CAPÍTULO 2 TERRITÓRIOS EDUCATIVOS DE INTERVENÇÃO PRIORITÁRIA (TEIP)
2.1. Clarificação conceptual
2.1.4. Projeto Educativo
O Projeto Educativo nasce do reconhecimento da especificidade de cada escola, tanto a nível interno como relativamente ao meio em que está inserida. Resulta “da visão que pretende para e de si própria, visão que se apoia na função da escola e é tanto mais comprometedora quanto maior for o nível de construção coletiva nela implicada, a missão específica de cada escola é
79 definida, o seu projeto é delineado, os objetivos e as estratégias para atingi-lo são conceitualizadas” (Alarcão, 2001, p. 21).
Sem perder a dimensão educativa mais abrangente, o Projeto Educativo deve, contudo, manter uma certa margem de liberdade que permita a cada escola adequá-lo à realidade da qual faz parte.
O Projeto Educativo da escola vai sendo objeto de regulamentação própria que se inicia com o Decreto-Lei nº 553/80 de 21 de novembro, seguido do Decreto - Lei nº 46/86 e do Decreto-Lei n.º 43/89, de 3 de Fevereiro, obtendo a sua consagração legal através da publicação do Decreto-Lei nº 172/91 de 10 de maio e pretende-se que seja mais do que um simples documento, já que deve resultar de uma reflexão profunda sobre a função da escola, baseado nos seus valores, e da forma como tem de se organizar para cumprir essa função, implicando os docentes através da negociação de valores e de perceções, e do diálogo conducentes às tomadas de decisões (Alarcão, 2003). Além disso, assume-se como sendo a “formulação de prioridades de desenvolvimento pedagógico, em planos anuais de atividades educativas e na elaboração de regulamentos internos para os principais sectores e serviços escolares” (Oliveira, 2000, in Ferreira & Teixeira, 2010, p. 345-346).
Também no Decreto – Lei nº 115-A/98 de 4 de maio o Projeto Educativo é “o documento que consagra a orientação educativa da escola, elaborado e aprovado pelos seus órgãos de administração e gestão para um horizonte de três anos, no qual se explicitam os princípios, os valores, as metas e as estratégias segundo os quais a escola se propõe cumprir a sua função educativa”.
Mais recentemente, o Decreto-Lei n.º 75/2008, de 22 de abril, considera o projeto educativo como “(…) o documento que consagra a orientação educativa do agrupamento de escolas ou da escola não agrupada, elaborado e aprovado pelos seus órgãos de administração e gestão para um horizonte de três anos, no qual se explicitam os princípios, os valores, as metas e as estratégias segundo os quais o agrupamento de escolas ou escola não agrupada se propõe cumprir a sua função educativa”.
80 No entanto, há uma polissemia no conceito de projeto que importa clarificar. Vilar (1993, p. 27) define projeto como sendo “uma forma diferente de encarar a realidade, não constituindo uma antecipação de acontecimentos e / ou resultados mais ou menos previsíveis e desejáveis mas, e tão só, o resultado de um conjunto de decisões articuladas e fundamentadas que permitirão concretizar um determinado curso de ação «iluminado» por certas hipóteses e / ou propósitos.”
Já para Barbieri o projeto consiste numa “série de interações entre o real e o que é desejado, o que tende a reduzir o desfasamento entre valores e discursos, por um lado, e atos, por outro, e eventualmente a jogar sobre as satisfações e insatisfações que daí procedem” (1993, p. 22).
Alves e Figueiredo (2011) consideram que o Projeto Educativo consagra toda a orientação educativa de uma determinada escola, incluindo as práticas reguladoras, formativas e reflexivas que vão determinar a ação e a inovação.
Melo (2004) observa que o projeto resulta, então, “de um processo endógeno, negociado … onde encontramos os fins, valores culturais, estratégias e planos operacionais de uma comunidade escolar” (p. 25).
Assim, o Projeto Educativo revela-se uma ferramenta fundamental para uma gestão estratégica “cuja construção e avaliação, nas suas diferentes facetas, se configura como o eixo fundamental de um processo de formação contínua dos professores” (Canário, 1995, p. 15).
Para Barroso (2005) a noção de projeto “tem vindo a transformar-se num ritual que acreditamos ser capaz, só por si, de dar um sentido ao nosso destino” (in Abelha, 2011, p. 87), entre os quais encontramos o Projeto Educativo de Escola (PEE), o Projeto Curricular de Escola (PCE) e o Projeto Próprio de Turma (PPT) (anterior Projeto Curricular de Turma - PCT), com significados distintos, mas tendo em comum a particularidade de serem projeto (Cortesão, Leite & Pacheco, 2002 in Abelha 2011, p. 87).
Para Melo (2004, p. 23) “na escola atual, o trabalho é organizado por projetos que operacionalizam o Projeto Educativo da Instituição (…) que surge numa educação centrada no desenvolvimento endógeno, que se gera dentro
81 das próprias comunidades e se aproveita das suas potencialidades, assentando na participação de todos os seus elementos.”
Também para Zabelza (1998 in Melo, 2004, p. 23) se deve “pensar em escolas cujos professores (e toda a comunidade educativa) se reúnam para (…) criar a sua interpretação própria do Programa Oficial que adeque os seus conteúdos e exigências às características dos alunos”.
Antunez et al (in Melo, 2004, p. 27) consideram o Projeto Educativo como o instrumento que permitirá uma gestão coerente com o meio em que se insere, definindo os princípios e os objetivos que servirão de orientação a todas as decisões e práticas de todos os intervenientes nas atividades da gestão escolar.
Deste modo, na elaboração Projeto Educativo devem estar presentes as preocupações centrais do programa, tal como, a promoção de condições de promoção do sucesso educativo e escolar das crianças e jovens com vista a prevenir a retenção, o absentismo e o abandono escolar, através das ofertas formativas, designadamente o recurso aos percursos curriculares alternativos, planos de acompanhamento pedagógico, cursos de educação e formação e cursos profissionais.
Todavia, o Projeto Educativo de Escola e o Projeto Educativo TEIP não são construídos exatamente da mesma forma, pois o Projeto Educativo surge como um instrumento fundamental à concretização dos TEIP assumindo pois uma responsabilidade mais abrangente, já que vai definir a política educativa de todo um território educativo, traduzindo numa ótica de planeamento organizacional, a autonomia do estabelecimento em que se insere, promovendo a articulação com o meio e, desta forma, promover a diminuição das desigualdades (Barbieri, 2003).
Além dos aspetos focados, as “escolas TEIP são obrigadas a apresentar um Projeto Educativo que deve ter em conta o contexto social em que se insere o estabelecimento de ensino, a otimização dos recursos disponíveis em cada território educativo e a articulação das intervenções dos vários parceiros” (Ferreira & Teixeira, 2010, p. 346).
82 Neste documento, a partir de um diagnóstico do ambiente e das condições internas da organização, devem estar presentes os objetivos que se pretendem atingir, construídos a partir de valores partilhados, bem como as estratégias a utilizar para o fim desejado. Porém, nestes territórios podem e devem existir os diferentes projetos das escolas que fazem parte do território, sendo que o Projeto Educativo TEIP deve ser, simultaneamente, particular e abrangente (Ferreira & Teixeira, 2010).