3 O PROTESTANTISMO: UMA ABORDAGEM GERAL
3.1 PROTESTANTISMO NO BRASIL: CAMINHOS TRILHADOS
O protestantismo, composto hoje por uma extensa rede de Igrejas evangélicas, de denominações variadas, possui em sua grande maioria uma relação estreita com a Reforma Protestante do século XVI, como vimos anteriormente.
Partimos, inicialmente, de uma visão mais ampla e abrangente da religião, enquanto mística/magia/ente divino ou sobrenatural, para a religião enquanto tradição cristã, representada por uma instituição responsável e designada a realizar o intermédio entre Deus e homem. Essa instituição a que nos referimos é a Igreja que, a princípio, no que se refere ao mundo ocidental, esteve por muito tempo restrito aos limites e poderes da Igreja Católica e que, somente após a Reforma, surgiram outras Igrejas com percepções e crenças distintas da primeira.
Nesse sentido, conforme Renato Ortiz (2008), este conceito de Igreja foi visto de modo completamente diverso por muitos estudiosos que se preocuparam com a temática da religião59. Ortiz destacou a distinção entre as visões de Durkheim e Weber. Para o primeiro, a igreja é “o espaço no interior do qual as crenças e as práticas religiosas se articulam e se unem em torno de uma mesma comunidade moral” que tende sempre para um caminho mais “consensual” da religião. Já para o segundo, possui uma perspectiva completamente diferente da anterior. Weber concebe a igreja como “uma espécie de „empresa de salvação de almas‟, o que lhe abre a possibilidade de compreender o poder político e sacral nas diferentes religiões que considera” (2008, p.20).
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Estas considerações de Renato Ortiz se encontram na apresentação do livro As formas elementares de
Partindo dessas diferenciações, é importante deixar claro que, em nosso entendimento da religião, não dissociamos seu surgimento, dogmas e ideologias do contexto econômico, social e político que possibilitaram tanto o seu nascimento, quanto sua manutenção.
Neste trabalho queremos, sobretudo, destacar a função social da religião/protestantismo desempenhada na e a partir dos grupos que as pratica e as defende.
Desse modo, concordando com Silva, acreditamos que “a religião e as igrejas estão ligadas necessariamente, à sociedade pelo fato mesmo da sua pretensão proselitista ou missionária de dirigir uma mensagem aos homens que nela vivem” (1998, p. 18).
Em se tratando de Brasil, o protestantismo foi introduzido a partir do século XIX, o que se deve a dois motivos: primeiro, às questões relativas ao “ordenamento jurídico do Estado Português”, que controlava rigidamente a entrada de estrangeiros em territórios brasileiros, tanto para evitar as explorações de riquezas, quanto para garantir “a manutenção de uma estrutura sócio-ideológica monolítica”, fundamentada no catolicismo. Segundo, o protestantismo só desenvolve atividades missionárias posteriormente, pois até isto acontecer, teve que se preocupar em “garantir sua própria sobrevivência, consolidar a sua elaboração teológica, com a fixação das fórmulas e confissões, e pôr termo às lutas intestinas que marcam o seu desenvolvimento” (SANTOS, 2001, p.214).
Severino Vicente da Silva informa que no século XIX recrudesce a presença de um maior número de igrejas cristãs não católicas, advindas de vários lugares:
Da Inglaterra chegaram os anglicanos (1818), dos Estados Unidos vieram os Metodistas (1835), Os Presbiterianos (1863), Os Batistas (1871), Os Adventistas (1879) e os Episcopais (1890). Esses grupos formam o que se conhece como Protestantismo de Missão, para diferenciar-se daquele outro vindo com os imigrantes, trazidos por levas de alemães, principalmente o Luteranismo, desde a terceira década do século XIX (2001, p.138).
Silva ainda ressalta que, em relação às diversas tipologias protestantes que vieram ao país, foi utilizado pelo Centro Ecumênico de Documentação e Informação seguindo “os critérios de transplante, antiguidade e teologia”, as seguintes diferenciações:
Protestantismo de Imigração: Igreja Anglicana, Igreja Luterana e
Reformados. Protestantismo de Missão: batistas, congregacionais, episcopais, metodistas e presbiterianos; Pentecostais: Assembléia de Deus, Congregação Cristã do Brasil, Igreja de Deus e Igreja Pentecostal;
Pentecostais Autônomos: Casa da Benção, Deus é Amor, Evangelho
Quadrangular, Maranata, Nova Vida, o Brasil para Cristo, Universal do Reino de Deus e outros; Carismáticos: Batistas da Renovação, Cristã Presbiteriana, Metodistas Wesleyanos; Pseudo-Protestantes: Adventistas, Mórmons e Testemunhas de Jeová (1998, p.9).
De acordo com os critérios acima descritos, Silva informa que, na trajetória realizada aqui no Brasil, estabeleceram-se as seguintes relações: Igreja Anglicana associada ao “protestantismo de imigração” e a “a Denominação Batista como protestantismo de missão ou missionário” (1998, p.9).
Como já foi dito, embora a efetiva instalação e “presença sistemática” do protestantismo no Brasil tenham ocorrido apenas na metade do século XIX com os grupos de missão, aconteceu, no século XVI, a presença de huguenotes no Rio de Janeiro e, no século seguinte, a inserção de calvinistas em Pernambuco, onde estes últimos criaram “comunidades evangélicas”, mas sua duração só perdurou enquanto ocorreu a ocupação francesa e holandesa. É importante dizer que a vinda destes protestantes só foi possível em decorrência das guerras religiosas que aconteciam na Europa moderna, por conta da Reforma Protestante e da política mercantilista.
Diferentemente dos primeiros grupos protestantes que estiveram no país, em 1808 houve uma receptividade maior aos mesmos, “em decorrência de uma conjunção de fatores de ordem econômica e política, destacando-se a abertura dos portos às nações amigas, e a imigração europeia a partir do período Joanino” (1998, p. 25). Nessa segunda etapa, entrou no país o que Silva (1998) intitulou de primeira onda protestante:
Os Anglicanos [...] como comerciantes nas grandes cidades e os luteranos, como pequenos colonos no interior da região sul. Fundaram suas igrejas para propiciarem assistência espiritual aos fiéis de origem inglesa e alemã, respectivamente. Esses dois grupos são considerados, por excelência, protestantismo de imigração (1998, p.25).
Já a segunda onda, foi composta por aqueles que receberam a denominação de protestantismo missionário. Além da política liberal ainda estar em vigência e, desse modo, facilitar a entrada destes protestantes no Brasil, associado a este contexto existiram outros fatores que foram preponderantes para “uma nova corrente migratória vinda dos EUA; a expansão dos interesses comerciais norte-americanos no Brasil; para além das questões terrenas, fatores religiosos se alinharam, a exemplo do avivamento
missionário, ocorrido entre as denominações protestantes da América do Norte”. Assim, “a partir de 1858, missionários de origem congregacional, metodista, presbiteriana, batista e episcopal fundaram suas igrejas” nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia e Rio Grande do Sul, propagando dessa maneira o protestantismo missionário por todo país. (SILVA, 1998, p.25).
E, por último, a terceira onda chega ao Brasil, através daqueles que foram denominados de pentecostais. Os mesmos estabeleceram-se no país devido à urbanização crescente, fato que facilitou a sua inserção e expansão, principalmente a Congregação Cristã e a Assembleia de Deus. Houve, também, já no final da década de 70, “o chamado neopentecostalismo, representado especialmente pela Igreja Universal do Reino de Deus. Partindo do Rio de Janeiro, espalhou-se nas grandes cidades” de todo o país como uma proposta religiosa inovadora (SILVA, 1998 p.25-26).Gostaríamos de acrescentar a esta breve incursão sobre as principais causas e razões que trouxeram os protestantes ao Brasil que as duas primeiras ondas (imigração e missão) possuem compreensões opostas à última onda (Pentecostais/neopentecostais).
A principal diferença entre o Protestantismo de Missão e de Imigração e o Protestantismo Pentecostal é em relação à Reforma do século XVI. Ou seja, o primeiro grupo, das “igrejas históricas [...] advogam para si uma relação direta com a Reforma, como se não houvesse uma distanciação cultural, temporal e geográfica da denominação brasileira com a Reforma europeia”. Em contrapartida, as últimas, as igrejas pentecostais e neopentecostais, se eximem totalmente dessa relação, pois, na concepção das mesmas, caso se vinculassem a esta tradição se assemelhariam ao catolicismo. Desse modo, estas instituições além de negarem esta aproximação com a Reforma Protestante, afirmam se basearem “unicamente na Bíblia” (NETO, 2009, s/p).
Diante do exposto, vimos que no caso dessas três ondas de protestantes que chegaram ao Brasil, embora possuíssem motivações diferentes, a instalação dos mesmos só teve espaço devido às condições favoráveis nos aspectos sociais, políticos e culturais, e foram imprescindíveis para a consolidação do movimento Protestante no país, como também, tais condições possibilitaram a expansão protestante por todo o território nacional.