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3 TRABALHO DO MENOR

3.4 PROTEÇÃO DO TRABALHO DO MENOR

Desde a antiguidade, existe o trabalho infantil, pois, como verificado anteriormente, criança sempre foi uma mão de obra barata, tendo em vista todas as suas fraquezas. Fraquezas estas que, hoje, as leis tentam de muitas formas trazer proteção, pois, sendo mais vulnerável, sua formação moral, psíquica, social, entre vários outros aspectos, podem ser gravemente afetados.

Para a proteção do menor que trabalha, o ordenamento jurídico estabelece uma série de regras e restrições que visam preservar sua saúde e sua integridade física, bem como permitir e promover o seu desenvolvimento intelectual, psicológico e moral (ROMAR, 2019, p. 702).

No próximo tópico, tratar-se-á das proteções previstas na Constituição Federativa do Brasil de 1988, Convenções internacionais da Organização Internacional do Trabalho, Consolidação das Leis do Trabalho e no Estatuto da Criança e do Adolescente, acerca do trabalho do menor.

3.4.1 Proteção prevista na Constituição Federal

A Constituição Federal, promulgada no ano de 1988, é conhecida por trazer a preocupação e garantias às pessoas constituintes da sociedade, principalmente à criança e ao adolescente, agora vistos como sujeitos de direitos.

No art. 7º, inciso XXXIII, tem-se algumas proibições de condições de trabalho, como, por exemplo, o trabalho noturno, perigoso e insalubre e de qualquer tipo de trabalho aos menores de 16 anos, exceto em condição de aprendiz, o que, na Constituição anterior, falava-se em idade mínima de 12 anos para o trabalho (BRASIL, 1988).

Já no art. 227, ‘caput’, institui que cabe à família, à sociedade e ao Estado assegurar à criança e ao adolescente vários direitos e garantias fundamentais com prioridade, adotando ela a doutrinada proteção integral, como pode-se verificar:

Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de coloca-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão (BRASIL, 1988).

E por fim, ainda em seu art. 227, parágrafo 3º, pode-se verificar que foi aqui conquistado a tais sujeitos, além da idade mínima ao trabalho, a garantia de direitos previdenciários e trabalhistas e garantia de acesso do trabalhador adolescente à escola (BRASIL, 1988).

3.4.2 Proteção prevista em convenções internacionais da Organização Internacional do Trabalho

A fim de buscar a consolidação das normas trabalhistas mundialmente, com o término da Primeira Grande Guerra Mundial, no Tratado de Versalhes em Paris no

ano de 1919, foi criada a Organização Internacional do Trabalho (OIT), sendo considerada um dos mais importantes marcos na história do Direito do Trabalho mundialmente.

Acerca da proteção prevista nas convenções internacionais vigentes na OIT, pode-se verificar as primeiras normas vigentes no ordenamento jurídico internacional citadas por Süssekind apud Perez (2008, p. 86):

[...] Convenção 05, de 1919, sobre a idade mínima para o trabalho nas indústrias; Convenção 07, de 1920, sobre a idade mínima para o trabalho marítimo; Convenção 10, de 1921, sobre a idade mínima para o trabalho agrícola; Convenção 15, sobre a idade mínima para o trabalho como paioleiro e foguista da marinha mercante; Convenção 33, de 1932, sobre a idade mínima para o trabalho não industrial; Convenção 58, de 1936, para revisar a Convenção 07; Convenção 59, de 1937, para revisar a Convenção 05; Convenção 60, de 1937, para revisar a Convenção 33; Convenção 112, de 1959, sobre a idade mínima para o trabalho como pescador; e a Convenção 123, de 1965, sobre a idade mínima em subterrâneos.

E, dentre todas as convenções já criadas, existem duas de mais importância no que tange a este tema, quais sejam, as Convenções 138 e 182 da Organização Internacional do Trabalho, bem como suas Recomendações nº 146 e nº 190.

A Convenção 138 da OIT teve como objetivo unificar os limites internacionais de idade mínima do trabalho executado por adolescentes. Ela acabou por não especificar a idade exata para o ingresso do menor no trabalho, todavia, cada Estado- membro deveria decidir, mas, desde que a idade mínima não fosse inferior ao da conclusão da escolaridade obrigatória ou de qualquer forma, nunca inferior a 15 (quinze) anos, como se pode perceber na íntegra:

Art. 2º - 1. Todo País-Membro que ratificar esta Convenção especificará, em declaração anexa à ratificação, uma idade mínima para admissão a emprego ou trabalho em seu território e nos meios de transporte registrados em seu território; ressalvado o disposto nos Artigos 4º e 8º desta Convenção, nenhuma pessoa com idade inferior a essa idade será admitida a emprego ou trabalho em qualquer ocupação.[...] 3. A idade mínima fixada nos termos do parágrafo 1 deste Artigo não será inferior à idade de conclusão da escolaridade compulsória ou, em qualquer hipótese, não inferior a quinze anos (BRASIL, 2002).

Em consequência à Convenção 138, foi criada a Recomendação nº 146, que tinha como finalidade a implementação de políticas públicas a fim de atenuar a pobreza por parte dos Estados-membros, antes de decidirem as idades mínimas para o ingresso do menor no mercado de trabalho (PEREZ, 2008).

Já a Convenção nº 182 vem com o objetivo de abolir as piores formas de trabalho infantil, conforme seu art. 3º citando exemplos:

a) todas as formas de escravidão ou práticas análogas à escravidão, como venda e tráfico de crianças, sujeição por dívida e servidão, trabalho forçado ou compulsório, inclusive recrutamento forçado ou compulsório de crianças para serem utilizadas em conflitos armados; b) utilização, procura e oferta de crianças para fins de prostituição, de produção de material pornográfico ou espetáculos pornográficos; c) utilização, procura e oferta de crianças para atividades ilícitas, particularmente para a produção de e tráfico de drogas conforme definidos nos tratados internacionais pertinentes; d) trabalhos que, por sua natureza ou pelas circunstâncias em que são executados, são susceptíveis de prejudicar a saúde, a segurança e a moral da criança (BRASIL, 2000).

O art. 7º a Convenção nº 182 traz a importância da educação para a abolição do trabalho infantil, sendo função de cada Estado-membro dar a oportunidade de ingresso das crianças retiradas de tais atividades e disponibilizar programas que lhes tragam formação profissional. Em consequência à Convenção 182, foi criada a Recomendação nº 190, que traz a função de fazer valer os objetivos constantes no art. 6º de sua respectiva convenção (PERES, 2008).

De forma mais sucinta, para Romar (2019, p. 701):

No âmbito internacional, busca‐se instituir um sistema de proteção em relação ao trabalho do menor, sendo certo que, nesse sentido, a Convenção n. 138 e a Recomendação n. 146 da OIT tratam da idade mínima para a admissão em qualquer emprego, e a Convenção n. 182 e a Recomendação n. 190 da OIT estabelecem regras com o intuito de eliminar as piores formas de trabalho infantil.

Sendo assim, pode-se concluir que a intenção da Organização Internacional do Trabalho é erradicar todo e qualquer trabalho prejudicial ao menor, pondo uma idade limite ao seu ingresso no mercado de trabalho, inclusive, respeitando a peculiaridade de cada Estado-membro participante.

3.4.3 Proteção prevista na Consolidação das Leis do Trabalho

Como foi possível verificar, a CLT tem grande importância aos direitos dos menores, bem como não é diferente quando se trata de criar medidas para sua proteção. Para Basile (2014, p. 201):

Semelhantemente ao ocorrido com as mulheres, os menores também foram historicamente explorados e discriminados nas relações de trabalho, com sacrifício da infância e da formação educacional em troca de baixíssimos salários, fazendo por merecer um capítulo tutelar autônomo na CLT.

Uma das proteções mais importantes constantes na CLT é a proteção da não prescrição, onde, contra o trabalhador menor, não corre nenhum prazo prescricional, constante em seu art. 440. Tendo em vista que apenas começará a contar-se o prazo a partir do momento em que ele atingir sua maioridade.

Nos termos do art. 440 da CLT, contra o trabalhador menor de 18 (dezoito) anos não corre nenhum prazo de prescrição. A contagem do prazo prescricional somente começa a fluir quando o trabalhador alcançar a maioridade, ou seja, aos 18 (dezoito) anos (ROMAR, 2019, p. 702).

Encontra-se também, a proteção ao trabalho do menor, no artigo 405, inciso I da CLT, que ao menor de 18 (dezoito) anos não será permitido o trabalho em locais e serviços perigosos e insalubres por se tratarem de sujeitos vulneráveis da relação jurídica, podendo assim, de várias formas, atrapalhar em sua formação (ROMAR, 2019).

Muito se é discutido, inclusive, acerca dos trabalhos infantis em ruas e praças, onde em seu art. 405, parágrafo 2º, declara que dependerá a aprovação para tais trabalhos do Juiz da Infância e da Juventude, onde o mesmo avaliará se o trabalho é ou não indispensável ao seu sustento e até mesmo de sua família, sendo que este trabalho não poderá findar em prejuízo à sua formação moral de qualquer forma (ROMAR, 2019, p. 704).

Já entre seus art. 434 e 438, pode-se observar que, caso os empregadores descumprirem alguma das regras presente no Capítulo relacionado aos menores, serão adotadas penalidades pecuniárias conforme importância da norma descumprida, iniciando-se as multas a partir de valor igual a um salário mínimo regional. Importante também informar que é de competência dos Delegados Regionais do Trabalho ou dos funcionários por ele designados por esse fim de impor as penalidades previstas no Capítulo (BRASIL, 1943).

Inclusive, no art. 407 ‘caput’, parágrafo único, declara que caso a autoridade competente perceba que a atribuição ao menor se tornou prejudicial à sua saúde, desenvolvimento físico, ou à sua moralidade, ela poderá obrigá-lo a abandonar o

serviço, devendo a empresa proporcionar todos os meios a fim de mudar suas funções para que tal atribuição não lhe seja mais prejudicial (BRASIL, 1943).

E, caso a empresa não tomar tal iniciativa, ocorrerá a rescisão do contrato de trabalho, podendo-se utilizar do disposto no art. 483, também da CLT (BRASIL, 1943).

3.4.4 Proteção prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente

Além dos direitos assegurados pelo Estatuto da Criança e do Adolescente abordados anteriormente neste trabalho, existem também algumas formas de proteção ao trabalho do menor, principalmente no que tange aos serviços prestados à comunidade em casos de prática de infrações por menores.

Como já discorrido anteriormente, em seu art. 60 é espelhado o mesmo que se fala na CF/88 e na CLT, onde externa que é considerado proibido qualquer trabalho aos menores de 16 (dezesseis) anos, exceto em condição de aprendiz (BRASIL, 1943). E posteriormente, no art. 61 deixa claro que a proteção do trabalho dos adolescentes é regulada por legislação especial, fazendo assim menção a Consolidação das Leis do Trabalho (BRASIL, 1943).

Também em seu art. 67, tem-se novamente a proibição de trabalho noturno, realizado entre vinte e duas horas de um dia e cinco horas do dia seguinte, o trabalho perigoso, insalubre, penoso, realizados em horários que não permitam sua frequência à escola ou realizado em locais prejudiciais à sua formação físico, psíquico, moral e social (BRASIL, 1943).

Tem-se, inclusive, a proteção dos menores que prestam serviços à comunidade por ato infracional no art. 117, onde tais serviços gratuitos de interesse geral não podem se estender por mais de seis meses e as tarefas devem ser atribuídas conforme a aptidão de cada indivíduo com jornada máxima de oito horas semanais, nos sábados, domingos e feriados, ou dias úteis de forma que não prejudique a frequência do mesmo à escola ou ao trabalho (BRASIL, 1943).

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