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5 CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES PARA TRABALHOS FUTUROS 106 5.1 CONCLUSÕES

4 ESTUDO DE CASO

4.1 PROGRAMA MICROBACIAS: CONTEXTO HISTÓRICO

4.1.2 Programa Microbacias

Como apontado no capítulo de contextualização, no transcorrer dos anos de 1990 se evidenciava que os avanços sociais e econômicos esperados pelo desenvolvimento do modelo agrícola catarinense não tinham perspectivas de se

concretizar. Nesse período, em pleno desenvolvimento do Microbacias 1, verificou- se que, mesmo tendo melhorado os níveis de produtividade, resultado das novas tecnologias recomendadas pela assistência técnica e pesquisa pública e por agentes privados, muitas famílias rurais não viam sua condição social e econômica avançar. A exclusão das famílias rurais das cadeias produtivas não era mais exclusividade das considerados ineficientes. Em importantes cadeias produtivas do Estado, produtores considerados eficientes passaram a ser também excluídos.

A experiência vivida com o desenvolvimento rural com base na agropecuária intensiva até então mostrava suas limitações, especialmente pelo caráter exclusivamente tecnológico. Também se passou a constatar que os problemas ambientais se mostravam cada vez mais complexos, como o agravamento da contaminação da água; intensificação do uso inadequado de agrotóxicos e outros químicos, provocando contaminação ambiental e reflexos na saúde das famílias; qualidade dos alimentos produzidos (SIMON, 2003; MARCONDES, 2011).

Assim, pressões políticas de entidades representativas de agricultores passaram a ocorrer com maior frequência no Estado, reivindicando mudanças nas tradicionais ações públicas para o setor. Adicionalmente, atores formadores de opinião no âmbito estadual se davam conta de que a melhoria das oportunidades de muitas famílias no espaço rural dependeria de ações públicas mais abrangentes (MIOR, 2005).

A criação do Pronaf no contexto nacional deu inicio a uma ação mais sistemática do poder público para amenizar os problemas que se apresentavam para os agricultores familiares. Em Santa Catarina, a principal iniciativa pública de caráter abrangente ocorreu por meio do Microbacias 2. Esse Programa foi concebido na segunda metade dos anos 1990, teve seu início em 2002 e término em 2009.

A ampliação da complexidade e abrangência nos objetivos do Microbacias 2 em relação ao Microbacias 1 se verifica em suas estratégias, como a sua forma participativa de concepção, na incorporação do conceito de desenvolvimento sustentável; na formação de uma estrutura executiva e deliberativa específica, de abrangência estadual, regional, municipal e de microbacias; e no reforço da assistência técnica para o trabalho nas comunidades (SANTA CATARINA, 2009).

A concepção do Programa foi coordenada por uma equipe interinstitucional designada pela Secretaria de Estado da Agricultura. As diretrizes propostas pelo

Banco Mundial e pelo Estado indicavam que deveria se atuar com o público mais pobre e com as regiões com maior degradação ambiental, incluindo todos os municípios catarinenses.

Durante o período de concepção, que se aproximou de quatro anos, foram realizadas duas dezenas de eventos com lideranças, técnicos e agricultores em diferentes regiões do estado, os quais envolveram cerca de 2.000 pessoas. Os eventos tiveram o intuito de colher subsídios para alinhamento da proposta. Também participaram dessas reuniões representantes de prefeituras, organizações públicas e privadas, cooperativas, ONGs, universidades, entre outros.

A concepção do Microbacias 2 se deu num contexto em que se ampliava a ideia de que as políticas públicas tinham que contemplar a participação social. No âmbito global, as diretrizes e políticas de atuação do Banco Mundial e da FAO incorporaram a suas linhas estratégicas os mecanismos de participação social em projetos de desenvolvimento setorial.

Já no âmbito do Estado, as avaliações sistemáticas do Microbacias 1 indicaram que seus objetivos foram parcialmente comprometidos pela fragilidade apresentada pelos mecanismos de participação social e o limitado poder deliberativo das estruturas sociais previstas. Também se constatou a limitação do enfoque eminentemente tecnológico-produtivo do Programa (SANTA CATARINA, 1999; NAVARRO, 2007).

Dessa forma, o Microbacias 2 tinha um subcomponente específico, denominado Gestão Participativa, o qual buscou a participação dos diversos atores sociais envolvidos, especialmente das famílias mais fragilizadas, tradicionalmente atendidas de forma marginal em iniciativas de desenvolvimento rural. Assim, as instâncias de gestão participativa criadas buscaram equilíbrio entre os beneficiários e as entidades executoras, além de maior autonomia dos primeiros.

A estratégia participativa definiu que em todas as microbacias participantes seriam constituídos grupos de animação (GAMs), formado por membros de famílias residentes na microbacia e selecionados de forma democrática em reuniões comunitárias. Os membros dos GAMs eram geralmente lideranças naturais que atuaram motivando os moradores da microbacia, visando à formação e participação na Associação de Desenvolvimento da Microbacia (ADM). Ser associada da ADM

era condição necessária para que as famílias rurais fossem consideradas beneficiárias do Microbacias 2 (SANTA CATARINA, 2004).

Entre as principais atribuições das ADMs estavam: coordenar a elaboração, aprovação e execução do plano de desenvolvimento, além dos respectivos projetos comunitários, grupais ou individuais, assumindo a corresponsabilidade pelas ações; gerenciar os recursos necessários à contratação de serviços técnicos; realizar os controles administrativos e financeiros; elaborar o orçamento anual de aplicação dos recursos previstos e negociar recursos complementares para a execução das ações do plano de desenvolvimento; estabelecer as prioridades de aplicação dos recursos, respeitando as normas do Programa (SANTA CATARINA, 2004).

As ADMs tiveram também a responsabilidade de, por meio de recursos de subvenção repassados pelo Programa, contratar serviços de assistência técnica para viabilizar as atividades planejadas. Cada profissional, denominado facilitador, prestou serviços para duas ADMs, e teve como principais atribuições: elaborar propostas de investimentos e planos de desenvolvimento de propriedade; realizar ações de assistência técnica e extensão rural; assessorar as ADMs; preparar a prestação de contas das associações.

Mesmo tendo sido concebido para trabalhar em todos os municípios catarinenses, foi realizada a priorização de municípios e microbacias que combinou critérios socioeconômicos e ambientais. Dessa forma, quanto mais precária a situação socioeconômica e ambiental, maior prioridade tinha o município e a microbacia. Os territórios com maiores carências tinham então maior concentração de trabalho por possuírem maior número de microbacias trabalhadas e a possibilidade de alavancar maior volume de recursos disponibilizados pelo Programa.

Não só as características territoriais foram levadas em conta para a formação de cada microbacia; também o público prioritário foi analisado e categorizado conforme seu nível de renda: periféricos (renda mensal menor que 1 salário mínimo); em transição 1 (renda mensal de 1 a 2 salários mínimos), e consolidados (renda mensal maior que 2 salários mínimos)7.

A estrutura do Programa definiu três grandes linhas de ação nas quais deveriam ser investidos recursos do fundo de investimentos visando à melhoria a

qualidade de vida das famílias rurais das microbacias trabalhadas: a) melhoria ambientais, incentivando práticas para aumentar a disponibilidade e qualidade da água, recuperar e conservar o solo e a biodiversidade; b) melhoria das condições de habitabilidade, envolvendo melhoria da habitação, abastecimento de água e saneamento; c) melhoria da renda, por meio de apoio a empreendimentos agrícolas e não agrícolas, formação de redes, reconversão produtiva da propriedade.

O Programa investiu esforços na capacitação dos beneficiários e dos técnicos executores com vistas a promoção da organização, mobilização comunitária e gestão participativa, capacitação essa que resultou em fortalecimento de organizações existentes e no estímulo à criação de novas formas associativas (SANTA CATARINA, 2004).

O plano de desenvolvimento da microbacia foi resultado de um processo de planejamento comunitário participativo. Assim, os recursos financeiros para colocar em prática as ações poderiam ter origem tanto no Microbacias 2 como em outras fontes. O plano de desenvolvimento se tornou elemento integrador das ações comunitárias, municipais e de outras políticas públicas.