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A educação é comunicação, é diálogo, na medida em que não é a transferência de saber, mas um encontro de sujeitos interlocutores que buscam a significação dos significados.

Paulo Freire, 2011.

“O SUS é movido a gente, e gente que cuida de gente deve ser tratado como gente”. (PAIM, 2009, p. 130) O autor enfatiza a necessidade de valorização do trabalhador como sujeito essencial para apoiar as mudanças imprescindíveis na produção em Saúde. Nesse sentido, o SUS institui a Política Nacional de Humani- zação e a Política Nacional de Educação Permanente em Saúde − PNEPS (BRASIL, 2007), com intuito de orientar as mudanças necessárias à incorporação de novas tecnologias para atenção à Saúde, compreendendo os trabalhadores como ato- res ativos responsáveis pela reconstrução e ressignificação das práticas.

Historicamente, a formação na área de Saúde desenvolve seus campos de prática nos cursos de graduação, notadamente, ambientes hospitalares e clíni- cas, em que persiste, hegemonicamente, o modelo médico assistencial privatis- ta. Este modelo possui ênfase na assistência médico-hospitalar e nos serviços de apoio diagnóstico voltado para o atendimento individual, curativo e com foco na doença.

Nessa perspectiva, os profissionais apresentam fragilidades para atuar jun- to aos problemas de Saúde da coletividade, bem como atender a complexidade das demandas que se apresentam no SUS. Diante desse contexto, as políticas públicas de Saúde e de Educação que envolvem a formação dos profissionais da- quela área – relatadas nas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN)1-9, nas dire- trizes da Comissão Intersetorial de Recursos Humanos do Conselho Nacional de Saúde (CIRH/CNS) e no Fórum Nacional de Educação dos Profissionais da Saúde (FNEPAS) – evidencia, nos últimos anos, a necessidade de implementar mudan- ças na formação profissional, estimulando a criação de práticas que valorizem a interdisciplinaridade e adoção de metodologias ativas no processo ensino-apren- dizagem, que objetivem novas produções de Saúde com vistas à humanização e que contribuam para a qualidade das futuras gerações de profissionais. (LACER- DA, 2009)

No caminho da qualificação profissional, vários programas na perspectiva da capacitação e atualização de recursos humanos foram criados em direção

O acolhimento como orientador do processo formativo | 83 à construção de uma proposta pedagógica na área da Saúde no que tange aos campos teóricos e operativos. (BRASIL, 2003) Nota-se que é preciso contribuir também na dimensão ético-política do futuro trabalhador da Saúde, mediante uma experiência educativa que rompa com o puro treinamento técnico e reco- nheça os elementos fundamentais de formação, alcançando assim o seu caráter transformador.

A formação profissional exige um olhar atento, visto que não é tarefa fácil mudar efetivamente o modo de produzir saúde, desenvolver uma atitude crítica propiciando a criação de espaços pedagógicos relacionais para a corresponsabi- lização dos sujeitos, implicando-os como agente de transformação na produção de saúde. Desta forma, vários programas e políticas foram criados para contribuir com a reorientação da formação profissional em Saúde, a exemplo do Pró-Saúde (2005), PET-Saúde (2010), PNEPS (2007), VER-SUS (2004) e, no âmbito estadual, o PermanecerSUS (2008), que se constituiu num dos primeiros investimentos no campo da integração ensino-serviço no estado da Bahia.

O Programa PermanecerSUS, iniciado em março de 2008, sob responsabili- dade da Diretoria de Gestão do Trabalho e Educação na Saúde (DGTES), em par- ceria com a Escola Estadual de Saúde Pública (Eesp), estruturas integrantes da Superintendência de Recursos Humanos da Saúde (SUPERH), no contexto da Se- cretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab), se traduz como um programa que integra ensino-serviço numa proposta de inclusão social, contribuindo, por um lado, na potencialização do acolhimento e práticas humanizadas nas unidades e, por outra perspectiva, na reorientação da formação profissional dos futuros tra- balhadores da Saúde, em consonância com o projeto ético-político do SUS. Neste mesmo ano, foi lançada a Política Estadual de Gestão do Trabalho e Educação na Saúde do SUS-Bahia (PEGTES), que contém em seus princípios e diretrizes estratégias que contemplam tanto a dimensão do trabalho em Saúde como uma produção histórica, cultural e política, como a dos trabalhadores da Saúde como sujeitos e agentes transformadores de seus saberes e práticas. Neste contexto, o processo educativo seria “como um ato criativo, comunicativo, de corresponsa- bilização e produtor de sentidos e significados, capaz de provocar mudanças nos sujeitos e nas suas práticas, contribuindo assim, para a humanização da atenção à saúde e democratização da gestão do SUS”. (BAHIA, 2012)

O PermanecerSUS é organizado de forma a permitir o desenvolvimento de acolhimento junto aos usuários e acompanhantes nos serviços de Saúde, desen- volvendo a escuta qualificada, por meio de estágio não obrigatório, entre o 3º e o 7º semestre, dos cursos de Saúde, bacharelado interdisciplinar, Serviço Social e

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Psicologia, das Instituições de ensino superior, contemplando a carga horária de 16h de atividades práticas e 4h de Educação Permanente Ampliada.

O acolhimento desenvolvido pelos estudantes dentro da prática de está- gio como dispositivo da humanização também é assumido como orientador do processo pedagógico, desde o momento da seleção do programa à vivencia no estágio, que aposta no “trabalho como princípio educativo”, utilizando as expe-

riências do acolhimento para a formação crítico-reflexiva dos estagiários. Nessa perspectiva, é possível provocar nos estudantes uma postura ética e responsável durante seu processo de formação, bem como desenvolver práticas humaniza- das nos serviços que se encontram

[...] no modelo de desatenção, se expressa em um caleidos- cópio de maus tratos e desrespeito ao direito à saúde: filas vergonhosas para assistência médica, descortesia nos gui- chês, desatenção de seguranças, recepcionistas, auxiliares e profissionais de saúde [...]. (PAIM, 2009, p. 89)

No contexto do Programa Permanecer SUS, o acolhimento é compreendido como um dispositivo e diretriz da Política Nacional de Humanização, sendo

[...] o encontro entre usuário e profissional/estagiário que por meio da escuta qualificada, estabelece uma relação de vínculo, onde o agente de saúde se corresponsabiliza pela demanda apresentada, como também desenvolve processo de comunicação interna para articulação da rede de serviço de saúde, com vista à garantia da resolutividade e continui- dade da atenção humanizada. (BAHIA, 2008, p. 8)

A prática de acolhimento estimula os estudantes a estabelecerem vínculos solidários com usuários e trabalhadores de modo a potencializar a garantia de acesso e informação com qualidade fortalecendo o direito dos usuários do siste- ma de Saúde. Essa experiência provoca o repensar na organização, no cuidado e atenção por parte do próprio serviço de Saúde, contribuindo na ampliação do acolhimento e qualidade da assistência.

Ademais, os estudantes vivenciam o campo do cuidado como espaço de atu- ação crítica, reflexiva, comprometida, propositiva e tecnicamente competente no qual produz ações contra-hegemônicas diante do conservadorismo vigente de algumas práticas educativas desenvolvidas no âmbito do SUS. (CECCIM, 2004-

O acolhimento como orientador do processo formativo | 85 2005) Outrossim, experienciam no estágio a prática interdisciplinar, a formação de rede, estudo e discussão de caso, Educação permanente visando a aproxima- ção do ensino/serviços de Saúde sob gestão direta do Estado.

Nesse sentido, o acolhimento, conduta assumida na produção de saúde no estágio do PermanecerSUS, é utilizado como orientador das práticas educativas, se pautando na reflexão do trabalho cotidiano. A metodologia desenvolvida em- prega o uso de perguntas geradoras para favorecer o processo de problematiza- ção, por seguinte a introdução de conteúdos novos e, por fim, a construção da prática significativa. Portanto, o acolhimento favorece a produção de sentidos no fazer em Saúde, pois se mobiliza nas relações concretas que operam realidades, propiciando a construção de espaços coletivos para a reflexão e avaliação das práticas no cotidiano, estimulado assim a implantação de outros dispositivos da humanização, de modo que seu desenvolvimento e análise colaboram na forma- ção de sujeitos mais críticos, criativos e propositivos para o trabalho em Saúde.

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