2.3 – Conceituando Ciberespaço e Tecnognose: Os Exemplos de Neuromancer e Matrix.
4. A CONSTRUÇÃO DE NARRAGONIA 3.0 Esse longo caminho que eu traço
4.1 Repensando o terreno
4.2.2 Projeto arquitetônico
Mesmo num exame superficial da História revela que nós, seres humanos, temos uma triste tendência para cometer os mesmos erros repetidas vezes. Temos medo dos desconhecidos ou de qualquer pessoa que seja um pouco diferente de nós. Quando ficamos assustados, começamos a ser agressivos para as pessoas que nos rodeiam. Temos botões de fácil acesso que, quando [acessados], libertam emoções poderosas. Podemos ser manipulados até extremos de insensatez por políticos espertos. Dêem-nos o tipo de chefe certo e, tal como o mais sugestionável paciente do terapeuta pela hipnose, faremos de bom grado quase tudo o que ele quer - mesmo coisas que sabemos serem erradas.
- Carl Sagan
Alimentado pelas reflexões acerca da tecnognose, passei todo o ano de 2009 com uma estrutura básica na cabeça: eu faria uma parte de meu universo ficcional num futuro muito
25. Técnica experimental de gravura, criada e en- sinada pelo Prof. Dr. José César Teatini Clímaco, que utiliza como matriz o poliestireno, material plástico que permite a incorporação de técni- cas mistas de gravação,
como a utilização de goivas (xilogravura) e de ponta-seca (gravura em metal).
distante, a ponto de a tecnologia tornar-se imperceptível para nós, e adotada como algo místico por seus hipotéticos usuários. Essa ideia foi tirada de um dos sucessos obtidos em experimentações com RPG, feitas uns dez anos atrás. Para narrar todo o processo até esse momento histórico hipotético, eu escolheria três recortes: (1) um futuro muito distante, quase utópico, que não se pareceria com uma ficção científica – uma homenagem a H. G. Wells e sua obra A Máquina do Tempo, e a Frank Herbert e Duna, dentre várias outras influências; (2) um período intermediário, marcado pelo início da resolução de um grande problema social e inaugurando uma era de prosperidade – trazendo à tona algumas das propostas de Isaac Asimov em Caça aos Robôs; (3) um futuro próximo, marcado por um despotismo de tendências panópticas, e estruturado sobre os cada vez mais comuns sistemas eletrônicos de vigilância – alimentado pelo espírito de alguns textos de Jean Baudrillard e Paul Virilio, e através deles resgatando traços de 1984, de George Orwell.
Todos esses elementos foram gradualmente introduzidos no input da imaginação – tendo a maioria deles chegado muito antes do início deste projeto –, mas os resultados iniciais não foram tão satisfatórios. Uma característica marcante da mecânica imaginativa descrita por Flusser é que, a meu ver, não existe muito controle da entrada. O processo de alimentação pode ser guiado, mas dificilmente controlado. Digo isto porque, muitas vezes, quando obtenho uma ideia para criação, esta chega quando um elemento solto do ambiente, ou uma memória antiga e/ou aleatória, se associam aos elementos propositalmente estudados. Procurarei, na sequência do texto, descrever melhor esse processo.
Durante o segundo semestre de 2009, cursei a disciplina ateliê de gravura. Nela, fiz as primeiras experimentações estéticas para o trabalho, até então não batizado. Enquanto imprimia uma matriz e pensava sobre Gutenberg, a prensa e a criação dos meios de comunicação em massa, me ocorreu fazer uma HQ através de técnicas de gravura. Essa iniciativa, além de aproveitar a disciplina para enriquecer a produção poética, também serviria para estabelecer um diálogo
com a reprodutibilidade técnica, mas fora dos meios eletrônicos, suporte principal escolhido para abrigar minhas narrativas. Seria, também, uma forma de contraste, pois eu abandonaria a assepsia da criação através de mouse/tablet para explorar um dos meios mais artesanais de produção imagética. Além do que, pela natureza da gravura, eu conseguiria fazer uma série de cópias que possibilitariam a distribuição, mesmo que limitada, resgatando também as características do fanzine, meio de difusão midiática que sempre me fascinou.
Escolhi desenvolver, para este momento, o futuro mais próximo dentro de meu universo ficcional. A ideia de enredo começou a se desenhar enquanto eu zapeava os canais da TV, em uma noite insone. Um pastor, bigodes espessos, bradava contra “essa era de iniquidade em que vivemos”. Não consegui assistir por muito tempo. Depois de alguns cliques, tropas americanas no Oriente Médio. Outros cliques a mais, e imagens em preto e branco da Alemanha nazista. O próximo clique foi interno. Ao ver as imagens dos campos de concentração, inevitavelmente me vieram à mente as imagens do conflito que se desenrola, hoje, na Faixa de Gaza. E fiquei pensando em quão pouco tempo faz para que o povo que sofreu tais atos se tornasse algoz de outra minoria, numa situação extremamente semelhante. E me veio à mente todo o discurso de Império do Mal, levantado pelo fundamentalismo cristão norte-americano em sua nova cruzada que, tal qual a primeira, mascara no discurso moral e religioso intenções políticas e econômicas. A partir daí, uma torrente de imagens me veio à memória: as fogueiras da inquisição; o massacre aos povos nativos das Américas; as guerras santas, presentes no Oriente Médio a mais de um milênio; a caça às bruxas e o puritanismo; Abu Ghraib, Guantánamo e o 11 de Setembro; as ditaduras nos países latinos (Américas, Península Ibérica, Itália) e os governos totalitários do século XX; a violência policial brasileira. Achei, neste momento, a espinha dorsal do meu trabalho: queria discutir a intolerância e suas consequências.
4.3 Alicerces
A liberdade é defendida com discursos e atacada com metralhadoras.
- Carlos Drummond de Andrade
Diante desta nova resolução, tracei a ideia principal do período de despotismo de meu universo ficcional. Trataria a formação de um Estado totalitário de matrizes cristãs. Essa matriz religiosa, em especial, foi escolhida por dois motivos distintos. Primeiramente, enquanto instituição, o cristianismo possui em seu histórico vários momentos de radicalismo que resultaram em atos de extrema violência26. E, depois disso, porque percebo no cenário político internacional o fortalecimento do fundamentalismo cristão27, que se alimenta de eventos isolados, praticados por uma pequena parcela de radicais muçulmanos para taxar como terroristas todos os que partilham dessa crença. E, num cenário local, percebo o crescimento dos movimentos evangélicos, pentecostais e neo-pentecostais28 e o endurecimento de seu discurso29, cada vez mais radical, e sempre permeado pela intolerância a todo aquele que assume posturas distintas. Para não deixar esta afirmação solta, coletei na internet um discurso, atribuído ao bispo Edir Macedo:
O Senhor Jesus não disse que o pensar contra o Espírito Santo não tem perdão, mas que falar ou blasfemar contra Ele não tem perdão para sempre. (Mateus 12.32, Marcos 3.29)
O que isso significa na prática?
Significa dizer que não há nenhuma chance de perdão para qualquer tipo de insulto contra a Pessoa do Espírito Santo.
Por quê?
Porque Ele é a Única Pessoa capaz de convencer a raça humana da necessidade de salvação da alma. Sem o Seu trabalho, não há como o ser humano entender isso. É importante esse esclarecimento porque muitas vezes a mente humana é invadida por pensamentos sujos em relação a Deus. E, por conta disso, muitos têm desanimado da fé cristã por se considerarem irremediavelmente perdidos.
26. Para ficar em três exemplos, cito as Cruza- das e a Santa Inquisição,
na vertente católica do cristianismo, e a Caça às Bruxas na vertente pro-
testante. 27. Após o incidente de 11 de setembro de 2001, quando o World Trade Center (Nova Iorque) sofreu um ataque ter- rorista, o governo esta- dunidense, na figura de George W. Bush, então presidente dos Estados Unidos, declara “Guerra ao Terror”, e se dispõe a combater o “Eixo do Mal”, composto majo- ritariamente por países de religião muçulmana, que supostamente uti-
lizariam do terrorismo como ferramenta de combate. Nos primeiros pronunciamentos, o líder estadunidense chega a usar o termo “Cruzada”, abandonando-o logo em seguida. 28. “O crescimento vertiginoso de igrejas como Assembléia de Deus, Universal do Reino de Deus e Renascer em Cristo nos últimos dez anos indica que metade da população brasileira pode estar convertida aos cultos evangélicos