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CAPÍTULO 4. A CONDIÇÃO DO ESTUDANTE UNIVERSITÁRIO DAS CLASSES

4.4. PROSPECTIVA DE VIDA: Continuada e (Des)Continuada

―O que você vai ser quando você crescer?”. Certamente, todo mundo já ouviu essa indagação na infância. A própria pergunta já denota uma imposição, mesmo que implícita. Para ―ser‖ é preciso exercer um ofício e a partir dele, definir-se no mundo. Professora, médico, jornalista, dançarino, astronauta... Sonhamos com carreiras ao projetar um olhar além, em uma realidade que não se pode ao menos ser enxergada ainda. Segundo Aulete (2011), prospectiva significa exatamente aquilo que diz respeito ao futuro.

Quando se dissertou sobre o caminho pretendido, as expectativas dos estudantes foram destacadas frente as suas escolhas, por vezes tensionadas e restringidas a opções factíveis. Na carreira acadêmica, o estudante necessita, mais uma vez, responder à questão elementar presente em diferentes momentos da vida. ―Uma passagem bem sucedida é sempre uma passagem que não apenas projeta o presente no futuro, mas que dá, no presente, lugar para o futuro‖ (COULON, 2008, p. 230).

De um modo diferente do que foi experienciado pelos sujeitos no momento anterior ao ingresso à universidade, agora carregados de maiores pressões ainda precisam encarar os desafios de uma construção do futuro a partir de um caminho percorrido no presente. Nas entrevistas, ficou claro que todos os interlocutores pretendiam continuar os seus estudos.

Para Paivandi (2014) há quatro tipos de perspectivas de aprendizagem e a partir dessa tipologia, se articulará com a noção de prospectiva. Antes de darmos seguimento as análises e interpretações dos sujeitos, faz-se necessário esclarecer o que significa a noção de perspectiva: ―[...] designa o ponto de vista dos professores e dos alunos sobre a situação, ou ainda a maneira pela qual os alunos percebem e julgam a escola, o trabalho escolar e o trabalho dos professores.‖ (p.49)

Como uma representante da perspectiva minimalista, encontrou-se Ruth. Boa parte da graduação foi conciliada com um emprego formal e segundo suas palavras, levou o curso ―com a barriga‖. Isso quer dizer que a sujeita fazia apenas o

necessário para ser aprovada nas disciplinas que cursava, sem se importar com a real compreensão do conteúdo ministrado. Como defendido por Paivandi (2014), as perspectivas são mutáveis e um estudante pode, ao longo de uma graduação, transformar os seus modos e estratégias de lidar com o aprendizado. Já na reta final, Ruth declarou o desejo de ingressar numa pós-graduação em Ciências Sociais. Jurista assim como Ruth, também manisfestou a vontade de prosseguir na carreira acadêmica. Conquanto, sendo muito mais ambioso. Sua meta era ser professor universitário. No decorrer das suas falas é possível notar que o sujeito possui uma perspectiva compreensiva exteriorizada na sua graduação. Como tal, o estudante busca de fato apreender os conteúdos ministrados, compreendendo-os e atribuindo sentido, e não apenas obter aprovação em componentes curriculares. O seu envolvimento acadêmico ultrapassa os muros da universidade, era envolvido em militâncias e projetos de extensão, participava ativamente de congressos, palestras e ativismos.

Na perspectiva do desempenho que busca sucesso na carreira e obtenção do diploma, temos o exemplo de Rosa, Barbotina e Hipotenusa. A estudante de Ciências Biológicas declarou o desejo de permanecer na área de Botânica. Hipotenusa externou a vontade de ser professora de alguma instituição federal e deixou claro ao longo de toda sua entrevista o quanto era desejosa de inserir-se no mercado de trabalho. Visão partilhada de uma maneira mais forte por Barbotina.

Com a perspectiva de desengajamento, apresentou-se Dentina. Deixando claro em seus relatos que se sentia excluída e assim, pode-se inferir que a sujeita vivenciava um processo de desfiliação, deslocada e à margem da realidade da Odontologia. Mesmo com a iminência do abandono do curso ocasionada por sérias crises financeiras e identitárias, Dentina aspirava seguir carreira acadêmica, ingressando em um mestrado, justamente para colaborar com a mudança da realidade cultural de negligência aos mais necessitados na universidade. Isso quer dizer que as perspectivas podem intercalar e se complementar, apesar de certo desengajamento a estudante também buscou um sentido para sua permanência.

Foi preciso realizar uma breve análise das perspectivas para que a partir delas pudéssemos discutir as prospectivas, uma vez que as duas noções não são desarticuladas. As prospectivas na academia são o reflexo da trajetória universitária.

Passado aproximandamente um ano desde que realizaram-se as entrevistas contactou-se, por meio virtual, todos os participantes a fim de sondar como estão atuamente no mês de junho de 2017.

Jurista está no 5° período de Direito e animado por ter conseguido uma bolsa numa base de pesquisa. Hipotenusa casou, está no penúltimo semestre de sua graduação em Matemática. Continua no PIBID e ministra aulas em uma pequena escola particular e no cursinho do DCE. Rosa formou-se no final do ano de 2016, declarou estar procurando emprego e começou um curso técnico em Gestão Ambiental no IFRN. Barbotina está no 6° período de Engenharia Civil e externou preocupação, pois a sua bolsa acabará em Agosto de 2017 e apesar dos infortúnios, afirmou que deseja ingressar no mestrado em 2019. Dentina finalizou o 7° período e permanece no curso de Odontologia, conseguiu uma bolsa de pesquisa e encontrou- se nesse estímulo mais força para continuar. Ruth foi a única estudante presente nesse estudo que não respondeu nosso contato.

Apesar da dura realidade excludente dos desfavorecidos que lamentavelmente se quer adentram os portões universitários, em toda pesquisa buscou-se o afastamento da noção de heroísmo a respeito dos estudantes populares. Ao longo desses escritos, constatou-se que a expansão no ensino superior mesmo expressiva, oculta uma realidade de desigualdade social, cultural e claro, acadêmica.

Defende-se que o Brasil vive um cenário de ―democratização‖ universitária, contudo, ao debruçar-se sobre dos dados e trabalhos produzidos constatou-se que ainda estamos longe de promover o acesso universal ao ensino superior e propiciar a classe popular a real possibilidade de escolha de suas carreiras e condições efetivas de permanência.

Sobre os sujeitos desse estudo, suas trajetórias de resiliência são incontestavelmente admiráveis. Todavia, não podemos reduzir a reflexão apenas na esfera meritocrática. Ao longo de suas vidas adotaram importantes estratégias para atingir os seus objetivos e executá-los com êxito, sem falar nas oportunidades que mesmo limitadas, foram aproveitadas.

Na jornada universitária não foi diferente, com escassos capitais financeiros, sociais e culturais tiveram que se adaptar em um meio ambiente totalmente

desconhecido. Como destacado ao longo do nosso trabalho, todos os estudantes, independentemente da origem social, precisam dominar os novos mecanismos da universidade que muito se diferem da dinâmica escolar. Para isso, necessitam se ressocializar.

Dito isto, pode-se afirmar que o estudante popular que permanece na academia é um indivíduo que foi capaz de adaptar-se e metaforicamente, aprendeu jogar com o que dispunha nas mãos. Sem os amigos, as artimanhas, truques, afetos, paixões, enfim, sem a cordialidade acadêmica dificilmente sobreviveriam.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao iniciar esse trabalho, eu carregava em meu imaginário social algumas noções muito simplórias acerca da realidade das universidades no Brasil. Acreditava, talvez ingenuamente, que as mudanças tinham sido mais contundentes do que vislumbrava. Fui surpreendida ao longo das leituras, aulas, debates e o campo com a constatação de que embora diferentes, as realidades das instituições públicas de ensino superior permanecem excludentes para a classe popular do país. Através das minhas vivências, compreendi que os estudantes populares ainda precisam traçar um árduo caminho até que seu ingresso e permanência na academia sejam garantidos efetivamente.

Durante a pesquisa, a postura intelectual do pesquisador implicado, ou seja, pertencente e envolvido na realidade estudada, serviu como um guia norteador durante todo o estudo. Assumi minha condição popular desde o início, já no prólogo, mostrando a minha subjetividade em meio ao fazer científico, sem deixar a conduta ética de lado. Assim, ser uma estudante popular foi crucial na escolha do tema e no modo como percebi o fenômeno social que me debruçara. Contudo, evidentemente, tive que ir além das minhas presunções e adentrar espaços nunca antes percorridos em minha trajetória acadêmica.

A jornada começou com a tentativa de compreender o panorama internacional das universidades que surgiram na Idade Média. Constantemente criticada, a universidade sobrevive há oito séculos, incompreendida, em um paradoxo itinerante de domínio e submissão. Sua relação com a Igreja, governos e burguesia em ascensão definiram os seus rumos e rotas de amplicação acadêmica. Já no século XIX, por meio da Universidade de Berlim e, posteriormente, na Declaração de Bolonha, constatou-se que foram importantes no que se refere às configurações atuais do ensino superior, influenciando as universidades principalmente no que tange as privatizações e competitividade.

Mesmo com todas as transformações, o estudante universitário sempre buscou, em variadas medidas, uma estratégia de aprendizado que se baseava na relação com o outro, sendo o processo cognitivo e as relações de socialização

elementos indissociáveis. Como seres sociais, necessitamos de trocas simbólicas e afetivas para aprender e nos reinventar e na academia não seria diferente.

No lócus, aprendi na prática o que postula a fenomenologia, isto é, a pesquisa se reconstrói conforme avançamos e nos inserimos nela. Pude perceber que as noções que eu levava a campo rapidamente se metamorfoseavam e exigiam de mim várias quebras de paradigmas. Além disso, por diversas vezes tive que mudar os enfoques, as leituras e até mesmo as estratégias para que o estudo fosse ganhando forma. Nos corredores da UFRN, fui mais uma em meio aos transeuntes que apressados se dirigiam as suas salas de aula. Vi beijos, cantorias, estudantes solitários demonstrando suas angústias, testemunhei sonhos e frustrações e posso dizer sem medo do exagero que foi uma das experiências mais enriquecedoras que tive.

Com a etnografia, pude experienciar uma imersão de modo que em alguns momentos era difícil diferenciar quem era pesquisadora e quem eram os sujeitos, pois estávamos entrelaçados em uma grande teia de significados. A distinção só foi possível porque uma pergunta de partida me guiava, bagagens teóricas me embasavam e a vontade de entender a realidade dos estudantes populares no ensino superior me impulsionaram.

Conheci seis estudantes das classes populares com trajetórias de resiliência que me despertaram grande empatia e admiração. Jovens que apesar das dificuldades encontraram estratégias de sobrevivência que os permitiram prosseguir no ensino superior público em uma universidade federal. Apesar das trajetórias dignas de estima, os sujeitos não podem ser classificados como heróis, uma vez que rotulá-los dessa maneira seria reforçar o discurso meritocrata tão vigente em nossa sociedade.

Percebeu-se que, oriundo das classes abastardas ou das camadas populares, qualquer estudante que ingressa na academia precisa reaprender a estudar, se adaptando a uma nova realidade que muito se difere da escola. A universidade exige uma postura autônoma, novos aparatos cognitivos e instrumentais, maturidade emocional e como um catalizador desse processo encontram-se as estratégias de socialização. Isso significa dizer que o estudante popular não sobrevive apenas por meio de recursos de assistência ou por uma

enorme força de vontade, mas, sobretudo, pelo uso da cordialidade acadêmica que o faz manter-se na academia.

Nos diversos estudos que sustentaram essa dissertação pude observar a preocupação com a permanência dos estudantes populares, diversos fatores matérias foram destacados e em poucos trabalhos percebi a atenção nos aspectos socializadores dos discentes. A sobrevivência acadêmica não é fruto somente de laboriosos estudos e maciço investimento de capital, mas também de um sólido sentimento de filiação e pertença que faz desse estudante um membro da comunidade universitária.

Dissertar sobre o ensino superior e seus atores e não versar sobre sentimentos, amizades, afetos e malandrices nunca fez parte dos meus planos. Entendo os estudantes como agentes dotados de subjetividades e, portanto, seres complexos que não podem ser reduzidos a apenas corpora de pesquisa. Creio que um dos maiores diferenciais do meu estudo foi justamente o olhar para o processo de socialização em articulação com a sobrevivência do estudante popular que timidamente, avança na ocupação das cadeiras universitárias.

Na mesma medida que é inédita a inserção desse estudante na universidade, também é novo o expressivo ingresso nos programas de pós- graduações federais. Um fenômeno que requer atenção uma vez que observou-se no decorrer desse estudo a necessidade de responder outra questão, tão complexa quanto a pergunta de partida: ―E o estudantes populares na pós-graduação, como sobrevivem?‖. Encerro essa travessia com a certeza de que a caminhada deve continuar.

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