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5.3 AO MENOS UM DOS SEUS CAPÍTULOS

5.3.3 Pronunciamentos decisórios cindíveis em capítulos

Pronunciamentos decisórios cindíveis em capítulos admitem o trânsito em julgado parcial155.

A base normativa dessa afirmação é encontrada nos arts. 1.002 e 141, primeira parte, do CPC/15, adiante reproduzidos:

CPC/15:

Art. 1.002. A decisão pode ser impugnada no todo ou em parte.

Art. 141. O juiz decidirá o mérito nos limites propostos pelas partes […]

155 O trânsito em julgado da parcela de um do pronunciamento decisório, que é do que aqui estamos tratando, não se confunde com o trânsito em julgado da íntegra de um pronunciamento decisório que tenha resolvido parcela da demanda, de que é exemplo o pronunciamento a que o art. 356 do CPC/15 se refere, a despeito de ambas as situações serem admitidas pelo CPC/15. Já vimos que a referibilidade do trânsito em julgado é ao pronunciamento decisório ou a seus capítulos e não ao processo (item 5.2.1), razão pela qual “trânsito em julgado parcial” deve-se prestar a designar o trânsito em julgado da parcela do que ali se decidiu e não de parcela do objeto do processo. Decisão interlocutória de mérito que resolva parcela do objeto do processo (CPC/15, art. 356) comporta, assim, trânsito em julgado parcial ou total, a depender de se ter dela recorrido parcialmente ou não.

O pedido de invalidação e/ou reforma do pronunciamento decisório recorrido compõe o mérito do recurso que pretenda invalidá-lo e/ou reformá-lo. Se a decisão pode ser impugnada em parte e o juiz, neste contexto entendido como órgão julgador, deve decidir o mérito nos limites propostos pelas partes, conclui-se que os capítulos autônomos156 não impugnados terão

transitado em julgado.

Nessa categoria de pronunciamentos decisórios é que se enquadra a grande maioria deles. Quaisquer pronunciamentos que apreciem mais de uma questão principal157, por exemplo,

admitem o trânsito em julgado parcial. Pode-se recorrer de todo ou de parte desses pronunciamentos. De um pronunciamento decisório que julgue procedentes os pedidos A, B e

C, deduzidos pelo autor, pode o réu recorrer dos três pedidos, de dois deles ou de um só.

Em princípio, o capítulo de que não se tenha recorrido desde logo transitará em julgado. Na hipótese anterior, sendo A, B e C pedidos autônomos, recorrer da procedência de B não impedirá o trânsito em julgado dos capítulos pertinentes às procedências de A e de C.158

A regra, todavia, admite exceções. Excepcionam-na os casos de capítulos não recorridos que sejam subordinados a capítulos recorridos, subordinantes em relação àqueles.

5.3.3.1 Capítulos subordinantes e capítulos subordinados.

O exemplo mais conhecido de relação de subordinação entre capítulos é o do capítulo pertinente à fixação das verbas de sucumbência, no que se incluem os honorários advocatícios, que sempre apresenta-se como subordinado de outro(s) capítulo(s).

Recorrendo-se do capítulo subordinante impede-se o imediato trânsito em julgado do capítulo não recorrido pertinente à fixação das verbas de sucumbência, haja vista que a eventual

156Há capítulos que mantém entre si uma relação de subordinação (capítulo subordinante e capítulo subordinado). Nesse caso, recorrendo-se do capítulo subordinante impede-se também o trânsito em julgado do capítulo subordinado (v. item 5.3.3.1 adiante).

157Questões principais são questões impertinentes à validade do procedimento, submetidas ao juízo para que a solução a elas dada torne-se imutável e indiscutível pela coisa julgada. V. Item 6.1.1.1.

158Ao contrário, a interposição do recurso de parte da matéria recorrível no caso resultará no imediato trânsito em julgado dos demais capítulos, em razão da preclusão consumativa (v. item 5.4.1.3).

procedência do recurso interposto do(s) capítulo(s) subordinante(s) importará na alteração da condição de parte vencida e, por conseguinte, no capítulo subordinado (v. CPC/15, arts. 82, §2º, e 85-94).

Há diversos outros casos, dentre ele, uma hipótese bem interessante de relação de subordinação entre capítulos que surge como decorrência da possibilidade de a solução dada a questões prejudiciais incidentais vir a compor suporte fático da coisa julgada (CPC/15, art. 503, §§1º e 2º).

A forma mais simples de se explicá-la é através de um exemplo.

- A move demanda contra B, pedindo ao juízo seja B condenado a prestar-lhe alimentos,

porque B é seu pai. Ao fim do processo, o juízo prolatada sentença de total procedência, condenando B a prestar alimentos a A, em razão de B ser pai de A.

Os elementos desse novo suporte fático da coisa julgada ainda serão apontados e examinados (v. item 6.4), mas suponhamos que todos eles, à exceção do trânsito em julgado, encontrem-se presentes no exemplo.

Visando-se precisar capítulos que possam compor suportes fáticos da coisa julgada, uma das divisões que essa sentença comporta é a seguinte: (a) capítulo pertinente à solução dada à questão prejudicial incidental e (b) capítulo pertinente à procedência do pedido.

Apelação onde o réu pleiteie apenas a integral reforma do capítulo (b) impedirá o imediato trânsito em julgado do capítulo (a), por 02 (dois) motivos: em primeiro lugar, porque o capítulo (a) não deixa de ser uma questão relativa ao capítulo (b), e como tal é devolvido ao tribunal, no termos do art. 1.013, caput e §§1º e 2º, do CPC/15, ainda que o réu recorra sob o único fundamento de que não tem condições de pagar alimentos, nada dizendo acerca da paternidade; em segundo lugar, porque eventual procedência da apelação, ao substituir o capítulo (b), fará com que desapareça o requisito previsto no art. 503, §1º, I, do CPC/15159 e,

consequentemente, a possibilidade de coisa julgada relativa ao capítulo (a).

159Onde se lê: se “dessa resolução depender o julgamento do mérito”; leia-se: se o sentido em que resolvido o mérito depender da solução dada à questão prejudicial incidental (v. item 6.4.4.2).

Apelação, por outro lado, onde o réu pleiteie apenas a reforma do capítulo (a) não impedirá o imediato trânsito em julgado do capítulo (b), nem, portanto, a formação da coisa julgada a ele relacionada. O risco de decisões conflitantes é inequivocamente um problema, que o CPC/15 tenta reduzir (ex. arts. 55, §3º; 503, §1º), mas não consegue eliminar160. Apesar disso, por se

tratar a relação alimentante-alimentando de relação jurídica de trato continuado, em sendo a sua apelação julgada procedente, poderá o alimentante ingressar com nova demanda, para se ver desonerado do dever de prestar alimentos, em razão da modificação no estado de direito (CPC/15, art. 505, I)161.

Em síntese, o capítulo da questão prejudicial incidental passível de compor suporte fático da coisa julgada é subordinado ao capítulo da questão principal, de modo que o seu trânsito em julgado fica obstado pelo recurso que se venha a interpor do capítulo subordinante.