3.1 DO ESTUDO CIENTÍFICO DA CIÊNCIA
3.1.6 Virada tecnológica
Conforme se viu nas seções terciárias precedentes, o foco principal dos subcampos da sociologia concentra-se no par ciência/sociedade, variando-se as explicações sobre como esse par deveria ser estudado e sobre o modo como um dos elementos afetaria o outro. Contudo, a partir do final dos anos de 1970, houve uma separação sociometodológica entre ciência e tecnologia. Certamente que, desde sempre, a tecnologia foi considerada como relevante à sociologia – esta se tornou uma disciplina distinta ao enfatizar as causas sociais, em oposição, por exemplo, às biológicas, geográficas, psicológicas e do comportamento humano, desenvolvendo-se durante uma era de abundância geral de recursos, progresso tecnológico e crescimento econômico (DUNLAP, 2011, p. 189). Mas, sobretudo no chamado mundo desenvolvido ocidental, o salto tecnológico das últimas quatro décadas foi expressivo o suficiente para justificar uma especialização mais estrita do elemento ciência, e dessa especialização resultou a diferenciação entre ciência e tecnologia (DUNLAP, 2011, p. 189).
De fato, como aponta Andrew Feenberg (1995, p. 1), uma nova compreensão da tecnologia teria emergido de várias décadas de controvérsia pública sobre questões técnicas, e o debate teria se espalhado da ecologia para a energia nuclear, para a medicina e a engenharia genética, e mesmo, em formas menos visíveis, para campos teóricos como a inteligência artificial e o projeto do genoma humano. Quanto a isso, o próprio subtítulo da citada obra de Feenberg serve de indicação – The Technical Turn in Philosophy and Social Theory.
Pouco antes de Feenberg, contudo, foi o sociólogo britânico Steve Woolgar, já mencionado neste trabalho, quem expressamente se referiu à virada tecnológica nos estudos da ciência, mediante artigo publicado em 1991 (The Turn to Technology in Social Studies of Science), sobre o qual também já se fez menção. Já no resumo desse artigo, Woolgar (1991, p. 20) esclarece que a proposta dele é examinar como o significado teórico especial da sociologia do conhecimento científico seria afetado por tentativas de aplicar o construtivismo relativista à tecnologia, demonstrando-se que a falha em confrontar as principais ambivalências analíticas
na prática da SSK teria comprometido seu significado estratégico original – em particular, argumenta Woolgar (1991, p. 29), a interpretação da SSK como uma fórmula explicativa diminuiria seu potencial para reconceituar profundamente questões epistêmicas. Woolgar (1991) vai além, ao ponderar que, ao passar da ciência para a tecnologia, o potencial radical da SSK, dado que ela não teria ido longe o suficiente, seria ainda mais atenuado pelo estudo social da tecnologia (SST, de social study of technology), dada a mencionada especialização que separou a ciência da tecnologia (na forma de estudos de ciência e tecnologia – science and technology studies, ou STS, conforme anteriormente referido), sugerindo que a descoberta de um novo objeto (tecnologia) forneceria uma maneira conveniente (com conotação negativa, a indicar aplicação inapropriada de menor esforço) de se evitar ainda mais a questão da reflexividade, o que poderia significar que a mudança para esse estudo não seria mais do que um giro lateral. Quanto a essa reflexividade, Woolgar (1991, p. 23) faz menção expressa a David Bloor (1991), que teria argumentado, à proposição do Programa Forte (discutido na seção terciária anterior), que sem ela a sociologia do conhecimento científico seria uma refutação permanente de si mesma. Alcançado esse ponto, parece adequado abrir seção terciária dedicada aos estudos de ciência e tecnologia. Mas, antes disso, convém fazer certas considerações, acerca de tecnologia e técnica, em seção intermediária, retomando-se como exemplo os títulos das obras de Feenberg (1995) e Woolgar (1991) recém-mencionadas.
3.1.7 …ou virada técnica?
Conforme se observou logo atrás, Woolgar (1991) intitulou seu artigo The Turn to
Technology…, enquanto Feenberg (1995) deu à sua obra o subtítulo de The Technical Turn…
(grifo nosso). Considerando-se que technical é o adjetivo referente ao substantivo technique, tem-se aqui uma possível diferenciação entre tecnologia e técnica (technology e technique), ainda que muitas vezes esses substantivos sejam utilizados indistintamente.
La Technique ou l’enjeu du siècle, publicada originalmente em 1954, é provavelmente a obra mais conhecida do teólogo acadêmico Jacques Ellul (1912–1994) (WILKINSON, 1964, p. x), e teria sido trazida ao conhecimento dos falantes de língua inglesa meio que por acaso, mediante uma recomendação de Aldous Huxley, o conhecido autor de Brave New World (AGAR, 2008, p. 585; KNOPF, 1964, p. iii). A versão em inglês de La Technique…, intitulada Technological Society, foi publicada pela primeira vez em 1964 e contou com uma introdução escrita por ninguém menos que o já muito mencionado Robert Merton, que, aliás, teria outrora afirmado que a obra merecia uma publicação em inglês (KNOPF, 1964, p. iii). É Merton (1964,
p. vi, tradução nossa, grifo do autor) quem apresenta e elucida a definição de technique por Ellul, para o que não descuida da própria particularidade linguística:
Bastante do vocabulário idiossincrático de Ellul sobreviveu aos riscos da migração transoceânica para exigir que observemos os significados especiais que ele atribui aos termos básicos. Por técnica, por exemplo, ele quer dizer muito mais do que tecnologia de máquinas. Técnica refere-se a qualquer complexo de meios padronizados para atingir um resultado predeterminado. Assim, converte comportamento espontâneo e não reflexo em comportamento deliberado e racionalizado. O homem técnico é fascinado pelos resultados, pelas consequências imediatas de colocar dispositivos padronizados em movimento. Ele não pode deixar de admirar a eficácia espetacular das armas nucleares de guerra. Acima de tudo, ele está comprometido com a busca interminável pelo “melhor caminho” para alcançar qualquer objetivo designado.53
Merton (1964, p. xi), ao mencionar os “riscos da migração transoceânica”, faz referência a aspectos não apenas puramente culturais e linguísticos, e, quanto à relação entre técnica e tecnologia, Ellul (1964, p. xxv-xxvi, tradução nossa, grifo do autor) esclarece, ainda nas Notas ao Leitor de The Technological Society:
O termo técnica, como eu a uso, não significa máquinas, tecnologia ou este ou aquele procedimento para atingir um fim. Em nossa sociedade tecnológica, técnica é a
totalidade dos métodos racionalmente alcançados e com eficiência absoluta (para um
dado estágio de desenvolvimento) em cada campo da atividade humana. Suas características são novas; a técnica do presente não tem medida comum com a do passado. […] A técnica não é um fato isolado na sociedade (como o termo tecnologia nos levaria a acreditar), mas está relacionada a todos os fatores na vida do homem moderno; afeta fatos sociais, bem como todos os outros. Assim, a própria técnica é um fenômeno sociológico, e é sob essa luz que a estudaremos.54
Wittgenstein (1999) parece ter utilizado distinção semelhante entre os dois termos. Por exemplo, em Philosophische Untersuchungen, utiliza-se por 17 vezes o termo technique (em alemão, technik) na versão bilíngue já mencionada neste trabalho, mas não há qualquer utilização de technology/technologie. Em uma dessas utilizações, o autor vienense afirma que:
53 No original: “Enough of Ellul’s idiosyncratic vocabulary has survived the hazards of transoceanic migration to
require us to note the special meanings he assigns to basic terms. By technique, for example, he means far more than machine technology. Technique refers to any complex of standardized means for attaining a predetermined result. Thus, it converts spontaneous and unreflective behavior into behavior that is deliberate and rationalized. The Technical Man is fascinated by results, by the immediate consequences of setting standardized devices into motion. He cannot help admiring the spectacular effectiveness of nuclear weapons of war. Above all, he is committed to the never-ending search for ‘the one best way’ to achieve any designated objective.”
54 No original: “The term technique, as I use it, does not mean machines, technology, or this or that procedure for
attaining an end. In our technological society, technique is the totality of methods rationally arrived at and
having absolute efficiency (for a given stage of development) in every field of human activity. Its characteristics
are new; the technique of the present has no common measure with that of the past. […] Technique is not an isolated fact in society (as the term technology would lead us to believe) but is related to every factor in the life of modern man; it affects social facts as well as all others. Thus technique itself is a sociological phenomenon, and it is in this light that we shall study it.”
“Entender uma frase significa entender uma língua. Entender uma língua significa ser o mestre de uma técnica.”55 (WITTGENSTEIN, 1999, p. 81, 81e, tradução nossa).
Já a (também) conhecida obra Du mode d’existence des objets techniques (cuja versão em inglês é On the Mode of Existence of Technical Objects), publicada originalmente em 1958, do filósofo e tecnólogo francês Gilbert Simondon (1924–1989), apresenta, na primeira nota de rodapé (no caso, dos tradutores para o inglês, Cécile Malaspina e John Rogove), um importante esclarecimento:
O termo-chave amplo, “la technique”, e seu plural, “les techniques”, são traduzidos uniformemente pelo mais especializado “technics”, significando a teoria ou o estudo da indústria e das artes mecânicas; enquanto esse termo, como um plural coletivo usado no singular, na mesma linha que “physics”, é quase um sinônimo de “technology” e se diferencia em inglês de “technique”, na medida em que este último se refere à aplicação quase inefavelmente prática e particular de técnicas a uma dada tarefa concreta, em francês, o singular “la technique” e o plural “les techniques” abrangem juntos os significados cobertos por “technique” ou “techniques” e por “technics” em inglês e, portanto, a palavra “technics”, como aparece neste texto, abrange ambos. Além disso, Simondon tem o cuidado de distinguir “technics” de “technology”, o que permanece programático em seus textos e de cuja elaboração, como logos filosófico ou metateoria da técnica [technics], este texto pode ser interpretado como um esboço.56 (SIMONDON, 2017, p. 15, tradução nossa).
O “quase sinônimo” mencionado na nota pode ser verificado na seguinte passagem, na qual (SIMONDON, 1989, p. 232, 2017, p. 239, tradução nossa) utilizou (originariamente) os termos technologie e techniques – este segundo, com função adjetiva que é evidente em francês e também em português (mediante adição de artigo, diferencia-se o adjetivo techniques do substantivo les techniques, o adjetivo técnica do substantivo a técnica):
A instituição de uma tecnologia tem o mesmo significado que a do ecumenismo, mas sua consequência é fazer com que se apreenda a verdadeira particularidade elementar dos objetos técnicos, com base em uma normalização geral do vocabulário e noções comuns, substituindo a falsa especificidade dos termos comerciais, causada pelo uso e não pela essência própria dos elementos; tecnologia é aquela com base na qual a pluralidade de objetos técnicos, que é a depositária da técnica primitiva, serve de
55 No original: “Einen Satz verstehen, heißt, eine Sprache verstehen. Eine Sprache verstehen, heißt eine Technik
beherrschen.” “To understand a sentence means to understand a language. To understand a language means to be master of a technique.”
56 No original: “The broad key term, ‘la technique,’ and its plural, ‘les techniques,’ are translated uniformly
throughout by the more specialized ‘technics,’ meaning the theory or study of industry and of the mechanical arts; while this term, as a collective plural used in the singular along the same lines as ‘physics,’ is usually a near synonym to ‘technology’ and is differentiated in English from ‘technique’ insofar as the latter refers to the almost ineffably practical and particular application of technics to a given concrete task, in French the singular ‘la technique’ and the plural ‘les techniques’ cover together the meanings covered both by ‘technique’ or ‘techniques’ in English and by ‘technics,’ and so the word ‘technics’ as it appears in this text accordingly covers both. Moreover, Simondon is careful to distinguish ‘technics’ from ‘technology,’ which remains programmatic in Simondon’s text and the elaboration of which, as a philosophical logos or meta-theory of technics, this text may be construed as an outline.”
suporte para a constituição de conjuntos técnicos.57 (SIMONDON, 1989, p. 232,
2017, p. 239, tradução nossa).
De todo modo, quanto a essa última citação, parece ser razoável questionar o porquê da utilização do adjetivo técnicos (techniques) em vez de tecnológicos (technologiques), pois está-se a falar de tecnologia, base de objetos e conjuntos… tecnológicos. De todo modo, é em português que esse questionamento parece fazer sentido, e Simondon (1989) deve ter tido suas razões, as quais talvez repousem nas idiossincrasias idiomáticas mais profundas58, naquelas
dificilmente traduzíveis ou apreensíveis, entre uma língua e outra, mediante explicações de livros-texto – trata-se de limitação do processo comunicacional que, conforme já se adiantou desde o resumo, é uma das proposições desta tese.
Não se pretende, inclusive em coerência com o conhecimento dessa limitação, exaurir a discussão sobre o assunto, ante a própria evidência de que se está, em qualquer caso, diante da ocorrência de polissemia. Quanto a isso, observa-se a própria informação na página de internet referente ao programa de vinculação deste trabalho (UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA FEDERAL DO PARANÁ, 2018):
Tecnologia é um termo polissêmico, seja devido aos inúmeros significados que variam de acordo com os diferentes grupos que a interpretam, ou aos diferentes valores que ele incorpora em seu uso concreto. […] Dessa forma adotamos o conceito de tecnologia de Ruy Gama [, ] da ‘tecnologia como ciência do trabalho produtivo’, que permite a percepção do processo de sistematização científica presente nos processos tecnológicos, sem desconsiderar as suas dimensões políticas, econômicas e sociais.
Aparentemente se coloca, no caso, a tecnologia como espécie do gênero ciência – algo que também pode gerar discussões acaloradas59, por seus próprios motivos –, mas a relação
entre tecnologia e técnica aparece apenas em outro excerto, no qual se afirma que
[…] o mundo da técnica não está isolado, nem é autônomo. A tecnologia transcende a dimensão puramente técnica e incorpora outros elementos da vida social, o que a torna um vetor de expressão da cultura das sociedades. A compreensão da tecnologia como uma dimensão sociocultural na qual ela é gestada, permite considerá-la como
57 No original: “L’institution d’une technologie possède la même signification que celle de l’oecuménisme, mais
elle a pour conséquence de faire saisir, à partir d’une normalisation générale du vocabulaire et des notions communes, remplaçant la fausse spécificité des termes de métier, causée par l’usage et non par l’essence propre des éléments, la véritable particularité élémentaire des objets techniques; la technologie est ce à partir de quoi la pluralité des objets techniques, dépositaire de la technicité primitive, sert de base pour la constitution des ensembles techniques.” Na versão em inglês: “The institution of a technology has the same signification as that of ecumenism, but its consequence is making one grasp the true elementary particularity of technical objects, on the basis of a general normalization of the common vocabulary and notions, replacing the false specificity of trade terms, caused by use and not by the essence proper to the elements; technology is that on the basis of which the plurality of technical objects, which is the depositary of primitive technics, serves as the basis for the constitution of technical ensembles.”
58 De fato, a consulta (realizada em 06/04/2020), via Google®, do termo exato “les objets technologiques” retorna
43.100 resultados, enquanto “les objets techniques” retorna 699.000.
um elemento fundante da sociedade, mas não determinante. A tecnologia é parte da cultura e deve ser compreendida em sua interconexão com outros elementos culturais (UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA FEDERAL DO PARANÁ, 2018).
Isso parece indicar que a técnica (substantivo utilizado na primeira linha da citação) comporia uma dimensão da vida social (devido ao “outros”), e que a tecnologia transcenderia essa dimensão, servindo para exprimir a cultura das sociedades. Mas, se a própria técnica estiver aderida à vida social, ela também o estará em relação à cultura, igualmente exprimindo- a, o que, parece, acaba compondo uma circularidade de significados, impedindo uma diferenciação inequívoca.
Ante esse impedimento, pode ser conveniente consultar outras opiniões. Por pertinência, apresenta-se a do professor João Augusto Souza Leão de Almeida Bastos, figura central na elaboração do projeto e no marco inicial de funcionamento do PPGTE/UTFPR60 e
que também apresenta, à semelhança da página institucional do PPGTE/UTFPR mencionada mais atrás, um conceito baseado em Ruy Gama, amalgamado com a questão social trazida, logo atrás, pela outra citação do PPGTE/UTFPR:
A relação da educação com a tecnologia imprimirá a esta última a dimensão fundamental de que não se trata de simples aplicações técnicas. Há vinculações necessárias aos modos de produção, recorrendo cientificamente às teorias e métodos, para melhor aplicar e realimentar o processo de produção (GAMA, 1986). […] Pelas características da tecnologia e suas implicações, há uma estreita correlação entre o sistema técnico e social. Inúmeras influências de mutações técnicas são exercidas sobre a sociedade ou a rigidez de uma sociedade repercute sensivelmente sobre o progresso técnico. (BASTOS, 1997, p. 6).
Aqui, observa-se que o termo técnicas/técnico possui função adjetiva, e não substantiva, mas de todo modo é possível inferir que há a afirmação tácita de que técnica e tecnologia (substantivos) não seriam sinônimos, e que a tecnologia estaria vinculada à técnica e ao social. Mas, qual seria então o conceito de técnica, mantendo-se esse conceito de tecnologia? Diversas consultas a artigos do mesmo autor indicam uma utilização do termo baseada, parece, na assunção de que se trata de conhecimento comum ou mesmo (filosoficamente) transcendental: não há uma definição ou conceito específicos, a despeito de,
60 O projeto de implantação do mestrado foi elaborado pelo professor Bastos em 1993 e o programa foi
inaugurado em agosto de 1995. Em janeiro de 2008 teve início o doutorado. Cf. OSTAPIV, Fabiano. Discussões com o professor João Augusto Souza Leão de Almeida Bastos sobre a concepção e implantação do Programa de Pós-Graduação em Tecnologia (PPGTE), na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Revista Tecnologia & Sociedade, Curitiba, v. 5, n. 9, jul./dez. 2009. Disponível em: https://bit.ly/3aJIhGe. Acesso em: 5 abr. 2020. 17 p; BRASIL. Ministério da Educação. Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Plataforma Sucupira. Dados do Programa
Tecnologia e Sociedade da Universidade Tecnológica Federal do Paraná. 2017. Disponível em:
em certa obra, ao discorrer sobre os então Centros Federais de Educação Tecnológica (CEFETs)61, o professor Bastos (1998a, p. 120) ter opinado no sentido de que
Dentro de uma instituição de educação tecnológica, faz-se necessário o estímulo das discussões que permitam uma maior compreensão dos aspectos relacionados à tecnologia, à técnica, ao ensino técnico e à educação tecnológica. Portanto, é de suma importância o entendimento desses conceitos e de suas interrelações. Entretanto, percebe-se que, ao longo da história, confusões conceituais ainda permanecem, bem como posturas profissionais diversas daquelas inicialmente consideradas coerentes com o perfil dos CEFETs.
Não houve, contudo, na sequência textual dessa obra, qualquer esclarecimento conceitual, de modo que as “confusões conceituais ainda permanecem” mesmo após ela, o que motiva a continuação das buscas. Como em um fio de Ariadne, recorre-se a Ruy Gama, utilizado tanto na citação pelo PPGTE/UTFPR (UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA FEDERAL DO PARANÁ, 2018) quanto nas duas obras do professor Bastos (1997, 1998a). Assim, verifica-se que a citação diz respeito (ou, ao menos, pode dizer) ao artigo intitulado A tecnologia em questão, em que Gama (1990, p. 43, grifo do autor) leciona que
Essas discussões [quanto às relações entre ciências e tecnologia] têm duas origens principais: a primeira delas, aparentemente apenas semântica, decorre da adoção do termo tecnologia como tradução do inglês technology. […] Nessa acepção inglesa hoje largamente difundida, technology não se distingue claramente de técnica ou conjunto de técnicas […] A outra origem da discussão em curso é a que estabelece uma hierarquia na qual a teoria (a ciência) ocupa lugar privilegiado em relação à prática (à técnica, ao trabalho). Recuso-me, portanto, a aceitar a tecnologia como ciência aplicada, e advogo sua definição como ciência, ela mesma, voltada para a produção. Diria então que a ‘tecnologia é a ciência do trabalho produtivo’.
Tem-se, agora, uma definição de tecnologia desvinculada de técnica, e, para uma definição desta, recorre-se a outro autor referenciado pelo professor Bastos (1998b) e que, curiosamente, apesar da referenciação, e à semelhança de outros 32 autores referenciados na mesma obra, não foi citado no texto: Milton Vargas. Vargas (2003, p. 178) ensina que
[…] o interesse maior [em meados do século XX] não mais estava no estudo da Técnica, mas, sim, no da Tecnologia. Isto é, de que as atividades técnicas não mais eram resumíveis ao trabalho manual ou mecânico sobre materiais ou construção de obras. De que, entre os técnicos dos nossos tempos, haviam [sic] os tecnologistas,
61 Há outro artigo do professor Bastos, intitulado A educação tecnológica – conceitos, características e
perspectivas, cuja introdução, em cinco parágrafos, é praticamente idêntica (a exceção são cinco palavras de
315) à do artigo cuja citação direciona a esta nota de rodapé. A similaridade total (termos comuns) entre os dois artigos, contudo, é de 4%. Curiosamente, ambos os artigos foram publicados em uma mesma edição de periódico, a qual se tratou de coletânea organizada pelo próprio professor Bastos. Cf. BASTOS, João Augusto.