§ 1.° — A PREPARAÇÃO DA HERDITARIEDADE
\J CONCEITO moderno da heredita-
riedade encerra em si um verdadeiro código de moral.
Comte, affirmando que «os mortos governam os vivos», reforçou e acla- rou aquellas palavras do prophet a Jeremias— «os pães comeram as uvas verdes: por isso os dentes dos filhos nasceram derramados.»
Não é demais que se espalhe aos quatro ventos, e se faça conhecei- por
m
todos, quantos preceitos úteis estão em synthèse na concizão da phrase do creador do Positivismo.
O instincto da c o n s e r v a ç ã o da espécie reúne muitas e poderosas emo- ções; e, d'estas, o amor pelos filhos é ainda uma das que podem influir gran- demente n'este mais ou menos coor- denado conjuncto d'actos que é a con- ducta humana.
Se alguma moral scientifica — ou biológica, melhor dizendo — é possí- vel, decerto não irá por caminho errado aquelle que a quizer alicerçar era grande parte sobre as noções que a Biologia humana nos dá da heredi- tariedade. Ponto é que se consiga fazer entrar no espirito de cada um aquellas admiráveis palavras de Geor- ges Valois: «L'homme n'existe pas.
l'esprit qui les unit.» ' Aqui reside a principal questão. Mas não será tarefa de executar com facilidade, substituir ao epicurismo grosseiro —que é regra de vida para muitos — um outro ideal mais largo e nobre que conduza o homem a guiar-se segundo as normas que são enthusiastica e eloquente- mente defendidas por Grasset no seu livro « D e v o i r s et périls biolo- giques».
Assim mesmo, muito é para dese- jar que as doutrinas benéficas desse
livro se d iff undam profusamente, para que os homens de bôa vontade, que ponham ainda o seu enlevo nesta ins- tituição fundamental da família, vejam como importa, para o futuro dos seus
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filhos, a-con.iucta que hajam por ven- tura de seguir.
Se a diffusão do conhecimento dos perigos, que acarretam para os filhos os desregramentos moraes dos proge- nitores, não é de una valor pratico absoluto (porque ha-de haver sempre quem antes queira viver a sua vida do que pensar nos que terão de lhe herdar as misérias), verdade é que outros preceitos de ordem social se podem deduzir do conhecimento que temos da hereditariedade.
— É segundo esses preceitos que foram procedendo os Estados Unidos quando puzeram aos degenerados um verdadeiro interdicto no que respeita ás suas funcções de reproducção.
No mesmo sentido deveriam influir todos aquelles que intervêem na cons- tituição de qualquer familia; mas não
tem sido assim, desgraçadamente: na generalidade, os indivíduos que preten- dem casar as filhas, procedem como aquelles lavradores provincianos que preferem entrega-las nas mãos de um
doutor—qua tenha derrancado a alma e
o corpo pelos alcouces da cidade — a ca- sa-las com outro lavrador, que tenha nas veias a seiva for le e perdurável da raça.
A vigilância medica do casamento, nos termos em que tem sido preconizada, parece-me, pois, que só conseguirá vingar entre aquellas passons que te- nham a vontade bem illustrada por uma intelligencia farta de conhecimentos vastos e perfeitos.
Em grande parte, a preparação da hereditariedade é um problema de hy- giene geral; a kicta soeial contra o al- coolismo, a syphilis e as diversas into-
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xicações e infecções, não será senão a preparação de uma sociedade em que o numero de criminosos e de todos os de- generados tenda a diminuir.
Em tudo aquillo que puder favo- recer a organisação da familia, a inter- venção do Estado é da maxima utili- dade. 0 robustecimento da familia — no conceito biológico desta instituição — é incontestavelmente um grande factor de moralidade para o individuo e de vigor para a espécie. É também isto um problema de hygiene geral, que bem devia merecer a attenção das auctori- dades. Tudo quanto se fizer por melho- rar as condições de vida das classes pobres — que tão grande contingente dão para a categoria dos criminosos profissionaes — será pouco, se tivermos em vista a commum utilidade que d'ahi pôde derivar. Entre esas obras de
protecção, não é de se negar a summa importância que teem os institutos de recolhimento e amparo das mulheres gravidas: por demais é conhecido que o individuo, no tempo da sua geração, pode soffrer a influencia, de trauma- tismos, intoxicações e infecções, que podem decidir do futuro da sua vida em sociedade.
Todos podem contribuir para a resolução deste grave problema do crime : não são somente os hygie- nistas, os medicos, os homens de leis, os economistas : teem também a sua parte os litteratos.
Não estão estes artistas livres de responsabilidade na desorganisação que a familia vem soffrendo modernamente : o conceito individualista que Rousseau
45 legou ao Romantismo, tem uma grande parte n'aquella theoria do casamento em que se exaltou o amor a ponto de fazer delle uma paixão que desculpasse todas as baixezas e vilanias.
Enorme influencia pôde ter a litte- ratura, orientadora de tão grande nu- mero de intelligencias, reformando as ideias e substituindo á noção egoísta do amor — o conceito, perfeitamente bio- lógico, do sacrifício e do interesse ex- clusivo pela prole.
Se na instituição da familia está o meio de se obter a geração de orga- nismos mais vigorosos, nessa insti- tuição está também o meio de esses organismos encontrarem um pleno de- senvolvimento áquellas funcções que mais úteis são á vida do homem em sociedade.
§ 2.° — A EDUCAÇÃO
0 estudo psychologies do acto, tomado na sua generalidade, demons- tra-nos corno o individuo, tendo nas- cido com as diversas potencialidades psychicas nor mães, pôde, pela acção do meio educativo em que haja de se erear, ser levado á execução habitual do acto criminoso.
Na base de todo o acto intellectual ou moral, estão os conjunctos vividos, as imagens sensitivas; se, no decorrer da sua evolução psychica, a creança não encontra nenhum exemplo de honestidade; se o meio em que ella vive lhe dá só impressões de desregra- mento de condueta e de miséria moral, como será que ella pôde fazer entrar na sua mentalidade qualquer ideia do bem ou da justiça?
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A obediência é, na infância, o código único da moral : será bom aquillo que o pae ou a mãe orde- narem.
Ora, se os pães se despreocupam do futuro de seus filhos, se lhes dão ainda suggestões criminosas—como em muitos casos succède —, certamente é bem de prever qual será o resultado que d'ahi deriva.
Todos os trabalhos de psychologia das creanças denotam a extrema impulsividade que as caractérisa, ao passarem pela segunda infância. «The hand is never so near the brain», disse Stanley Hall. '
Marro falia até na combatividade que se manifesta na idade critica.
1 Citado por J. de La Vaissière S. J. — Psycho-
Sabido como é que «tudo quanto ha de verdadeiramente nobre na nossa vida, ó de origem inibitória» (Morselli)1, não
se pôde deixar de esperar que uma creança, educada sem o mais leve prin- cipio director da conducta, tenha a sua vontade â mercê do primeiro motivo que apparaça.
São sem numero esses míseros pá- rias, creados ao abandono, filhos da rua, que teem um system a psychico onde nunca se feriu uma única lucta entre a vontade e as impulsões que as causas externas lhes tenham suscitado. A so- breposição continuada de actos immo- raes ou criminosos, tornou essas creanças uns autómatos em que o principio inibi- dor nunca representou o seu papel do
49 predomínio sobre os desejos perigosos e a attracção dos prazeres.
E como poderia ser o contrario ? Quem lhes deu uma ideia directriz que lhes preparasse a formação de caracter? Quem tentou, ao menos, de- senvolver nellas o poder de inibição e constituir-lhes aquelle conjuncto de. hábitos de vontade que é a prepa- ração da futura conducta? A familia, não. A sociedade... essa só a conhe- ceram quando, em nome de um direito de defeza, e servindo-se do poder do mais forte, as encerrou na prisão onde
travaram conhecimento com collegas experimentados que as amestraram e apuraram na ignominia das profissões criminosas. O pequeno gatuno roubava ás vezes por necessidade, por ter con- traindo hábitos de preguiça, que o des- viavam da sujeição da officina. Entrou
para a cadeia: o único trabalho da autoridade foi fornecer ao noviço um mestre antigo e bem versado em artes, para lhe organisai' as tendências e os hábitos e fazer d'elle um profissional perfeito.
Aasim — pela falta da acção edu- cativa da familia e pela acção do sys- tema penal que até aqui temos tido para as creanças — se formava o criminoso de habito, o reincidente, o chamado in- corrigivel.
No fundamento do direito de punir, a criminologia moderna colloca a defeza necessária da sociedade contra os seres nocivos que são os criminosos. Mas, se a sociedade tem o direito de punir, porque tem o direito de se defender — esse direito inclue um dever concomi- tante : o de velar pela prophylaxia social do crime.
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O robustecimento da instituição da família, está na primeira linha das obrigações dependentes desse dever. Não ha nada que possa substituir a família na educação dos menores; nem os melhores institutos ou asylos podem dar á creança aquella solicitude, aquella carinhosa paciência, que são necessárias para o trabalho persis- tente e aturado dos 20 annos em que a formação do individuo se realiza.
Quando a, fome entra pela porta, sahe a honra pela janella. Ninguém prega o Evangelho a estômagos vasios : devo insistir novamente em que a melhoria da situação material das famílias p o b r e s , será já um grande passo para melhorar a sua situação moral.
Quando, pela sua inferioridade moral, os pães se tornaram incapazes
para a educação da sua prole, o Estado tem, não sô o direito, mas o dever, de substituir a familia que falta ao cum- primento da sua missão.
É de urgente necessidade o desin- volvimonto dos que existem, e a 'créa-, çãõ de novos institutos, destinados á educação dos menores, onde os profes- sores— que deveriam ter uma prepa- ração pedagógica especial —tratem de educar os internados com o fim supe- rior de os preparar para a futura vida em sociedade, formando-lhes o cara-
cter, que é a unidade e a coordenação
na conducta do homem. Do mesmo modo, devia o Estado deixar desenvol- ver plenamente os institutos particula- res de educação dos menores — fossem ou não fossem congreganistas esses institutos; tivessem ou não tivessem por mestres os frades ou jesuitas,
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Assim não succède, infelizmente: em obediência ás estúpidas exigências de qualquer associação de logistas, impe- de-se que muitas creanças, que para ahi estão ao abandono, tenham uma educa- ção efficaz, só para que o somno de certas creaturas seja socegado, plácido, sem temores ao phantasma negro do jesuitismo.
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A obrigação rigorosa da frequência escolar para os menores; a protecção aos pequenos estudantes, filhos de famí- lias pobres, poderia desde já ser o ensaio de uma mais larga obra de pro- phylaxia social do crime.
Como complemento a isto, da maior importância seria a introducção da hydrotherapia e de uma educação phisica completa em todas as escola spublicas.
As apphYações da hydrotherapia, de ex- cellentes resultados nas affecções men- taes das creanças, deveriam ser de rigor. A agua fria é um admirável moderador da impressionabilidade do systema ner- voso, e a sua acção continuada teria um utilíssimo effeito em reconstituir o cére- bro frágil das creanças, porventura can- çado pelo trabalho, e em lhes attenuar as excitações á voluptuosidade que tanto compromettem a saúde em geral e o desenvolvimento da intelligencia e das faculdades moraes em particular. 1
A gymnastica em eommum, disci- plinando os movimentos, excitando as funcções geraes do organismo, estimu- lando o systema nervoso, é também de uma franca e completa utilidade.
55 Ella é, com a educação especial dos sentidos, uma base do tratamento dos anormaes; e é lambem de um incon- testável proveito para todas as creanças.
Alem da gymnastica propriamente dita, é precizo dar o lugar, que de direito lhes pertence, aos jogos. Teem estes innumeras condições para desenvolver todas aquellas qualidades de agilidade, enthusiasmo, perseverança, resolução, que tão necessárias são depois, no exer- cício das funcções da intelligencia e da vontade que mais se prendem com a vida social do individuo. '
A educação esthetica e os trabalhos manuaes não deveriam ser desprezados na educação dos menores : reúnem, nos seus resultados, um grande numero dos 1 J. Philippe et Paul Bonoourt —Education des
que são obtidos pela gymnastica e pelos jogos; e teem, alem d'isso, a superiori- dade de revelar e desenvolver um grande numero de possiveis aptidões.
A diffusão da instrucção será também um meio educativo de grande valor: tanto maior, quanto mais vasta e perfei- ta for essa instrucção. A sua influencia sobre a moralidade é importante, porque illumina o campo da consciência e reforça, em numero e em intensidade, os bons motivos de querer pelos quaes a vontade possa ser soilicitada.
Os menores examinados pelo Snr. Dr. Mendes Correia e estudados no seu livro «Creanças Delinquentes», são quasi todos de uma nulla instrucção e pequena intelligencia. Parece-me possivel ap- proximar e^tas deficiências intelleotuaes das falhas moraes por estas creanças apresentadas.
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Todos os meios educativos que deixei apontados, nada, on quasi nada valem, se não tiverem a completa-los a educação moral. Esta é como que o fecho da obra; e todos os outros factores deverão ser empregados tendo em vista o trabalho final da educação da vontade da creança, para sua utilidade propria e da commu- nidade social a que pertence.
Sem uma forte educação moral, os meios que se empregam, para o aperfei- çoamento phisico e intellectual do indi- viduo, poderão até servir para lhe requintar tendências criminosas que acaso tenha, dirigindo-lhas de modo a torna-lo uni delinquente mais refinada- mente perverso.
Garofalo deixa bem demonstrada na sua «Criminologia» a nulla efficacia da
instrucção pura e simples, como factor educativo.
A educação moral deve principiar desde tenros anos. E com este fim que a acção da famililia é, de todas, a mais util; só quando a família fosse em absoluto incapaz, é que a educação deveria ser completamente entregue a estranhos, voluntários ou mercenários, mas todos de uma linha de condueta irreprehensivel, e tanto quanto possível solicites, de modo a procederem sobre o espirito da creança, não pela acção theorica de fastidiosas lições da chamada educação civica — com regras ditas e reditas materialmente na aula —, mas pela acção pratica, continuada e persist tente do exemplo.
O mestre deverá esforçar-se em que os actos de virtude se repitam, se orga- nises, para que, d'esse modo, o edu-
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cando faça a acquisição dos hábitos úteis. Uma vez adquiridos, os hábitos funccionarão como verdadeiras tendên- cias espontâneas e facilitarão a consti- tuição da conducta futura, de que elles próprios são, por assim dizer, o estofo. (W. James.) '
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O verdadeiro fim da educação é a formação do caracter. Mas este, se- gundo a definição que d'elle deu Kant2,
não poderá manter - se quando não houver um conjuncto de ideias moraes
1 Citado por J. de La Vaissière S. J. — Psycho-
logie pédagogique, p. 21E.
2 O caracter é a posse da propriedade da
vontade por meio da qual o individuo procede segundo princípios p r á t i c o s determinados e inva- riáveis.
superiores que conservem no foco da consciência aquelles juisos de valor que são susceptíveis de guiar a vontade, segundo as linhas de inibição e resis- tência ás paixões nocivas. É por isso necessário que a instrucção e a educa- ção dêem ao individuo umas noções da moral tão elevadas quanto possível, noções que determinem a coordenação e a unidade na conducta, e sejam, assim, a defeza dos hábitos da vontade contra a tendência sempre destructiva das impulsões.
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Os meios .que tenho indicado para a educação dos menores, tornam-se de uma mais difficil applicação quando se trata de fazer mais propriamente a the- rapeutica do crime, isto é : a correcção dos criminosos. Essa correcção será
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tanto mais difficil, quanto mais próximos elles se encontrarem do termo do seu desenvolvimento orgânico. Uma vez constituidos os hábitos criminosos, a funcção do educador será não só lue lar contra as prováveis tendenaias ances- traes deletérias, mas ainda vencer a exacerbação que estas tenham tomado com os vicios adquiridos.
Dizer que a correcção é difficil, não é affirmar que é impossivel. Um caso só que houvesse a exemplificar a emenda do criminoso, seria o incentivo para se tentar a modificação do caracter em todos aquelles sobre que pudesse recahir a acção do educador. Basta citar o caso do «Morte» 1 pára se ver que, até
n'aquelles cuja malvadez poderia apre- 1 Mendes Correia. -«Creanças delinquentes».-
sentar como sendo verdadeiros crimino- sos-natos, é possível conseguir melhorar a sensibilidade moral e vencer as pro- pensões criminosas,
O caso dos forçados de San Ste- fa.no, portando-se como homens disci- plinados e briosos, quando as neces- sidades da defeza do rei Francisco 11 de Nápoles lhes deixaram aquella ilha nas mãos, ï demonstra que nem
para os criminosos adultos se deve asseverar em absoluto a impossibili- dade de emenda.
«
Assim como a therapeutica geral se inspira nos meios de defeza do organismo contra os diversos agentes
1 Ferreira Deusdado. — «A Antropologia Crimi-
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pathogeneos, também a therapeutica especial do crime se deverá inspirar nos meios que o homem tem á sua disposição para combater as impul- sões immoraes.
E esses meios são as potencias inibidoras da vontade, animadas por uma mais ou menos perfeita cons- ciência de responsabilidade.
O emprego de todos os factores educativos que procurem o desenvol- vimento da vontade e da noção de responsabilidade moral, será — a meu ver—a mais perfeita therapeutica do crime.
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Propositadamente tenho eu deixado de tocar, tratando do crime, na esca- brosa questão do livre-arbitrio. Ella parece-me mais para ser discutida pelos
metaphisicos do que pelos medico-legis- tas ou pelos sociólogos. Estes terão que acceitar, em bruto, o facto de o homem ter, praticamente, a dentro da sua cons- ciência, a experiência de que é livre e responsável pelos seus actos. O principio desta certeza intima que cada um de nós tem, de poder escolher uma coisa em opposição a outra, o valor theorico dessa certeza — não me compete a mim investiga - los aqui. O que importa é deixar bem expresso que, se nos des- prendermos da ideia de liberdade e responsabilidade moral, teremos, ipso- -faotn, destruído toda a força inibidor a da vontade.
O simplismo do commum dos ho- mens, leva-los-ha rapidamente àode-
t&rminismo ao fatalismo — entre os
quaes só uns certos philosophos de mui esperta agudeza intellectual, é que po-
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dem pôr verdadeira differença. Ora o fatalismo... já se conhece o seu effeito depressor — sophisma de preguiça, mo- tivo de inacção para muitos.
E, pois, um erro gravissimo suppri- mir as noções de liberdade e responsa- bilidade. Como já disse, entendo que estas ideias devem ser, no espirito das creanças, a base da sua educação e
correcção.
Os meios educativos de que poder- mos dispor, devem ser todos escrupulo- samente applicados na correcção dos menores delinquentes. A educação re- ligiosa, proscripta ha muito do ensino, não deveria, como ó, ser desprezada na preparação dos hábitos de virtude; as emoções que a religião desperta são um poderoso meio de impressionar o espiíito da creança, dando-lhe no- ções moraes que, pela vida fora,
nunca é possível dissiparem-se com- pletamente. '
Aos indivíduos com sensibilidade moral inferior, Garofalo 2 não crê que a
propria fé seja capaz de lhes modificar os instinctos de perversidade. Ainda que admitíamos, porem, a existência de ten- dências congénitas para o crime tão imperiosas, que por nenhum modo seja possível attenua-las ou transforma-las, a regra geral deve ser lançar mão de todos os processos educativos para des- truir as inclinações criminosas dos jo- vens: porque jamais será realizável o aperfeiçoamento scientifico de se poder diagnosticar em um individuo um tal deficit de affectividade, que torne impos- sível a applicação de qualquer methodo
1 Garofalo — Criminologia, pag. 175.
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educativo para o modificar nos seus interesses e tendências.
A pratica dá razão a este modo de ver, pois nos apresenta casos de emenda de criminosos, como o do «Morte», que atra/ deixo citado.
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Uma formula util, na correcção das creanças delinquentes, será desenvol-