CAPITULO VI – APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS PROTOCOLOS AT-9,
6.2. Protocolo nº 2 – Protocolo AT-9 do Senhor Lalá
Sexo: Masculino. Idade: 58 anos. Estado civil: Casado.
Cidade/ Estado/ País onde nasceu: Caiapônia / Goiás. Grau de instrução: Superior completo.
Você tem 30 minutos para fazer um desenho com os seguintes elementos: uma queda, uma espada, um refúgio, um monstro devorante, alguma coisa cíclica (que gira, que produz, que progride), um personagem, água, uma animal (pássaro, peixe, réptil, mamífero), fogo.
Escreva aqui a história do seu desenho.
O pássaro alça vôos altos. A espada está escondida dentro da água, em queda, e quando a água baixar irá aparecer. O fogo arde e o monstro se aquece com ele. A casa progride junto com minha vida e o personagem central da coisa cíclica sou eu.
Responda de modo preciso as seguintes questões:
1. Sobre que idéia você centrou a sua composição? Na minha vida. 2. Você foi exemplarmente inspirado? Sim.
a. Os elementos essenciais em torno dos quais você constituiu o desenho: Pássaro e personagem
b. Os elementos que você teria vontade de eliminar. Por quê? Monstro e a espada, desnecessários e medonhos.
c. Como acaba a cena que você imaginou? Com a coisa cíclica.
d. E se você tivesse que participar da cena composta onde estaria? O que faria? Não respondeu.
4. No quadro seguinte você deve especificar:
a. Por meio de que você representou os nove elementos do teste (coluna A). b. O papel, a função, a razão de ser de cada uma de suas representações. (coluna
B).
c. O que simboliza para você, cada um dos nove elementos do teste. (coluna C). Elemento A. Representado por: B. Função/papel C. Simbolizando
Queda Espada Esconder Submissão
Espada Luta Matar Escondido
Refúgio Casa Aconchegar Descanso
Monstro devorante
Monstro Intimidar Medo
Cíclico Vida Progredir Coração
Personagem Ser humano Central Eu
Água Represa Matar sede e esconder Represa
Animal Pássaro Voar Progresso e vida
Fogo Fogueira Queima e aquece Aquecimento
6.2.1. – Registros pinçados da fala.
Tudo começou quando meu pai morreu, somos em sete irmãos sendo quatro mulheres e três homens. Minha mãe morava com meu pai e meus dois irmãos (Manuel e Antônio) em casa própria deles, meus dois irmãos são separados e vivem em uns quartinhos que ficam do lado de fora da casa, ambos bebem muito, um (Manuel) bebia e ficava agressivo, já o outro (Antônio) bebia e ficava chato, implicando com tudo e com todos, ambos viviam infernizando a vida dos meus pais, houve uma vez em que meu irmão (Manuel) em uma de suas bebidas brigou com meu irmão (Antônio) e meu pai entrou no meio. Meu irmão (Manuel) empurrou
meu pai (Luis) que caiu no chão e minha mãe (Mariana) entrou no meio da briga. Foi quando os dois se agrediram, chegando quase matar um ao outro. Depois desta briga meu irmão (Manuel) saiu de casa e só ficou o Antônio.
Tempos depois meu pai adoeceu novamente. Eu não lhe disse antes, mas meu pai possuía problemas cardíacos e diabetes, já havia passado por varias cirurgias cardíacas e estava debilitado, enfim, meu pai ficou ruim de saúde foi internado e a família inteira se reuniu para se revezar no hospital com meu pai. Minha mãe e meu pai brigavam muito, mas nos momentos de doença minha mãe dava total apoio ao meu pai.
Meu pai possuía um bar onde vendia bebidas, cigarros e alimentos, quando ele ficou doente minha mãe e minhas sobrinhas se revezavam para cuidar do bar.
Enfim meu pai faleceu, todos ficaram desesperados no velório. Houve muita tristeza, pois meu pai era o pilar da casa, o ponto de apoio da família.
Após enterro veio a dúvida: como ficaria minha mãe? Vivendo apenas com meu irmão Antônio que bebe e não ajuda em nada. Esqueci-me de citar o fato de que quando meu pai era vivo, administrava uma pensão onde ficavam aqueles homens que trabalham em fazenda e o patrão deixava eles na cidade e quando precisava vinha e os buscam. Após o seu falecimento, como ficaria minha mãe cuidando do bar e da pensão?
Conversamos com ela para que ela fosse morar com minha irmã mais nova que mora perto dela, e a qual se ofereceu a cuidar de minha mãe, porém a resposta foi negativa. Minha mãe disse: Eu não morri, estou viva e ciente do que faço, não saio da minha casa.
Tudo bem, passado algum tempo minha mãe continuou tocando o bar e a pensão, porém tinha a ajuda da minha irmã mais nova que morava próximo a ela. Minhas outras irmãs moram na mesma cidade e perto dela. Porém só a visitava no domingo. Meu irmão Manuel sumiu e só ficava questionando que queria o que era dele, estava de olho nos imóveis do meu pai. Quando era possível ia na casa da minha mãe, pois não morava na mesma cidade que ela.
Certo dia, recebi um telefonema informando que minha mãe havia sido assaltada no bar. Meu irmão Aparecido estava no bar e ela dentro de casa. Chegou um homem e pediu cerveja. Ele foi pegar o ao abaixar a tampa do freezer o homem deu uma coronhada no meu irmão que desmaiou. Chegou outro homem e surpreendeu minha mãe que estava chegando no bar. Entraram com ela para dentro de casa, prenderam minha sobrinha pequena que ficava com ela. Minha sobrinha, a mãe dessa pequena, não estava na hora, trancaram a pequena no quarto e levaram minha mãe para o quarto dela e pediram para que ela desse todo dinheiro pra eles, pois minha mãe guardava dinheiro em casa. E ela possuía muita jóias de ouro pelo corpo. Roubaram tudo até as jóias do meu pai que ela guardava de lembrança. Só deixaram a aliança
dela. Foram embora e minha mãe ligou pra minha irmã mais nova que não estava ali na hora logo após acionaram a policia, porém não foi recuperada nenhuma das jóias dela.
Após este ocorrido fui até a cidade da minha mãe e reunimos os irmãos, menos o Manuel, pois este sumiu no mundo e graças a Deus não temos mais notícias dele. Reunimo- nos e conversamos sobre a possibilidade de alguém cuidar de minha mãe e fechar o bar e a pensão, pois pensamos que foi alguém que estava sempre ali com ela que sabia que ela guardava dinheiro em casa. E sabia exatamente que ela guardava o dinheiro no guarda roupa dela, bem como o horário em que ela estaria sozinha.
Minha mãe não aceitou a idéia, porém concluímos que isto era a única saída, pois não resido na mesma cidade que eles, minha mãe não queria sair da cidade, minhas irmãs mais velhas moram em lugares diferentes: uma mora na fazenda e cuida de duas netas e não dispõe de tempo, a outra é técnica em enfermagem, porém não para em casa. A outra não tem condições de cuidar, nem dela nem dos filhos dela, que pagam o aluguel e cuidam dela, pois ela possui problemas de saúde. A mais nova não quis aceitar a idéia de cuidar da mãe pois não dispõe de paciência. Após uma depressão forte ela ficou com certa dificuldade em realizar algumas atividades, resumindo ninguém tinha tempo e condições para cuidar da minha mãe.
Ela não aceitou a idéia de ir para um asilo, mas nós falamos a ela que não teria outra saída. Ela resistiu, mas não teve jeito e a levamos, e após muito relutar, nós mesmos a internamos.
Até hoje ela não aceita a idéia de estar internada e vive pedindo para ir embora. Quando vou à cidade, visito-a no asilo, porém não tenho mais motivos para ir a cidade, pois sempre que vou me sinto muito mal. Se tivesse condições e morasse mais perto dela traria ela pra morar comigo.
Minha mãe possui diabetes, mas é totalmente independente na questão de saúde e cuidados pessoais. Ela não sabe ler, mas sabe fazer contas.
É católica e freqüenta todos os domingos a igreja. No asilo ela não frequenta igreja, pois eles não gostam de sair com os idosos, para não correrem o risco de que o idoso suma ou tenha algum problema de saúde no meio da rua.
Possuo casa própria, tenho duas filhas e uma esposa, trabalho de segunda a sábado Não possuo empregada.
Sinto-me muito mal em deixar minha mãe no asilo, porém não vi outra solução a não ser colocá-la no asilo. Não queria, mas a decisão foi tomada em família.
6.2.2. – Análise mítica do protocolo AT-9 complementado com a fala do senhor Lalá. Seu Lalá é um senhor com 58 anos, com curso superior completo, casado, pertencente a uma família composta pelos pais e por 7 irmãos, sendo 4 mulheres e três homens.
Segundo seu Lalá os pais brigavam muito e seus dois irmãos que bebiam muito, moravam com eles, em uns quartinhos do lado de fora da casa dos pais. Depois de uma briga, um dos irmãos agrediu seu pai e derrubou a mãe, saiu da casa, ficando apenas um dos irmãos morando com os pais. O pai veio a morrer logo depois e a pergunta era: “como ficaria minha mãe cuidando do bar e da pensão que tinham na sua cidade?”. No entanto, a sua mãe foi levada ao asilo de idosos depois da morte do marido.
Os filhos sugeriram que ela morasse com a filha mais nova que mora perto dela e que se ofereceu para cuidar da mãe, porém ela não aceitou: “eu não morri, estou viva e ciente do que faço, não saio da minha casa” A irmã mais nova e as outras que moram na mesma cidade davam assistência a ela e eu ia à casa da minha mãe quando possível, pois não moro na mesma cidade que ela. Houve um assalto na casa da mãe. A família se reuniu e sugeriu fechar o bar e a pensão e cuidar da mãe, mas a mãe não aceitou. “Não resido na mesma cidade, minhas irmãs não têm tempo nem paciência, pois cuidam de netos, moram na fazenda e têm problemas de saúde.
“Até hoje ela não aceita a idéia de estar internada e vive pedindo para ir embora, quando vou à cidade a visito no asilo, porém não tenho mais motivos para ir a cidade dela, pois sempre que vou me sinto muito mal, se tivesse condições e morasse mais perto dela traria ela pra morar comigo. (...) sinto-me muito mal em deixar minha mãe no asilo, porém não vi outra solução (...) não queria, mas a decisão foi tomada em conjunto familiar”.
Quanto aos registros nesse protocolo do teste AT-9, seu Lalá desenha, na parte pictórica do referido teste, o elemento personagem, em quem se projeta (“eu”), uma pessoa sorrindo, de pé, que poderia indicar um imaginário com estrutura heróica. Ao elemento personagem, ele atribui a função “central” e o simboliza como “pessoa humana”. Ele considera o elemento personagem, junto com o elemento animal, o “pássaro”, ao qual ele imputa a função de “voar” simbolizando “progresso e vida”, os elementos essenciais da história imaginada.
No entanto, o elemento espada - que junto com os elementos monstro e personagem do teste, que comumente indicam a presença da esquizomorfia -, foi lembrada por seu Lalá, e está desenhada com a ponta para baixo, o que diminui a possível presença do heroísmo, que está caindo dentro d’água. Ela não está nas mãos do personagem e é dita, na história do
desenho, na parte semântica do teste, que “está escondida dentro d’água, em queda e que quando a água baixar irá aparecer”. Seu Lalá atribuiu a função de “esconder” e o simbolismo da “submissão” ao elemento espada.
O elemento monstro, colocado no teste por seu criador Yves Durand, para deixar acontecer o medo da morte e fazer acontecer o imaginário, aparece desenhado em tamanho grande, mas está dito no discurso do teste que ele se aquece na fogueira sem atacar. Portanto, tanto a espada como o monstro desenhados e referidos no teste, não cumprem o papel de suscitar medo (apesar do monstro simbolizado como tal no quadro do teste) e fazer surgir a luta, o heroísmo. Seu Lalá não luta para ter a mãe fora do asilo. Apenas diz sofrer com a situação. Convém lembrar que são 7 filhos e que nenhum pode ficar a cuidar da mãe idosa.
A luta não acontece, mas é imaginada para vencer com o progresso na vida. Seu Lalá diz, pensando na ciclicidade e progresso da vida, que: “se tivesse condições e morasse mais perto dela traria ela pra morar comigo. (...) sinto-me muito mal em deixar minha mãe no asilo, porém não vi outra solução (...) não queria, mas a decisão foi tomada em família”. Ele não assume a decisão tomada como dele e precisa se esconder no conjunto da família (esconder a espada da luta na água, mas que aparecerá quando a água baixar, quer dizer que não luta agora, mas tem esperança de poder lutar no futuro, quando a água abaixar).
Na resposta por ele dada à questão do teste sobre os elementos afirma que eliminaria do teste, “o monstro e a espada. Desnecessários e medonhos”. Ele indica a função do elemento monstro como “intimidar”, simbolizando “medo” e ao elemento espada a função de “matar”. Seu Lalá precisa matar as dificuldades para ter as condições que almeja para poder ter a mão consigo, fora do asilo.
O elemento “refúgio” aparece destacado com a imagem de uma casa com janelas e chaminé soltando fumaça, localizada sob uma frondosa árvore que parece lhe oferecer misticamente sombra, descaso e aconchego. O personagem (eu) está postado no desenho entre a casa/refúgio e o coração/ vida, coisa cíclica. Ele percebe o movimento da vida, o aconchego da casa e a necessidade de lutar, mas acaba, deixando as decisões para o “conjunto familiar”. Ele não pode ou não quer tomar uma atitude própria sozinho. A responsabilidade e a culpa se contrapõe no seu psiquismo e se complementam no seu imaginário sintético disseminatório, tracejado pela não estrutura .
O que destoa nesse protocolo é que os elementos desenhados estão, cada um, nomeados por escrito, fato que pode indicar desestrutura no imaginário. O elemento cíclico está com a representação imagética de um coração, a “vida - coisa cíclica, que gira, que progride”, o que seu Lalá diz no discurso do teste que “minha vida e o personagem central da
coisa cíclica sou eu”. Na primeira questão do teste, sobre que idéia centrou sua composição? Seu Lalá responde: “na minha vida”. Ele representa o elemento cíclico como “vida”, com função de “progredir”, simbolizando, misticamente “coração”.
Aos elementos considerados por Yves Durand, complementares no teste, Seu Lalá atribuiu, à água a função de matar a sede e esconder (ele diz que a espada está escondida n’água), na “represa”. Há uma água represada, contida e não corrente que assim como serve para saciar a sede, serve como local de esconderijo da possibilidade da luta que poderá acontecer quando a represa se esvaziar.
Ao elemento animal, representado pela imagem do pássaro (no desenho voando sobre o cenário imaginado), expressou a função de “voar” simbolizando “progresso e vida” (“A casa progride junto com minha vida...”, ele diz). Ao mesmo tempo que pensamos na ciclicidade representada pela “vida”, com função de progredir simbolizada pelo “coração”, vemos o aconchego e descanso da casa (refúgio). A cena acaba, segundo seu Lalá “com a coisa cíclica” – a vida. Sim a vida que quer descanso (místico) e progresso (heróico).
O elemento fogo está representado com a imagem da “fogueira” que ao mesmo tempo, segundo seu Lalá, “queima e aquece”. O negativo e o positivo se intercalam, mas aparece simbolizando o aquecimento místico. Tudo leva a crer que estamos diante de um imaginário com estrutura Sintético, Disseminatório, Dramático.
6.3 – Protocolo nº 3 – protocolo AT-9 Dona Gigi.