• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO 1 – MIGRAÇÃO FORÇADA: Retratos do refúgio no mundo e no Brasil

1.4. Proteção e direito das crianças e jovens refugiados

Para além de entender o cenário mundial atual de crianças e adolescentes refugiados, é preciso — para garantir o seu direito à educação — conhecer leis e convenções vigentes nos países de acolhida. Apresenta-se, portanto, a seguir, o marco legal existente, em especial no Brasil, que particularmente interessa a este estudo, a fim de discorrer acerca dos documentos que asseguram os direitos desses jovens estudantes, sobretudo, em situação de migração forçada.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH), composta por um preâmbulo e 30 artigos, proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em Paris, em 1948, é “uma norma comum a ser alcançada por todos os povos e nações”50. Este documento é considerado um marco na história dos direitos humanos, pois estabelece, pela primeira vez, proteção universal dos direitos humanos para todos, sem discriminação. Embora a declaração não tenha efeito legal sobre os Estados, ela representa “um consenso amplo por parte da comunidade internacional e, portanto, tem força moral forte e inegável em termos na prática dos Estados”51 e, também, dela se derivam outros importantes tratados internacionais firmados entre os Estados-Membros da ONU.

49 Tradução livre de: “It opens new horizons and creates opportunities that seemed to have disappeared in the chaos of displacement”.

50 Cf. NAÇÕES UNIDAS. O que são os direitos humanos? Disponível em:

<https://nacoesunidas.org/direitoshumanos/>. Acesso em: 31 jul. 2020.

51 Ibid.

A partir deste documento, ficou estabelecido que a educação, de acordo com o artigo 2652, é um direito de todo ser humano, e torna obrigatória e gratuita, ao menos, a educação primária. Este direito é mais aprofundado em outras convenções e declarações internacionais, algumas expostas a seguir.

A Convenção relativa ao Estatuto dos Refugiados de 1951, já contextualizada na primeira parte deste capítulo, esclarece, no art. 22, que:

1. Os Estados Contratantes darão aos refugiados o mesmo tratamento que aos nacionais no que concerne ao ensino primário. 2. Os Estados Contratantes darão aos refugiados um tratamento tão favorável quanto possível, e em todo caso não menos favorável do que o que é dado aos estrangeiros em geral, nas mesmas circunstâncias, quanto aos graus de ensino além do primário e notadamente no que concerne ao acesso aos estudos, ao reconhecimento de certificados de estudos, de diplomas e títulos universitários estrangeiros, à isenção de direitos e taxas e à concessão de bolsas de estudo (1951, p. 11, grifos nossos).

Ao afirmar que o país de acolhida deve oferecer às pessoas em situação de refúgio o mesmo tratamento oferecido à sua população nacional no que se refere ao ensino primário, reforça-se o que consta na DUDH sobre a obrigatoriedade e a gratuidade da educação primária, reafirmando que o direito à educação deve ser um direito de todos.

Em 1960 é adotada, pela Conferência Geral da UNESCO, a Convenção Relativa à Luta contra as Discriminações na Esfera do Ensino, que recorda a DUDH no direito à educação para todos e no princípio de não estabelecer quaisquer discriminações, considerando que na esfera do ensino elas constituam uma violação dos direitos humanos. Conforme no §1.º do artigo 1.º, entende-se por discriminação:

[...] toda distinção, exclusão, limitação ou preferência fundada na raça, na cor, no sexo, no idioma, na religião, nas opiniões políticas ou de qualquer outra índole, na origem nacional ou social, na posição econômica ou o nascimento, que tenha por finalidade ou por efeito destruir ou alterar a igualdade de tratamento na esfera do ensino, e, em especial:

a) Excluir uma pessoa ou um grupo de acesso aos diversos graus e tipos de ensino.

b) Limitar a um nível inferior a educação de uma pessoa ou de um grupo.

c) A reserva do previsto no artículo no "artigo 2" da presente Convenção, instituir ou manter sistemas ou estabelecimentos de ensino separados para pessoas ou grupos.

52 “Artigo 26: 1. Toda pessoa tem direito à educação. A educação deve ser gratuita, pelo menos a correspondente ao ensino elementar e fundamental. O ensino elementar é obrigatório. O ensino técnico e profissional deve ser generalizado; o acesso aos estudos superiores deve estar aberto a todos em plena igualdade, em função de seu mérito” (DECLARAÇÃO, 1948).

d) Colocar uma pessoa ou um grupo em uma situação incompatível com a dignidade humana.

Com isto, os Estados Membros que ratificam este documento, a fim de eliminar e prevenir a discriminação, comprometem-se — entre outras ações que se estendem, ao todo, em 19 artigos — a “Adotar as medidas necessárias, inclusive disposições legislativas, para que não se faça discriminação nenhuma na admissão dos alunos nos estabelecimentos de ensino” (1960, art. 3.º, alínea b). e, também, a “Conceder, aos súditos estrangeiros residentes em seu território, o acesso ao ensino nas mesmas condições que seus próprios nacionais” (alínea e). No Brasil, a convenção entrou em vigor em setembro de 1968, a partir do Decreto n.º 63.223, para que seja executada e cumprida inteiramente (BRASIL, 1968).

Há também dois tratados multilaterais adotados em Assembleia Geral das Nações Unidas, em 1966 e 1989: Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (PIDESC) e Convenção sobre os Direitos das Crianças (CDC), respectivamente, entrando em vigor em janeiro de 1978 e em setembro de 1990. O PIDESC trata detalhadamente de questões econômicas, sociais e culturais já previstas na DUDH, por exemplo, os Estados Partes determinam que a educação “deverá capacitar todas as pessoas a participar efetivamente de uma sociedade livre, favorecer a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e entre todos os grupos raciais, étnicos ou religiosos [...]” (BRASIL, 1992, art. 13). O PIDESC entra em vigor no Brasil a partir da publicação do Decreto n.º 591, em julho de 1992 (BRASIL, 1992).

A CDC é um tratado composto por 54 artigos que visa à proteção das crianças e adolescentes em âmbito mundial, contendo quatro princípios fundamentais: I. sobrevivência, desenvolvimento e proteção da criança; II. dedicação aos melhores interesses das crianças; III.

igualdade e não discriminação entre todas as crianças; IV. respeito pelas opiniões das crianças (e suas participações). A convenção considera, primeiramente, como criança todo ser humano com menos de 18 anos53, salvo em alguns países onde a maioridade é alcançada antes. A CDC foi ratificada, com exceção dos Estados Unidos, por todos os Países-Membros das Nações Unidas54 e, por isso, é considerada “instrumento de direitos humanos mais aceito na história universal” (UNICEF, 2020a, s./p). Esta ratificação feita por 196 países demonstra a criação de

53 No Brasil, de acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), considera-se criança aquele que tem até 12 anos de idade incompletos e considera-se adolescente aquele entre 12 e 18 anos de idade.

54 Todos os Estados-Membros da ONU — exceto EUA — mais as Ilhas Cook, Santa Sé e Niue. No Brasil, com o Decreto n.º 99.710, a CDC entra em vigor em novembro de 1990 (BRASIL, 1990b). De acordo com a Constituição Federativa do Brasil, os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos aprovados em cada Casa do Congresso Nacional equivalem às emendas constitucionais (Cf. BRASIL, 1988, art. 5.º, § 3.º).

um padrão global acerca do tratamento das crianças e adolescentes e do respeito pelos seus direitos.

No que se refere à educação, os Estados reconhecem que, para que toda criança possa exercer este direito em igualdade de condições, eles devem, entre outras coisas:

[...] - estimular o desenvolvimento dos vários tipos de ensino secundário, inclusive o geral e o profissional, tornando-os disponíveis e acessíveis a todas as crianças; e adotar medidas apropriadas, como a oferta de ensino gratuito e assistência financeira se necessário; - tornar o ensino superior acessível a todos, com base em capacidade, e por todos os meios adequados (UNICEF, 2020a, art. 28, grifos nossos).

Quanto à criança ou adolescente refugiado, fica acordado, a partir do art. 22, que medidas adequadas que assegurem à criança/adolescente a condição de refugiado sejam adotadas pelos Estados-Membros e que, além disso, toda criança:

[...] receba, estando sozinha ou acompanhada por seus pais ou por qualquer outra pessoa, a proteção e a assistência humanitária adequadas para que possa usufruir dos direitos enunciados na presente Convenção e em outros instrumentos internacionais de direitos humanos ou de caráter humanitário com os quais os citados Estados estejam comprometidos (UNICEF, 2020a, art. 22, grifos nossos).

Ao detalhar este trecho, a CDC busca assegurar que os 196 Estados garantam o direito à educação às crianças e jovens que chegarem a seus países em situação de refúgio, sendo “o ensino primário obrigatório disponível gratuitamente para todos” (UNICEF, 2020a, art. 28) e estimulem o ensino secundário e superior, tomando meios adequados para que também sejam acessíveis a todos (como consta no trecho do art. 28 citado acima).

Outro importante documento é a Declaração de Nova York sobre Migrantes e Refugiados (2016), uma declaração política sem efeito legal, mas que pode revolucionar “a forma como a comunidade internacional se engaja com os refugiados”, segundo Volker Türk (ACNUR, 2016), Secretário Geral Adjunto de Coordenação Estratégica da ONU, do mesmo modo como a DUDH fez com os direitos humanos.

Com esta declaração, pretende-se maior engajamento na educação, possibilitando que mais crianças refugiadas tenham acesso ao ensino primário e secundário e que mais jovens refugiados tenham acesso ao ensino superior, como se nota nos §§ 81 e 82:

Estamos determinados a oferecer educação primária e secundária de qualidade em ambientes de aprendizado seguros para todas as crianças refugiadas, e fazê-lo dentro de alguns meses após o deslocamento inicial.

Comprometemo-nos a apoiar países anfitriões nesse sentido. O acesso à educação de qualidade, inclusive para as comunidades anfitriãs, oferece proteção fundamental a crianças e jovens em contexto de deslocamento, particularmente, em situações de conflito e crise. Apoiaremos a educação infantil para crianças refugiadas. Também promoveremos o ensino superior, o treinamento de habilidades e o ensino profissional (UNITED NATIONS, 2016, p. 14-15, grifos nossos)55.

Percebe-se que neste documento não se fala apenas da educação primária, mas de todos os níveis de ensino como um direito também dos refugiados. Outro ponto que chama a atenção é a urgência com a qual se deve fornecer o acesso à educação: nos meses iniciais do deslocamento, reconhecendo a importância do ambiente escolar no processo de reconstrução de suas vidas após o trauma da necessidade do deslocamento forçado.

No parágrafo 32 (UNITED NATIONS, 2016), torna-se claro que, com esta declaração, busca-se a proteção dos direitos humanos e liberdades fundamentais de todas as crianças refugiadas e migrantes, independentemente de sua condição legal, incluindo aquelas desacompanhadas ou separadas de seus familiares; a qual considera, primeiramente, os melhores interesses da criança, baseando-se na CDC para o cumprimento dessas obrigações.

Ainda enfatizam priorizar a provisão orçamentária para facilitar o acesso à educação, incluindo apoio aos países anfitriões, conforme necessário; identificando que a questão financeira é uma barreira que diversas vezes impede a escolarização dessas crianças e jovens.

Sobre o atendimento educacional dos migrantes no Brasil, fica estabelecido na Constituição Nacional que “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade” (BRASIL, 1988, art. 5.º, grifos nossos) e que a educação é direito social de todos (art. 6.º e art. 205). E, em concordância com a DUDH e a CDC, o acesso ao ensino obrigatório e gratuito é um direito público subjetivo56, isto é, cabe ao Estado provê-la a todo ser humano57, bem como consta na Lei de Diretrizes e

55 Tradução livre de: “We are determined to provide quality primary and secondary education in safe learning environments for all refugee children, and to do so within a few months of the initial displacement. We commit to providing host countries with support in this regard. Access to quality education, including for host communities, gives fundamental protection to children and youth in displacement contexts, particularly in situations of conflict and crisis. We will support early childhood education for refugee children. We will also promote tertiary education, skills training and vocational education.”

56 Vide: art. 54, §1.º do ECA (BRASIL, 1990a) e art. 208, §1.º da Constituição (BRASIL, 1988).

57 No Brasil, considera-se educação básica obrigatória dos quatro aos 17 anos (BRASIL, 1988, art. 208, inciso I).

Bases da Educação Nacional (LDBEN) (BRASIL, 1996), que endossa o ECA e a Constituição Federal, em seu art. 5.º, ao asseverar que:

O acesso à educação básica obrigatória é direito público subjetivo, podendo qualquer cidadão, grupo de cidadãos, associação comunitária, organização sindical, entidade de classe ou outra legalmente constituída e, ainda, o Ministério Público, acionar o poder público para exigi-lo.

No §4.º deste mesmo artigo, infere-se que, se comprovada a negligência da autoridade competente que garante o oferecimento do ensino obrigatório, esta pode ser imputada por crime de responsabilidade, o que demonstra, mais uma vez, a obrigação do Estado de propiciar educação pública e gratuita a todos. É também dever do Estado, consoante o ECA, assegurar à criança e ao adolescente “igualdade de condições para o acesso e permanência na escola”

(BRASIL, 1990a, art. 53, inciso I) e o “acesso aos níveis mais elevados do ensino” (BRASIL, 1990a, art. 54, inciso V).

Ainda em âmbito nacional, a Lei do Refúgio (BRASIL, 1997) preceitua, em seu art. 44, que devem ser facilitados o reconhecimento de certificados e diplomas; os requisitos para a obtenção da condição de residente; e o ingresso em instituições acadêmicas de todos os níveis, considerando a situação desfavorável vivenciada pelos refugiados. Este artigo é fundamental, pois garante a derrubada de algumas barreiras — pelo menos do ponto de vista legal — com que se deparam os jovens refugiados, sobretudo, em relação ao acesso à educação secundária e superior.

Instituída recentemente no país, a Lei da Migração (BRASIL, 2017) rege-se, entre outros, pelos princípios de igualdade de tratamento e de oportunidade ao migrante e seus familiares (art. 3.º, inciso IX), e pela proteção integral e atenção ao superior interesse da criança e do adolescente migrante (BRASIL, 2017, art. 3.º, inciso XVII). Além disso, assegura ao migrante o direito à educação pública e veda a discriminação em razão de sua nacionalidade e de sua condição migratória (art. 4.º, inciso X).

Recentemente, no final de 2020, é publicada no Diário Oficial da União a Resolução n.º 1, de 13 de novembro de 2020, pelo Ministério da Educação, Conselho Nacional de Educação e Câmara de Educação Básica, que trata especificamente sobre o direito à matrícula de crianças e adolescentes migrantes, refugiados, apátridas e solicitantes de refúgio no ensino público brasileiro (BRASIL, 2020). No documento (art. 1.º, caput e § 1.º), reforça-se novamente o não requisito de documentação comprobatória de escolaridade anterior e a não discriminação em razão de nacionalidade ou condição migratória, assegurando a matrícula demandada

imediatamente conforme disponibilidade de vagas, inclusive na modalidade da Educação de Jovens e Adultos (EJA) e em creches.

Além disso, a resolução afirma que não será impedida a matrícula quando houver

“ausência de tradução juramentada de documentação de escolaridade anterior, de documentação pessoal do país de origem, de Registro Nacional Migratório ou Documento Provisório de Registro Nacional Migratório” (art. 1.º, § 3.º, inciso I), tampouco quando se apresentar “situação migratória irregular ou expiração dos prazos de validade dos documentos apresentados” (inciso II). Essas determinações são importantíssimas, pois eliminam uma das barreiras iniciais — que é a falta de documentação — e reforça a inclusão no acesso à educação também dos migrantes ainda indocumentados no país.

Outra parte importante é que, caso não seja comprovada a escolarização anterior mediante documentação, o estudante migrante tem direito de passar pelo processo de avaliação/classificação, que deverá ser feito na língua materna do estudante, ficando a cargo dos sistemas de ensino a garantia deste atendimento (BRASIL, 2020, art. 1.º, § 6.º). Este tipo de ação é crucial para o real acolhimento do aluno migrante e corrobora para uma política linguística mais inclusiva e menos assimilacionista em âmbito educacional.

Referente ao atendimento escolar das crianças e adolescentes refugiados no estado, tendo São Paulo como recorte desta pesquisa, a Secretaria da Educação, considerando os preceitos legislativos discutidos, resolve — a partir da Resolução SE n.º 10 de 1995 — que “as escolas estaduais que ministram o ensino fundamental e médio deverão receber os pedidos de matrícula dos alunos estrangeiros” (art. 1.º). Ademais, a direção da escola tem de realizar a matrícula dos alunos estrangeiros sem qualquer discriminação e os estudantes cujas matrículas tenham sido indeferidas ou canceladas poderão reaver seu direito (art. 2.º e 6.º).

A partir do Parecer CEE n.º 633/2008, definiu-se a necessidade de alterar o sistema de Gestão Dinâmica de Administração Escolar (GDAE)58, da Secretaria de Estado da Educação de São Paulo, a fim de cadastrar devidamente os estudantes estrangeiros que ainda não dispõem de documentos brasileiros, como por exemplo, o Registro Nacional de Estrangeiro (RNE)/Registro Nacional Migratório (RNM)59. Conforme o Boletim CGEB n.º 144 de 2016, o estudante migrante tem direito de regularizar sua situação escolar mesmo sem a documentação

58 O GDAE é um “Sistema utilizado para armazenar dados sobre a situação educacional da rede estadual, referente à localização e disponibilidade das escolas, matrículas, classes e estudantes” (GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO, 2018, p. 13).

59 Em caso de dúvida no cadastramento dos alunos estrangeiros documentados ou não, o Governo de São Paulo publicou um documento orientador referente à matrícula, classificação, reclassificação e certificados de estudantes imigrantes (Cf. GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO, 2018).

exigida, e a expedição de documentos escolares (como histórico escolar e diplomas de conclusão de curso) “deve ser garantida independentemente da situação de regularização migratória do estudante no país” (GOVERNO DE SÃO PAULO, 2018a, p. 17).

Em âmbito municipal, ressalta-se novamente a lei PMPI (SÃO PAULO (Município), 2016a), que tem como uma de suas ações prioritárias a garantia “a todas as crianças, adolescentes, jovens e pessoas adultas imigrantes o direito à educação na rede de ensino público municipal, por meio do seu acesso, permanência e terminalidade” (art. 7.º, inciso IV);

lembrando que esta reconhece como migrante qualquer pessoa que sai de seu país de origem para residir no Brasil, independentemente de sua situação migratória e documental (art. 1.º).

Com base nos artigos 19 e 20 do decreto que institui a PMPI, sobre, respectivamente, o papel da Secretaria Municipal da Educação (SME) de desburocratizar os procedimentos de inscrição da população migrante e do princípio de interculturalidade que se deve observar na educação; a SME publica a Resolução – SME/CME n.º 3 de agosto de 2019 (SÃO PAULO (Município), 2019). O documento assevera, no tocante aos procedimentos de atendimento, inúmeras questões administrativas de acesso, permanência e conclusão escolar ao migrante que procurar uma unidade educacional municipal — sendo este um bebê, criança, adolescente ou adulto migrante voluntário, refugiado, solicitante de refúgio, residente fronteiriço ou apátrida (art. 1.º, parágrafo único). Estabelece-se também que deve ser dado apoio e acolhimento a estes estudantes e suas famílias nas escolas, bem como introduzir em seus Projetos Político Pedagógico (PPP) conteúdos que promovam a interculturalidade e a valorização das culturas de origem dos alunos migrantes nelas matriculados (art. 5.º, caput). Determinações importantes que abrem caminhos para que sejam desenvolvidos projetos e ações que visam à inclusão da população refugiada/migrante na Educação Básica.

Assim, consoante o art. 70 do ECA (BRASIL, 1990a), é dever de todos prevenir a ocorrência de ameaça ou violação dos direitos da criança e do adolescente; um dever, especialmente, dos educadores e dos profissionais que trabalham com e para eles.

Consequentemente, não cabe a esses profissionais cercear os estudantes migrantes seu direito à educação, posto que esta, como indicam os preceitos constitucionais, é um direito público de todos.