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O ESCRAVO E O DIREITO CRIMINAL NO IMPÉRIO DO BRASIL

5 O ESCRAVO NO CÓDIGO CRIM INAL DE 1830

6.2 O PROJETO DE LEI DE 1833

Nos anais do parlamento brasileiro é possível acompanhar a proposta e o trâmite deste projeto de lei. Ele foi apresentado pelo governo na sessão do dia 10 de junho de 1833, menos de um mês após a data em que ocorreu a Revolta de Carrancas (13 de maio), contendo o seguinte preâmbulo:

Augustos e digníssimos senhores representantes da nação: as circunstâncias do Im pério do Brasil, em relação aos escravos africanos merecem do corpo legislativo a mais séria atenção. Alguns atentados recentem ente cometidos, e de que o governo vos dará informação, convencem desta verdade. Se a legislação até agora existente era fraca, e ineficaz para coibir tão grande mal, a que ora existe mais importante é, e menos garantidora da vida de tantos proprietários fazendeiros, que vivendo mui distante uns dos outros, não poderão contar com a existência, se a punição de tais atentados não for rápida, e exemplar, nos mesmos lugares, em que eles tiverem sido cometidos. [...] É por isso que a regência, [...] desejando afastar males tão graves, e garantir a vida e propriedade dos cidadãos, me ordena

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que vos apresente, com urgência a seguinte proposta [... ] .

Segue-se o projeto com sete artigos, que seriam reduzidos a cinco na lei aprovada. As principais diferenças do projeto para com a Lei são as seguintes: 1. O julgamento dos crimes nela previstos caberia a uma junta de juízes de paz do local do crime (art. 3), junta que na lei ficou substituída pelo Júri; 2. o juiz de paz, assim que concluísse o processo até a pronuncia, deveria fazer comunicação do caso imediatamente ao presidente da província e ao Governo, caso o crime ocorresse na Província do Rio de Janeiro, comunicação que foi substituída pela do juiz de direito na lei (art.3); 3. “os escravos mais vizinhos em número correspondente à forca” deveriam assistir à execução dos escravos condenados à pena de morte (art. 6), determinação que desapareceria do texto final da lei.

O historiador Marcos de Andrade também destaca como características do projeto (e da posterior Lei) a necessidade de um julgamento mais célere dos escravos envolvidos na morte de seus senhores, familiares e administradores, bem como a exemplaridade de uma

299 A CD, sessão de 10 de junho de 1833, p. 243, grifo nosso.

punição rigorosa, sobretudo, para os casos de insurreição. Nesse sentido, dispunha o projeto que os escravos vizinhos ao local do crime deveriam assistir a execução dos escravos condenados na forca, a qual deveria ser montada no lugar do delito. Além disso, menciona a forma como foi redigido o artigo primeiro do projeto que parece se reportar explicitamente “à memória recente da Revolta de Carrancas [...] quando os escravos mataram seus senhores, suas mulheres, descentes e todos os que em sua companhia viviam300”: “Art. 1. Serão punidos com a pena de morte os escravos ou escravas, que matarem por qualquer maneira que seja, ferirem ou fizerem outra grave ofensa física a seu senhor, administrador, feitor ou a suas mulheres e filhos.”

Andrade aponta ainda como evidência de que a Revolta de Carrancas está na origem da Lei n.° 4, o discurso proferido pelo senador Joaquim Delfino Ribeiro da Luz no Senado301, em 1879, quando fazia um breve histórico sobre a pena de morte aplicada aos escravos:

Mencionou que esta [a pena de morte aplicável aos escravos] já estava prevista nos artigos 113 e 192 do Código Criminal de 1830, mas que, em virtude do aparecimento de “atos notáveis de insubordinação da parte da escravatura”, depois de 1831, foi necessária a promulgação de uma lei excepcional (a Lei n.4, de 10 de junho de 1835). O senador citou como exemplos para essa medida extraordinária as revoltas da Bahia e deu destaque para a ocorrida em São Tomé das Letras, na propriedade da família do Barão de Alfenas, o ex-deputado Junqueira seu parente.

Na sequência, transcreve um trecho deste discurso:

Fizeram-se diversas execuções, em diferentes termos do Império, e pode-se dizer que a lei de 1835 salvou a sociedade brasileira; obstou a que, em mais de um município e em mais de uma província, se reproduzissem as cenas do Haiti e de São Domingos. Note-se que quando se promulgou a lei de 1835, era muito numerosa a escravatura entre nós; havia mesmo, em muitos municípios do Império e em algumas províncias, grande desproporção entre os escravos e os homens livres:

entretanto, a lei de 1835 conseguiu conter a insubordinação302.

Cita, por fim, outro registro no mesmo sentido, de 1887, feito por Francisco de Paula Ferreira de Rezende, que também era mineiro e viria a ser ministro do Supremo Tribunal de Justiça, o qual também considerava que a Lei de 10 de junho 1835 era uma consequência da Revolta de Carrancas.

300 ANDRADE, 2017, p. 279.

301 Ribeiro da Luz era mineiro, foi magistrado e exerceu diversos cargos públicos, como deputado-geral por 3 legislaturas e presidente da Província de Minas Gerais por duas vezes, nos anos de 1857 e 1860, bem como o de senador do Império (1870 a 1889) por Minas Gerais. (Ibidem, p. 278).

302 Anais do Senado Brasileiro (ASB), 1879, p. 128.

No mesmo sentido entende o historiador João Luiz Ribeiro, situando a insurreição de Carrancas na “gênese da Lei de 10 de junho de 1835”, título que dá nome a um dos capítulos de sua obra303 sobre a mencionada Lei.

O que devemos sublinhar até aqui é que Andrade também percebeu algo que nos chamou a atenção sobre a Revolta de Carrancas:

Na realidade, trata-se de com preender o alcance e o im pacto provocado por um evento que atem orizou não só a elite senhorial, mas principalm ente a elite política do sudeste do Im pério brasileiro. [...] A explicação mais razoável para entendermos a condenação exemplar dos escravos de Carrancas é o fato de terem assassinado vários membros de uma família senhorial ligada à elite política liberal moderada do Império, que dava as cartas do jogo político naquele contexto. O massacre que se abateu sobre os Junqueira trouxe pânico às elites regionais, ao parlamento e à Regência. E não foi sem razão que, 28 dias depois, o ministro da Justiça enviou o Projeto n.°4 para a apreciação do parlamento, hipótese com a qual tenho total concordância (Andrade, 2012).” [referindo-se à hipótese proposta por Ribeiro]304.

Realmente, a Lei de 10 de junho 1835 não parece ter sido resultado direto de um movimento ou reivindicação dos proprietários escravistas organizados que exigissem do governo e do parlamento nacional uma lei mais rigorosa para punição de seus escravos quando estes atentassem contra suas vidas e de sua família305. Com efeito, a iniciativa dela partiu do governo e do parlamento. Isto é, da elite política, aterrorizada com os rumos que uma sublevação de escravos, a qual começara como um crime particular, contra um senhor, podia tomar, de proporções que conduziam à própria contestação da ordem escravista enquanto tal, bem jurídico que o crime público de insurreição visava proteger306. É possível

303 RIBEIRO, 2005, p. 43.

304 ANDRADE, 2017, p. 283, grifo nosso.

305 Escrevemos “parece”, em atenção ao projeto de lei de fevereiro de 1833, referido pelo historiador Ricardo Pirola, do Conselho Geral da Província de São Paulo, depois transformada em Assembleia Legislativa Provincial pelo Ato Adicional de 1834. Não se sabe com certeza se tal projeto existiu, pois como diz o autor, o que encontrou foi “apenas um resumo de seus objetivos em meio a correspondência ministerial”. De qualquer forma, se trataria de um projeto proposto pela elite política novamente, os deputados provinciais paulistas (cabendo evidenciar a conexão com proprietários de escravos, se de fato ela existiu). O autor faz menção também a uma Carta enviada pelos proprietários de Campinas em 1832 ao presidente da província, porém seu conteúdo ainda é vago para apontar uma relação direta e cabal com o projeto que viria a ser a Lei n.° 4, embora sem dúvida ela possa ter contribuído para que o governo se convencesse de que era preciso uma nova lei, como o próprio autor argumenta. PIROLA, 2015, p. 66. Ademais, não parece acertado partir da presunção de que os proprietários rurais exercessem um controle irresistível sobre o poder político, por mais que os diversos grupos que detinham o poder econômico tentassem influenciar os rumos políticos da escravidão. Como mostra o historiador Jonas Queiroz, as pressões por eles exercidas “eram limitadas diante de certas circunstâncias do jogo político.”

QUEIROZ, Jonas Marçal de. Poder político e representação de classe: o Clube da Lavoura de Campinas e o fim do tráfico interprovincial de escravos (1876-1881). Revista Dimensões, vol. 13, 2015, p. 250.

306 E diante da constatação de que se houvesse um levante geral de escravos, como diz Célia de Azevedo, “as forças policiais existentes dificilmente conseguiriam fazer frente a uma situação de ruptura institucional completa.” AZEVEDO, Célia M. M. de. O nda negra, medo branco: o negro no imaginário das elites (século

matizar um pouco essa afirmação, se considerarmos que também a elite política era composta por membros advindos da elite rural proprietária. Entretanto, deixamos à tona o contraste que se estabelece, por exemplo, com um movimento bem diferente, que seria protagonizado pelo Clube da Lavoura de Campinas em 1879, associação dos fazendeiros e cafeicultores paulistas, quando os próprios senhores de escravos exigiram do governo e do parlamento justamente a revogação da Lei de 10 de junho 1835, através de uma representação que enviaram à Câmara dos Deputados, pedindo o restabelecimento do processo comum para os escravos, uma vez que a referida Lei lhes trazia mais prejuízos do que vantagens. Certamente, interessava aos senhores a intimidação dos escravos que resultava desta Lei, mas não todas as suas consequências, como a perda da propriedade escrava na grande maioria das vezes em que a Lei tinha de ser aplicada porque a prevenção geral e especial nela contidas haviam falhado, indo de encontro à preservação da exploração do trabalho escravo que interessava aos senhores.

Desta perspectiva, a Lei n.° 4 atendia em primeiro lugar ao interesse público (de segurança interna do Império e da ordem pública) visando primordialmente conter as insurreições escravas, bem como secundariamente ao interesse particular307. Secundariamente porque sob um aspecto fundamental a Lei era contraditória a esses interesses, que na verdade eram atingidos por mais medidas restritivas da propriedade escrava. Não era por outra razão que muitos proprietários preferiam a aplicação dos dispositivos do direito comum (Código Criminal e do Processo Criminal) aos seus escravos condenados do que enquadrá-los nos casos da rigorosa Lei de 1835. Em especial, almejavam que a sentença condenatória não fosse nem a de galés e nem a de morte, mas a de açoites. Um número não desprezível de senhores inclusive abandonava seus escravos quando julgava que a condenação resultaria naquelas duas primeiras penas, o que só lhes acarretaria mais prejuízos com as despesas de um processo criminal contra a sua propriedade (escrava), que já estava muitas vezes perdida, dadas as circunstâncias do crime cometido.

Na ordem do dia de 27 de agosto de 1833, o projeto que já havia sido proposto, entrou novamente em discussão entre os deputados: “Entra em 1° discussão a proposta do governo

XIX). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987, p. 205. A ordem pública, quando ameaçada, prevalecia sobre os interesses imediatos dos senhores.

307 Com a mesma apreciação Maria Helena Machado, ao narrar que às vésperas da abolição (em 1885) no oeste paulista, começaram a surgir simultaneamente várias revoltas escravas: “Os senhores e parte das autoridades exigiam intervenção cirúrgica das forças policiais para decididamente esmagar a ousadia de escravos e abolicionistas. Já uma camada mais moderada de delegados, promotores e juízes, apoiada pela própria chefia da Polícia de São Paulo, recomenda a manutenção da tranquilidade pública, entendida como moderação, e o estrito cumprimento das leis, colocando a defesa da propriedade escrava como segunda prioridade.” MACHADO, 2011, p. 395, grifo nosso.

impressa sob n.° 120 deste ano; p a ra coibir com providências legislativas os atentados que os escravos possam cometer contra a vida de seus senhores, e famílias308.”

O deputado Ferreira França falou contra a proposta dizendo que a Constituição

“jamais poderia despojar a ninguém do caráter de homem” e, logo, nem do “direito de defesa”. Conclui dizendo que a proposta era uma “monstruosidade”, anticonstitucional e sem utilidade.

Castro e Silva, respondendo a Ferreira França contestou: “[...] m onstruosidade existe no Código do Processo, onde está a p a r o cidadão livre com o escravo.” E neste ponto devemos notar que a crítica não era direcionada ao Código Criminal, que já previa a pena de morte para homicídios agravados e para os cabeças de insurreição, mas se dirigia ao Código do Processo, que como reparou Ribeiro, “garantia amplos recursos a homens livres e escravos, em casos de sentenças de morte.”

Na verdade, não se tratava apenas de amplos recursos, mas das amplas garantias do processo criminal enquanto tal, que era o mesmo tanto para acusados livres quanto escravos:

um complexo de garantias, que iam desde a fiança, à formação da culpa, a pronúncia, as regras de julgamento em plenário, a fixação dos quesitos, a fixação da pena pelo juiz de direito e uma série de formalidades processuais que tinham de ser cumpridas em cada etapa do processo criminal para que não ocorressem nulidades, que se presentes anulavam todo o percurso.

Além disso, a maneira como estava organizado o processo criminal na época favorecia a demora nos julgamentos: a formação da culpa, fase inicial do processo na qual se coletavam as provas e evidências do crime, estava entregue a juízes imperitos, como já vimos reclamar os ministros da justiça sobre os juízes de paz. Os processos eram mal instruídos quando não eivados de nulidades, aumentando muito as chances de absolvição dos pronunciados pelo júri de acusação. Ademais, a demora nos julgamentos era real e também se devia à forma como o júri estava organizado, inicialmente em dois conselhos: o júri de acusação e o júri de sentença.

O primeiro possuía 23 jurados, o segundo 12.

Para manter o tribunal do júri em funcionamento era necessário reunir 60 pessoas, pois a esses números ainda era preciso somar mais 25, para as recusas. Se nas grandes cidades era fácil reunir esse número, nas pequenas e distantes localidades (distantes inclusive uma das outras) que formavam a maior parte do interior do Império, arranjar este número era muito difícil, o que dava causas a adiamentos das sessões do júri por falta de quórum. Ou ainda, se

308 A CD, sessão de 27 de agosto de 1833, p. 25, grifo nosso.

realizavam menos sessões do que as determinadas pelo Código do Processo o que gerava grande acúmulo de casos para serem julgados, empatando os jurados na sede do termo por mais de duas semanas309.

Os juízes de direito da Cidade de Castro, por exemplo, uma comarca que era cabeça de um termo gigantesco na Província do Paraná, reclamavam constantemente da desídia dos jurados, que precisavam convocar dos vários distritos ao redor da sede, para tentar alcançar o número estabelecido (o edital de convocação dos jurados incluía as freguesias de Piraí do Sul, Jaguariaíva, Ponta Grossa, São José da Boa Vista, Tibagi, e antes de 1859, também Guarapuava e Palmas, aquela distante 45 e esta última 80 léguas310 de Castro, cabeça do Termo).

Os convocados, mesmo sob pena de multa e de condução sob vara, apresentavam as mais variadas desculpas para não comparecer311, isso quando simplesmente não compareciam, sem nem mesmo apresentar qualquer justificativa. A situação era agravada na medida em que a imensa maioria dos crimes era julgada pelo tribunal do júri, possuindo uma competência muito mais alargada do que o júri possui atualmente, a ponto de na época se dizer, de modo irônico, que o júri julgava até mesmo os ladrões de galinhas. O primeiro Conselho de jurados examinava se havia matéria suficiente para a acusação e contra quem, o segundo Conselho julgava o acusado312.

Se o processo criminal tal qual estava organizado já era criticado para os livres, tanto mais seria o mesmo sistema moroso e com todas as garantias de um direito processual penal iluminista, para julgar réus escravos que cometessem grandes carnificinas, assassinatos em

309 Conforme já havia mesmo observado Flory (1986, p. 187 et seq.).

310 O que significava que para atender uma convocação do júri, um jurado de Guarapuava teria de viajar perto de 90 léguas, um convocado de Palmas, 160 léguas (considerando os percursos de ida e volta), em lombo de mula ou a cavalo, transporte da época. Esta distância foi causa constante das reclamações dos juízes de direito de Castro, que não conseguiam administrar a justiça em tamanha lonjura e nem fazer comparecer as testemunhas dos crimes cometidos naquelas Vilas, o que dava causa a grande demora nos julgamentos. Uma destas reclamações (do juiz de direito Vicente F. da S. Bueno) chegou até o Conselho de Estado, que respondeu emitindo o Aviso n.° 410 em 1857. Somente em 1859, foi criada a Comarca de Guarapuava (incluindo Palmas).

ARCHIVO IJIP, vol. 10, ofícios 1855. Ap. vol. 0021, p.21. Coleção Documentos Históricos (Correspondência do Governo da Província). DEAP; Anexos do Relatório do ministro da justiça Francisco D. P. de Vasconcellos, Rio de Janeiro, 15 de maio de 1858, p. 24-25.

311 Uma das mais comuns era estar impossibilitado de montar à cavalo para comparecer à sede, por alguma enfermidade.

312 “Os artigos 144 e 145 determinavam, neste ponto, o sistema do nosso Código: o juiz de paz, a quem era a presentada a queixa ou denúncia, depois de proceder [...] aos atos de formação da culpa, pronunciava ou não o indiciado, declarando procedente ou improcedente a queixa ou denúncia. No primeiro caso, o delinquente, ficando sujeito à prisão e livramento, era seu nome lançado no rol de culpados e o processo remetido ao juiz de paz da cabeça do termo, ou do distrito onde se reunia o conselho de jurados, a fim de ser sustentada ou não a pronúncia pelo júri de acusação; no segundo caso, podia o queixoso ou denunciante recorrer da decisão do juiz de paz para o júri de acusação. ALMEIDA JUNIOR, João Mendes de. O processo crim inal brasileiro. 4 ed., vol. 1. São Paulo (SP): Freitas Bastos, 1959, p. 232-234.

sequência de senhores e insurreições de grandes proporções, tudo o que havia acontecido na Revolta de Carrancas. Diante dessa explanação prévia, fica mais fácil entender porque eram a celeridade do processo e a exemplaridade da condenação, através da certeza da punição pronta e eficaz313, o que se buscava conseguir com o projeto de 1833, evitando-se assim perturbações à ordem pública do Estado. A legislação “fraca e ineficaz” de que se fala no preâmbulo do projeto, é mais a processual que a material .314

Entrando em segunda discussão, seguiram-se outras emendas ao projeto, cabendo destacar o seguinte aditivo proposto por Carneiro Leão: “os escravos que forem punidos por qualquer dos referidos crimes, com a pena de morte ou galés: serão pagos àqueles a quem por direito pertencerem pela fazenda pública.” (grifos nossos)

Surgia a primeira tentativa de indenizar os proprietários pelos escravos perdidos por execução de pena. Todavia, o aditivo foi rejeitado, sem justificativas. Em terceira discussão, na sessão de 18 de setembro de 1833, fizeram-se mais algumas emendas e o projeto foi enviado ao Senado, lá se iniciando a discussão em 6 de maio de 1834.

Em 16 de junho, o senador Paula Souza “acrescentou que queria o jú ri p a ra os escravos; mas não aplicações ou interposição do Poder Judiciário simples; até mesmo pela m ora, contrária ao fim pronto do castigo, que convém haver em todos os crimes, e com particularidade no de tais homens .”315

A Lei aprovada viria a acolher a instituição do júri para o julgamento dos crimes escravos, em detrimento da Junta de juízes de paz, que constava da proposta inicial do

313 Outro exemplo, retirado da Revolta dos Malês, reforça essa leitura e a preocupação das autoridades que conduziam o processo criminal contra os revoltosos em manter a regularidade e formalidades do processo.

Clóvis Moura transcreve uma correspondência do chefe de polícia da Bahia, responsável pela repressão aos revoltosos, na qual se lê: “[...] por todos os distritos se trata de um processo, por onde se possa descobrir os culpados ainda existentes para em suas pessoas dar um exemplo eficaz a esses africanos; e p ara m elhor o conseguir, tenho procurado encam inhar os processos de um a m aneira uniform e e regular.” (2013, p. 180).

Existiam as regras do processo criminal determinadas pelo Código do Processo, regras que tinham de ser observadas pelas autoridades públicas e que se não fossem cumpridas podiam dar margem à invocação de nulidades.

314 Não que o projeto não promovesse alterações também no direito material. Promovia: ampliavam-se as hipóteses de aplicação da pena de morte para os escravos, criando-se novos “núcleos do tipo”, como propinar veneno, ferir gravemente (que na verdade já existiam como os crimes de ferimentos ou ofensas físicas graves e

314 Não que o projeto não promovesse alterações também no direito material. Promovia: ampliavam-se as hipóteses de aplicação da pena de morte para os escravos, criando-se novos “núcleos do tipo”, como propinar veneno, ferir gravemente (que na verdade já existiam como os crimes de ferimentos ou ofensas físicas graves e