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2.4 ENFIM, A “VELHA ASPIRAÇÃO”: ALINHAMENTO DE INTERESSES ENTRE O ESTADO E O CAMPO DA ARTE

2.4.2 Prosopografia dos intelectuais criadores da EMBAP

Com a finalidade de conhecer o perfil social do grupo de intelectuais que se mobilizou para a criação da EMBAP, tornou-se necessário realizar uma análise prosopográfica. Para rápida visualização, o extrato das informações biográficas compõe o quadro 3. Conforme Corrêa (2006, p. 131), em uma tabela prosopográfica

"há dados resumidos e alguns presumidos, não encontrados nas fontes, mas que se baseiam nas trajetórias e posicionamentos, fato que remete aos determinantes sociais que influenciam a produção das fontes”.

Origem Familiar Formação Atuação profissional Adriano

Faustino Fávaro

1915 - 2003 1942 Direito. 1946 a 1952 Diretor do Instituto de Educação do PR.

QUADRO 3. Síntese de dados biográficos da comissão criadora da EMBAP – Parte 1. Dados considerados até 1947.

Nesse sentido, buscou-se encontrar no cruzamento das informações do conjunto dos indivíduos as características sociopolíticas que ajudassem a compreender a constituição desse grupo e sua força coletiva.

A primeira observação a ser feita é que o documento de solicitação de criação da EMBAP, redigido em 1947, não foi assinado por artistas plásticos ou por músicos de profissão, porém os artistas estavam presentes em comissões reunidas anteriormente. Conforme apresentado nesse capítulo, a ideia nasceu com Alfredo Andersen, que já observara a movimentação de Mariano de Lima em sua escola;

ganhou adeptos ao longo de sua trajetória; se intensificou no discurso de seus discípulos, mas se efetivou na ação de intelectuais, em parte seus amigos. Muitos destes intelectuais atuavam como professores, jornalistas, escritores ou advogados, eram amantes da cultura, alguns envolvidos com a crítica de arte e de maneira geral organizavam diversas atividades culturais. Possivelmente, a representação das instituições por meio dos intelectuais, tivesse maior força de reinvindicação política que a união de vários artistas representando apenas uma classe.

Os artistas plásticos e músicos ganharam destaque na segunda etapa do processo de implantação da EMBAP, no momento de formação do corpo docente e corpo técnico responsável por estruturar o currículo da escola. A escolha do corpo docente se definiu principalmente por critério reputacional (destaque e reconhecimento do grupo por seus pares), enquanto a definição do grupo de intelectuais parece ter sido constituída por critério posicional (cargo ou ocupação de liderança em diversos setores da sociedade). Soma-se a esses critérios, o envolvimento das instituições na campanha de criação da escola e a posterior representação das mesmas entidades no corpo docente da EMBAP.

Outro ponto a destacar é o círculo familiar, uma vez que a origem social pode revelar o habitus e auxiliar no direcionamento das carreiras. Com origem de família tradicional65 as fontes indicam Mario Braga de Abreu, Edgard Chalbaud Sampaio, Rosy Pinheiro Lima e Raul Gomes. Fernando Corrêa de Azevedo não descende de família tradicional, entretanto, seu irmão Luiz Heitor Corrêa de Azevedo foi professor de música na Universidade do Brasil e um influente representante da UNESCO, com significativo capital social. Os irmãos Osvaldo e Valfrido, e o primo Erasmo Pilotto, também não descendiam de família tradicional, mas possuíam um importante capital cultural, contando com diversos professores na família. Embora não seja uma característica ligada ao poder de decisão, indica distinção em uma década em que, boa parte da população brasileira era analfabeta.

Em relação à formação dos intelectuais detecta-se um dado interessante:

durante o ensino secundário estudaram no Ginásio Paranaense cinco dos desses intelectuais: Raul Gomes, Rosy P. Lima, Loureiro Fernandes, Erasmo Pilotto e Martins

65 De acordo com Oliveira (2010), as famílias tradicionais estão ligadas às esferas de poderes econômico e de decisão. No Paraná, de maneira geral, as famílias tradicionais no início do século XX, estavam ligadas à indústria e à exportação da erva mate. “No paraná, as famílias tradicionais e históricas participam e promovem aspectos fundamentais no processo de modernização e industrialização regional” (OLIVEIRA, 2010, p. 68-69).

Gomes, e estudaram em escola confessional Mário de Abreu e Fernando C. de Azevedo. Quanto à formação Superior, predomina o estudo do Direito. Raul Gomes, Rosy P. Lima, Oscar M. Gomes, Edgard C. Sampaio, Valfrido Pilotto e Faustino Fávaro eram advogados. Mário B. de Abreu e Loureiro Fernandes se formaram em Medicina, Osvaldo Pilotto em Engenharia e Fernando C. de Azevedo em Filosofia e Letras.

Destaca-se ainda a vivência cultural fora do Paraná durante a formação superior de Loureiro Fernandez, Mário B. de Abreu, Rosy P. Lima e Oscar M. Gomes, que se formaram no Rio de Janeiro. Rosy P. Lima, buscou ainda continuar seus estudos na Inglaterra em 1943, e Loureiro Fernandes em Paris, em 1928.

Quanto à atuação profissional, a maioria dos integrantes do grupo eram professores, somente Valfrido Pilotto e Rosy P. Lima não exerciam o magistério. Em 1947 Faustino Fávaro era diretor do Instituto de Educação do Paraná, Adriano Robine era diretor do Colégio Estadual do Paraná e Erasmo Pilottto, que já havia sido assistente técnico da Escola de Professores de Curitiba, em 1931 era diretor do Grupo Escolar Professor Brandão, em 1932 diretor da Escola Normal de Ponta Grossa e em 1943, junto a Adriano Robine, tinha criado o Instituto Pestalozzi. Cinco integrantes do grupo já lecionavam na educação superior da Universidade do Paraná. Fernando C.

de Azevedo na Faculdade de Filosofia (1943), Raul Gomes na Faculdade de Direito (1947), Loureiro Fernandes na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (1940), Mário de Abreu na Faculdade de Medicina (1936), Oscar Martins Gomes na Faculdade de Direito (1917).

QUADRO 4: SÍNTESE DE DADOS BIOGRÁFICOS DA COMISSÃO CRIADORA DA EMBAP – PARTE 2. DADOS CONSIDERADOS ATÉ 1947, ANO DE CRIAÇÃO DA EMBAP.

Alguns membros da comissão possuíam experiências em cargos públicos e em discussões sobre educação pública. Loureiro Fernandes, em 1936, dirigira o Museu Paranaense, em 1940 participara das discussões pela federalização da Universidade do Paraná, tendo em 1945 sido diretor do Departamento Estadual de Saúde e em 1948 Secretário de Educação e Cultura. Fernando C. de Azevedo foi diretor-auxiliar da Cruzada Nacional de Educação em 1938 e membro da Comissão encarregada de elaborar o regimento interno das escolas secundárias do Estado do Paraná. Raul Gomes foi signatário do Manifesto dos Pioneiros pela Educação Nova em 1932. Osvaldo Pilotto foi presidente do censo escolar do Paraná em 1946. Rosy P. Lima foi a primeira mulher eleita Deputada Estadual no Estado do Paraná, em 1947.

Oscar M. Gomes que foi suplente de deputado à Assembleia Legislativa do Paraná e de vereador à Câmara Municipal de Curitiba, em 1935 e secretário do interior, justiça e segurança pública em 1945. É relevante também destacar a participação de Erasmo Pilotto, Adriano Robine, Raul Gomes e Valfrido Pilotto na criação do 1º Salão Paranaense de Belas Artes em 1944. Conforme Silva (2009), Erasmo Pilotto redigiu e coordenou o plano de governo de Lupion, em 1946, ficando a disposição do Palácio do Governo no ano seguinte e sendo indicado para Secretário de Educação e Cultura, em 1949.

Os intelectuais, estando ligados ao mundo das letras, participavam de diversas associações e centros culturais, nos quais compartilhavam suas afinidades estéticas e ideais de sociedade. No processo de criação da EMBAP, a Sociedade de Cultura Artística Brasílio Itiberê (SCABI) apresentava a maior quantidade de envolvidos, sendo eles: Fernando de Azevedo, Osvaldo Pilotto, Rui I. Cunha, Oscar Gomes, Erasmo Pilotto, Edgard C. Sampaio, Raul Gomes e Adriano Robine. A Academia Paranaense de Letras (APL), contando com Oscar Gomes, Valfrido Pilotto, Raul Gomes, Loureiro Fernandes e Mário de Abreu. A Sociedade de Amigos Alfredo Andersen (SAAA), tendo como representantes Valfrido Pilotto, Raul Gomes e Edgard C. Sampaio. O Centro de Estudos Bandeirantes (CEB) com Oscar Gomes, Edgard C.

Sampaio, Loureiro Fernandes e Mário de Abreu. O Centro de Letras do Paraná (CLP), contando com Oscar Gomes, Erasmo Pilotto, Valfrido Pilotto, Raul Gomes, Adriano Robine, Faustino Fávaro e Loureiro Fernandes. As escolas e o Centro Paranaense Feminino de Cultura apresentavam menos representantes. A movimentação dos intelectuais por várias instituições indica um capital social construído em torno da

cultura, com destaque para a poesia, a música e as artes plásticas. A circulação por diversas associações facilitava o diálogo e o consenso sobre os projetos coletivos.

Diante disso, a imprensa serviu de veículo para suas manifestações. Adriano Robine publicou vários artigos sobre arte e educação no jornal Diário da Tarde.

Erasmo Pilotto colaborou com os jornais O Dia e Diário da Tarde, participou das revistas Joaquim e Revista de Pedagogia, e participou juntamente com Raul Gomes do GERPA.

Raul Gomes teve uma produção significativa na imprensa, sendo inclusive redator chefe dos jornais O Dia e Diário da Tarde. Gomes publicou e colaborou com os periódicos: A República, Archote, Diário do Paraná, Diário da Manhã, Diário Popular, Diário do Campo, Comércio do PR, Folha da Manhã, Folha do Norte do Paraná, Folha de Curitiba, Gazeta do Povo, O Estado do Paraná, Diário de São Paulo, Folha da Manhã, cadeia de jornais de Assis Chateaubriand e Diário de Notícias (RJ), O Globo (RJ) e Diário dos Campos – de Ponta Grossa/PR. Valfrido Pilotto também publicou em diversos jornais locais, com destaque para o Diário da Tarde (OSINSKI, 2015; 2011; 2010; OSINSKI; BRANDALISE, 2015; BRANDALISE, 2016).

Loureiro Fernandes participou de revistas direcionadas a sua área de formação. Foi diretor e redator chefe da Revista Médica do Paraná. Faustino Fávaro organizou a revista O professor, junto a José Schikman. Oscar Gomes colaborou com os periódicos Fanal e Atheneia em 1911, e participou da criação da revista Festa, uma revista publicada no Rio de Janeiro que tratava do modernismo de modo diferente da vertente paulista. Houve também produções artísticas, literária e acadêmica desses intelectuais.

A rede de sociabilidades dos intelectuais foi fundamental para a aprovação da criação da EMBAP. Vários fatores contribuíram para o sucesso do grupo. Enquanto Andersen envidava ações diretas e praticamente individuais, nesse momento, o grupo de intelectuais contava com representações coletivas, contendo inclusive a presença de descendentes de famílias tradicionais do Paraná. O conjunto era formado por intelectuais atuantes em diversos ramos da sociedade, com profissões de prestígio como o magistério na educação superior, a representação no legislativo e a atuação em cargos públicos. A circulação entre as associações e a relação dos intelectuais com a imprensa, sinaliza que suas participações podem ser interpretadas como forças atuantes em instâncias de decisões da sociedade.

A EMBAP foi inaugurada em abril de 1948, fruto de investidas que iniciaram com Andersen em 1912. Ao todo foram 36 anos de tentativas, promessas, articulações e determinação. Na véspera de inauguração a Gazeta do Povo publicava:

INAUGURAÇÃO: Na primeira quinzena de abril terá lugar a solenidade de inauguração da Escola de Música e Belas Artes do Paraná. SÉDE: Provisoriamente, até a mudança do Colégio Estadual do Paraná para novo edifício, a Escola de Música e Belas Artes do Paraná funcionará no prédio do Orfeão da Escola Normal, à rua Emiliano Perneta. Para tal, já está o prédio sofrendo reformas, de molde a melhor se adaptar ao seu novo fim. INSCRIÇÕES: As inscrições para os exames vestibulares serão abertas a 15 de março próximo e se estenderão até o dia 31(ESCOLA, O Dia. 9 mar. 1948).

Este trecho da entrevista expressa a concretização do esforço de intelectuais e de representantes do Estado, na qual foram anunciadas as inscrições para vestibular, e, portanto, o início da Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Neste capítulo, buscou-se apresentar a complexa rede de relações que se estabeleceu em torno da criação da EMBAP. A etapa seguinte, de estruturação contaria com a habilidade do grupo de professores-fundadores.

3 O CONSERVADORISMO MODERNO NA ESTRUTURAÇÃO DA ÁREA DE