Capítulo 1. O uso do conceito de classes médias no bojo das refutações da teoria de Marx
1.3. Uma proposta de complementaridade: a tipologia de classes de Eric Olin Wright na esteira
Antes de discutir uma fase posterior desse debate, que consideramos ser referente aos autores críticos à “sociedade do trabalho”, é oportuno indicar alguns aspectos da longa produção de Eric Olin Wright, feita em boa parte sob o impacto das formulações do “marxismo analítico”. Seus trabalhos iniciam-se na década de 1970 e passam por uma contínua atualização e transformação até recentemente. Ao longo desta tese, sua obra será outras vezes retomada, pois, embora não tenhamos concordância com todas suas escolhas, compartilhamos a preocupação expressa nos problemas que o autor levanta. No momento, nos interessa somente explorar uma dimensão bastante próxima ao que temos apresentado como sendo o impacto da teoria weberiana e o descrédito da teoria do valor de Marx para a análise das classes. Certas características do “marxismo analítico” podem nos auxiliar nesse intento, assim como a extensa discussão de Wright sobre as semelhanças e diferenças das abordagens marxistas e weberianas na análise sobre as classes.
O livro A teoria da história de Karl Marx: uma defesa de G. Cohen (1978) pode ser considerado o trabalho fundador da via seguida por outros autores associados ao “marxismo analítico”, como J. Roemer, J. Elster, A. Przeworski e o próprio Wright. Sinteticamente, o objetivo central dessa corrente – heterogênea, por sinal – era o de propiciar uma fundamentação “científica” das teses e perspectivas de transformação de Marx. Algo como uma sustentação rigorosa que colocasse em termos objetivos e lógicos a obra de Marx e a análise das sociedades contemporâneas. Para tanto, uma característica comum a todos esses autores era o postulado de que, para que essa sustentação lógica e científica fosse efetiva, deveriam ser incluídas, no rol de explicações marxistas, metodologias que o “marxismo clássico” considerava incompatíveis, ou mesmo chamadas de “ciências burguesas”. Assim, seus temas de pesquisa foram perquiridos a partir de modelos metodológicos advindos de técnicas quantitativas variadas, da teoria dos jogos, da “escolha racional”, do individualismo metodológico ou mesmo de fundamentos atinentes à economia neoclássica. É possível dizer com certa segurança que algo que uniu propostas diversas no interior do marxismo analítico foi a afirmação de que o marxismo não pode ser entendido como um “paradigma” independente, cuja metodologia usada na justificação de seus conceitos e
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análises fosse fundamentalmente diferente daquele encontrada em outras correntes teóricas, como os trabalhos weberianos, por exemplo 38.
Foi essa ligação necessária com outros métodos e teorias o traço mais destacado por Wright para sua aproximação com o marxismo analítico. Um resumo explicativo de suas motivações e propostas nesse sentido pode ser visto em Reconstruindo o marxismo, que reúne ensaios produzidos pelo autor em parceria com A. Levine e E. Sober (Wright, Levine e Sober, 1993). Para os autores, o marxismo clássico esteve preso demais às ortodoxias de partidos comunistas que limitavam o poder analítico dos estudos na medida em que esses podiam corromper os programas políticos vistos como corretos. Mesmo que tirando disso consequências distintas, a acusação feita não é muito diferente daquela esboçada por Goldthorpe, sobre o “beco sem saída” do marxismo: ao tentar entender as formas contemporâneas das relações sociais, o marxismo se vê obrigado a abdicar da relação orgânica entre teoria e prática39. Não é por acaso que uma preocupação recorrente entre esses autores – à margem dos textos ou mesmo como elemento central – dizia respeito ao estatuto da relação entre a análise que produziam e os aspectos normativos então sugeridos, o que os levava a levantar questões éticas e morais das “escolhas” individuais em relação ao socialismo40. O projeto, parafraseando o comentário de Marx em relação a Hegel, era resgatar o “núcleo racional” do marxismo, numa “agenda reconstruída” (p. 302).
Class counts (2000), a título de exemplo, foi o resultado de uma extensa pesquisa cuja
intenção principal era levar as “hipóteses marxistas” a testes empíricos, isto é, avaliar se a
38 Como afirmamos, cada autor trabalhou a seu modo como e quais os métodos de outras correntes teóricas deveriam
ser incorporados. G. Cohen, por exemplo, não via ganho teórico algum com o uso da teoria dos jogos, e propôs o que chamou de “explicação funcional”. Mas é possível afirmar que o modelo da “escolha racional” cumpria um papel central na sua teoria da história, em que era suposta uma racionalidade comum a qualquer situação de escassez (o que também significa dizer que a noção de escassez podia ser encarada da mesma forma em contextos históricos diferentes). No Brasil, a coletânea organizada por Lazagna (Crítica Marxista, n. 31, 2010) aborda características e controvérsias importantes da obra de Cohen. Uma crítica a esse modelo teórico é feito por E. Wood (1989), que aborda o “marxismo da escolha racional”. Nesse artigo, Wood critica a incorporação de vários postulados e modelos contraditórios ao marxismo por esses autores, que, além dos citados, incorporaria até mesmo um neocontratualismo filosófico. Ver também as críticas de Carchedi (1989) a esse grupo.
39 “O marxismo clássico era um empreendimento extraordinariamente ambicioso. Aspirava, em primeiro lugar, à
unidade entre teoria e prática. A teoria deveria guiar a prática; a prática deveria transformar a teoria. (...) Essa visão de marxismo não pode mais ser mantida. (...) Para melhor ou para pior, a teoria marxista, hoje, raramente é guiada por exigências políticas imediatas, e os laços institucionais entre partidos políticos ou movimentos decaíram junto com os próprios partidos e movimentos” (Wright, Levine e Sober, 1993, p. 319-320).
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Ver, por exemplo, J. Roemer (1989b), para quem a teoria da exploração (considerada a seu modo) não engendra uma base suficientemente forte em termos éticos-morais para as pretensões marxistas.
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metodologia quantitativa pode dar confiabilidade aos argumentos e programas políticos marxistas. A tese de que a metodologia marxista é diferente das demais ciências (por ser dialética, materialista, histórica e anti-positivista) deveria dar lugar a uma concepção na qual o marxismo só se diferencia das demais teorias “pelos conceitos que implementa, pelas questões que formula e pelas respostas que propõe” (Wright, 2000, p. 275).
Outra questão importante a ser destacada nesse trabalho em conjunto de Wright é a avaliação sobre as causas do “socialismo de Estado autoritário”, que tanto geraram defesas do “fim do marxismo”. A posição dos autores, ainda que em uma nota, é bastante elucidativa, pois indica a sua concepção de fundo sobre a teoria da história em Marx. Afirmam se tratar de uma ironia que a queda do bloco soviético seja visto como estímulo a tais ataques, quando, na verdade, Marx já havia declarado que o socialismo não é possível “até que as forças de produção se tivessem desenvolvido massivamente no capitalismo”. Assim, “a tentativa de construir um socialismo revolucionário através de um ato de vontade, em violação a essa ‘lei da história’, estava portanto condenada desde o começo” (p. 321).
Mais recentemente, Wright voltou a defender que outros modelos teóricos podem e devem ser usados para explicar mecanismos que fogem ao alcance do marxismo, mesmo no campo das classes. Considerou que sua posição preza por um “realismo pragmatista”, em que o marxismo deveria ficar restrito aos problemas aos quais que ele é capaz de oferecer explicações plausíveis. Desse modo, a produção teórica e os modelos de análise empírica criados por Wright revelam aspectos interessantes da relação entre as propostas marxistas e os referenciais weberianos, no bojo de um projeto cujo intuito foi o de promover uma solução metodológica para o problema das classes médias.
De fato, mais do que se filiar a uma corrente de pensamento, Wright buscava um caminho em que questões essenciais do marxismo fossem empiricamente demonstráveis e o debate não ficasse restrito somente à discussão conceitual-abstrata, o que muito se explica, evidentemente, pelo meio acadêmico estadunidense, hostil a pesquisas metodologicamente orientadas pelo marxismo tradicional. A concordância de Wright em relação ao projeto “analítico” de outros representantes não era completa. Há, em verdade, uma incorporação seletiva de conceitos e explicações. Ao “individualismo metodológico” de J. Elster são feitas, por exemplo, críticas
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contundentes (Wright, Levine e Sober, 1993). Quem mais exerceu influência a Wright nos aspectos relacionados à estrutura de classes foi J. Roemer, caracterizado por suas críticas à teoria do valor de Marx.
Propriamente em relação às classes, o primeiro trabalho de fôlego de Wright foi Classe,
crise e Estado (1981 [1978]), no qual polemizava, principalmente, com Nicos Poulantzas. Wright
discordava da definição de proletariado de Poulantzas (1978), segundo a qual deveriam ser considerados enquanto pertencentes à “classe operária” somente os trabalhadores assalariados manuais produtivos. Essa definição restringia demasiadamente a população referenciada como proletária e não condizia com as características das atividades de trabalho vividas por um grande contingente de trabalhadores não manuais. Wright propunha que os critérios de definição fossem alterados e a “localização” de classes dever-se-ia basear em três dimensões: a) quem controla os investimentos e recursos; b) quem tem o controle sobre os meios físicos de produção e c) quem exerce controle sobre a força de trabalho dos outros.
Nesse modelo, o antagonismo fundamental seria entre capitalistas (controlam processo de acumulação, decidem como devem ser utilizados os meios físicos de produção e controlam a estrutura de autoridade dentro do processo de trabalho) e trabalhadores/classe operária (excluídos do controle sobre relações de autoridade, dos meios físicos de produção e dos processos de investimento) (p.68). Evidentemente, esse modelo puro era transformado pelos vários casos em que as combinações entre os critérios acima não se resumiam ao antagonismo fundamental (ter ou não ter o tipo de controle). Nesse livro, Wright considerava que os casos localizados fora do
modelo puro eram “imprecisamente rotulados como ‘classe média’”. Em seu lugar, sugere o autor que o termo que define tal situação seria o de “posições (situações)
objetivamente contraditórias das relações de classe”.
Essas situações contraditórias podem ser relacionadas, segundo Wright, a três condições: aquela de gerentes e chefes, que ocupariam uma situação contraditória entre burguesia e proletariado; a de pequenos empregadores, localizados entre burguesia e pequena burguesia; e a de empregados semiautônomos, situados de forma contraditória entre pequena burguesia e proletariado.
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Esses critérios denotam que a ideia de autonomia é essencial para a caracterização de Wright acerca da proletarização. Ter ou não ter autonomia sobre sua atividade de trabalho, ou ter algum grau médio de autonomia, reverbera fortemente na “situação de classe”, ou seja, conforma os interesses de agentes no plano imediato ou no de longo prazo. Um trabalho “completamente proletarizado” seria, para o autor, aquele em que a autonomia (e a consequente decisão sobre as demais atividades do trabalho) é inteiramente perdida.
É no âmbito dessa tentativa de mensuração do grau de autonomia que Wright aborda, criticamente, a controvérsia sobre o trabalhador white collar. Para Wright de Classe, crise e
Estado, o problema explica-se de forma notadamente diferenciada dos autores apresentados
acima, isto é, está atrelado ao processo de incorporação gradual de atividades econômicas variadas pelo capital, o que promove o assalariamento e a perda da figura legal do “autônomo”. Seriam, nas palavras do autor, “arquipélagos residuais de relações pequeno-burguesas de produção” dentro do capitalismo. Com isso, queria o autor afirmar que a condição de “artesão”, em certa medida, é preservada em várias situações de trabalho a despeito do assalariamento de seus agentes: “controlam a maneira de fazer o seu trabalho, e têm pelo menos algum controle sobre o que produzem” (p. 76, itálicos do autor). Exemplos dessa situação seriam os professores universitários e pesquisadores de laboratórios, que, entre outros, expressam “um controle mínimo sobre os meios físicos de produção por empregados fora da hierarquia de autoridade”, o que “constitui a situação contraditória básica entre a pequena burguesia e o proletariado” (p. 76). Essa “nova pequena burguesia”, termo também utilizado por Poulantzas, não poderia ser superestimada e deveria ser vista nos termos de uma tendência constante à proletarização, tal como “apresentado com vigor” , segundo Wright, por Harry Braverman (1987).
Assim, ao organizar os dados de censos com esses critérios (baseados nos EUA de fins dos anos de 1960), o autor chegava à conclusão de que o proletariado é bem maior, numericamente, do que a classe que seria auferida se os critérios de Poulantzas fossem utilizados. Algo em torno de 50% da população. Wright ia além: ao supor que outra parte significativa da população encontrava-se num limiar às portas do proletariado, “a base de classe potencial total para um movimento socialista” seria provavelmente em torno de 60% a 70%.
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Enfim, nessa primeira fase de seus trabalhos, Wright apresentava uma discussão característica do debate marxista “tradicional” da década de 1970, tal como veremos nos próximos capítulos41, que abordava criticamente a noção de classe média e enfatizava a tendência de proletarização das diferentes camadas assalariadas. Porém, a partir de fins de meados da década de 1980, Wright passa a seguir uma linha de pesquisa fundamentada em bases teóricas distintas e começa um longo caminho de novas pesquisas centradas numa “autocrítica” a essa fase anterior. Um trabalho essencial que expressa essa virada é o livro Classes, publicado em 1985. Em um capítulo presente no livro coletivo organizado por J. Roemer para unir as formulações do “marxismo analítico”, os principais eixos dessa nova fase são resumidos.
Nesse texto, chamado “O que tem de média a classe média” (1989b), Wright elenca o que considerou ser, em linhas gerais, as quatro grandes estratégias que os marxistas seguiam para explicar o fenômeno da classe média. A primeira se tratava de uma simples recusa e associava o conceito a uma mera ilusão ideológica. A segunda pretendia afirmar que tal classe era na verdade um segmento ou fração de outras classes. Uma “nova pequena-burguesia” para Poulantzas ou a “nova classe trabalhadora” de S. Mallet. A terceira estratégia, ao contrário da segunda, concebia uma classe média totalmente distinta das demais classes, com estatuto próprio na realidade. Posições nesse sentido seriam as de Gouldner (“a nova classe”) e Ehrenreich e Enrenreich (“classe dos administradores profissionais”). A quarta forma seria aquela representada pelo próprio Wright até então, ou seja, uma postura que entende a classe média como a situações específicas que se localizam, de modo simultâneo, em mais de uma classe, o que ficou caracterizado na sua ideia de “situações contraditórias das relações de classe”.
Mas Wright afirma que não mais considerava a quarta estratégia uma solução adequada. E isto se devia a dois problemas. Em primeiro lugar, sua produção pretérita não permitia uma análise da estrutura de classes efetivamente baseada na “exploração”, somente referendava-se na “dominação”. E, em segundo lugar, o socialismo (entendido como sociedade em que a classe trabalhadora é dominante) não seria a única opção possível ao capitalismo. A partir de então, todos os demais trabalhos de Wright fundamentaram-se no desenvolvimento e aprimoramento desses postulados, que foram bases para um amplo projeto de pesquisa que, em parceria com
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Veremos que muitas das preocupações e das propostas de análise de Wright, nesse momento, iam ao encontro, em linhas gerais, do trabalho do economista marxista Guglielmo Carchedi.
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diversos colaboradores, promoveu estudos sobre estrutura e consciência de classe em vários países42.
Para compreender o rumo dessa mudança e o seu significado nas discussões teóricas sobre classe, é preciso traçar a lógica dos argumentos da teoria de exploração do marxismo “analítico” de J. Roemer (1989), o que faremos elucidando apenas suas características mais centrais. Sua motivação principal era mostrar que a teoria da exploração de Marx, por estar baseada na teoria do valor e na existência de propriedade privada, era incapaz de possibilitar uma análise cientificamente demonstrável do que se pode entender, objetivamente, por exploração em qualquer forma de sociedade.
O primeiro ponto a se destacar é que Roemer considerava a teoria da exploração de Marx unicamente baseada na desigualdade de acesso à propriedade privada dos meios de produção, o que colocaria em relação oposta uma massa de trabalhadores contra uma classe minoritária. Avaliação essa que, tal como nos autores citados anteriormente, identificam toda a teoria marxista à existência da propriedade privada: “Em consequência, se os meios de produção se socializaram para ser controlados pela classe trabalhadora, com isso terminaria a exploração capitalista” (p. 98). Esta assertiva seria comum a vários socialistas, mas Marx e Engels teriam dado um passo à frente ao proclamar que tal desenvolvimento “era possível e seguramente inevitável”, ao explicar o mecanismo por meio do qual tal transformação iria ocorrer.
Ora, definida nesses termos, Roemer é levado a indagar o que então acontecia em “sociedades socialistas” nas quais, embora tenha sido eliminada a “instituição causadora da exploração (a propriedade privada dos meios de produção)”, tipos “sistemáticos de desigualdade e certo comportamento político que são menos que ideias” ainda são observados. Portanto, o desafio era conceber abstratamente uma teoria da exploração forte o bastante que não necessitasse da instituição da propriedade privada dos meios de produção, o que significa, nessa
visão, que não explicasse a exploração somente no capitalismo.
42 Um exemplo bem completo da aplicação do modelo de Wright pode ser visto na pesquisa Estanque e Mendes
(1997) sobre a sociedade portuguesa. No Brasil, Figueiredo Santos (2005) propõe uma classificação socioeconômica para o país incorporando a tipologia das localizações de classe de Wright, mas adicionando certas categorias em razão das especificidades nacionais. Em seu livro (2002), Figueiredo Santos usa o modelo para analisar os efeitos da desigualdade de classe na desigualdade racial brasileira.
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Nessa nova teoria geral da exploração, a teoria do valor de Marx precisava ser abandonada. Mais precisamente, era preciso abandonar a versão marxista tradicional do que o autor chamou de o “princípio de correspondência entre exploração e classe (PCEC)”, cuja lógica era conceber que a venda da força de trabalho está associada ao fato de o trabalhador ser explorado e o comprador ser o explorador. Roemer argumenta em dois sentidos para justificar os problemas relativos à teoria do valor. Em primeiro lugar, acompanhando outros economistas, afirma que a teoria do valor não pode ser considerada, do ponto de vista lógico, como anterior ao sistema de preços, o que invalida certas teorias centradas nas relações entre preços de equilíbrio e a exploração. O segundo, mais contundente, diz respeito ao que seria o grande equívoco de Marx: a força de trabalho não teria exclusividade na condição de produzir mais valor de que incorpora. Qualquer bem, segundo Roemer, teria essa “propriedade mágica” numa sociedade capaz de produzir excedentes. Seria possível, se escolhido a mercadoria “grãos” como valor numérico, por exemplo, avaliar o quanto de grãos se incorporam em cada mercadoria e afirmar que só “grãos” são explorados43. A escolha da força de trabalho faria sentido somente por ser uma mercadoria distribuída de maneira uniforme entre as pessoas, mas não haveria nada objetivamente correto numa teoria da exploração do trabalho se esta for entendida como sendo deduzível da “informação econômica” (p. 119).
A solução proposta por Roemer será um modelo geral de relações de exploração fundamentados em cálculos matemáticos, como a teoria do equilíbrio geral e a teoria dos jogos com cooperação44. Daí ter sido taxado, nas discussões sobre a teoria da história, como representante do marxismo da “escolha racional”45. Sem entrarmos nos detalhes de sua explicação, Roemer oferece um modelo em que a exploração se mede independentemente da
43 A origem desse argumento, compartilhado por vários economistas, remonta à leitura de Pietro Sraffa sobre a teoria
do valor. Saad Filho (2002) apresenta os aspectos gerais da tese de que “qualquer mercadoria pode ser explorada” bem como indica suas insuficiências.
44 Trata-se de modelos que supõem atores que escolhem como e quando entrar (e mesmo quando é melhor deixar)
nos “jogos” de tipo feudal, capitalista e socialista, por exemplo.
45 Uma crítica a essa vertente é feita por E. Wood (1989). A crítica central de Wood a Roemer e aos demais
defensores de uma teoria da história baseada nas escolhas racionais de indivíduos em situações de “jogo” é o forte determinismo tecnológico de suas explicações históricas. Igualmente, tal corrente não supera a tantas vezes utilizada petição de princípio para explicar processos de transição, como o do feudalismo para o capitalismo. Segundo Wood, tal como outras correntes do marxismo ou mesmo como Weber, Roemer precisa supor, no seu modelo, que o capitalismo “sempre existiu” de alguma forma, bastou que as condições de determinado momento tenham liberado as