3.11 Plano de Conservação dos Ecossistemas Terrestres
3.11.2 Programa de Conservação e Manejo da Flora
3.11.2.1 Projeto de Salvamento e Aproveitamento Científico da Flora
Os objetivos deste projeto visam, sobretudo, preservar a amplitude gênica do maior número possível de espécies, seja em forma de mudas, sementes, estacas vegetativas e exemplares vivos em seu habitat natural (in situ) ou em projetos de preservação ex situ, enfatizando as espécies ameaçadas de extinção, raras, protegidas por lei e de importância comercial e/ou socioeconômica, nas áreas de intervenção das infraestruturas e dos reservatórios da UHE Belo Monte.
Apresenta as seguintes metas:
• Minimizar o impacto relativo à perda de diversidade genética, reintroduzindo o germoplasma regatado nas áreas a serem recuperadas, contribuindo para o Programa Recuperação de Áreas Degradadas – PRAD.
• Estabelecer rede de parcerias entre as instituições regionais e nacionais para o aproveitamento científico do material botânico, por meio da coleta, processamento e envio de ao menos 15.000 amostras botânicas oriundas das áreas do empreendimento para incorporação nos Herbários de instituições amazônicas e nacionais, durante todas as etapas construtivas, de enchimento e pós enchimento.
• Manter banco de mudas a partir de coleta, identificação, beneficiamento e propagação de material genético composto de sementes, frutos, estacas e mudas de árvores, palmeiras e plantas de sub-bosque das áreas a serem desmatadas, para serem introduzidas pelo PRAD e demais projetos de recomposição vegetal, nas áreas a serem recuperadas (cerca de 3.000.000 mudas produzidas/resgatadas e disponibilizadas para
plantio), com ênfase em espécies de importância socioeconômica, endêmicas, raras e ameaçadas, bem como espécies-chave nos diferentes habitats.
• Resgatar, identificar, cultivar e re-introduzir em áreas selecionadas espécies epífitas e hemi-epífitas coletadas nas áreas desmatadas durante todas as etapas construtivas, de enchimento e pós enchimento.
• Selecionar e Capacitar recurso humano.
• Conservação in situ e ex situ.
• Agregar conhecimento científico florístico e ecológico sobre as comunidades vegetais e suas espécies a serem afetadas pelo empreendimento durante todas as etapas construtivas, de enchimento e pós enchimento.
• Permitir o desenvolvimento ou aperfeiçoamento de técnicas de produção de mudas de espécies da Amazônia durante todas as etapas construtivas, de enchimento e pós enchimento.
• Elaborar produtos editoriais, anuais, de base científica sobre a vegetação regional, a serem utilizados em interface com os Programas de Comunicação Social e de Educação Ambiental, visando à conscientização sócio-ambiental das comunidades do entorno, bem como relatórios técnico-científicos da flora regional.
Este projeto será efetivamente iniciado antes das intervenções nas áreas alvo de supressão vegetal para a instalação de infraestruturas construtivas e para enchimento dos reservatórios, bem como nas áreas da linha de transmissão e subestações, acessos, terraplenagens, entre outros. Após a primeira campanha de campo que antecede às intervenções, este projeto será conduzido concomitantemente ao Projeto de Desmatamento.
Foram apresentadas as áreas com cobertura vegetal alvo do resgate e aproveitamento científico da flora, conforme as áreas apresentadas no Projeto de Desmatamento, bem como a quantificação do uso e cobertura vegetal por área objeto de intervenção. As áreas de intervenção alvo de resgate da flora serão aquelas que apresentam formações florestais primárias, secundárias ou pioneiras, conforme as diferentes fitofisionomias identificadas no EIA.
Previamente ao início das atividades de resgate de germoplasma foram previstas atividades de:
• Adequação estrutural e espacial do viveiro provisório para abrigar, semear e estocar mudas e ou indivíduos resgatados.
• Aquisição de material básico para o resgate, triagem, beneficiamento, plantio, repicagem e manutenção de mudas e/ou indivíduos resgatados.
• Seleção prévia de espécies a partir da lista apresentada no EIA da UHE Belo Monte para o resgate nas áreas de intervenção.
• Definição e adequação dos meios de transporte do material resgatado das áreas alvo de intervenção até o viveiro de mudas ou área protegida selecionada.
• Seleção de áreas protegidas para o transplante direto de indivíduos da flora coletados.
• Ampliação, recrutamento e capacitação de novas equipes para coleta, manuseio, armazenamento e transporte do material resgatado.
• Recrutamento e capacitação de nova equipe viveirista e de herborização.
O viveiro provisório instalado no acampamento da Eletronorte, construído para atender às demandas de resgate nas áreas de intervenção das infraestruturas de apoio às obras da UHE Belo Monte, será readequado estrutural e espacialmente. Foi prevista a utilização deste viveiro por um período de sete anos. Foi apresentado um croqui com as adequações do viveiro provisório.
Quando do resgate as seguintes atividades serão desenvolvidas:
• Coleta de sementes, propágulos e estacas de espécies vegetais arbóreas ou não para produção de mudas.
• Coleta de indivíduos como epífitas ou herbáceas para composição de banco de espécies do viveiro ou para transplante direto nas áreas protegidas.
• Transplante de parte do material coletado, como epífitas e herbáceas em áreas protegidas previamente selecionadas para conservação in situ.
• Beneficiamento e plantio de sementes, propágulos ou estacas das espécies coletadas.
• Tratos culturais básicos da sementeira, plantio direto ou indivíduos coletados.
• Manutenção e irrigação do banco de mudas para o atendimento dos diversos projetos associados à UHE Belo Monte.
• Herborização de material fértil coletado, objetivando ampliar o conhecimento da flora regional.
• Realização de registro e ações de acompanhamento do trabalho, com criação de banco de dados sobre o desenvolvimento das espécies em viveiro.
Como alvos de resgate foram estabelecidas todas as espécies vegetais cujos indivíduos estejam no momento do resgate em frutificação, incluindo, aquelas de interesse socioeconômico (medicinais, de valor madeireiro, ornamentais, fornecedoras de alimentos, entre outras) ou de interesse para a fauna, bem como aquelas identificadas no EIA sob algum grau de ameaça a nível nacional ou estadual. Dentre estas, foram citadas Dicypellium caryophyllaceum (Mart.) Nees (pau cravo), Bertholletia excelsa Bonpl. (castanheira), Swietenia macrophylla King (mogno), Cedrela odorata L. (cedro), Virola surinamensis (Rol.
ex Rottb.) Warb. (ucuúba da várzea / branca) e Sagotia brachysepala (Müll. Arg.) Secco (arataciú amarelo).
Parte do material coletado, principalmente epífitas e herbáceas, será introduzida em áreas já protegidas no entorno da AID e ADA, fora da área de impacto do empreendimento, que apresentam as mesmas fitofisionomias das áreas alvo de resgate. Estas áreas deverão ser selecionadas preferencialmente na AID, em áreas oficialmente criadas e/ou indicadas para a proteção e que tenham como principal objetivo a manutenção dos ambientes florestais, como as APPs variáveis estabelecidas nos reservatórios ou na área definida para a compensação ambiental. Por outro lado, a área protegida mais próxima às obras é a Terra Indígena Paquiçamba, cuja parceria poderá ser feita, caso a população indígena e FUNAI tenham interesse de parceria com este projeto. Além dessas áreas, parte do material será utilizada para o povoamento misto em áreas definidas no âmbito do PRAD, bem como poderá ser enviado para instituições parceiras de ensino, pesquisa e de cunho conservacionista que serão previamente identificadas, consultadas e poderão ser partícipes do projeto.
Comentários:
Conforme analisado no Parecer n° 114/2009 – COHID/CGENE/DILIC/IBAMA, que subsidiou a emissão da Licença Prévia n° 342/2010, outras espécies sob algum grau de ameaça, não citadas nas espécies alvo de resgate acima, também foram encontradas nas listas oficiais (estadual e federal) de espécies ameaçadas da flora. O Parecer também aponta a ocorrência de outras espécies exclusivas das áreas a serem diretamente afetadas pelo empreendimento (reservatório e infraestruturas de apoio). A análise dos dados realizada no Parecer foi considerada como uma primeira aproximação para uma previsão preliminar dos impactos do empreendimento, não exaurindo o rol de espécies que podem ocorrer na região e que não foram encontradas nos levantamentos realizados no Estudo de Impacto Ambiental.
Conforme constatado durante a vistoria realizada na Área de Influência Direta do empreendimento no período de 03 a 07 de maio de 2011, o viveiro provisório de mudas
instalado no acampamento da Eletronorte ainda não foi ampliado e tampouco teve sua estrutura readequada para o acondicionamento de germoplasma coletado.
Recomendações:
Recomenda-se não se prender exclusivamente às prioridades elencadas ou às espécies apresentadas no EIA. Deverá ser realizado resgate e aproveitamento do maior número de espécies possível, ameaçadas ou não. Espécies não registradas no EIA, mas encontradas em campo, também deverão ser incluídas. Tal recomendação vai ao encontro da necessidade de fornecimento de propágulos para o Programa de Recuperação de Áreas Degradadas, incluindo a recuperação da APP dos reservatórios, com o aumento na composição de espécies e de formas de vida, além de agregar, em coleções científicas, maior representatividade do material resgatado da flora local.