3. II RELATÓRIO DO IPCC X PROTOCOLO DE QUIOTO
3.3. PROTOCOLO DE QUIOTO
O Protocolo de Quioto foi concebido na COP 3, em 11 de novembro de 1997, após onze dias de intensas negociações entre delegados, autoridades governamentais, ministros e demais representantes das Partes. Na composição final do documento foram estabelecidos vinte e oito artigos e dois anexos. Quando foi publicado, o Protocolo incluiu também três decisões negociadas e firmadas na COP 3, que auxiliam na implementação dos preceitos constantes no documento. (PEREIRA, 2002)
No Anexo A (Quadro 2), parte integrante do Protocolo, estão definidos, além do detalhamento de setores e categorias de fontes, seis gases diretamente relacionados com o efeito estufa: dióxido de carbono (CO2), metano (CH4), óxido nitroso (N2O), hidrofluorcarbonos (HCFC), perfluorcarbonos (PFC) e Hexafluoretos de Enxofre (SF6). Estes gases foram escolhidos por serem os que mais contribuem com o efeito estufa e por serem relacionados com atividades antrópicas. Dos seis gases, o de maior impacto é o CO2. No Anexo B (Quadro 3), constam o nome dos países que assinaram e ratificaram o Protocolo e seus compromissos quanto as reduções de emissões de GEE. (RIBEIRO, 2006; MCT, 2009))
ANEXO A
GASES DE EFEITO ESTUFA
DIÓXIDO DE CARBONO (CO2) ÓXIDO NITROSO (N2O) PERFLUORCARBONOS (PFCS)
METANO (CH4) HIDROFLUORCARBONOS (HFCS) HEXAFLUORETO DE ENXOFRE (SF6)
SETORES/CATEGORIAS DE FONTES ENERGIA
QUEIMA DE COMBUSTÍVEL EMISSÕES FUGITIVAS DE
COMBUSTÍVEIS PROCESSOS INDUSTRIAIS
SETOR ENERGÉTICO COMBUSTÍVEIS SÓLIDOS PRODUTOS MINERAIS
IND. DE TRANSFORMAÇÃO E
DE CONSTRUÇÃO PETRÓLEO E GÁS NATURAL INDÚSTRIA QUÍMICA
TRANSPORTE OUTROS PRODUÇÃO DE METAIS
OUTROS SETORES OUTRAS PRODUÇÕES
OUTROS PROD. DE HALOCARBONOS E
HEXAFLUORETO DE ENXOFRE
CONSUMO DE HALOCARBONOS E
HEXAFLUORETO DE ENXOFRE
OUTROS
USO DE SOLVENTES E OUTROS PRODUTOS
AGRICULTURA RESÍDUOS
FERMENTAÇÃO ENTÉRICA DISPOSIÇÃO DE RESÍDUOS SÓLIDOS NA TERRA
TRATAMENTO DE DEJETOS TRATAMENTO DE ESGOTO
CULTIVO DE ARROZ INCINERAÇÃO DE RESÍDUOS
SOLOS AGRÍCOLAS OUTROS
QUEIMADAS PRESCRITAS DE
SAVANA
QUEIMA DE RESÍDUOS
AGRÍCOLAS
OUTROS
Quadro 2 – Anexo A do Protocolo de Quioto
Fontes: ONU – Brasil – Organização das Nações Unidas no Brasil e MRE – Ministério das Relações Exteriores. Disponível em http://www.onu-brasil.org.br, acesso em: 04 dez. 2009.
ANEXO B
PARTES % DO ANO BASE OU PERÍODO PARTES % DO ANO BASE OU PERÍODO
ALEMANHA 92 IRLANDA 92
AUSTRÁLIA 108 IRLANDA DO NORTE 92
ÁUSTRIA 92 ISLÂNDIA 110
BÉLGICA 92 ITÁLIA 92
BULGÁRIA 92 JAPÃO 94
CANADÁ 94 LETÔNIA 92
COMUNIDADE EUROPÉIA 92 LIECHTENSTEIN 92
CROÁCIA 95 LITUÂNIA 92
DINAMARCA 92 LUXEMBURGO 92
ESLOVÁQUIA 92 MÔNACO 92
ESLOVÊNIA 92 NORUEGA 101
ESPANHA 92 NOVA ZELÂNDIA 100
EUA 93 PAÍSES BAIXOS 92
ESTÔNIA 92 POLÔNIA 94
FEDERAÇÃO RUSSA 100 PORTUGAL 92
FINLÂNDIA 92 REPÚBLICA TCHECA 92
FRANÇA 92 ROMÊNIA 92
GRÉCIA 92 SUÉCIA 92
HUNGRIA 94 SUÍÇA 92
INGLATERRA 92 UCRÂNIA 100
Quadro 3 – Anexo B do Protocolo de Quioto
Fontes: ONU – Brasil – Organização das Nações Unidas no Brasil e MRE – Ministério das Relações Exteriores. Disponível em http://www.onu-brasil.org.br, acesso em: 04 dez. 2009.
Os principais pontos básicos do Protocolo, relacionadas às metas estabelecidas são:
A utilização de mecanismos para remoção ou reduções das emissões de GEE;
Estabelecimento valores limítrofes para as emissões GEE, direcionada e específica para cada Parte signatária;
Estabelecimento de metas envolvendo valores quotizados de reduções de emissões de GEE para as Partes signatárias do Protocolo. As quotas serão estabelecidas com base nos volumes de emissões do ano de 1990;
Conciliação das necessidades, disponibilidades e interesses dos países desenvolvidos, países em desenvolvimento e países pobres financeiramente incapazes de elaboração de programas e emprego de ações voltadas à remoção e reduções das emissões de GEE.
(RIBEIRO, 2006; MCT, 2009)
Os compromissos de redução, conforme Quadro 3, foram estabelecidos de forma diferenciada às Partes do Protocolo. Essa diferenciação, teve maior influência política do que científica, onde através de seus representantes, os países ofereceram suas metas e partiram para as negociações, defendendo os interesses econômicos do país. As metas estabelecidas, não guardam qualquer relação de proporcionalidade com os níveis de emissões de GEE. Portanto, para algumas Partes chega a ser permitido um crescimento das suas emissões, que são os casos de Austrália, Islândia e Noruega. (ONU-BRASIL, 2004; RIBEIRO, 2006; BORN, 2008)
O Protocolo de Quioto, após sua aprovação e a entrada em vigor, definiu alguns princípios, dentre os quais:
Princípios da Precaução - mesmo que não haja confiabilidade total na previsão ou que tenha ausência de precisão, as ações vislumbradas devem ser empregadas para que se evite o agravamento de um efeito adverso;
Princípio da Responsabilidade Comum – Cada país possui a responsabilidade calculada na medida de sua participação no total de emissões de GEE, com isso, países mais industrializados respondem pelo
passado histórico, não só pelas emissões do presente, contudo reservada as proporções, a responsabilidade de uma forma geral, pertence a todos;
Princípio do Poluidor Pagador - O princípio do poluidor pagador obriga quem poluiu a pagar pela poluição causada ou que pode ser causada.
(MEIRA FILHO, 1997; SOUZA, 2003)
A concepção do Protocolo e sua entrada em vigor, após a ratificação da Rússia, mudaram também, de certa forma, as relações comerciais entre as nações. O principal ofensor quanto a emissões de GEE do mundo (e influenciador da ordem econômica e política mundial), os EUA, não ratificou o Protocolo. Contudo o documento está vigorando, o que demonstra que houve a sensibilização para uma tomada de atitude pela maioria das Partes. Cada tomada de atitude, porém guarda implícita ou explicitamente os interesses de cada país. A UE, por exemplo, que corre o risco de ter grande parte de sua área coberta pelo mar se os níveis dos oceanos aumentarem, está atuando ativamente para que os objetivos do Protocolo sejam atingidos, a fim de minimizar os impactos que seriam devastadores. (MARENGO, 2008)
O Protocolo de Quioto foi inovador ao introduzir mecanismos de flexibilidade para auxiliar os países que o ratificaram quanto ao cumprimento das metas de redução de emissão de dióxido de carbono. Estes mecanismos permitiram a possibilidade de adquirir certificados de emissão reduzida por meio da aquisição direta ou por investimentos em outros países. Ao permitir que o abatimento de GEE pudesse ser realizado além das fronteiras nacionais, houve uma ampliação das opções disponíveis e permitiu-se um maior grau de flexibilidade para os países participantes, aumentando, com isso, as chances de se alcançar os objetivos finais da Convenção que são fundamentais para a estabilização da concentração atmosférica de GEE. Basicamente, são três mecanismos de flexibilidade, conhecidos como: IC - Implementação Conjunto (em inglês JI - Joint inplementation),
CIE - Comércio Internacional de Emissões (em inglês ET - Emissions Trading) e o MDL - Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (em inglês CDM - Clean Development Mechanism):
A IC - Prevista no Artigo 6º do Protocolo, permitiu aos países desenvolvidos e industrializados a possibilidade de atingir suas metas de redução por meio do financiamento de projetos para a redução das emissões em países também industrializados que tenham ratificado o Protocolo. Mediante esta ação os países receptores de projetos obtém benefícios oriundos dos investimentos e do emprego de uma tecnologia mais avançada, porém os respectivos créditos ficam com os países financiadores, que podem contabilizar tais créditos às suas metas de redução. O sistema apresenta, com isto, as vantagens da flexibilidade e eficiência, pois, em certas situações, fica mais barato implementar projetos de eficiência energética nos países com economias em transição do que em países com economias estanques e de pouca maleabilidade. Este tipo de flexibilização proporciona a possibilidade de se alcançar maiores índices de redução de GEE, dado que os benefícios à atmosfera independem de onde os projetos estão alocados;
O CIE - Previsto no artigo 17 do Protocolo, permitiu que os países detentores de excedentes de unidades de redução, possam vendê-los aos países que não atingiram suas metas de redução. Um exemplo é o mercado de carbono. A primeira vista, assim exposto, pode parecer que a aplicabilidade do preceito estabelecido neste artigo prima pela simplicidade, porém esta alternativa, na verdade assume um alto grau de complexidade, pois os detalhes necessários a sua implementação não foram especificados no Protocolo, além disso, o monitoramento das emissões de GEE, deveria acontecer em todos os países e deveria garantir, principalmente, a veracidade das informações obtidas para que houvesse credibilidade na operação deste mercado;
O MDL - O Protocolo propôs a prestação de serviços de assistência às Partes para viabilização de atividades voltadas ao desenvolvimento sustentável por intermédio da implantação de projetos que atendessem os objetivos traçados ao final da Convenção, e que ao mesmo tempo buscassem o cumprimento de seus compromissos quantificados de limitação e redução de emissão de GEE. Um dos objetivos finais da Convenção, a redução ou remoção de CO², deveria ser atingido com a colaboração de países em desenvolvimento, onde a implementação de atividades voltadas para a redução, ocorreria mediante investimentos em tecnologias mais eficientes, substituição de bases energéticas, racionalização do uso da energia, florestamento e reflorestamento. Podem participar de um projeto de MDL as Partes do Protocolo de Quioto, as não Partes, entidades públicas e privadas atuantes e relacionadas com as Partes, desde que estejam devidamente autorizadas. As atividades de projeto do MDL podem ser implementadas por meio de parcerias com o setor público ou privado.
(IPCC, 1995; MEIRA FILHO, 1997; ONU-BRASIL, 2004; RIBEIRO, 2005; WWF, 2007; UNEP, 2009; UNFCCC, 2009; PETER, 2009)
Políticas e medidas propostas pelo Protocolo que deverão ser implementadas e/ou aprimoradas de acordo com as circunstâncias nacionais. Os envolvidos deverão aplicar e elaborar políticas e medidas (em conformidade com as circunstâncias nacionais), como exemplo:
Fomento da eficiência energética nos setores pertinentes da economia nacional;
Proteção e melhora dos sumidouros e depósitos de gases, tendo em conta, os acordos internacionais pertinentes ao Meio Ambiente;
A promoção de práticas sustentáveis de manejo florestal, florestamento e reflorestamento;
Promoção de formas sustentáveis de agricultura à luz das considerações sobre a mudança do clima;
Pesquisa, promoção, desenvolvimento e o aumento do uso de formas novas e renováveis de energia, de tecnologias de sequestro de dióxido de carbono e de tecnologias ambientalmente seguras, que sejam avançadas e inovadoras;
Medidas para limitar e/ou reduzir as emissões de gases de efeito estufa no setor de transportes;
Redução progressiva ou eliminação gradual das deficiências de mercado, incentivos fiscais, isenções tributárias e subvenções que sejam contrários ao objetivo da convenção em todos os setores emissores de gases;
Fomento de reformas apropriadas dos setores pertinentes, visando promover políticas e medidas que limitem ou reduzam as emissões de gases.
(MCT, 2009; UNEP, 2009)