5. DESCRIÇÃO E ANÁLISE DOS PROGRAMAS DE FORMAÇÃO CONTINUADA DE
5.4. Programas de Formação Continuada do Espaço Museu da Vida
Dois programas do Espaço Museu da Vida são destinados a professores: o Encontro de Professores e o Programa de Oficinas para professores. Apesar do oferecimento do Programa de Oficinas para professores estar descrito e divulgado na página do museu na Internet, não foi possível obter nenhum dado adicional sobre o programa e, segundo informações do pesquisador entrevistado, essas atividades estavam em fase de reformulação no período da visita.
Para descrição e análise do programa Encontro de Professores foram observadas a página do museu na Internet e o depoimento do pesquisador da área, identificado por EMV1, além das observações locais.
O programa Encontro de Professores é dividido em duas fases: Encontro I e Encontro II. O Encontro I é destinado aos professores que desejam realizar uma visita orientada com os alunos, e consta de uma rápida apresentação dos espaços do Museu da Vida e das formas de atendimento oferecidas pelo museu. O Encontro I é realizado uma vez por semana, em período matutino e vespertino, para atender à demanda dos professores. O Encontro II é voltado para os professores que desejam trabalhar um conteúdo específico do Museu da Vida com os alunos durante uma visita direcionada. No Encontro II, como destacado pelo pesquisador EMV1, são realizadas oficinas temáticas para que o professor tenha contato com os conteúdos abordados em um espaço específico.
Quando o professor já passou por esse encontro e conheceu todas as áreas temáticas do museu da vida, depois ele visita, ele identifica qual que tem mais a ver com ele, com o trabalho que ele faz, com o que ele gosta,
aí ele fala comigo e marca uma oficina [oficina temática]. Aí a oficina é com a área que ele identificou como mais interessante. São quatro áreas temáticas: biodescoberta, parque da ciência, ciência em cena e castelo. Aí ele marca uma oficina na biodescoberta, por exemplo, aí é uma manhã toda na biodescoberta (...). Eles escolhem os pontos de estudo e essa oficina é uma oficina para ele entender, prá ele tirar as dúvidas dele, para ele ter alguns dados, então é um momento dele, dele professor com os mediadores [monitores] e com os aparatos, recursos disponíveis, visuais. (Pesquisador EMV1 – Espaço Museu da Vida)
As oficinas temáticas oferecidas pelo programa de Encontro de Professores são diferentes do Programa de Oficinas do museu que, conforme mencionamos, está temporariamente em reformulação.
Nas oficinas temáticas os professores que já realizaram o Encontro I passam aproximadamente 4 horas nas dependências do espaço do museu escolhido pelo docente. Nesse período, são mostrados aos professores os aparatos didáticos disponíveis para o desenvolvimento de um determinado tema de ciências relacionado ao espaço e as possibilidades de abordagem do conteúdo científico. Durante a oficina, os mediadores (monitores) demonstram os experimentos que podem ser realizados pelos alunos durante a visita e auxiliam os professores a otimizar o uso do espaço escolhido, detalhando cada material/tema em exposição e orientando sobre o uso dos computadores munidos de hipertexto. As oficinas são realizadas no sentido de informar os professores sobre as possibilidades de utilização pedagógica do espaço, com uma característica prática de fornecimento de subsídios para que o professor trabalhe posteriormente o conteúdo em sala de aula. Além desses pontos, as
oficinas temáticas servem para tirar eventuais dúvidas dos professores sobre o formato das atividades desenvolvidas durante as visitas direcionadas e atualizar conteúdos específicos de ciências. As oficinas são estruturadas pela equipe técnica do museu, sem a participação dos professores, e não propiciam discussões sobre a prática pedagógica e os problemas do ensino de ciências, mesmo porque o tempo é muito restrito e as atividades são direcionadas para os conteúdos abordados nos espaços.
Na visita direcionada, os professores e seus alunos são recepcionados pelos mediadores, que passam a trabalhar com os alunos os temas sugeridos pelos professores durante o Encontro II. No entanto, não há envolvimento dos professores nas atividades, que são realizadas exclusivamente pelos mediadores (alunos de graduação de diversas áreas). Após a realização da visita direcionada ao espaço selecionado pelo professor, não há acompanhamento posterior do docente na escola e, dessa forma, não é possível verificar se houve desdobramentos do conteúdo no decorrer das atividades em sala de aula.
Como pode ser observado no depoimento do pesquisador EMV1, as atividades pedagógicas do museu são de responsabilidade do Centro de Educação, que utiliza várias linhas teóricas para o desenvolvimento dos programas.
O Centro de Educação é responsável pela construção teórica e metodológica, a base do Museu da Vida. Então, os profissionais de antemão seguem algumas linhas de trabalho construtivista, mas que você trabalha com um grupo, você passa por algumas perspectivas metodológicas, a gente utiliza muito a questão do Paulo Freire, Freinet, Piaget, Vigotski, então não é uma linha, são várias. E aí você parte desse pressuposto e traduz
isso em atividade. (Pesquisador EMV1 – Espaço Museu da Vida)
Apesar da declaração explícita de que o museu faz uso de metodologia construtivista, essa linha teórica não é trabalhada nas oficinas com os professores. Não há discussão com os professores sobre a concepção de ensino construtivista adotada pelo museu e os reflexos da utilização dessa metodologia no processo de ensino-aprendizagem de ciências. Aparentemente, o Centro de Educação está voltado muito mais para os espaços de exposição do museu, para que sejam garantidas as formas de trabalho na linha construtivista, do que para uma discussão sobre essa perspectiva metodológica nas oficinas.
Segundo o pesquisador EMV1, várias dimensões do sujeito em formação são levadas em consideração durante o desenvolvimento das atividades.
A nossa proposta é levar em consideração as dimensões sociais, psicológicas e históricas do sujeito. Então, várias dimensões e dentro dessas dimensões tem os elementos centrais que a gente chama de estruturantes, que é o sujeito levar em consideração para quem que você está fazendo a atividade, quem é o sujeito dela, o contexto, ou seja, onde é que ele está sendo feito, o que é que tem nesse contexto, a duração, ou seja, o tempo que você leva porque você tem que pensar que uma visita ao museu não é a mesma coisa que uma aula, você demora no máximo uma hora e meia em cada espaço. (Pesquisador EMV1 – Espaço Museu da Vida)
Novamente fica a impressão de que as atividades referenciadas pelo pesquisador não são as atividades de formação de professores, e sim as atividades desenvolvidas nas exposições, para o público visitante. Isso porque o formato do programa Encontro de Professores não possibilita que todas essas dimensões do sujeito sejam levadas em consideração, tendo em vista o tempo escasso para o desenvolvimento das atividades, a priorização dos conteúdos abordados nos espaços e a ausência de discussões sobre o trabalho docente.
O programa Encontro de Professores oferecido pelo Museu da Vida está estruturado no modelo clássico de formação de professores, de acordo com os seguintes aspectos:
a) Interações de professores e professores-alunos no programa de formação
Não há participação dos professores na estruturação da atividade de formação, que é planejada e desenvolvida pela equipe técnica. Durante a realização das oficinas são priorizados os conteúdos abordados nos espaços, e os professores são considerados professores-alunos receptivos, com possibilidade de participação restrita à exposição de dúvidas sobre o formato das exposições e materiais didáticos utilizados nos espaços.
b) Reflexão e análise da prática pedagógica à luz de referenciais teóricos Não há discussão sobre a prática pedagógica dos professores ou sobre os problemas relacionados ao ensino de ciências, nem mesmo abordagem sobre a linha teórica construtivista adotada pelo museu no desenvolvimento das atividades educacionais. Não há acompanhamento dos professores posteriormente ao término da oficina, o que não permite avaliar se há aplicação das sugestões das propostas didáticas em sala de aula.
c) Ações desenvolvidas visando a transformação da realidade escolar e social
As oficinas são de curta duração, relacionadas diretamente a cada um dos espaços temáticos do museu e oferecidas aos professores ao longo de todo o ano. Como as atividades duram em torno de 4 horas, não é possível o
desenvolvimento de um trabalho mais aprofundado com os professores e, dessa forma, não há o desencadeamento de ações capazes de modificar a realidade escolar e social.
O Encontro de Professores é útil para que o professor tenha conhecimento sobre as possibilidades de utilização dos recursos didáticos oferecidos pelo Museu da Vida. No entanto, como uma atividade de formação continuada de professores, há pontos que precisam ser considerados: a) os professores recebem as informações sobre os espaços e conteúdos de ciências através de mediadores, que são, geralmente, alunos de graduação. Essa diferença de nível de escolaridade entre os professores graduados e os alunos de graduação pode gerar um constrangimento nos professores, uma vez que estão sendo capacitados por alunos, ainda em processo de formação, como já foi comentado anteriormente em outra experiência descrita. Seria adequado que, em cada encontro, estivesse presente um profissional da equipe técnica do Centro de Educação em Ciências para o acompanhamento dos trabalhos realizados pelos mediadores; b) como o museu segue uma linha teórica construtivista para a montagem das atividades das exposições e possui uma equipe especializada em educação em ciências - Centro de Educação em Ciências -, seria interessante que fosse incluído nas oficinas um debate sobre os referenciais teóricos construtivistas, a metodologia de ensino de ciências nessa ótica, as conseqüências do ensino construtivista de ciências e a prática docente nesse referencial. Ainda sobre as fundamentações teóricas que embasam o trabalho educativo do museu, seria apropriado incluir nas atividades com os professores a leitura e discussão de textos dos autores citados como relevantes para a equipe de educação, para que os professores possam ter contato com o pensamento desses teóricos e estabelecer um vínculo com o trabalho desenvolvido pelo museu na área de educação; c) como o nome do programa é Encontro de Professores, seria interessante viabilizar realmente um encontro com os professores e equipe técnica do Centro de
Educação em Ciências, no sentido de constituir um grupo de estudos em ensino de ciências em espaços não formais. Dessa forma, os professores poderiam aproveitar esses momentos, não apenas para conhecer as dependências do museu e atualizar conteúdos, mas principalmente para manter contato com teorias, metodologias de ensino e projetos de ensino de ciências, num ambiente de troca de informações com a equipe técnica do museu. Dessa forma, o Centro de Educação em Ciências poderia utilizar os depoimentos e sugestões dos professores para desenvolver novas exposições, mostras e experimentos.
Raramente um centro ou museu de ciências tem o privilégio de contar com um núcleo especializado em educação para o desenvolvimento das atividades relacionadas às exposições, atendimento ao público escolar e formação de professores. O Museu da Vida não só possui uma equipe de especialistas em educação em ciências, como também dispõe de uma biblioteca específica na área, dois fatores de suma importância que permitem um trabalho conjunto com professores de diferentes níveis escolares para a geração de ações capazes de modificar a realidade escolar e social através do ensino de ciências.
5.5. Programas de Formação Continuada do Museu de Astronomia e