da burguesia nativa, então há uma década (desde a derrocada do Regime Militar) em profunda crise de representação política. O Governo Itamar, que se estabelece no vácuo
198 da crise de Collor, serviria de transição para esse reagrupamento que se sintetizaria na figura de Fernando Henrique Cardoso.
O programa de Cardoso, cujo coração seria Reforma do Estado de natureza gerencial, com suas componentes de descentralização e participação, se converteria na base política necessária ao soerguimento de uma alternativa burguesa claramente delimitada. Uma alternativa que pudesse, de um lado, aplicar as “reformas” de segunda geração, destinadas a fundar uma relação corporativa de novo tipo (participativa) entre o