CAPITULO VI – APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS PROTOCOLOS AT-9,
6.1. Protocolo nº 1 – Protocolo AT-9, do Senhor Zezé
Sexo: Masculino. Idade: 59 anos. Estado civil: casado.
Cidade/ Estado/ País onde nasceu: Lobito/ Portugal. Grau de instrução: Terceiro grau incompleto.
Explique o seu desenho:
Responda de modo preciso as seguintes questões:
1. Sobre que idéia você centrou a sua composição? Lar. 2. Você foi exemplarmente inspirado? Sim.
3. Entre os nove elementos do teste de sua composição identifique:
a. Os elementos essenciais em torno dos quais você constituiu o desenho: Família.
b. Os elementos que você teria vontade de eliminar. Por quê? Espada. Monstro não significam nada só infelicidade.
c. Como acaba a cena que você imaginou? Concórdia.
d. E se você tivesse que participar da cena composta onde estaria? O que faria? No lar. Porque é a felicidade.
4. No quadro seguinte você deve especificar:
a. Por meio de que você representou os nove elementos do teste (coluna A). b. O papel, a função, a razão de ser de cada uma de suas representações. (coluna
B).
c. O que simboliza para você, cada um dos nove elementos do teste. (coluna C). Elemento A. Representado por: B. Função/papel C. Simbolizando
Queda Vida É cheia de altos e
baixos
Realidade
Espada Não existe Nada Destruição
Refúgio Lar Casa Família
Monstro devorante
As nuvens O tempo Fome
Cíclico O sol A terra gira em torno Vida
Personagem Família União Tudo
Água Rio Vida Sede de
desenvolvimento
Animal Pássaro Trabalho Liberdade
6.1.1. – Registros pinçados da fala.
Nota-se na fala do senhor Zezé a presença da afirmação de luta, quando relata ter participado de uma guerra, porém ele foge quando a situação “piorou” como ele mesmo relata fugindo e não lutando contra a situação vivida. Outro momento em que relata fuga é no fato que relata ter tido problemas de relacionamento em seu serviço onde visando resolver o problema saiu do emprego não lutando e sim desistindo.
Senhor Zezé conta que a vontade de construir uma família feliz era grande, esta realização se deu quando veio para o Brasil, conheceu sua esposa e juntos formaram uma família, está foi a responsável pelo reencontro com sua mãe e irmão, os quais havia “abandonados” em Portugal. Sabendo das péssimas condições de vida os quais vinham sofrendo, senhor Zezé resolve trazer seus familiares para perto de si, no entanto, se depara com um irmão com doença psiquiátrica e uma mãe em processo de envelhecimento e com super zelo ao único filho que consigo vivia. Zelo este, o qual senhor Zezé relata como possessão.
O irmão de senhor Zezé, aqui chamado de João, possui esquizofrenia, onde senhor Zezé relata que após análise e acompanhamento médico concluiu-se que seu irmão veio a desenvolver a doença após, senhor Zezé, ter se afastado da família, sendo talvez este o principal fator para o desenvolvimento da doença em seu irmão. O sentimento de culpa está bem presente no relato do senhor Zezé.
No relato que senhor declara que conforme orientações médicas seu irmão não iria se desenvolver e melhorar da patologia instalada, caso continuasse sob a possessão de sua mãe. O médico informa que o melhor seria separá-los, ou seja, colocar sua mãe em um asilo. Aqui aparece a desculpa ou justificativa para a retirada da mãe idosa, do convívio familiar.
Senhor Zezé afirma que não possui condições financeiras para manter uma cuidadora dentro de casa; uma pessoa paga para cuidar de sua mãe e seu irmão. Suas condições financeiras não são boas, segundo ele, e a pensão que sua mãe recebe não daria para manter uma cuidadora ou mantê-la em outra casa separada dos familiares.
Outro ponto a ser discutido é o fato de que Dona Ana mãe do senhor Zezé, sofre de hipertensão arterial, uma doença crônica, porém ela mesma consegue se automedicar. Com o passar do tempo começou a ter episódios de dificuldade na deambulação e esquecimento, mais um fator contribuinte para a necessidade de um cuidador em casa, ou a sua retirada para uma instituição de longa permanência para idosos, como aconteceu.
O que chama a atenção é o fato de Senhor Zezé em vários episódios apenas relatar e fazer referências negativas a sua mãe e tratar seu irmão como sendo um mísero ser humano que possui uma doença por causa de sua partida e por pressão de sua mãe. Senhor Zezé apenas concorda em gestos positivos com a cabeça, que tem vontade de retirá-la do asilo, porém não verbaliza sua vontade com tanta ênfase como quando diz “ela não teve opção”.
Na fala de senhor Zezé fica clara sua prioridade, sua mãe foi jogada em um asilo no intuito de favorecer o tratamento de seu irmão e não obter maiores gastos com um cuidador em casa, não levando em consideração as vontades e anseios de sua mãe. Conforme relata senhor Zezé, ela apenas concordou, e mesmo hoje, longe de seus filhos não se recorda quem a colocou lá, apenas lembra-se do outro filho, o que sempre esteve ao seu lado e que sente falta e preocupação em deixá-lo longe de seus cuidados.
Senhor Zezé relembra de um fato curioso em sua jornada, refere-se ao dia em que disse à sua mãe: “mãe eu nunca vou te colocar num asilo” e o momento em que diz: “eu não queria isso”. Mesmo com essa promessa à sua mãe e com o desejo de não asilá-la, ele não lutou para manter a promessa, não lutou para achar outra solução ou meio para que satisfizesse seu desejo de manter uma família feliz, apenas aceitou.
6.1.2. – Análise mítica do protocolo AT-9 complementado com a fala do senhor Zezé. Ao observar o desenho do senhor Zezé, no protocolo do teste AT-9, de imediato percebe-se a existência de algo - um rio ou uma queda d’água, dita no quadro do protocolo do teste “realidade cheia de altos e baixos”, que separa uma paisagem com uma casa nuvem, pássaros, sol, árvore, e cinco pessoas (rascunhadas). Do outro lado da folha do teste aparece uma fogueira. Não fica claro no desenho quem é o personagem da história se é um personagem ou se são as cinco pessoas rascunhadas/representadas.
No entanto, isto fica explicitado no quadro do teste quando o elemento personagem é representado (desenhado) pela imagem da família, com função de união simbolizando tudo. O que também condiz com a sintética narrativa intitulada pelo sujeito “um lar bem estruturado”. Assim como a resposta a primeira pergunta das questões apresentadas no teste: sobre a idéia em que a composição se centrou a que ele responde “lar”. Ainda nas respostas das questões ele responde que os elementos essências da dramatização pictórica e semântica dele é ter Lar,
família. Senhor Zezé quer eliminar e eliminou da dramatização imaginada os elementos:
destruição; o elemento monstro representado pelas nuvens, com função de tempo,
simbolizando fome (o que pode ser um indício de possível desestrutura). Na análise funcional encontrou-se que Senhor Zezé apresenta um imaginário positivo com seis simbolismos de vida e três de morte: 6/3.
Convém considerar que senhor Zezé responde que a cena acaba com concórdia e que se ele tivesse que participar da cena ele estaria no lar porque é a felicidade. Senhor Zezé deixa ver um imaginário com estrutura mística: ele não quer saber da espada e do monstro (elementos que identificariam o heroísmo) e coloca como elementos essenciais a família, registrada no quadro do teste como o personagem o qual ele se projeta e admite que a cena termina com concórdia e ele estaria dentro do lar sem lutar.
A luta, não aparece no protocolo do teste, portanto o heroísmo não se verifica no teste. No entanto, no desenho ele registra um sol (representando o elemento cíclico, com função de movimento, a terra gira em torno e simbolizando vida). O sol segundo Gilbert Durand significa luminosidade luz, tudo o que o regime diurno das imagens exige. Aparecem ainda no desenho os pássaros voando o que também remete a uma tênue presença esquizomorfa com o vôo ascensional dos pássaros. No quadro do teste o elemento animal é representado pelo
pássaro com função de trabalho simbolizando liberdade.
A parte que remete a destruição não se refere ao elemento monstro devorante, mas ao elemento fogo queimadas com função de destruição simbolizando meio ambiente.
O elemento espada não está representado no desenho, mas está simbolizada como
destruição.
Pode-se dizer que pelo protocolo do teste realizado com o senhor Zezé, ele registra nele um micro universo mítico mística impura. A impureza deve-se ao senhor Zezé ter imaginado pássaros voando e um sol brilhando, imagens do regime diurno, da esquizomorfia.
6.2. – Protocolo nº 2 – Protocolo AT-9 do senhor Lalá.