Devanir Garcia dos Santos1 1 Engenheiro Agrônomo: Coordenador de Implementação de Projetos Indutores da Agência Nacional
de Águas (ANA) – Brasília - DF.
Desenvolvido pela Agência Nacional de Águas - ANA, o “Programa Produtor de Água” é um programa voluntário no qual são beneficiados produtores rurais que, por meio de práticas e manejos conservacionistas e de melhoria da cobertura vegetal, venham a contribuir para o abatimento efetivo da erosão e da sedimentação, e para o aumento da infiltração de água.
Sua concepção foi embasada na necessidade de reverter a atual situação de muitas bacias hidrográficas em que, o uso inadequado do solo e dos recursos naturais concorrem para a degradação dos recursos hídricos. Para tanto, o programa contempla o apoio a projetos de pagamento por serviços ambientais em um contexto de recuperação ambiental com foco na disponibilidade quali-quantitativa de recursos hídricos.
Trata-se de um programa moderno, perfeitamente alinhado com a tendência mundial de pagamento por serviços ambientais, como forma de incentivar práticas que contribuam para a preservação dos recursos naturais, em especial a água.
É baseado no mesmo princípio que orienta o pagamento pelo uso da água usuário-pagador quando a ação gera externalidades negativas; e provedor-recebedor quando gera externalidades positivas.
O conceito de externalidade é chave para entender as motivações para os programas de PSA. A humanidade usa os recursos naturais e o meio ambiente gerando externalidades positivas ou negativas, que impactam a sociedade atual e as futuras gerações. A premissa básica para o PSA é compensar os agentes econômicos que manejam o meio ambiente e os recursos naturais gerando bens ambientais e serviços que beneficiam não somente ele mesmo, mas principalmente a sociedade, seja a sociedade local, a sociedade regional ou mesmo a sociedade global.
Além do caráter econômico, os sistemas de PSA contribuem na educação (conscientização) ambiental na medida em que insere uma nova relação entre os fornecedores dos serviços e os beneficiários, e entre esses e a natureza.
O PSA aparece como uma forma de agregar valor monetário aos serviços gerados, tornando a oferta de serviços ambientais parte da decisão estratégica dos agentes, pois os usuários terão um incentivo direto a tornar suas práticas mais sustentáveis. Os projetos que compõe o Programa são voltados a produtores rurais que se proponham, voluntariamente, a adotar práticas e manejos conservacionistas em suas propriedades com vistas à conservação de solo e água. Para que um projeto de pagamento por serviços ambientais se credencie como parte do Programa Produtor de Água e receba o apoio da ANA é necessário cumprir uma série de exigências em
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Local: Auditório “Profº. Paulo Rodolfo Leopoldo – FCA/UNESP, Campus de Botucatu Fazenda Lageado Botucatu - São Paulo – Brasil. CEP: 18610-307 - Caixa postal 237
termos de conceitos e metodologias, como por exemplo, possuir o pagamento por serviços ambientais (PSA) dentro de um contexto de recuperação ambiental, ser aplicado na área rural, ser implementado na sub-bacia hidrográfica, estabelecer parcerias, dentre outras.
Atualmente, o Programa Produtor de Água conta com 38 projetos de PSA distribuídos nas regiões sul, sudeste, norte, nordeste e centro-oeste do país, com diferentes arranjos e em diferentes estágios de implantação. Apesar dos arranjos serem adaptados à realidade local, o pagamento pelos serviços ambientais nos diferentes projetos segue sempre a mesma base metodológica: o valor a ser pago deve ser diretamente proporcional ao abatimento da erosão e da sedimentação. É importante ressaltar que a eficácia dessas ações na redução da poluição difusa e no aumento da infiltração de água no solo deve ser sempre analisada, sendo, por essa razão, o monitoramento uma etapa imprescindível de cada projeto.
O Programa prevê o apoio técnico e financeiro à execução de ações de conservação de água e solo, tais como: a construção de terraços e de bacias de infiltração, readequação de estradas vicinais, agricultura e pecuária sustentáveis, recuperação e proteção de nascentes, reflorestamento das áreas de proteção permanente e reserva legal, saneamento ambiental, entre outros. Prevê também, o pagamento de incentivos (compensação financeira e outros) aos produtores rurais que, comprovadamente, contribuam para a proteção e recuperação de mananciais, gerando benefícios para a bacia e sua população.
A concessão dos incentivos somente ocorre após a implantação, parcial ou total, das ações e práticas conservacionistas previamente contratadas.
Os valores a serem pagos aos produtores são calculados em função do abatimento da erosão e da sedimentação proporcionados pela prática implementada e da melhoria da cobertura vegetal da bacia, analisando-se sempre a eficácia dessas ações na redução da poluição difusa e no aumento da infiltração de água no solo. O Programa é implementado por sub-bacias, onde existam condições para a criação de um mercado, ou seja, onde existam interessados em água com garantia de oferta e qualidade e estejam dispostos a pagar por ela e atores com condições e interesse de desenvolver ações voltadas à ampliação da oferta e melhoria da qualidade da água, mediante recebimento de incentivos.
A idéia subjacente, e que encontra amparo na legislação vigente, é de que quando um usuário causa um prejuízo à bacia hidrográfica, seja reduzindo a disponibilidade de água, ao captá-la para determinado uso, seja prejudicando sua qualidade, ao lançar efluentes em um corpo d’água, esse usuário deverá pagar por esse uso; ora se determinado usuário, ao utilizar práticas adequadas e ambientalmente sustentáveis ou mesmo, ao tratar adequadamente os resíduos de sua produção, traz benefícios a bacia, sejam eles de maior disponibilidade de água ou de melhoria da qualidade dos recursos disponíveis, é justo que ele receba um incentivo para continuar executando tais práticas.
A experiência na implementação dos projetos tem demonstrado a necessidade de um acompanhamento muito próximo da execução das ações, e um longo tempo de
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implementação, mobilizando assim um grande número de atores. Desta forma, se evidencia a necessidade do fortalecimento de parcerias, notadamente com os estados e municípios, onde poderiam ser constituídas equipes capazes de desempenhar este papel, com impactos positivos na ampliação da escala de implementação do Programa.
Neste sentido, a ANA vem trabalhando para motivar estados e municípios a constituírem essas equipes, as quais passariam a atuar no seu raio de ação, da mesma forma que a ANA atua hoje no Programa em nível nacional, com a vantagem de contar com apoio técnico e financeiro da ANA no desenvolvimento dos projetos. O desenvolvimento dessas equipes, além da decisão municipal ou estadual de constituí-las, requer a capacitação de técnicos, com a realização de diversos cursos, realização e participação em workshops e seminários, além de inúmeras visitas a projetos implantados e em implantação, envolvendo nesses trabalhos, além da equipe técnica da ANA, os diversos técnicos que hoje atuam nos projetos bem como a academia, na busca de novos conhecimentos que permitam alcançar melhores resultados com menor esforço.
Como se sabe, quando bem manejada, a agricultura é uma das poucas atividades econômicas capaz de “produzir” água em quantidade e de boa qualidade, ao contribuir para sua reservação no solo, guardando-a com qualidade para os períodos de escassez. A ANA espera que, com este Programa, os beneficiários da melhoria de qualidade e da quantidade de água na bacia (empresas de saneamento, indústrias, municípios, estados) possam co-financiá-lo. Assim, o Programa permitirá uma participação crescente de produtores, gerando um círculo virtuoso em que todos (sociedade e meio ambiente) só têm a ganhar.