A tecnologia tem sido protagonista nessa transição em que se busca maior grau de cer- teza e confiabilidade da prova. Na forense computacional, podem ser fontes de prova os computadores e suas mídias de armazenamento, uma vez que esses dispositivos estão sendo cada vez mais empregados em várias áreas diferentes e, por meio deles, negócios podem ser realizados ou documentados. Com isso, registros informáticos e cópias impres- sas desses registros podem ser usados como meio de prova. Segundo Taruffo (TARUFFO;
MICHELI, 2014), quando o computador é usado apenas para redigir um documento que
será impresso e assinado pelas partes, não se vislumbram problemas, uma vez que pode ser apresentado como qualquer outra prova documental. Contudo, na atualidade os da- dos e arquivos informáticos estão sendo empregados como o único suporte em muitas transações.
O terma “prova eletrônica” é também empregado de forma similar ao “prova infor- mática”. Para (LESSA, 2010) prova eletrônica é aquela cujo local de armazenamento seja eletrônico e cujo elemento armazenado consista em uma sequência de números binários que, reconhecidos pelo computador, representam uma informação.
4.3.1 A prova informática no commom law
Nos EUA e Inglaterra o Common law3 é a base do sistema jurídico.
Nos EUA, para se verificar a confiabilidade da prova informática, exige-se a prova de que todo o maquinário que produziu o documento eletrônico funcionou correta e apropri- adamente.
Na Inglaterra, havia uma definição ampla do termo “documento” o qual incluía os ar- quivos informáticos, havia uma seção que se ocupava especificamente da admissibilidade de documentos produzidos por computador e exigia o cumprimento de várias condições específicas. Posteriormente, documentos informáticos passaram a ser tratados como outro tipo de documento, presumindo-se a sua autenticidade, salvo prova em contrário (TA-
RUFFO; MICHELI, 2014).
Assim, pode-se dizer que ambos os sistemas estabeleceram a admissibilidade das provas informáticas.
4.3.2 A prova informática no civil law
Países como EUA e Inglaterra que adotam um sistema jurídico que se baseia, em grande parte, em decisões de casos anteriores, eles diferem de países que adotam um sistema
jurídico em que há uma preocupação em escrever leis para que os julgadores baseiem nelas as suas decisões. A visão dominante em sistemas de civil law4 é de que são possíveis
analogias entre provas informáticas e provas documentais, reconhecendo que documentos podem ser criados também por novas tecnologias (TARUFFO; MICHELI, 2014).
Na França, após a lei 2000-230 promulgada em 2000, adotou-se o princípio da plena equivalência entre as provas informáticas e as provas escritas sempre que o autor da de- claração possa ser identificado facilmente e que o documento eletrônico tenha sido criado e conservado adequadamente. Na Itália, segue-se também a equivalência, mas há dispo- sições detalhadas de técnicas a serem adotadas para a criação de documentos eletrônicos
(TARUFFO; MICHELI, 2014).
Portanto, tanto na França quanto na Itália há uma regulamentação a ser seguida, e desde que a assinatura eletrônica 5 seja formulada conforme métodos técnicos e jurídicos
específicos, é equivalente à forma manuscrita. 4.3.3 A prova informática no Brasil
Não só o trâmite judicial está adotando ferramentas tecnológicas oriundas da informática, mas também as decisões dos tribunais demonstram a aceitação de arquivos eletrônicos como provas. O Supremo Tribunal Federal, por exemplo, já entendeu como válida a uti- lização de arquivo eletrônico (SILVA, 2011).
Além de julgados dos Tribunais Superiores, a Medida Provisória 2.200/2001, que ins- tituiu a Infra-Estrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil, trata o arquivo ele- trônico como documento e garantiu-lhe a presunção de veracidade, se ele for assinado digitalmente6 com certificado digital emitido pela ICP-Brasil ou outro certificado aceito
pelas partes (BRASIL, 2001).
Muitos órgãos governamentais, além do já mencionado judiciário, utilizam-se de siste- mas de tramitação eletrônica de documentos, em que as assinaturas dos documentos são realizadas por meio de assinatura digital. Destaca-se o Sistema Eletrônico de Informações (SEI) (BRASIL, 2019) que vem sendo adotado no Governo Federal em vários ministérios, os documentos gerados e assinados inteiramente dentro da plataforma SEI gozam de fé pública e sua tramitação pode ocorrer inteiramente através de sistemas informáticos, sem que seja necessária qualquer impressão em papel ou assinatura física.
4 Civil law - sistema jurídico, baseado no direito romano, por meio do qual o direito é escrito e organizado em códigos.
5 Assinatura eletrônica - é o gênero referente a todos os métodos utilizados para assinar um documento eletrônico, assinatura digital é uma das espécies de assinatura eletrônica.
6 Assinatura digital - é um método de autenticação de informação digital que utiliza sistemas de cripto- grafia de chave pública e é capaz de substituir à assinatura física, uma vez que elimina a necessidade de ter uma versão física do documento que necessita ser assinado.
4.3.4 Controvérsias da Prova Informática no Brasil
Para Demócrito Reinaldo Filho, há alguns problemas em relação à prova eletrônica, tais como o fato de que a informação em formato eletrônico é dinâmica, de sorte que o mero ato de ligar ou desligar um computador pode alterar a informação que ele armazena. Isso porque “os computadores quando em funcionamento reescrevem e deletam informação, quase sempre sem o conhecimento específico do operador” e “a informação armazenada eletronicamente, ao contrário de textos escritos em papel, pode se tornar incompreensível quando separada do sistema que a criou” (FILHO, 2006). Renato Blum afirma que é uma questão de extrema relevância a validade dos documentos eletrônicos, visto que por meio de recursos técnicos é possível alterar documentos digitais sem deixar vestígios (BLUM, 2012). Breno Lessa em seu artigo intitulado “A inviabilidade das provas digitais
no processo judiciário” (LESSA, 2010) afirma: “a integridade do documento eletrônico
só poderia ser confirmada se fosse possível assegurar que o documento não foi atacado, não foi alterado ou adulterado, mas isso é praticamente impossível, principalmente nos computadores pessoais”.
Desse modo, a aceitação da prova eletrônica, como já visto, é perfeitamente possível, mas uma série de procedimentos devem ser tomados para que a prova não seja descartada por suspeita de sua adulteração, por exemplo. A força probante de um documento digital será maior quanto maior for definida sua autoria, sua autenticidade e sua integridade.