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PARTE III – LEITURA NO BACCALAURÉAT E NO ENEM

1. O QUE É LEITURA?

2.3 Proposta de concepção de leitura

Depois de todas as discussões que foram desenvolvidas nesta tese até esse ponto, cabe-nos definir aqui qual é especificamente nossa postura perante a leitura, cabe- nos definir qual a concepção de leitura que nos serviremos para lançar nossos olhos sobre o Enem e o baccalauréat.

Para começar nossa delimitação, afirmamos que leitura é um signo. Sobre essa arena, várias vozes exercem seus jogos de força para determinar o significado do termo. É possível delimitar leitura a partir de variadas vertentes em diversos pontos da história. Esses posicionamentos sobre a leitura são por vezes excludentes, como a leitura ascendente e a descendente; e às vezes complementares, como ocorre na perspectiva interacionista de leitura, que associa aspectos de uma e outra no complexo do processo leitor.

Pensando que a herança sígnica contribui para a delimitação de um signo, dizemos que o signo resulta de um processo histórico que leva em conta os valores de

sentido de sua história associado aos atuais valores que ele carrega. A leitura não é mais concebida unicamente como ela era na Idade Média, mas a herança sígnica, que dá alça à memória do signo, atua como uma força tradicionalizadora. Assim, mesmo a leitura tendo evoluído em diversos aspectos ao longo de sua existência, as experiências mais marcantes de sua vida ainda determinam, ainda que em menor medida, as práticas de leitura atuais.

A leitura é um instrumento de controle ideológico. Esta determinou a leitura no

percurso da história segundo convinha para ela de modo a facilitar o gerenciamento das massas. Assim, a Igreja limitou a classe leitora, depois limitou o modo de ler, depois limitou o que deveria ser lido, depois limitou como o que era lido deveria ser lido, até que perdeu o controle sobre a leitura. O que temos aqui é um processo histórico de perda do poder sobre a leitura, mas também uma insistente tentativa de o manter nas rédeas eclesiásticas. Esse percurso moldou o desenvolvimento social da leitura durante séculos, desde a invenção do cristianismo até o fim da Idade Média. Assim, ler tornou-se uma passividade, o ato de coletar informações do texto, de ouvi-lo e acatá-lo, de não questioná-lo. A emancipação da leitura, evento ocorrido no Renascimento, nos indica que se a leitura tomou rumos diferentes na história, é porque também a sociedade se alterou.

A leitura é uma prática social. Ela passou dos limites estranguladores

monásticos para as ruas comerciantes. Esse deslocamento acontece concomitantemente com a perda da força da Igreja. A prática social da leitura está sempre do lado do time social mais forte, se assim podemos vulgarizar o saber científico. Antes, quando a Igreja dominava, a leitura era controlada pelas vias cristãs. Depois, com a expansão da burguesia e o barateamento do material de leitura e escrita, ela se associou aos burgueses.

A prática social da leitura está sempre atrelada à força social e política de grupos. Ela é um exercício altamente elaborado e simboliza um tipo de poder. Lembramos dos relatos de leitura de Manguel (1998), que nos conta a passagem dos índios Nhambiquaras que, ao verem Strauss escrever, faziam suas garatujas e pediam para que ele as lessem.

Vamos pensar em outro momento da história da Igreja com a leitura. A revolução de Lutero por exemplo atuou sobre a leitura da bíblia. O modo de ler passou de indireto,

de uma aceitação da leitura por parte dos líderes católicos, a uma leitura efetiva, uma vez que agora o livro sagrado deles estava escrito na língua que eles falavam. A leitura em língua vernácula permitiu uma maior democratização do saber. Esse saber, no entanto, ainda era religioso. Ainda que isso aponte uma descentralização da Igreja, a leitura continua sendo de base religiosa.

Enquanto objeto de avaliação no Enem e no baccalauréat, a leitura também representa uma prática social legitimada como provedora da mobilização social, como porto de passagem para os grupos sociais dominantes. Resta-nos investigar como a leitura nesses exames é trabalhada. Para responder a essa questão, lançamos depois nosso olhar sobre o material que é lido, e também sobre como a leitura é trabalhada no espaço de cada projeto discursivo fragmentado.

Enquanto o espaço da mobilização social, e enquanto ponto de trocas entre as estruturas e as ideologias, a leitura é, assim, situada no espaço da interação. Ela é a colocação em vida da linguagem. Se fora de um contexto enunciativo, a linguagem é considerada morta, a leitura é o modo de atribuir vida a essa linguagem que espera por um sopro enunciativo. Quando a palavra escrita não é lida, repousa sobre a inércia do livro, da tela. Quando ela participa de um evento de leitura, a palavra escrita encontra seu objetivo de existência: ser lida.

A linguagem é o lugar da interação. A escrita determina esse lugar com uma ilusão de fixação do espaço, de delimitação concreta do espaço e dos modos da interação. Podemos dizer que esta é uma verdade do ponto de vista da escrita, mas a leitura rompe com esses espaços porque ela é a colocação em funcionamento da dinâmica em si. A escrita repousa no sono profundo dos significados até que a leitura a recobre com uma teia de sentidos. Sem a leitura, a escrita não passa de registro, de um corpo em busca de uma alma. A essência do texto escrito não está em suas palavras, mas no modo como essas palavras vão articular a interação entre os interlocutores e entre as ideologias.

Essa ideia nos aproxima bastante da perspectiva anunciada por Soares, mas pouco explorada. A leitura é um ato enunciativo. Quando consideramos enunciação oral, ela é efêmera e toma como base as condições de produção mais imediatas ao momento em que o enunciado é proferido. A enunciação oral se dá também em forma de gêneros discursivos, e isso quer dizer que ela pode retomar dentro de si outros gêneros,

recuperar outros textos, mas a priopri, ela é determinada pela condição de produção enunciativa, ou seja, pelos elementos contextuais mais imediatos. A escrita é uma inovação que permite romper com o compromisso daquilo que se diz com apenas um momento dado. A cada leitura, esse texto se transforma em uma enunciação diferente. A cada leitura, laços novos com o contexto imediato são estabelecidos.

Gostaríamos aqui de nos posicionarmos quanto à ideia amplamente difundida tanto no meio científico e acadêmico quanto nas escolas. Um texto escrito não é múltiplo porque permite várias leituras. A possibilidade de leituras, que variam com o tempo, o espaço e o leitor, não faz o texto se transformar em vários textos. Ele segue sempre como uma unidade. A leitura é que é a responsável por esse sentido plural. É a leitura que é plural, porque também é plural a colocação em cena de vozes e o modo como elas dançam na arena do signo. O texto segue uma unidade, enquanto a leitura é que se desenvolve diversamente. Por isso a leitura é um ato enunciativo, por isso ela é irrepetível.

Vamos pensar um pouco sobre essas considerações a respeito do modo como a Igreja tratou a leitura na Idade Média. Limitar a leitura é uma forma de limitar a difusão do conhecimento. Quando apenas uma classe é detentora do saber ler, essa classe é a única capaz de dialogar com as vozes que se deslocam no tempo e no espaço. Se ler é ouvir as vozes dos que estão longe, a capacidade de ouvir essas vozes é dada somente a um seleto grupo. O modo como essas leituras se transmitem dos grupos leitores aos grupos não leitores é o ponto chave da manipulação social.

Quando o público leitor começa a extrapolar os limites dos membros eclesiásticos, a Igreja passa a controlar aquilo que deve ser lido e como esse material deve ser lido. Ainda vemos que existe neste movimento uma tentativa de silenciar a voz do leitor. A leitura que se serve dos saberes difundidos no texto sem dialogar com eles é uma leitura autoritária, porque o representante social dominante, a Igreja, não se altera perante a leitura de seu interlocutor.

Essa condição na leitura em que o interlocutor representante da classe dominante não se altera perante o ato enunciativo da leitura é uma réplica do comportamento de ditadura. A voz é sempre unilateral e não admite respostas fora dos padrões determinados. Quando a Igreja não pôde mais controlar o grupo seleto de leitores, ela

buscou controlar o que se lia e como se lia o que se lia. Ou seja: buscou estabelecer um modelo de leitura em que o leitor se coloca à escuta do autor, em um esquema que desconsidera a leitura como evento interativo.

Na transição da Idade Média para o Renascimento, o material de leitura foi ampliado, mas as leituras continuavam ainda a ser controladas. Tratava-se mais de uma réplica de leituras, de um reconhecimento de leituras autorizadas do que uma produção de leitura efetiva. Por isso, podemos considerar monológico o evento leitor que toma como parâmetro o silenciamento do leitor, tornando-o passivo, receptor de um discurso alheio a ele, de modo a adotá-lo como seu. Trata-se de uma leitura ditatorial, de um modo de controle da prática da leitura.

Podemos considerar que a transição da leitura orientada para uma leitura independente marca o que chamamos aqui de emancipação da leitura. Enquanto na Idade Média, principalmente, a leitura era orientada para ser realizada enquanto uma prática monológica, a emancipação da leitura possibilitou que esta prática se tornasse dialógica, ou seja, se tornasse uma rede cada vez mais complexa de diálogos estabelecidos nos planos textuais, enunciativos e ideológicos.

A leitura dialógica é aquela que contempla todo o contexto da enunciação.

Quando ler é sinônimo de dar voz à enunciação, as condições mais imediatas de produção da leitura são responsáveis em grande parte pela orientação da produção de sentidos. Na leitura autoritária, o contexto de leitura é um dos modos de se manter a uniformidade da leitura. Lia-se na escola, no espaço religioso e sempre da mesma forma. As leituras feitas fora desses contextos eram ligadas ao exercício da cidadania. Ligar a leitura a todo o contexto imediato de produção é respeitar que ela é um ato dialógico que coloca em interação os interlocutores (escritor e autor), os discursos aos quais eles se filiam através dos enunciados aos quais respondem e as ideologias que eles representam no evento enunciativo.

Se a leitura é um ato enunciativo, e toda enunciação se manifesta por meio de um gênero discursivo que por sua vez regulamenta um modo específico de interação dentro de uma esfera de atividade humana, então, a leitura é um modo de colocação em funcionamento desse gênero discursivo. Ler é fazer as vozes contidas nos textos brotarem na superfície enunciativa e realizarem seus projetos interativos com as outras

vozes que encontram no âmbito extralinguístico. Considerando que os gêneros são classificados em primários e secundários, o modo como a interação se passa também é caracterizado diferentemente em um e outro gênero.

Para falar das dinâmicas interacionais no momento da leitura de gêneros discursivos primários e secundários, recuperamos a primeira pista que damos sobre esse assunto na segunda parte da tese. Falamos um pouco a esse respeito quando tratamos do exame enquanto um gênero secundário. Vamos começar pelo gênero primário e para isso retomamos a diferença da dinâmica interacional no discurso oral e no escrito há pouco tratada.

No discurso oral, os laços com o momento da enunciação estabelecidos pelo enunciado são fortes e necessários para a compreensão daquilo que se diz. Quando tratamos do discurso escrito, o enunciado só se torna enunciado no momento da leitura, e a relação da enunciação é então partilhada entre leitor e autor. O leitor considera o texto do autor a partir do contexto em que este é lido. Um texto escrito permite infinitos momentos de leitura. O momento da escrita liga essa ação ao extralinguístico de um determinado modo. Ao ler, essa relação com o extralinguístico é alterada, porque o leitor afasta-se desse extralinguístico e conecta a leitura que faz ao seu próprio extralinguístico. Por isso, o ato de ler produz infinitos sentidos sobre aquilo que se lê.

A partir dessa breve discussão que define a leitura em nosso ponto de vista, desenvolvemos também algumas ferramentas que utilizamos nas análises que se seguem. Elencamos aqui os principais pares: leitura emancipada x o reconhecimento de leitura, leitura autoritária x leitura dialógica. Nossa próxima etapa trata especificamente dos exames baccalauréat e Enem a partir de uma pesquisa que observa as expressões numéricas relacionadas às provas e também a partir de uma leitura interpretativa do corpus.