CAPÍTULO III – PROGRAMA SIMPLES PARA ATENDER FAMÍLIAS COMPLEXAS
2. O programa saúde da família
O Programa Saúde da Família instalado no Sistema Brasileiro de Saúde (SUS), de caráter único, tem sua origem e inspiração no programa Médico de Família operacionalizado em Cuba. Suas principais propostas são prever a reversão do modelo assistencial vigente, na sua forma de atenção, atuação e organização geral dos serviços.
Criado em 1994, o Programa Saúde da Família (PSF) tem como propósito organizar a prática da atenção à saúde em novas bases e substituir o modelo tradicional, levando a saúde para mais perto da família e, com isso, melhorar a saúde dos brasileiros. A estratégia do PSF incorpora e reafirma os princípios básicos do SUS: universalização, descentralização, integralidade e participação da comunidade. Tal estratégia prioriza as ações de prevenção, promoção e recuperação da saúde das pessoas, de forma integral e contínua. O atendimento é prestado na Unidade Básica de Saúde (UBS) ou no domicílio,
pelos profissionais (médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem e agentes comunitários de saúde) que compõem a equipe de saúde da família. Assim, esses profissionais e a população acompanhada criam vínculos de co-responsabilidade, o que facilita a identificação e o atendimento aos problemas de saúde da comunidade.
O grande avanço do atendimento que realizado pelo PSF é atender às famílias em seu próprio ambiente de moradia, espaço onde as relações intra e extrafamiliares são construídas, assim como a luta pela melhoria das condições de vida. Fazer um atendimento com essa proximidade permite uma compreensão ampliada sobre o processo saúde-doença, com possibilidades de se fazer intervenções com maior impacto e significado social. Prestar atendimento nessas condições pode significar, ainda, que se tenha um olhar técnico e político mais ousado para romper com os limites impostos pelos muros das unidades de saúde.
“Este programa é hoje a principal proposta de reorganização do atendimento do SUS. Ele humaniza a relação profissional de saúde/cidadão, reorganiza as referências e racionaliza os gastos. É esse esforço de mudança estrutural que vai resolver, a médio prazo, o problema das filas nos nossos hospitais e prontos-socorros” (Eduardo Jorge, in Souza, 2002: 29).
O PSF é um programa público que conseguiu se estabelecer como serviço que garante grande resolutividade nas questões de saúde básica da população, principalmente nos municípios de pequeno porte. Essa facilidade de implantação e de penetração do programa nos municípios de até 20 mil98 habitantes, e as dificuldades do programa nos municípios com mais de 100 mil habitantes, já vinha sendo discutida desde 200299. Há quem afirme que essa dificuldade de penetração que o PSF enfrenta nos municípios de grande porte, nas capitais e regiões metropolitanas, esteja associado ao fato de a população estar acostumada com os serviços especializados, cultura que circula e que se avoluma, fazendo com que a população busque atendimento nos serviços de maior complexidade, como é o caso dos prontos-socorros e hospitais.
Levantamento do Departamento de Atenção Básica, do Ministério da Saúde (feito entre janeiro e agosto de 2005), indica que a cobertura realizada pelo PSF é de 43, 4% da população. Para fazer a cobertura dessa população, o PSF conta com 23,9 mil equipes, que estão em funcionamento, em 4,9 mil municípios brasileiros. Dados do
98 O documento da Política Nacional de Assistência Social indica que o número de municípios com até 20
mil habitantes está em torno de 4.018. Neles, reside uma população estimada em 33.437.404 habitantes (rural e urbana).
Ministério da Saúde indicam que a cobertura do programa é progressiva, inclusive nos grandes centros urbanos onde o programa tem dificuldade, e ainda não conseguiu superar as dificuldades de ampliação do atendimento, de forma a cumprir a meta de 100% de cobertura. Esse é um dos pontos de estrangulamento do programa, já que nesses grandes centros urbanos, nas regiões metropolitanas e, particularmente, nas metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro, reside mais de 50% da população brasileira.
“Assim, os sujeitos sociais que ’aderiram‘ à proposta ao longo desses anos vêm cumprindo seu papel de articulador e ’demonstrador‘ dos resultados positivos e dos desafios dessa estratégia nos diferentes níveis de governo. Em especial, os municípios que trazem para si esse projeto político têm contribuído para afirmar, em “público”, um conjunto de idéias que possam sustentar a tese de que os princípios organizativos do PSF de fato valem para qualquer espaço social, seja urbano, rural, pequeno, médio ou de grande porte. Portanto, serve para capitais e regiões metropolitanas do Brasil (...) por que
estas estratégias nos grandes centros urbanos não assumem de fato a responsabilidade de tornar-se o eixo estruturante da Atenção Básica, em vez de correr e/ou concorrer com a forma de organização dos sistemas de saúde vigente nestas cidades? (...) e o que representa a baixa cobertura dessas estratégias nas metrópoles globais (São Paulo e rio de Janeiro), nas metrópoles nacionais (Salvador, Belo Horizonte, Fortaleza, Brasília, Curitiba, Recife e Porto Alegre), e nos centros regionais em especial nas capitais?” (Souza, 2002: 25).
O Quadro 3 trás os dados de uma pesquisa realizada pelo Ministério da Saúde acerca do atendimento realizado pelo programa. O jornal O Estado de S. Paulo, em sua edição do dia 12 de março de 2006, publicou alguns dados relativos à cobertura que o PSF vem conseguindo fazer nesses anos de funcionamento.
Quadro 3 - População brasileira coberta pelo PSF - em porcentagem Ano de referência Cobertura %
1998 6,55 2002 32,05 2004 40,40 2005 44,40 Fonte: Ministério da Saúde.
Os dados do Quadro 3 mostram que a cobertura realizada pelo PSF tem um crescimento progressivo desde que foi implantado como serviço de atenção básica do SUS, mas a cobertura realizada pelo programa ainda é insuficiente, já que não consegue fazer
uma cobertura universal da população que dele necessita. Ao observar as porcentagens de cobertura que o programa atingiu em 2005, se observa que apenas um quarto da população brasileira está sendo contemplada com as ações do PSF.
Dados do Fundo Nacional de Saúde apontam que no estado de São Paulo, o programa Saúde da Família (PSF), já instalou 488 Programas de Agentes comunitários de Saúde (PACS), que está presente em 76,7% dos 645 municípios. Os programas de Agentes Comunitários estão conseguindo fazer uma cobertura a 10.688.508 de pessoas, o que equivale a 27,3% da população paulista. Paralelamente às implantações das PACS, foram também instaladas no estado, 454 equipes de Saúde da Família, equivalendo à presença nos 70,4% dos municípios. As equipes do PSF estão atendendo a um total de 8.4476.333 de pessoas, o que equivale a 21,9% da população do estado.
Na cidade de São Paulo, o PSF começou com a instalação do Projeto Qualis I em Itaquera, zona leste da capital, e o Qualis II, na zona norte e sudeste da capital. Os dois projetos foram executados por meio de convênio com o Hospital Santa Marcelina e a Fundação Zerbini. Em abril de 2001, a Secretaria Municipal de Saúde implantou o PSF como serviço de atenção básica.
Nos dois distritos100 das famílias pesquisadas (Itaim Paulista e Jardim Helena), existem quatro unidades do PSF, sendo três no Itaim Paulista e uma no Jardim Helena, conforme já demonstrei no Capítulo I. Nenhuma das quarenta famílias deste estudo são atendidas pelas ações do PSF, já que elas residem fora dos seus quatro territórios de abrangência. O PSF também funciona referenciado na lógica setorializada. Talvez essa seja uma das razões dessas famílias estarem entre aquelas atendidas pelas ações do PSF. O fraco e quase inexistente trabalho de articulação intersetorial, que apesar de necessário e de muita significância, ainda é muito pouco usual e efetivo nos vários setores que planejam, programam e prestam atendimento nos vários serviços das políticas sociais.
Fui informada pela diretora de saúde da região (subprefeitura de São Miguel) que o PSF na cidade de São Paulo tem grandes dificuldades para fazer o atendimento efetivo das famílias. Segundo a gestora, um dos principais problemas vivido pelo PSF na
100As três Unidades Básicas de Saúde onde funciona o PSF no distrito do Itaim Paulista foram instaladas entre 2003/2004, e estão localizadas nos seguintes endereços: UBS - Jd. Indaiá / PSF - Rua Antonio Leme Guerra,182 – Jd. Indaiá. Nesta unidade, há quatro equipes e 14.408 pessoas cadastradas. Na unidade básica Atualpa Girão Rabelo, que se encontra localizada na rua Ilha do Arvoredo, 10 - Vl. Morgadouro, o PSF possui três equipes, que atende 9.471 pessoas cadastradas. Na UBS/PSF Cidade Kemel - av. Kemel Adas , 1031 - Cidade Kemel, que possui quatro equipes e atende 16.536 pessoas cadastradas. A unidade do PSF do Jardim Helena é a UBS/PSF Jardim Maia, que foi instalada na rua Marfim Vegetal, 108; nela existem cinco equipes e 16.124 pessoas cadastradas. As 40 famílias que participaram deste estudo residem fora desses quatros territórios, talvez por isso nenhuma é atendida pelas ações de saúde do PSF.
cidade é não ter uma equipe de profissionais que compreenda a proposta do programa e suas reais dimensões. Muitos dos profissionais que trabalham nas unidades do PSF, particularmente os médicos, são contrários às propostas do PSF, enquanto atenção básica de saúde.
“Na verdade, os profissionais são inexperientes, a maioria não acumula conhecimento acerca da realidade vivida pelas famílias (com exceção dos agentes comunitários). No caso dos médicos, na maioria dos casos são recém-formados e/ou aposentados. Há também o fato da rotatividade muito grande desses profissionais, que além de desconhecer a realidade onde trabalham, não gostam do que fazem e invariavelmente, abandonam o programa quando arranjam outras propostas de trabalho”.(Diretora da Coordenadoria de Saúde de São Miguel/Itaim Paulista)
A realidade explicitada no relato da gestora pode ser traduzida como um grande desafio que os gestores do programa precisam enfrentar rapidamente, se quiserem que o PSF cumpra a importante função: ser referência na atenção básica de saúde para a população que utiliza o SUS, principalmente, a população de baixa renda que não dispõe de recursos financeiros para acessar os serviços de saúde mantidos pela iniciativa privada, como é o caso das famílias deste estudo.