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4 PROPAGANDA ELEITORAL E POSSIBILIDADE DE APLICAÇÃO DA TEORIA

4.1 PROPAGANDA ELEITORAL

4.1.1 Propaganda negativa

A propaganda negativa é tema bastante analisado e discutido por vários doutrinadores.

Nas eleições de 2018, a propaganda eleitoral destinada às coligações, partidos e candidatos deu-se a partir de 16 de agosto430.

Questão antes tormentosa foi praticamente solucionada integralmente com relação a campanhas antes deste período. A propaganda antecipada, ou seja, aquela

429 TRE-SP, Representação (11541) - 0605264-87.2018.6.26.0000, julgada em 19/09/2018.

430 Lei n 9504/97: Art. 36. A propaganda eleitoral somente é permitida após o dia 15 de agosto do ano

feita antes do dia acima mencionado era objeto de todo tipo de debate. Com a inclusão do art. 36-A na Lei n 9.504/97, passou-se a permitir manifestações e opiniões de forma ampla, desde que não houvesse pedido explícito de voto. Vide teor do texto:

Art. 36-A. Não configuram propaganda eleitoral antecipada, desde que não envolvam pedido explícito de voto, a menção à pretensa candidatura, a exaltação das qualidades pessoais dos pré-candidatos e os seguintes atos, que poderão ter cobertura dos meios de comunicação social, inclusive via internet\;

I – a participação de filiados a partidos políticos ou de pré-candidatos em entrevistas, programas, encontros ou debates no rádio, na televisão e na internet, inclusive com a exposição de plataformas e projetos políticos, observado pelas emissoras de rádio e de televisão o dever de conferir tratamento isonômico;

II – a realização de encontros, seminários ou congressos, em ambiente fechado e a expensas dos partidos políticos, para tratar da organização dos processos eleitorais, discussão de políticas públicas, planos de governo ou alianças partidárias visando às eleições, podendo tais atividades serem divulgadas pelos instrumentos de comunicação intrapartidária;

III - a realização de prévias partidárias e a respectiva distribuição de material informativo, a divulgação dos nomes dos filiados que participarão

IV – a divulgação de atos parlamentares e debates legislativos, desde que não se faça pedido de votos;

V – a divulgação de posicionamentos e debates sobre questões políticas, inclusive nas redes sociais;

VI – a realização, a expensas de partido político, de reuniões de iniciativa da sociedade civil, de veículo ou meio de comunicação ou do próprio partido, em qualquer localidade para divulgas ideias, objetivos e propostas partidárias; VII – campanha de arrecadação prévia de recursos na modalidade prevista no inciso IV do $4/ do art. 23 desta Lei.

Voltando ao período destinado propriamente à propaganda, nota-se que as estratégias para o alcance dos eleitores, mormente no mundo digital, passaram a criar linguagens acessíveis a uma gama cada vez maior de eleitores.

Slogans (mensagens curtas e simples) e jingles (músicas criadas especialmente para a campanha) enaltecendo o candidato, utilização de pesquisa eleitoral, entrevista com pessoas “do povo” e foco nos aspectos positivos do candidato passaram a não serem os únicos instrumentos de convencimento.

Evidentemente as mazelas pessoais e inexequibilidade de propostas dos outros candidatos passaram a ser vistos como fonte cada vez maior de ataque, passando a fazer parte do marketing eleitoral capaz de converter em votos a favor daquele que ataca em detrimento do candidato exposto, a chamada propaganda negativa.

Para Lídio Modesto da Silva Filho, o objetivo “da propaganda negativa é influenciar o eleitorado para que este não vote em determinado candidato gerando mídias que ultrapassam o limite da mera crítica política para o fim de causar uma repulsa no eleitorado em relação a uma pessoa”431.

Para Mauro Antonio Prezotto:

Essa espécie de propaganda tem sido cada vez mais recorrente nas disputas eleitorais, especialmente naquelas em que o pleito é decidido pelo sistema majoritário. Por vezes, candidatos gastam mais tempo tentando desconstruir a imagem do adversário do que apresentando suas próprias propostas. Como destaca Neisser, a propaganda negativa é utilizada desde que a propaganda começou a ser utilizada como instrumento de convencimento na arena política. Trata-se de importante instrumento a ser empregado nas disputas eleitorais para, a partir do destaque dos aspectos negativos do adversário e das propostas, convencer o eleitor a não votar em determinado candidato432. Questões do passado, até mesmo de cunho privado, são trazidas à baila, ações judiciais ainda não transitadas em julgado, números e estatísticas controvertidos, sendo certo que até fotos do candidato “antes e depois”, com imagens do mesmo gordo e depois magro, foram utilizados como estratégia de campanha433. Nesta última

hipótese, assim o Tribunal Regional Estadual de São Paulo se manifestou:

RECURSO ELEITORAL – REPRESENTAÇÃO – DIREITO DE RESPOSTA – ALEGAÇÃO DE SUPOSTA VEICULAÇÃO DE PROPAGANDA ELEITORAL POR ALEGAR QUE O CANDIDATO JOÃO DÓRIA É PRECONCEITUOSO – PROPAGANDA REALIZADA PELO CANDIDATO MÁRCIO FRANÇA COMO RESPOSTA À UTILIZAÇÃO DE SUA IMAGEM COM DIFERENTES FORMAS FÍSICAS – DIREITO AO LIVRE EXERCÍCIO DA MANIFESTAÇÃO DE PENSAMENTO, SEM ABUSO DA LIBERDADE DE CRÍTICA INERENTE AO EMBATE POLÍTICO NA DISPUTA DAS ELEIÇÕES – CANDIDATO, PARTIDO OU COLIGAÇÃO NÃO ATINGIDOS, AINDA QUE DE FORMA INDIRETA, POR CONCEITO, IMAGEM OU AFIRMAÇÃO CALUNIOSA, DIFAMATÓRIA, INJURIOSA OU SABIDAMENTE INVERÍDICA, DE FORMA A AFASTAR A INTERVENIÊNCIA EXCEPCIONAL DA JUSTIÇA ELEITORAL – ART. 58 DA LEI N. 9.504/97 – PROPAGANDA QUESTIONADA QUE SE LIMITOU AO EXERCÍCIO DA CRÍTICA, INERENTE AO DEBATE POLÍTICO – DECISÃO MONOCRÁTICA MANTIDA – RECURSO ELEITORAL IMPROVIDO.

431 SILVA FILHO, Lídio Modesto da . Propaganda Eleitoral. De Acordo com a Minirreforma Eleitoral e

com as Resoluções 23.551/2017 e 23.554/2017. Curitiba: Juruá, 2018. p.72.

432 PREZOTTO, Mauro Antônio. Propaganda eleitoral negativa como instrumento de convencimento do

eleitor. In: FUX, Luiz; PEREIRA, Luiz Fernando Casagrande; AGRA, Walber de Moura (Cord.); PECCININ, Luiz Eduardo (Org.). Direito Constitucional Eleitoral. Belo Horizonte: Fórum, 2018, p. 42 (Tratado de Direito Eleitoral, tomo 4).

433 TRE-SP, Recurso Eleitoral na Representação (11541) - 0608723-97.2018.6.26.0000, julgado em

Na maioria dos casos onde se pleiteava por intermédio de Ação de Representação Eleitoral, dirigida aos juízes da propaganda eleitoral, a suspensão ou retirada de conteúdo de uma determinada propaganda foi bastante restritiva quanto ao deferimento de tal pretensão.

Na grande maioria dos casos, a Justiça Eleitoral entendeu que as chamadas “críticas ácidas” fazem parte do processo eleitoral, não havendo motivos para a interferência no convencimento do eleitor434.

Merece destaque julgamento realizado pelo E. Tribunal Superior Eleitoral nas Eleições de 2018435:

ELEIÇÕES 2018. RECURSO INOMINADO. REPRESENTAÇÃO. CHARGE POLÍTICA. EXERCÍCIO DA LIBERDADE DE EXPRESSÃO QUE NÃO

ENSEJA O DEFERIMENTO DE DIREITO DE

RESPOSTA. DESPROVIMENTO.

1.A charge política consubstancia forma de arte essencialmente provocativa, a merecer dupla proteção constitucional, por ser – ao mesmo tempo – expressão do discurso político e da criatividade artística do chargista. A publicação impugnada – consistente em charge que associa o nome do recorrente a personagens históricos identificados com regimes não democráticos e com violações a direitos fundamentais da pessoa humana – apenas expressa críticas às posições do candidato, inseridas no campo de tais liberdades públicas.

2. A prevalecer a tese exposta na exordial e reiterada no recurso ora em exame, impossibilitados estariam os artistas da caricatura e da charge política de traduzir em seus desenhos quaisquer críticas às ações, às posições políticas e às pessoas dos candidatos, o que se apresenta como verdadeiro contrassenso no ambiente plural de debate de ideias que caracteriza o regime democrático.

3. Recurso ao qual se nega provimento.

As críticas realizadas com base em estatísticas e opiniões igualmente não sofreram restrição. A orientação foi no sentido de que “se gera debate”, deixa-se a interpretação e decisão ao eleitor. As retiradas de conteúdo das redes sociais (Facebook, WhatsApp, Instagram, dentre outros) por intermédio da identificação das chamadas URLs (Uniform Resource Locator), ou Localizador Padrão de Recursos,

434 RECURSO n 060910408, ACÓRDÃO n 060910408 de 24/10/2018, Relator PAULO SÉRGIO BRANT

DE CARVALHO GALIZIA, Publicação: PSESS - Publicado em Sessão, Data 24/10/2018; RECURSO n 4855, ACÓRDÃO de 19/10/2018, Relator CLAUDIA LÚCIA FONSECA FANUCCHI, Publicação: PSESS - Publicado em Sessão, Data 19/10/2018; RECURSO n 060872397, ACÓRDÃO de 10/10/2018, Relator MAURICIO FIORITO, Publicação: PSESS - Publicado em Sessão, Data 10/10/2018; RECURSO n 45195, ACÓRDÃO de 23/09/2016, Relator ANDRÉ GUILHERME LEMOS JORGE, Publicação: PSESS - Publicado em Sessão, Volume 18:45, Data 23/09/2016.

435 Representação nº 060094684, Acórdão, Relator(a) Min. Carlos Horbach, Publicação: PSESS -

pela própria orientação do TSE, por intermédio do artigo. 33 “caput” da Resolução nº 23.551/2017, c.c. artigo 323 do Código Eleitoral, só foram realizadas quando o fato apontado era “sabidamente inverídico”.

Menção a condenações em processos foram admitidas desde que houvesse algum tipo de informação de que ainda não se tratava de decisão transitada em julgado. Não foi aceita propaganda negativa que imputava a outro candidato a prática de crime de trabalho escravo, visto ainda existir recurso pendente de julgamento436.

Propagandas negativas onde se procurou explorar algum fato da vida privada de determinado candidato não foram objeto de ataque, ao menos nas eleições de 2018 em São Paulo. O vídeo que circulou pelo WhatsApp, onde uma pessoa muito parecida com um dos candidatos a governador aparecia nu e rodeado de mulheres, até o momento não teve sua origem identificada, e na prática não foi objeto de formal representação à Justiça Eleitoral.

A ideia principal pautou-se no conceito de que aquele que se dispõe a disputar uma eleição deve estar preparado para críticas de toda ordem, tanto no âmbito de sua pregressa atuação no campo político, quanto em sua vida privada, deixando-se aqui uma ressalva da verificação caso a caso de violação à intimidade principalmente de pessoas que não estão disputando a eleição, e de uma hora para outra veem seus nomes divulgados pela mídia.

Novamente, Mauro Antonio Prezotto nos ensina:

A despeito das mazelas que a divulgação de fatos relacionados, especialmente às pessoa públicas, pode ocasionar em termos de disputa eleitoral, é preciso dizer que a propaganda eleitoral negativa não deve ser encarada apenas como uma técnica empregada pelos candidatos para desconstituir o adversário e suas propostas. È antes de tudo um direito do eleitor alicerçado na Constituição Federal, representado pelo princípio da liberdade de expressão e de informação já abordado.437

436 TRE/SP. Representação Eleitoral nº 0600801-05.2018.6.26.0000. Rel. Dr. Afonso Celso da Silva. J.

13/07/2018.

437 PREZOTTO, Mauro Antonio. Propaganda eleitoral negativa como instrumento de convencimento do

eleitor. In: FUX, Luiz; PEREIRA, Luiz Fernando Casagrande; AGRA, Walber de Moura (Cord.); PECCININ, Luiz Eduardo (Org.). Direito Constitucional Eleitoral. Belo Horizonte: Fórum, 2018, p. 43 (Tratado de Direito Eleitoral, tomo 4)..

O direito à informação e da liberdade da informação, embora pouco enfatizado quando confrontado com outros princípios fundamentais (liberdade pensamento/expressão), mostra-se particularmente importante na propaganda eleitoral. O eleitor tem o amplo direito de ser informado de todos os aspectos passados e presentes, tanto do partido quanto do candidato, para somente após firmar seu convencimento de qual é a melhor escolha.

Qual a proposta do partido (ênfase no livre mercado, proteção do meio ambiente, priorização na educação, proteção de minorias, etc..), o que já fez e falou em cada um destes itens, como votou em projetos anteriores, se honrou ou não as “promessas de campanha”, qual foi sua conduta na vida privada (discreto, extrovertido), qual sua religião, qual sua opinião sobre assuntos polêmicos (menoridade penal, aborto, pena de morte), existência ou não de ações condenatórias, tanto no campo cível quanto no criminal, qual sua evolução patrimonial nos últimos anos, fazem um conjunto único de cada candidato que só o eleitor poderá montar dentro de seus próprios critérios de quem será, para determinado cargo, a melhor opção.

No dia da eleição, cada candidato será “julgado” por cada eleitor, não havendo, em regra, como se vetar a chamada propaganda negativa.

Restringir-se a informação, bloqueando-se sua chegada aos lares dos eleitores, não me parece ser o papel da Justiça Eleitoral.