Capítulo 2. Classes sociais, classes médias e trabalho produtivo
2.3. Trabalho produtivo: forma capitalista e conteúdo material
Mas qual a razão de levantarmos essas considerações? Porque nos parece bastante plausível supor que a maior parte das dificuldades encontradas em conceitos como o de trabalho produtivo em Marx refere-se ao delicado tratamento de como sua lógica imanente é exposta de
110 Para Ranieri (2011, p. 161), por ser uma espécie de “sujeito cego”, dependente do trabalho, o capital não pode ser
o “sujeito hegeliano que se harmoniza no final do processo como ideia absoluta”, de modo que a “relação entre realidade e conceito não tem o mesmo sentido quando analisados, interior e separadamente, os sistemas de Hegel e Marx”.
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modo a estabelecer a especificidade da relação de produção capitalista, mesmo tendo consciência
de que a subsunção das formas de existência ao capital é bastante desigual e nunca “completa”.
E uma análise dos três livros de O Capital nos permite perceber que há vários pontos em aberto que a definição de Marx não tem, a rigor, a pretensão de fechar. Nesse corte é que se pode problematizar a questão do “material” e “imaterial” em relação ao conceito de trabalho produtivo. Façamos uma breve indicação da sequência dos trabalhos mais utilizados de Marx. O período mais intenso de sua produção começa em 1857 com um caderno de anotação que, depois de um ano, termina com o que hoje se conhece como os Grundrisse. Em 1859, publica
Contribuição à crítica da economia política. Já o trabalho conhecido por Teorias da mais-valia
faz parte dos 23 cadernos de anotação de Marx escritos entre 1861 e 1863. Foi publicado pela primeira vez por Kautsky, mas passou por diversas correções e mudanças até ser apresentada uma nova edição para corrigir defeitos e problemas. Em razão de certas indicações de Marx, ficou conhecido como o “Livro IV” de O capital. Dussel (1999), contudo, discorda, pois não considera que se trata de uma “história” do pensamento econômico, mas de um exercício de Marx para que, em posse de categorias e conceitos “definitivos”, pudesse enfrentar o que outros economistas postulavam para perceber até que ponto seu marco categorial resistiria à crítica.
Já o Capítulo sexto inédito, elaborado provavelmente entre 1863 e 1964111, diz respeito à redação de um capítulo feita no momento de preparação do Livro I, mas que não chegou a entrar na edição final feita por Marx, sendo somente conhecido em 1933. Nesse mesmo período, também foram redigidos os manuscritos entregues a Engels como as partes relativas aos Livros II e III de O Capital 112. O Livro I, então o único publicado por Marx, teve sua primeira edição em 1867 com edições revistas pelo autor até chegar à sua organização definitiva com a quarta edição alemã, de 1890113.
Antes das definições propriamente ditas, a introdução ao conceito de trabalho produtivo precisa ser feita a partir do entendimento claro de seu objetivo e de sua importância. Em outras
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Segundo a introdução de A. Blunden (em marxists.org), o texto é escrito entre o verão de 1863 e o verão de 1864. Segundo a edição italiana, por B. Maffi, a data de escrita seria entre 1863 e 1866.
112 Segundo Dussel (1998), em dezembro de 1865, Marx tem pela primeira vez diante dos olhos os três livros de sua
obra “como um todo orgânico” (p. 148).
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A edição francesa, traduzida por J. Roy e revista por Marx, teria um “valor científico independente”, nas palavras do próprio Marx.
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palavras, é preciso entender a razão pela qual Marx julgou ser o conceito peça fundamental de seu universo categorial, notadamente, da teoria do valor. Nesse sentido, duas noções precisam ser criticadas.
A primeira é a posição de A. Negri (1991), segundo a qual se pode rejeitar a definição de trabalho produtivo (a “sacrossanta insistência de Marx do trabalho produtivo como trabalho imediatamente ligado ao capital”) porque sua forma literal seria “fortemente reducionista”, o que levaria a uma interpretação da teoria do valor objetivista, atomizada e fetichista: “é a consideração que se poderia atribuir a Marx no intuito de fazê-lo um antigo materialista do século XVIII” (1991, p. 64). Deve-se reconhecer, contudo, que Negri faz essa avaliação tendo em vista o limite que ela pode gerar do ponto de vista de sua “função diretamente política” (ou seja, no que ela condiciona a ação de classe). Porém, mesmo nesse campo, não é possível fazer qualquer afirmação sobre o conceito de produtividade desenvolvido por Marx, tal como faz Negri, sem
considerar a profunda descontinuidade da solução que apresenta, ainda que veja em Smith um
pensador que tenha tocado, num momento de sua obra, no cerne do problema. Diferentemente de toda a economia política predecessora, o que Marx enfatizou inúmeras vez foi a “mistificação de se apresentar uma relação social na forma de uma coisa” (Marx, 1980, p. 151). Essa postura o coloca numa problemática distinta do materialismo fetichista ou objetivista114.
A segunda posição é, na verdade, um prolongamento da primeira e pode ser encontrada em H. Arendt (2001). Para a autora, a distinção entre trabalho produtivo e improdutivo é a raiz da glorificação do trabalho (labor, tal como vimos no primeiro capítulo) na era moderna, e os grandes responsáveis pela confusão deletéria desse trabalho com “obra” (work) são Smith e Marx:
Além do mais, tanto Smith quanto Marx estavam de acordo com a moderna opinião pública quando menosprezavam o trabalho improdutivo, que para eles era parasítico, uma espécie de perversão do trabalho, como se fosse indigno deste nome toda atividade que não enriquecesse o mundo. Marx certamente compartilhava do desprezo de Smith pelos “criados servis” [quando este dizia] que, como “convivas ociosos (...) nada deixam atrás de si em troca do que consomem” (Arendt, 2001, p. 97).
114 Nos Grundrisse (2011, p. 199), Marx destaca que é justamente a redução objetivista que eterniza o capital: “Se a
forma determinada do capital é assim abstraída e é enfatizado só o conteúdo, que, enquanto tal, é um momento necessário de todo trabalho, naturalmente nada é mais fácil do que demonstrar que o capital é uma condição necessária de toda produção humana”.
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Em primeiro lugar, é difícil entender como a acusação de “glorificação do trabalho”, nos termos colocados por Arendt, pode ser dirigida ao autor que, tão logo expôs sua definição de trabalho produtivo, tenha declarado que “ser trabalhador produtivo não é nenhuma felicidade, mas azar” (Marx, Livro I, 2001, p. 578)115. Trata-se do erro que, ampliado pelos críticos da “sociedade do trabalho”, como mostrou Antunes (2000), não diferencia o trabalho concreto do trabalho abstrato. A proposta de separar o que seria “trabalho” de “obra” conduz a uma visão de tal forma enviesada que coloca como se fosse do próprio Marx aquilo que o autor expõe
criticamente como o uso capitalista (explorador) da força de trabalho. A tese de Arendt, como
notou Calvet de Magalhães (1985), padece dos mesmos problemas em relação à noção de materialidade que Marx identifica em Smith.
Em segundo lugar, a assertiva de Arendt que coloca em questão o menosprezo às classes parasitárias – aspecto que retomaremos a seguir – é feita na base da mesma confusão anterior116. Aquilo que Marx aponta como a consequência do controle capitalista do processo de trabalho é visto como a sua posição moral em relação ao trabalho executado por cada indivíduo117. Afirmar simplesmente que Marx menosprezava os criados servis porque eles não produziam (capital) seria o mesmo que menosprezar o desempregado por ele não estar “apto ao trabalho”. A posição de Marx é clara: não se trata de menosprezar o trabalhador servil, mas a relação social capitalista que, justamente em razão da alta produtividade e da apropriação da riqueza por uma fração da
115 Em Teorias..., ao indicar que a introdução da maquinaria causa desemprego ou aumento da exploração, Marx
ainda afirma: “Daí o trabalhador considerar hostil a si mesmo, e com razão, o desenvolvimento da produtividade de seu próprio trabalho; em contraposição, o capitalista o trata sempre como um elemento a afastar da produção” (1983, p. 1007)
116 Como igualmente afirma Calvet de Magalhães (1985, p. 19), “fica difícil entender em que se fundamenta essa
certeza da autora [sobre a avaliação de Marx]”. O mesmo problema surge nessa passagem de Arendt: “pelo menos no caso de Marx (...) a produtividade do trabalho é medida e aferida em relação às necessidades do processo vital para fins da própria reprodução; reside no excedente potencial inerente à força de trabalho humana e não na qualidade ou caráter das coisas que produz” (p. 105). Ora, o problema é a forma pela qual Marx entende o processo ou o que o
capital efetivamente implica? Marx é culpado pelo capital reduzir o trabalho concreto ao abstrato? Acompanhamos
aqui o problema de fundo identificado por Calvet de Magalhães (p. 20): “O trabalho sob uma forma que pertence exclusivamente ao homem é o ponto de partida de Marx. Todo o problema aqui, é que me parece completamente inútil querer encontrar em Marx (na sua concepção de trabalho) – o equivalente do animal laborans uma das espécies animais, poder-se-ia dizer a mais alta das que vivem na terra –, ou o equivalente do trabalho tal como Hannah Arendt o define; todo o seu esforço nesse sentido consegue apenas criar uma série de distorções nos textos de Marx”.
117 Vale indicar a discussão de Postone (1993, p. 53 e seg.) que também chama a atenção para a redução moral da
crítica de Marx quando seu conceito de força de trabalho é reduzido equivocadamente ao conceito de trabalho da economia política predecessora.
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sociedade, só pode oferecer aos “não aptos” ao trabalho produtivo uma condição servil, o que perfaz, na verdade, uma forma de escravidão moderna.
Trata-se do aspecto assinalado anteriormente por Nicolaus. Marx argumenta que com “a produtividade crescente do capital, isto é, dos trabalhadores, [a burguesia] passa a imitar o sistema feudal de dependentes”. Usando dados do relatório sobre as fábricas de 1861, constata que o número de pessoas empregadas em fábricas era de 775 mil, contra um milhão de empregados domésticos só na Inglaterra. E complementa: “que belo arranjo este que faz uma operária suar 12 horas na fábrica para que o patrão ponha a seu serviço pessoal, como parte do que não lhe pagou do trabalho, a irmã dela, como criada, e o irmão, como criado de quarto, e o primo, como soldado ou guarda” (Marx, 1980, p. 180). No Livro I de O capital, Marx cita o mesmo relatório para concluir “que resultado edificante nos dá a exploração capitalista da maquinaria!” Exploração que permite empregar, improdutivamente, uma parte cada vez maior da classe trabalhadora e assim, “reproduzir em quantidade cada vez maior, os antigos escravos domésticos, transformados em classe de serviçais, compreendendo criados, criadas, lacaios, etc.” (Marx, 2001, p. 508-509).
Assim, tanto Arendt quanto Negri fazem um ataque à noção de trabalho produtivo sem, contudo, levar em consideração que a definição de Marx do conceito só faz sentido na esteira de uma crítica profunda e estrutural às mistificações da economia política burguesa, o que significa dizer que faz parte da lógica de sua teoria do valor.
Por conseguinte, é forçoso admitir que a teoria de Marx exige o conceito de trabalho produtivo, mesmo que, quando colocados problemas relativos à luta de classes, ele não seja suficiente para determinar a dimensão política dessas relações. A questão é que, na própria forma de encarar a produtividade do trabalho no capitalismo, a exploração de classe pode ser desvelada118. Segundo Marx (TMV, 1980, p. 275):
118 “Trabalho produtivo é uma abreviação para designar o conjunto do relacionamento e dos modos em que a força
de trabalho figura no processo capitalista de produção. É da maior importância, porém, distingui-lo de outras espécies de trabalho, pois essa distinção exprime a especificidade da forma de trabalho sobre que repousam o modo capitalista de produção por inteiro e o próprio capital” (Marx, 1980, 390-391). Há um debate longo nas discussões econômicas se o conceito de trabalho produtivo merece ter destaque em análises empíricas que utilizam as contas nacionais. Mohun (1996, 2002), numa polêmica com Houston (1997) e Laibman (1999), demonstra que o conceito de produtividade precisa ser levado em consideração no tratamento dos dados econômicos dos países como forma de
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Uma vez que toda a produção capitalista repousa na compra direta de trabalho, para apropriar-se de parte dele sem compra, no processo de produção, parte essa que se vende no produto – pois isso constitui a razão de existir o capital, sua própria essência – não é a distinção entre trabalho que produz capital e o que não o produz, a base para se compreender o processo de produção capitalista?
Por conseguinte, nada mais cômodo, no intuito de ocultar a exploração de uma classe sobre outra, do que reivindicar, apologeticamente, a produtividade de qualquer atividade social numa sociedade capitalista.
É significativo que todos os economistas “improdutivos”, que nada produzem na própria especialidade, sejam contra a distinção entre trabalho produtivo e trabalho improdutivo. Mas expressam a subserviência ao burguês, ao apresentar todas as funções a serviço da produção da riqueza para ele e, além disso, afirmam que o mundo burguês é o melhor de todos os mundos, tudo nele é útil, e o próprio burguês é bastante culto para o perceber (1980, p.272).
O que também significa dizer que, se o conceito pretende alcançar um estatuto de “cientificidade”, precisa traçar linhas divisórias entre o conjunto a que se aplica e ao que não se aplica, por mais que a objetividade de tais linhas seja um problema de resolução para além de ciência “positiva” em termos quantitativos. Em outras palavras, de que serve o conceito de trabalho produtivo se todos os que têm alguma relação com o trabalhador produtivo são, em alguma medida, produtivos também? Como argumenta Marx (1980, p. 276), nessa lógica de indefinição, “ter-se-ia de dizer que o camponês é produtor indireto de justiça e assim por diante, pois sem ele o magistrado não poderia absolutamente viver”.
Feitas essas observações iniciais, podemos discutir o conceito propriamente dito. Para tentar sintetizar o problema, indicamos a definição que consta em O Capital e, então, buscaremos entender seu sentido a partir das colocações de outros textos. Adiantemos também: é a questão da “materialidade” do trabalho produtivo que precisa ser problematizada.
No Livro I de O Capital, o conceito é assim construído: a princípio (no cap. 5), Marx assinala que, se observado somente o processo de trabalho e o seu resultado, isto é, a produção de um valor de uso, é produtivo todo o trabalho que, na relação com os meios e objeto de trabalho, cria esse valor de uso. Essa definição supõe um “trabalho em geral”, independentemente da
estabelecer análises sobre acumulação de capital, tendências de crescimento econômico e ciclos de crise. Incursões nesse debate são feitas por Moseley (1999), Shaik e Tonak (1994).
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forma histórica119. Por isso, ela não “não basta, de modo algum”120 em relação ao processo de produção capitalista. No cap. 14, Marx define qual é, então, o conceito de trabalho produtivo correto para a produção capitalista:
Com o caráter cooperativo do próprio processo de trabalho amplia-se,
portanto, necessariamente o conceito de trabalho produtivo e de seu portador,
do trabalhador produtivo. Para trabalhar produtivamente, já não é necessário, agora, pôr pessoalmente a mão na obra; basta ser órgão do trabalhador coletivo, executando qualquer uma de suas subfunções. A determinação original, acima, de trabalho produtivo, derivada da própria natureza da produção material, permanece sempre verdadeira para o trabalhador coletivo, considerado como coletividade. Mas ela já não é válida para cada um de seus membros, tomados isoladamente. Por outro lado, porém, o conceito de trabalho produtivo se
estreita. A produção capitalista não é apenas produção de mercadoria, é
essencialmente produção de mais-valia. O trabalhador produz não para si, mas para o capital. Não basta, portanto, que produza em geral. Ele tem de produzir
mais-valia. Apenas é produtivo o trabalhador que produz mais-valia para o capitalista ou serve à autovalorização do capital (Marx, 1996b, p. 137-138,
grifos nossos).
A passagem nos mostra que o trabalho produtivo do modo especificamente capitalista de produção é aquele que produz valor (trabalho socialmente necessário para a reprodução da sua força de trabalho e conservação do valor existente) e mais-valia, e que se converte em capital. Para obter esse excedente daquilo que é necessário para reproduzir a força de trabalho e conservar o existente, o capitalista pode prolongar a jornada (mais-valia absoluta) ou, com a mudança do meio técnico, reduzir o tempo necessário (mais-valia relativa). Ambas estarão sempre presentes na produção capitalista, mas só com a existência da última é que entramos no terreno da definição essencial do modo de produção capitalista, ou seja, em que a subsunção real do processo de trabalho ao processo de valorização é posta.
Temos, então, uma definição clara e direta. Qual seria, então, a razão de tanta polêmica sobre o conceito? Um bom sinal está no próprio exemplo usado por Marx logo após expor sua
119 Há uma questão mais séria aqui na medida em que Marx afirma: “a produção de valores de uso não muda sua
natureza geral por ser levada a cabo em benefício do capitalista ou estar sob seu controle. Por isso, temos inicialmente de considerar o processo de trabalho à parte de qualquer estrutura determinada”. Problema: não existe, contudo, “trabalho enquanto tal”, pois ele estará sempre mediado pelas relações sociais de produção vigente. Seria o caso de interpretar como um processo de trabalho ainda não subsumido realmente ao capital?
120 A tradução da Nova Cultural (1996b) é mais acertada, pois “não basta” ou “não é suficiente” é mais preciso do
que “não é adequada”, como é usado na tradução da Civilização Brasileira. A expressão usada no original em alemão é reicht keineswegs. Como veremos, nessa pequena precisão há uma questão fundamental: dizer que o conceito anterior não é suficiente, não significa que ele não seja necessário.
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definição. Ao invés de escolher um caso em que a subsunção real está mais bem concretizada, Marx escolhe um exemplo “fora da esfera da produção material”, o mestre-escola, que é visto como trabalhador produtivo não apenas por trabalhar “as cabeças das crianças, mas [por extenuar] a si mesmo para enriquecer o empresário. O fato de que este último tenha investido seu capital numa fábrica de ensinar, em vez de numa fábrica de salsichas, não altera nada na relação”. Isso nos força ao seguinte questionamento: afinal, qual é o motivo dessa escolha? O mais esperado, a princípio, seria Marx fornecer um caso em que a subsunção do trabalho ao capital
fosse real, já que ela daria mais ênfase ao “modo especificamente capitalista de produção”. E isso
o levaria a um exemplo, certamente, da “esfera material”121. Mas Marx opta por uma atividade apenas (talvez, naquele contexto, sequer) formalmente subsumida ao capital: o professor. Fica claro que, distante do “materialismo objetivista”, é este um sinal de como Marx enfatiza a forma,
isto é, a relação social, antes mesmo da “coisa”, do conteúdo material. É certo que essa escolha
conduz a outros tantos desafios, que apontaremos posteriormente. Por ora, é na discussão presente em Teorias da Mais-valia que se entende mais propriamente as razões de Marx122.
Em boa parte do manuscrito, Marx aborda as concepções de trabalho produtivo de Adam Smith e considera que o economista oscila entre uma definição correta e outra equivocada do conceito. A correta seria justamente aquela que considera produtivo o trabalho assalariado que produz mais-valia, que é, assim, expresso em capital variável. Reproduz o equivalente do valor de sua força de trabalho ao mesmo tempo em que gera um valor excedente ao capitalista. Definição esta que não entra no mérito sobre a “qualificação material do trabalho” e faz dos improdutivos aqueles que trocam trabalho não por capital, mas por renda, isto é, um “serviço” que, nesse caso, é improdutivo. Por isso que o cantor ou palhaço, se estiverem contratados por um capitalista, tornam-se trabalhadores produtivos, não obstante o caráter intangível da mercadoria que produzem.
121 É significativo, por exemplo, que em todo o primeiro capítulo (“a mercadoria”) não exista um só exemplo de
atividade “imaterial”. Vemos fios, mesas, linho, ferro, relógios como valores de uso, não aulas, peças de teatro, etc.
122 Há certa dificuldade na leitura de Teorias, pois Marx expõe as teses de outros autores contrastando com as de si
próprio. Para Dussel (1999), Marx interpelava a economia política já expondo com firmeza seus próprios conceitos. Porém, nem sempre desse contraste resulta uma posição clara, isto é, há um pouco de “exercício de estudo” nesse embate, que o faz também lapidar a construção de suas formulações. O artigo de síntese de I. Gough (1976) é importante para acompanhar os diferentes movimentos do conceito.
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A concepção equivocada de Smith, para Marx, é aquela que define a produtividade do trabalho de acordo com o fato de este se realizar ou não em mercadorias, ou seja, se o trabalho se fixa em mercadoria vendável ou objeto particular. Ora, ao oscilar para esta concepção, Smith “sai da definição pela forma social”, não condiz com a produção capitalista e retrocede a concepções anteriores (Marx, 1980, p. 141-142).
Nesse momento, já é fundamental notar que a noção de serviços também suscita grande controvérsia, pois, assim como no caso do conceito de trabalho produtivo, há também