3.1 DO ESTUDO CIENTÍFICO DA CIÊNCIA
3.1.5 Programa Forte
Como introdução desta seção, pode-se recorrer ao próprio David Bloor (2001, p. 15.208), principal idealizador do “Programa Forte”46: trata-se, o Programa, de um conjunto de
requisitos metodológicos destinados ao sociólogo do conhecimento, especialmente àquele vinculado à sociologia do conhecimento científico, e que ordena ao analista que adote quatro princípios: (a) causalidade, (b) imparcialidade, (c) simetria e (d) reflexividade. Igual curiosidade deve estar presente em ambos os lados da divisão avaliada – “simetria” significa que essa curiosidade equivalentemente distribuída deve se dar nos mesmos tipos gerais de explicação sociológica, com todas as crenças enfrentando o mesmo problema geral de credibilidade e dependendo das mesmas contingências para resolver o problema (as crenças verdadeiras não têm mais credibilidade intrínseca do que as falsas) (BLOOR, 2001, p. 15.208). Um problema mais profundo de simetria vem da capacidade humana de seguir regras, e Bloor (2001, p. 15.209) expressamente indica que aqui está o argumento: todos aceitam que as regras de um jogo, como o xadrez, são convencionais e, portanto, sociais; porém, uma vez que as regras tenham sido acordadas, a questão de saber se um movimento está de acordo com elas parece não ser convencional, mas de correspondência conceitual ou consistência lógica e inconsistência.
Em termos mais gerais, explica Bloor (2001, p. 15.209), o significado de qualquer conceito poderia ser uma questão de convenção, mas a questão de saber se um objeto se enquadra nesse conceito parece ser totalmente diferente – o significado é convencional, mas a verdade não é, e um sociólogo poderia legitimamente tentar explicar a escolha de regras e definições, mas não, certamente, questões de consistência e verdade (a primeira é uma questão de causalidade, a segunda pertence ao domínio da lógica e da racionalidade). Na medida em
46 David Bloor, sociólogo da ciência e um dos membros fundadores da Unidade de Estudos da Ciência da
Universidade de Edimburgo, é, juntamente com seus colegas Barry Barnes e David Edge, um dos principais proponentes do chamado Programa Forte na sociologia do conhecimento. Cf. CURD, Martin; COVER, J. A.
que as pessoas seguem regras e respondem a considerações de significado e verdade, o comportamento delas deve ser explicado racionalmente, e não sociologicamente, e então, uma vez mais, a assimetria se afirmaria (BLOOR, 2001, p. 15.209). Esse argumento, embora amplamente aceito, pode ser contestado com base no fato de que, na realidade, cada ato único de aplicação conceitual é problemático e negociável (nem todos os atos são negociados, na prática são muitas vezes rotineiros, mas como a história da ciência, da lógica e da matemática demonstram, eles são negociáveis), e aplicações passadas de um conceito não serviriam para compor significados e, assim, determinar antecipadamente as normas de aplicação de conceitos apropriados ou de seguimento de regras (BLOOR, 2001, p. 15.209).
Feita essa introdução, convém apresentar uma crítica ao Programa Forte. Para isso, recorre-se à discussão/interpretação/comentários, por Martin Curd e J. A. Cover (1998, p. 393- 408), acerca de uma crítica formulada por Larry Laudan (1998, p. 320-353) em um artigo, publicado na mesma obra de Curd e Cover, sobre a tese de Duhem–Quine (a qual foi brevemente introduzida na última seção terciária desta tese) acerca da subdeterminação dos dados. Na última seção desse artigo, intitulada Subdeterminação e “Sociologização da epistemologia”, Laudan (1998, p. 342-353) remete-se a Mary Hesse e David Bloor, que teriam argumentado que a subdeterminação implicaria que as decisões dos cientistas sobre teorias seriam causadas por fatores e processos sociais, e não por raciocínio e lógica (CURD; COVER, 1998, p. 393).
Os princípios centrais do Programa Forte são descritos e defendidos no livro Knowledge and Social Imagery, de Bloor (1991)47. Quanto a Mary Hesse, é apresentada por
Curd e Cover (1998, p. 393) como uma distinta filósofa da ciência, que lecionou por muitos anos no Programa de História e Filosofia da Ciência na Universidade de Cambridge e que, embora não seja ela mesma uma defensora da versão da sociologia da ciência de Bloor, é simpática a certos aspectos do Programa Forte, e seus escritos são frequentemente citados favoravelmente por Bloor. Segundo Curd e Cover (1998, p. 393), Laudan teria estado particularmente preocupado até a publicação do artigo The Strong Thesis of Sociology of Science, que apareceu como o segundo capítulo do livro Revolutions and Reconstructions in the Philosophy of Science, ambos de autoria de Hesse (1980, p. 29-60). Curd e Cover (1998, p. 393) argumentam que, em outros lugares, Laudan teria atacado vigorosamente o Programa Forte, acusando-o de erro e confusão, e como a questão que então se colocava não era acerca da verdade ou da plausibilidade do Programa Forte, mas apenas dos méritos de dois argumentos
(de Hesse e Bloor) apresentados em sua defesa, não haveria a necessidade de se discutir detalhadamente o Programa Forte em si – alguns breves comentários seriam suficientes previamente à análise dos argumentos específicos que Laudan (1998) ataca.
De acordo com David Bloor – continuam Curd e Cover (1998, p. 393), em linha com a breve introdução do primeiro parágrafo desta seção –, as características definidoras do Programa Forte seriam causalidade, imparcialidade, simetria e reflexividade, com cada uma delas refletindo pressupostos processuais comuns às ciências estabelecidas e necessária a tornar “científico” o estudo das próprias crenças científicas. A condição causal significaria simplesmente que os sociólogos devem identificar as condições que geram crenças científicas ou estados de conhecimento, prestando particular atenção àquelas características culturais e sociais que muitas vezes se presume (falsamente, na visão de Bloor) estarem fora da ciência propriamente dita e dos mecanismos dentro da ciência pelos quais a crença é produzida (CURD; COVER, 1998, p. 393). Imparcialidade seria a exigência de que as explicações das crenças científicas devem ser imparciais em relação à verdade e falsidade, racionalidade e irracionalidade, sucesso ou fracasso (BLOOR, 1991, p. 7; CURD; COVER, 1998, p. 393). Bloor insistiria que uma crença científica, ainda que verdadeira ou racional, não explicaria por si só por que um cientista em particular sustenta essa crença, e frequentemente repetiria que as crenças racionais têm tanto a necessidade de explicação quanto as irracionais (CURD; COVER, 1998, p. 393-394).
Assim, continuam Curd e Cover (1998, p. 394), Bloor rejeitaria as opiniões defendidas por filósofos como R. G. Collingwood e Imre Lakatos, de que: (1) uma ação ou crença só pode ser explicada se puder ser mostrada como racional (opinião que seria apenas de Collingwood); (2) quando se mostra que a ação ou crença de uma pessoa é racional, nenhuma explicação adicional é necessária ou possível – a explicação de uma crença ou ação humana termina com a exibição de sua racionalidade (opinião que seria compartilhada por Collingwood e Lakatos); e (3) explicações em termos de causas sociológicas e psicológicas são apropriadas apenas quando a ação ou crença é irracional (opinião que seria apenas de Lakatos). Como muito da ciência é presumidamente racional, se (3) fosse verdade, raciocinam Curd e Cover (1998, p. 394), muito pouco sobraria para o sociólogo da ciência fazer, e, de fato, até o advento do Programa Forte, a visão de que, por serem racionalmente bem fundamentadas, a maioria das crenças científicas estaria fora do alcance da sociologia teria sido aceita pela maioria dos sociólogos da ciência: a sociologia poderia ter muito a dizer sobre a estrutura e a organização da ciência, mas pouco ou nada poderia fazer para explicar o conteúdo da crença científica – algo de que Bloor discordaria, reivindicando toda a ciência, racional e irracional, como um
assunto apropriado à explicação sociológica. Indiscutivelmente – continuam Curd e Cover (1998, p. 394) –, a segunda condição de Bloor (imparcialidade) decorreria de sua primeira condição (causalidade): se toda explicação é causal e todas as crenças (verdadeiras ou falsas, racionais ou irracionais) têm causas, então todas as crenças (verdadeiras ou falsas, racionais ou irracionais) poderiam ser explicadas em termos dessas causas, e isso deixaria completamente aberto a respeito de que tipos de causa (percepção, experiência, raciocínio, condicionamento psicológico, pressão social) estariam envolvidos na produção de qualquer crença particular – e daí a importância da terceira condição de Bloor, a simetria.
De acordo com Bloor (1991, p. 7), a simetria exige que todas as crenças científicas recebam o mesmo estilo de explicação e que o mesmo tipo de causa explicaria, por assim dizer, crenças verdadeiras e falsas. Obviamente – apontam Curd e Cover (1998, p. 394) –, muito dependeria do que Bloor quer dizer com “mesmo tipo de causa”, pois, como Laudan (1998) já teria argumentado, afirmar que todas as crenças, tanto as racionais quanto as irracionais, são produzidas pelas mesmas causas – sejam elas o que o cientista considera boas evidências, um mecanismo neurofisiológico, uma compulsão psicológica, educação, pressão dos pares, ideologia política, religião, classe ou riqueza – parece bastante implausível (CURD; COVER, 1998, p. 394). Ou seja, ao contrário da afirmação de Bloor (1991), a simetria não seria uma condição comum às ciências bem-estabelecidas, pois, por exemplo, em nenhum lugar da física, química ou geologia estaria estipulado, antes da investigação empírica, que alguma classe ampla de fenômenos deve ser o resultado do mesmo tipo de causa para que as teorias que tentam explicar esses fenômenos se qualifiquem como científicas (CURD; COVER, 1998, p. 394).
A quarta e última condição, a reflexividade, afirmaria que os padrões de explicação usados pelos sociólogos devem ser aplicáveis à sua própria disciplina, e Bloor (1991, p. 7) pensa que essa condição deve ser imposta porque, do contrário, a sociologia seria uma refutação permanente de suas próprias teorias (CURD; COVER, 1998, p. 394-395).
Com alguma ideia, elaborada a partir desse arrazoado acerca do que o Programa Forte significa, Curd e Cover (1998, p. 395) passam a considerar os argumentos de Hesse e Bloor em favor da abordagem do Programa para explicar a crença científica, bem como as críticas de Laudan (1998) a esses argumentos. O argumento de Hesse (1980) começaria com o fato da subdeterminação humeana (SDH) e correria – com algum embelezamento, segundo Curd e Cover (1998, p. 395) – da seguinte forma: 1) SDH – as teorias científicas são dedutivamente subdeterminadas pelos dados; 2) assim, os cientistas devem adotar critérios extraempíricos para o que conta como uma boa teoria ao decidir aceitar uma delas em detrimento de suas rivais empiricamente adequadas; 3) esses critérios extraempíricos diferem ao longo do tempo e entre
os grupos; 4) portanto, a adoção desses critérios deve ser explicada por fatores sociais, e não lógicos; 5) assim, a decisão de aceitar teorias científicas específicas com base nesses critérios também deve ser explicada por fatores sociais, e não lógicos (CURD; COVER, 1998, p. 395).
Curd e Cover (1998, p. 395) observam que Laudan (1998) não teria nenhum problema com as premissas 1) e 3) ou com a conclusão intermediária 2). A queixa dele seria de que a conclusão 4) (de que a adoção de critérios extraempíricos para avaliar as teorias deve ser socialmente causada) não decorre delas – Laudan (1998) afirmaria que Hesse estaria assumindo, sem argumento, que qualquer coisa que não seja determinada pela lógica dedutiva deve ser o produto de fatores sociais (CURD; COVER, 1998, p. 395). Mas, Laudan (1998) teria protestado, por que se deveria pensar que a decisão de adotar um conjunto particular de regras ampliativas não pode ser o resultado do raciocínio? (CURD; COVER, 1998, p. 395) Pois, Laudan (1998) argumentaria que somente a investigação histórica poderia revelar o que levou um cientista em particular a adotar um conjunto particular de regras ampliativas – do mero fato da subdeterminação dedutiva das teorias pelos dados nada se seguiria sobre a natureza dessas causas: elas poderiam ser sociológicas ou não (CURD; COVER, 1998, p. 395). E, embora Laudan (1998) não teria discutido explicitamente, ele obviamente teria pensado que a premissa 3) (o fato de que diferentes cientistas em diferentes períodos adotaram critérios extraempíricos diferentes para escolher entre teorias) seria irrelevante para a conclusão de Hesse (CURD; COVER, 1998, p. 395).
Os diferentes valores adotados, ou os diferentes pesos associados a valores como simplicidade, escopo explicativo e fertilidade, não implicariam nada sobre o que levou os cientistas individuais a adotá-los, e, de fato, em todos os casos, a adoção pode ter sido o resultado do raciocínio dedutivo, sendo, a diferença no resultado, devida apenas às diferentes premissas das quais os cientistas partiram (CURD; COVER, 1998, p. 395). Outra possibilidade, aventada por Curd e Cover (1998, p. 395) como mais provável, é que diferentes cientistas não apenas teriam usado diferentes hipóteses iniciais, mas também teriam se utilizado do raciocínio dedutivo e do não dedutivo para chegar às suas conclusões sobre como as teorias científicas rivais deveriam ser avaliadas.
Tendo descartado o argumento de Hesse (1980) como non sequitur48, Laudan (1998)
teria voltado sua atenção para Bloor (1982b), cujo argumento criticado teria sido retirado do
48 Laudan estaria se referindo àquilo que Barker define como o terceiro tipo de non sequitur: “O terceiro tipo de
non sequitur surge quando algo sobre um argumento nos tenta a simplesmente negligenciar o fato de que
realmente não há conexão entre as premissas e a conclusão. O argumento nos excita de alguma forma, e somos levados a pensar que as premissas apoiam a conclusão, quando na verdade elas não têm nada a ver com o ponto
artigo principal – uma peça de Bloor – de uma edição especial da revista Studies in History and Philosophy of Science (CURD; COVER, 1998, p. 396). O artigo teria sido seguido por manifestações de vários críticos (às quais Bloor teria respondido), sendo um deles Gerd Buchdahl (um dos editores da revista), e o argumento de Bloor viria de sua resposta às críticas de Buchdahl, que teria sido especialmente crítico quanto à seguinte passagem do artigo:
O que é então que pode explicar a estabilidade conhecida de nosso conhecimento teórico explícito? Para o sociólogo, a resposta é simples. Tal estabilidade como há em um sistema de conhecimento vem inteiramente das decisões coletivas de seus criadores e usuários. Isto é, da exigência de que certas leis e classificações sejam mantidas intactas, e de que todos os ajustes e alterações sejam realizados em outro lugar. Não precisamos assumir que uma lei ou classificação protegida seja destacada por causa de quaisquer propriedades intrínsecas como verdade, evidência ou plausibilidade. Naturalmente, tais propriedades serão imputadas a elas, mas isso será uma justificativa para o tratamento especial e não a causa dele.(BLOOR, 1982b, p. 279-280; CURD; COVER, 1998, p. 396, tradução nossa)49.
Buchdahl ([198-] apud CURD; COVER, 1998, p. 396) teria se oposto ao pronunciamento de Bloor (1982b) de que a “estabilidade” de algumas leis nas ciências (isto é, o fato de essas leis terem sido aceitas pelos cientistas durante um longo período de tempo) viria inteiramente da decisão dos cientistas (“criadores e usuários” da lei) de proteger a lei contra a refutação, pois, para Buchdahl, teria parecido óbvio que a verdade de uma lei e a evidência para ela também podem ter muito a ver com a estabilidade da lei – se a lei fosse verdadeira, então a evidência correria em seu favor – os cientistas aceitariam a lei com base nessa evidência; e, portanto, o fato de a lei ser verdadeira teria, ao contrário do que teria sido proposto por Bloor (1982b), um papel em explicar por que os cientistas a retiveram. Em sua resposta a Buchdahl sobre este ponto, Bloor (1982a, p. 306, tradução nossa) escreveu:
Se meu uso da palavra “completamente” deu a impressão de que a informação sensorial não tinha nada a ver com o sistema resultante de conhecimento, então foi de fato a palavra errada. O fato é que, no entanto, sem qualquer mudança em sua base probatória, os sistemas de crença podem ser e foram desestabilizados. Por outro lado, eles podem ser e foram mantidos estáveis em face de mudanças rápidas e altamente problemáticas da experiência. Assim, a estabilidade de um sistema de uma crença é a
supostamente sendo provado.” (tradução nossa, grifo do autor). No original: “The third kind of non sequitur arises when something about an argument tempts us simply to overlook the fact that there really is no connection between the premises and the conclusion. The argument excites us somehow, and we are misled into thinking that the premises support the conclusion, when actually they have nothing to do with the point supposedly being proved.” Cf. BARKER, Stephen F. The Elements of Logic. New York: McGraw-Hill, 1947, p. 189.
49 No original: “What is it that can then account for the known stability of our explicit theoretical knowledge?
For the sociologist the answer is simple. Such stability as there is in a system of knowledge comes entirely from the collective decisions of its creators and users. That is to say, from the requirement that certain laws and classifications be kept intact, and all adjustments and alterations carried out elsewhere. We need not assume that a protected law or classification is singled out because of any intrinsic properties like truth, self-evidence or plausibility. Of course, such properties will be imputed to them, but this will be a justification for the special treatment rather than the cause of it.”
prerrogativa de seus usuários. 50 (BLOOR, 1982a, p. 306; CURD; COVER, 1998, p.
396, tradução nossa).
É esse argumento de Bloor (1982a) que Laudan (1998) teria criticado em seu artigo, propondo que, assim como o argumento de Hesse (1980) discutido anteriormente, tratar-se-ia de um non sequitur flagrante: a conclusão do argumento não decorreria de suas premissas (CURD; COVER, 1998, p. 396). Laudan teria concedido que as duas premissas são verdadeiras: os cientistas às vezes mudam suas crenças teóricas sem que essas mudanças sejam estimuladas por novas evidências; os cientistas também retêm suas crenças teóricas, apesar de novas evidências que pareçam refutá-las (CURD; COVER, 1998, p. 396-397). Mas a partir disso, dificilmente se seguiria que a estabilidade de uma crença é a prerrogativa de seus usuários – o fato de que em alguns casos a evidência não tenha sido decisiva em fazer com que os cientistas mudassem ou mantivessem suas crenças não implicaria que nenhuma evidência possa desempenhar tal papel (CURD; COVER, 1998, p. 397).
Convém, porém, ressaltar uma observação de Curd e Cover (1998, p. 397): ao julgar inválido o argumento de Bloor (1982a), Laudan (1998) teria interpretado a conclusão daquele como afirmando, com efeito, que os cientistas podem se apegar racionalmente a qualquer crença, independentemente da evidência contra ela. Todavia, no último parágrafo da seção correspondente, Laudan (1998) teria interpretado a conclusão de Bloor (1982a) como dizendo, em vez disso, que nenhuma evidência pode obrigar um cientista racional a mudar suas crenças – duas interpretações da conclusão de Bloor que não seriam exatamente iguais, pois, por exemplo, argumentam Curd e Cover (1998, p. 397), poderia ainda ser irracional um cientista manter uma crença particular em face de evidências que a refutam, ainda que essa evidência não obrigue à rejeição da crença, tanto lógica quanto causalmente.
Mas, o ponto importante, segundo Curd e Cover (1998, p. 397), seria a insistência de Laudan (1998) de que a mudança de crença seja racional – pois, como seria argumentado na avaliação da versão de Quine da tese da subdeterminação, sem a restrição à retenção racional da crença, a alegação de que qualquer crença pode ser retida, aconteça o que acontecer, é de conhecimento geral, e, assim, Laudan (1998) concluiria que o argumento de Bloor (1982a) acerca da subdeterminação não teria feito nada para tornar plausível a reivindicação do
50 No original: “If my use of the word ‘completely’ gave the impression that sensory input had nothing whatever
to do with the resulting system of knowledge, then it was indeed the wrong word. The fact is, however, that with no change whatsoever in their evidential basis, systems of belief can be and have been destabilized. Conversely, they can be and have been held stable in the face of rapidly changing and highly problematic inputs from experience. So the stability of a system of a belief is the prerogative of its users.”
Programa Forte, de que as crenças científicas são sempre causadas por forças e interesses sociais.
À parte essa apontada trivialidade argumentativa do Programa Forte, há outro problema que, parece, ele compartilha com todos os outros subcampos que lhe antecederam, e escolheu-se mencionar esse problema nesta seção reservada ao Programa Forte porque foi esse subcampo que se propôs mais diretamente a enfrentá-lo. Trata-se, no caso, da principal questão de interesse dos criadores do Programa Forte – a possibilidade de cognição objetiva. Quanto a isso, observa-se que a argumentação acaba por se dirigir ao campo da retórica, com a afirmação de que a sociologia do conhecimento apresenta objetividade cognitiva, mas que essa diria respeito a uma teoria sociológica de objetividade (BLOOR, 1991, p. 160). À elaboração desse argumento, Bloor (1991, p. 98) se utiliza de uma definição de Gottlob Frege51 (1848–1925), a
qual, argumenta Bloor (1991, p. 98) adicionalmente, somente poderia ter um significado substancial se fosse igualada ao social. Isso quer dizer, em outras palavras, que aquilo tido como não objetivo pela crítica não é visto dessa maneira por Bloor (1991), e o argumento filosófico acaba reduzido a meras questões interpretativas e perigosamente próximo, portanto, do relativismo. O próprio Bloor (1991, p. 158, tradução nossa) parece conceder neste ponto, ao refletir sobre as críticas recebidas desde a publicação de Knowledge and Social Imagery:
Não há como negar que o programa forte na sociologia do conhecimento repousa sobre uma forma de relativismo. Adota o que pode ser chamado de “relativismo metodológico”, uma posição resumida nos requisitos de simetria e reflexividade definidos anteriormente.52
A propósito, as críticas ao Programa Forte não têm como foco apenas o relativismo. É novamente o próprio Bloor (1991, p. 163) que informa que, desde sua publicação em 1976, Knowledge and Social Imagery tem conquistado poucos amigos e muitos inimigos, havendo