4.1 O objetivo geral
O processo de assistência técnica coletiva teve como resultado o Relatório de Síntese e Diagnóstico do Mapeamento Territorial, subsídio para entendermos o território e as múltiplas territorialidades em Rio dos Macacos. Os mapas temáticos são peças fundamentais para esse entendimento e também peças fundamentais para um possível planejamento territorial em Rio dos Macacos. O planejamento territorial de uma comunidade rural inserida no contexto metropolitano deverá levar em conta aspectos como a história atual e ancestral quilombola, as possibilidades e potencialidades naturais da paisagem, o fortalecimento da organização social e comunitária, bem como as necessidades urgentes da comunidade.
Nesse sentido, planejar o território significa garantir a preservação e o desenvolvimento dos modos de criar, fazer e viver quilombola, o que necessariamente deve incluir a organização produtiva e a geração de renda. A economia dessa comunidade precisa ser consolidada e potencializada através do estabelecimento de diretrizes produtivas que possibilitem inclusão social e desenvolvimento sustentável das gerações atuais e futuras no território.
4.2. O(s) objetivo(s) específico (s)
De acordo com o Plano Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana a superação de vulnerabilidade socioeconômica dos povos e comunidades tradicionais de matriz africana passa pelo desenvolvimento sustentável, inclusão produtiva e valorização das práticas tradicionais de alimentação e de saúde.
Em Rio dos Macacos a organização produtiva está relacionada diretamente a possibilidade de acesso dos quilombolas aos mananciais hídricos presentes no território. Portanto, é imperatriz o uso compartilhado dos cursos hídricos presentes no território, incluindo aqui a Barragem do Rio dos Macacos, caso contrário não haverá sustentação produtiva comunitária.
Foram estabelecidas para isso diretrizes e princípios para a organização produtiva em Rio dos Macacos:
•Fortalecimento da identidade quilombola;
•Fortalecimento da organização produtiva quilombola, garantindo estimulo financeiro aos produtores, através do acesso de políticas públicas e outras formas de financiamento, incluindo o autofinanciamento;
•Inclusão produtiva com fechamento da cadeia produtiva (produção, beneficiamento e comercialização);
•Capacitação técnica e assistência técnica sempre que seja necessário;
•Desenvolvimento sustentável da produção;
•Valorização das práticas tradicionais de alimentação e de saúde;
•Promoção da agricultura familiar em bases agroecológicas, como modelo alternativo de desenvolvimento rural;
•Promoção da pesca artesanal, como modelo alternativo de desenvolvimento em áreas de pesca;
•Utilização compartilhada dos Recursos Hídricos;
•Recuperação de áreas degradadas e conservação de áreas de preservação ambiental;
•Desenvolvimento das potencialidades ambientais do território;
•Desenvolvimento das potencialidades humanas.
4. 3 Justificativa
Após a chegada da Marinha do Brasil ocorreram diversos ataques à produção quilombola, que vão desde a destruição das habitações, das roças à proibição de uso da água e dos recursos naturais. A partir do momento em que o pilar da produção é criminalizado, a Marinha do Brasil institucionaliza a fome dentro do território. Se há fome no território é o, como afirma Josué de Castro, resultado das relações sociais e de produção que os homens estabelecem entre si”.
Para o aprofundamento das atividades produtivas relacionadas aos recursos naturais disponíveis no território realizamos o mapeamento dos mananciais hídricos como rios principais, riachos, córregos, bem como fontes e minadouros. A análise dos recursos hídricos da Comunidade Quilombola Rio dos Macacos é de extrema necessidade, já que ao se declarar uma comunidade rural agrícola e pesqueira assume que sua existência e reprodução social está condicionada a utilização e conservação de seus recursos naturais, incluindo aqui os mananciais hídricos.
O projeto aqui proposto se insere na necessidade desta comunidade rearticular sua produção, levando em consideração a negação de acesso das políticas públicas pelos órgãos e secretaria do Estado. Além disso é necessário um estudo produtivo que leve em consideração as áreas ambientais que possuem ou não restrição ambiental, para garantir a sustentabilidade, autonomia e bem viver do Quilombo Rio dos Macacos.
4. 4 O Projeto: Diretrizes produtivas da comunidade quilombola de Rio dos Macacos
A organização da economia produtiva de Rio dos Macacos será divida em dois eixos. O primeiro faz referências as atividades produtivas de potencial interno, englobando as atividades já existentes no território, mas que precisam ser consolidas. O segundo eixo versa sobre possibilidades econômicas de produção que necessitam de maior articulação com a comunidade externa ao território (Estado, Universidades, bem como outras organizações da sociedade civil). A
espacialização atual da produção em Rio dos Macacos está dividida em duas áreas produtivas: a água e a terra, que caracterizam meios de produção distintos, mas jamais antagônicos. Existe uma relação entre os locais de roça com a presença de água, seja fonte, rio ou charco, no Quilombo Rio dos Macacos essa relação é confirmada na concomitância entre os nomes dos rios com o agricultor presente nas mediações. que o nome dos mananciais hídricos faz referência ao agricultor. Essa articulação de terra e água cria territorialidades específicas ao longo de cursos hídricos contíguos.
Existe no território a prática produtiva da mariscagem nos mangues, localizados principalmente na Baía de Aratu (acesso pelo norte) e da pescaria, tanto no rio quanto no mar. A pescaria nos rios do Barroso e dos Macacos é lembrada com muita alegria pelos mais velhos. Ali eles se reuniam para fazer confraternização, a pescaria era acompanhada pelo espírito familiar e comunitário. Era nos rios também que as mulheres lavavam roupas para fora, bem como pegavam água para cozinhar os alimentos e para o uso geral da casa. A água utilizada para a rega das plantas era também das fontes, rios e charcos das proximidades. O mapeamento territorial permite-nos afirmar que a água tem diversos usos no território, relacionados com a soberania alimentar, a geração de renda e lazer desta comunidade.
Sem água, portanto, não há sustentabilidade para que a vida e a tradição quilombola sejam mantidas. No que se refere à produção agrícola o mapa X traz a espacialização do conflito fundiário. Nota-se que no núcleo a norte, mais distante da Vila Naval, há maior concentração de roças no território, isto porque a maior parte das roças e casas (famílias) ao sul foram destruídas durante a construção da Vila Naval e da Barragem e impedidas de reconstrução.
É importante considerar que junto com as roças foram destruídas as casas de farinhas – como por exemplo algumas mapeadas por nós, este fato é mencionado com muita tristeza pela comunidade, como uma grande perda da capacidade produtiva e de subsistência. Atualmente apesar de todas as violências, existe a produção agrícola no território, com grandes diversidades entre as roças, algumas têm características mais agrícolas e outras que tem influência da pecuária, além de diferentes estágios produtivos. A leste da barragem, por exemplo, há uma roça bastante produtiva.
Além da comum criação de galinhas, nessa roça há algumas cabeças de gado. O território como um todo é composto de vegetação típica da Mata Atlântica do tipo Ombrófila, vegetação com grande potencial para extrativismo de dendê, cipó, dentre outros, como ocorre no território.
Existem alguns locais onde houve degradação do ambiente vegetal, principalmente nas margens do rio da saúde. Nessa área a vegetação foi retirada para extração de matéria-prima para a construção da Vila Militar. Esses casos de desmatamento não dão a tônica do território, já que são casos isolados e de influência externa. A comunidade de Rio dos Macacos, tem utilizado a natureza local com bastante sabedoria, respeitando os princípios ambientais de produção sustentável. A análise desse mapa mostra a aptidão agrícola e pesqueira do território. Porém mesmo que os quilombolas desempenhem atividades agrícolas e pesqueiras espontâneas no território faz-se necessário o maior ordenamento dessa produção, assim como, é urgente o fechamento do ciclo produtivo em Rio dos Macacos.
Para o desenvolvimento das diretrizes foram utilizados instrumentos técnicos, são eles:
•Laudo Agronômico – RTID-INCRA;
•Laudo Antropológico – RTID-INCRA;
•Relatório GeografAR – UFBA;
•Relatório de Síntese e Diagnóstico do Mapeamento – UFBA.
No que diz respeito ao ordenamento agrícola algumas diretrizes são importantes:
•Desenvolver tecnologia de transição para produção agroecológica através de assistência técnica;
•Incentivar o fechamento da cadeia produtiva: PRODUÇÃO, BENEFICIAMENTO, AGROINDUSTRIZAÇÃO E COMERCIALIZAÇÃO;
•Elaborar Plano de Manejo Ecológico e de Conservação do Solo, a partir dos pressupostos de Ana Maria Primavesi para a agricultura e extrativismo;
•Potencializar a já existente agrofloresta através do consórcio de culturas (café, cacau) plantas adubadeiras e árvores;
•Construir alternativas produtivas comunitárias como a organização de 2 (duas) hortas coletivas no território, através de MUTIRÃO, para BENEFICIAMENTO no CENTRO COMUNITÁRIO e COMERCIALIZAÇÃO, inicialmente, nas feiras da cidade;
•Inserir Rio dos Macacos nas redes de economia solidária;
•Promover capacitação de agricultores familiares no manejo e na produção de plantas medicinais, insumos e fitoterápicos adequados, através de possível parceria com o Ministério de Desenvolvimento Agrário (MDA);
•Acessar o crédito para financiamento, através de novas parcerias ou das já estabelecidas (Coordenadoria Ecumênica de Serviço);
•Promover a agroindustrialização através da construção de 2 (duas) CASAS DE FARINHA, tendo como referência o projeto padrão do Programa Produzir da Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional (CAR);
•Articular a estrutura do Centro Comunitário para concentrar o beneficiamento de produtos com comercialização (Jaca, Banana, Pitangas) - Atividade específica de mulheres.
No que diz respeito ao ordenamento pesqueiro algumas diretrizes são importantes:
•Uso compartilhado dos recursos hídricos presentes no território, com inclusão da Barragem dos Macacos;
•Acessar os materiais de pesca através de parceria com a Bahia Pesca;
•Acessar o Plano Safra da Pesca e Aquicultura, que oferece linhas de crédito;
•Estabelecer Plano de Manejo Ecológico e de Conservação dos Recursos Hídricos.
No que diz respeito ao ordenamento de outras atividades produtivas algumas diretrizes são importantes:
•Incentivar a produção coletiva de artesanato pelas mulheres associada ao modo de vida quilombola e a economia solidária;
•Organizar a Feira Quilombola.
Existem algumas atividades produtivas que podem ser opções para geração de renda, principalmente se pensarmos do ponto de vista da juventude quilombola. Essas atividades também podem ser instrumentos de defesa natural do território.
Potencialidades econômicas:
•Turismo de Base Comunitária: O turismo na agricultura familiar permite agregar valor à produção agrícola ou artesanal, gerando trabalho e renda, garantindo a preservação do meio ambiente e valorizando as culturais locais. Desde 2003, o MDA/SAF vem apoiando a
estruturação e o fortalecimento de roteiros turísticos que tenham como base a agricultura familiar.
•Tem trabalhado, ainda, no sentido de propiciar à produção familiar sua inserção no mercado turístico;
•Incentivar o Turismo étnico, como forma de renda, mas também de propagação da cultura afrobrasileira;
• Instalação de Escola Técnica Agrícola, bem como de cursos para capacitação através de parceria com PRONATEC e da Legislação Específica para Educação Quilombola;
•Instalação de outras agroindústrias no território como a produção de chocolate e cacau orgânico;
•Criação de Centro de Retiro, com intuito de ser um elemento de atrativo turístico, mas também como garantia da circulação de outras organizações através da realização de encontros no Centro;
•Revisão de projetos que foram oferecidos à comunidade e intensificação da mobilização para a concretização;
•Articulação com outras comunidades quilombolas para intercâmbio sobre as experiências no campo da economia produtiva.
Essas diretrizes propostas deverão seguir as orientações e regionalização do mapa abaixo:
Mapa 9 – Regionalização do Quilombo Rio dos Macacos