5. DESCRIÇÃO E ANÁLISE DOS PROGRAMAS DE FORMAÇÃO CONTINUADA DE
5.3. Programas de Formação Continuada da Casa da Ciência
O programa de oficinas temáticas para professores, associado às exposições da Casa da Ciência, foi analisado com base nas informações disponibilizadas na página do museu na Internet e no depoimento do pesquisador da área, identificado por CC1, e nas observações “in loco”.
As oficinas temáticas são oferecidas aos professores durante o período de realização de uma dada exposição, visto que a Casa da Ciência trabalha especificamente com mostras e exposições abertas ao público escolar em geral. Para a elaboração das oficinas, geralmente a equipe técnica da Casa entra em contato com os professores que já possuem cadastro junto ao centro,
para conferir com os professores os conteúdos mais interessantes de serem abordados na atividade de formação, como destacado pelo pesquisador CC1.
Nós trabalhamos com os professores ao máximo no museu interativo, na casa de exposições, a gente trabalha com temáticas diferenciadas, é claro que a gente tem um norte, mas como a gente não tem uma exposição de caráter permanente, cada exposição é um novo programa que tem que ser feita a pesquisa do que o professor quer, a gente procura ouvir muito o professor (...). (Pesquisador CC1 – Casa da Ciência)
As oficinas ou os cursos de curta duração oferecidos juntamente com as exposições têm o objetivo de munir o professor com conteúdos atualizados num determinado tema, além de oferecer atividades experimentais simples que possam ser desenvolvidas pelo professor em sala de aula. Um exemplo foi a oficina oferecida junto à exposição dos 50 anos do DNA, onde os professores tiveram acesso a técnicas genéticas e participaram de discussões sobre o tema com especialistas da área, como destaca o pesquisador CC1.
E aí nessa exposição [50 anos do DNA] nós fizemos algumas oficinas com os professores para que eles aprendessem algumas técnicas que pudessem ser feitas em sala de aula, como a extração do DNA, a manipulação genética, a observação de drosófilas e também coisas éticas. Nós fizemos seminários para discutir as questões éticas em torno da ciência, das questões de clonagem. (Pesquisador CC1 – Casa da Ciência)
Os professores são convidados a visitar as exposições com os alunos por meio de uma carta que é endereçada diretamente aos professores cadastrados na Casa da Ciência, os quais freqüentaram anteriormente o centro. Isso porque, segundo o pesquisador CC1, muitas vezes quando o convite é endereçado à escola, acaba não sendo difundido entre os professores. O convite é acompanhado de informações sobre a mostra e sugestões de como os conteúdos da exposição podem ser trabalhados em sala de aula, como pode ser observado no depoimento do pesquisador CC1.
A única coisa que a gente mantém [em cada exposição] é a carta que eles recebem sobre a temática da exposição, como ela está organizada e dando uma mostra de onde os parâmetros curriculares estão inseridos, temas transversais que podem ser trabalhados em termos de cultura, raça e algumas pequenas sugestões de trabalho em sala de aula. (Pesquisador CC1 – Casa da Ciência)
As oficinas e os cursos são montados para atualizar o professor em determinado tema abordado na exposição, e são oferecidos em períodos curtos, com encontros de 2 a 4 horas no centro de ciências. Para tanto, a Casa da Ciência muitas vezes convida professores universitários e pesquisadores de institutos de pesquisa para trabalhar determinados conteúdos científicos com os professores das escolas. Isso, não apenas para que os professores tenham contato com o tema, mas para que possam trocar informações e experiências com esses profissionais. Geralmente as oficinas abordam o tema de forma a introduzir os conceitos científicos por meio de uma palestra dialogada seguida de uma atividade experimental, capaz de ser reproduzida em sala de aula. Há discussão sobre o tema em questão, principalmente a repercussão do assunto na mídia e no cotidiano das pessoas. A equipe técnica da Casa da Ciência sugere a inserção da temática abordada na exposição em determinadas linhas dos parâmetros curriculares, mas não há debates sobre currículo, problemas do
ensino de ciências e dificuldades da profissão docente. Como aponta o pesquisador CC1, as oficinas têm como característica básica a atualização do professor no tema da exposição e a praticidade de realização de um determinado experimento relacionado. Isso para que o professor tenha um contato inicial com o assunto da exposição e para que se sinta competente em abordar o tema com os alunos.
Eu gostava de fazer oficinas com vários elementos disparadores e que eles construíssem aquilo que poderia ser trabalhado, para que eles fizessem esse exercício mental que é o exercício mental do cientista que o professor pesquisador também precisa se habituar. Só que aí a realidade deles é trabalhar em 4 ou 5 escolas, não ter material, e aí não dá, não ter isso, não ter aquilo outro, então, em alguns momentos quando a gente está trabalhando com temáticas muito específicas aí a gente oferece oficinas e cursos porque a gente pensa que o professor, para ser criativo em sala de aula, ele precisa ter competência, e em alguns temas ele não tem competência porque alguns temas são muito novos, temas que não estavam na Universidade quando eles se formaram, e se ele não estiver fazendo uma especialização, ele está fora, se ele não estiver fazendo leituras constantes, ele está fora. Então ele precisa ter competência para ter segurança de trabalhar naquilo. E aí, na verdade, a gente tenta por meio de algumas ações oferecer o mínimo de competência para ele trabalhar. (Pesquisador CC1 – Casa da Ciência)
Após a realização das oficinas, não há contato posterior com os professores por parte da equipe técnica da Casa da Ciência. Dessa forma, não é possível mensurar se os professores aplicam em sala de aula as propostas didáticas sugeridas nas oficinas. Bienalmente, a Casa da Ciência promove um encontro com os professores que freqüentaram o centro de ciências, para que os trabalhos realizados na escola sejam expostos oralmente. No entanto, apenas uma parte dos professores que realizam as visitas à Casa e que participam das oficinas acabam expondo o trabalho desenvolvido nas escolas.
As oficinas da Casa da Ciência se enquadram no modelo clássico de formação de professores devido aos seguintes aspectos:
a) Interações de professores e professores-alunos no programa de formação
A participação dos professores no planejamento das atividades de formação é restrita a uma breve consulta, a alguns professores que freqüentam a Casa da Ciência, sobre os principais temas relacionados à exposição a serem abordados na oficina, pois toda a estrutura do programa é idealizada pela equipe técnica do centro de ciências. As atividades são propostas no formato de palestras seguidas de aulas com experimentos simples de ciências, com metodologia de ensino tradicional, sem tempo hábil para discussões sobre assuntos de interesse específico dos professores.
b) Reflexão e análise da prática pedagógica à luz de referenciais teóricos Como a atividade formativa está fundamentada nos conteúdos de ciências relacionados à exposição, há priorização da abordagem destes conteúdos, para uma atualização no assunto. Assim, não há discussão sobre a prática pedagógica dos professores ou sobre os problemas relacionados ao ensino de ciências. Não há acompanhamento dos professores posteriormente ao término da oficina, o que não permite avaliar se há aplicação das sugestões das propostas didáticas em sala de aula.
c) Ações desenvolvidas visando a transformação da realidade escolar e social
As atividades formativas são de curta duração, no formato de oficinas ou de pequenos cursos, oferecidas em períodos de 2 a 4 horas, de forma assistemática ao longo do ano, em função das mostras e exposições, não sendo possível desenvolver um trabalho contínuo com os professores. Como no desenvolvimento das oficinas são priorizados os conteúdos de ciências para a atualização dos professores no tema, sem discussões acerca dos problemas que os professores enfrentam no exercício profissional, das dificuldades relacionadas ao ensino de ciências e das questões políticas envolvidas nas propostas da difusão científica, não há mobilização dos professores para ações transformadoras da realidade escolar e social.
A Casa da Ciência atua no programa de formação de professores como uma unidade de apoio para a atualização dos professores em uma determinada área de ciências, relacionada sempre às mostras e exposições que estão em cartaz no centro. Por um lado, essas atividades são positivas pois munem o professor com conceitos atualizados de ciências, abordados por pesquisadores e professores universitários que estão diretamente envolvidos com os temas e, assim, podem contribuir para tirar dúvidas, desmistificar conteúdos e trocar informações com os professores das escolas. Por outro lado, a Casa da Ciência tem em seus quadros funcionais pedagogos e pessoal qualificado em educação científica, que poderiam contribuir de forma mais contínua com os professores que freqüentam o centro, desenvolvendo atividades permanentes ao longo do ano, para que os professores pudessem ter o centro como uma referência para transformação do ensino de ciências.