CAPÍTULO 1 CULTURA(S) DOCENTE(S)
1.3. Noção de trabalho colaborativo entre professores
1.3.3. Vantagens do trabalho docente colaborativo
Ter de trabalhar sozinho os novos programas e as novas práticas dificulta muito o trabalho do professor, ao passo que a cultura do trabalho colaborativo estimula a criatividade do professor (Woods, 1993, in Hargeaves, 2002), proporciona confiança para experimentar novas ideias (Helsby, 1999, in Hargeaves, 2002) e oferece uma rede de apoio que os torna mais persistentes aquando de eventuais retrocessos (Nias, 1999, in Hargeaves, 2002).
O trabalho colaborativo permite ainda aumentar a autoconfiança dos elementos envolvidos nesse tipo de trabalho, sendo assim um processo tanto emocional como intelectual eficaz. Além de possibilitar o apoio mútuo característico das relações informais estabelece, simultaneamente, de forma mais formal, responsabilidades e papéis, que não podem ser deixados ao acaso.
55 Assim, “a colaboração exige tempo, energia, comprometimento, recursos, sensibilidade e habilidade” (Hargreaves et al, 2002, p. 45).
De acordo com Little (1990), o trabalho colaborativo, uma vez que apela à responsabilidade e à reflexão partilhadas sobre o trabalho docente, é o tipo de trabalho que permite progressos mais significativos pois exige um compromisso coletivo (in Abelha, Machado & Lobo, 2014). Logo, ao desenvolver qualidades, tanto individuais como profissionais, a cultura colaborativa, vai, necessariamente, contribuir para a melhoria de todo o processo de ensino / aprendizagem (Herdeiro & Silva, 2008).
Para Boavida e Ponte (2002) o trabalho colaborativo é um recurso valioso por diversas razões. Em primeiro lugar, neste tipo de trabalho, os elementos que formam o grupo reúnem energias em torno de um objetivo comum, o que favorece a ação e a determinação em ultrapassar os obstáculos. Além disso apresentam-se diferentes visões, baseadas em diferentes experiências, que permitem maiores recursos na realização de uma determinada tarefa, possibilitando maiores mudanças e inovações que levam a um maior sucesso na realização do trabalho que se pretende concretizar. Por último, através do diálogo, da interação e da reflexão conjunta estimulam-se sinergias que criam melhores condições de êxito face às incertezas e aos obstáculos que vão surgindo.
De acordo com alguns autores estudados, as grandes vantagens do trabalho colaborativo são as seguintes: aumenta os níveis de confiança dos docentes no que diz respeito ao trabalho a desenvolver (Fullan & Hargreaves, 2001; Hernández, 2007; Sanches, 1997); que por sua vez leva a uma maior eficácia na procura de soluções, pois, de uma maneira geral os professores envolvidos partilham objetivos, atitudes e ideias (Ashton & Webb, 1986; Hargreaves, 1998; Hernández, 2007; Roldão, 2007); proporciona melhores ambientes de trabalho, não só no que diz respeito aos relacionamentos interpares, mas também na planificação curricular pois partilham-se diferentes opiniões e experiências (Fullan & Hargreaves, 2001); distinguem o essencial do acessório evitando incoerências ou repetições, o que potencia o sucesso educativo dos alunos (Fullan & Hargreaves, 2001; Hernández, 2007;
56 Rosenholtz, 1989); incentiva a diferença e a interdependência entre os docentes, pois ao trabalharem em projetos comuns, partilham preocupações que, em conjunto, procuram ultrapassar levando a partilhar aprendizagens (Fullan & Hargreaves, 2001); o que por sua vez melhora as práticas pedagógicas (Roldão, 2007). Assim, todo este processo permite um maior desenvolvimento profissional, que por sua vez se reflete no trabalho docente, conduzindo a melhorias em todo o processo educativo escolar (Hernández, 2007; Horn, 2005; Sawyer e Rimm-Kaufman, 2007), (in Abelha, Machado & Lobo, 2014).
Também Hargreaves (1998, in Abelha, 2011) enumera as vantagens do trabalho colaborativo, que considera fundamental para a “reestruturação e desenvolvimento educativo”, nomeadamente no que diz respeito ao apoio moral que ajuda a ultrapassar fracassos, à eficiência acrescida pois o trabalho em conjunto evita redundâncias, logo evita perdas de tempo, à eficácia melhorada devido à partilha de ideias, experiências e responsabilidades, o que proporciona maior diversificação de estratégias que conduzem uma melhoria das aprendizagens dos alunos, à sobrecarga de trabalho reduzida, com a partilha de tarefas e de responsabilidades, à certeza situada, pois ao trabalharem coletivamente reduzem os sentimentos de insegurança, ao poder de afirmação político pois em conjunto sentem-se mais fortes para fazer face às inovações que vêm do exterior e, mesmo, se for caso disso, resistir-lhes se assim o entenderem, à capacidade de reflexão acrescida que promove o diálogo e a reflexão sobre as práticas curriculares, a oportunidades de aprendizagem porque, entre todos produzem conhecimento, e ao aperfeiçoamento contínuo onde a mudança passa a ser encarada como uma forma de ultrapassar problemas diagnosticados, num processo contínuo de aperfeiçoamento. (p. 133- 134) – Penso que é para tirar a paginação, pois só retirei os “títulos”, o resto está por palavras minhas. O que acha?
Ainda segundo Hargreaves et al (2001) trabalhar de forma colaborativa não se restringe à construção de relações e de decisões partilhadas. Apesar de serem aspetos importantes, o recurso, talvez mais importante do trabalho colaborativo, é o facto de contribuir para a aprendizagem de todos os envolvidos, pois o coletivo ajuda a que não haja culpabilização perante um
57 problema que surge, vendo-o, simplesmente, como um obstáculo que é necessário ultrapassar, através da valorização dos diferentes pontos de vista expostos e debatidos, que acabam por permitir separar o fundamental do supérfluo. Esta aprendizagem profissional “é importante para aumentar a consciência e dotar os professores de capacidades, para que sejam mais eficazes com os seus estudantes” (p. 209).
Além da aprendizagem dos professores, o trabalho colaborativo nas escolas, contribui, igualmente, para a melhoria da própria escola e da sua capacidade para encarar os problemas que sempre vão surgindo, principalmente num mundo de paradoxos, como aquele em que vivemos atualmente. Torna-se mais fácil ultrapassar incertezas com a união e a responsabilização de todos, valorizando as diferentes vozes e as diferentes perspetivas que o todo traz para a resolução das dificuldades que vão ocorrendo. Um dos paradoxos que continuamente se coloca às escolas e causa grande parte dos problemas tem a ver com o facto de se entender que a mudança deva ser, necessariamente, lenta, mas, em simultâneo se pretenda que produza resultados visíveis rapidamente. Esta situação conduz à insatisfação e à sensação de impotência por parte dos professores. Assim, esta mudança organizacional nas escolas é fundamental para uma transformação positiva permitindo que o paradoxo do desespero se transforme num paradoxo de esperança “através da acumulação de iniciativas pequenas mas significativas, estruturadas pelo raciocínio multidimensional” (Hargreaves et al, 2001, p. 214).
Pelo exposto, as culturas colaborativas conferem uma maior confiança profissional, o que melhora o sentimento de autoeficácia entre os professores desenvolvendo-lhes a capacidade necessária para iniciarem a mudança. Garante ainda que as alterações realizadas não desapareçam com um ou dois indivíduos que as implementaram, fazendo com que tais transformações sejam mantidas com o passar do tempo permitindo, deste modo, mudanças eficazes e duradouras (Hargreaves, 2002).
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