Outra constância na trajetória da Sra., além da magistratura, foi a docência, principal- mente na PUC-SP. Como essas atividades se comunicam e complementam?
Penso que é o casamento perfeito. Veja, o prefixo de “magistério” e “magistratura” têm a mesma origem. São coisas que se completam imensamente. O magistério fecunda o exercício da atividade jurisdicional e vice-versa. É muito importante poder lecionar e estar em contato direto com os alunos, que estão sempre nos provocando e nos trazendo novas questões. O magistério ajuda muito a exercitar a mente e isso é fundamental para jurisdição. A atividade juris- dicional é uma atividade de extrema responsabi- lidade. Decidir sobre liberdade, propriedade, profissão, saúde e educação faz com que você esteja decidindo direitos fundamentais o tempo todo. E acho isso de uma responsabilidade imen- sa. A magistratura é muito mais ônus do que prerrogativa. Eu vejo o lado pesado da magistra- tura: você tem que se dedicar muito e se você levar a função a sério – e é isso o que se espera – você tem um volume de trabalho muito gran- de e muita responsabilidade. Se você errar, não tem como voltar atrás. As decisões do STJ, por exemplo – que é a última instância em controle de lei infraconstitucional – têm de ser acertadas, pois os nossos erros são perenes (não há recursos). Acredito que exista uma mútua interação entre magistério e magistratura, em que um ajuda muitíssimo o outro. Dá muito trabalho e é mui- to sacrificado, mas, sem dúvida, é uma felicidade poder exercer as duas atividades.
Quais são os maiores desafios enfrentados hoje pelo STJ?
A missão constitucional mais importante do STJ, em matéria recursal, é fazer a uniformização da interpretação da legislação federal, que é uma tarefa gigantesca em um país como o Brasil. Possuímos uma legislação federal imensa. A fun- ção precípua do STJ é interpretar a legislação federal e fixar e uniformizar a interpretação para todas as esferas jurisdicionais. Mas o STJ não
consegue ainda hoje exercer a sua missão prin- cipal. Nós recebemos muitos casos individuais, recebemos muitos recursos que tratam de assun- tos limitados àquele recurso e àquelas partes. Acredito que isso é uma distorção da missão do STJ. Um tribunal de uniformização de jurispru- dência não deveria julgar um caso que se aplica apenas àquelas partes, mas sim casos que trans- cendam. Quando o Supremo Tribunal Federal julga um tema, estabelece uma tese que fica vinculante depois, aplicando-se a todas as situa- ções do mesmo tipo. É a ideia do instituto da “repercussão geral”, criado em 2007, no sentido de que o STF apenas julga casos que repercutem para um número de outros casos. O STJ não conta com isso. Inclusive, existe uma proposta de Emenda Constitucional [EC n.º 209/2012] para estabelecer no STJ um mecanismo semelhante ao da “repercussão geral”. O nome proposto é “relevância de questão federal”. Isso é fundamen- tal para nós, porque se nós pudéssemos deter nossa competência recursal a isto, ou seja, inves- tir a maior parte da nossa atividade para julgar recursos especiais repetitivos, seria o melhor dos mundos. Teríamos condição de dizer que o STJ cumpre com a sua função constitucional. Hoje, infelizmente, em função do grande volume de
recursos que ainda chegam ao STJ, essa missão, que é a mais importante, acaba sendo reduzida. Esse é um ponto que eu acho que precisa se aperfeiçoar. É fundamental que essa proposta de Emenda Constitucional seja votada. Imagino que conseguiríamos julgar menos quantidade, mas julgar com mais qualidade e julgar recursos que, uma vez decididos, resolverão problemas de milhares de pessoas.
A Sra. acredita que a competência origi- nária do STJ interfere com a missão cons- titucional do tribunal ou faz parte dela?
A competência originária tem que existir. O problema é otimizar a competência recursal, de modo a fazer com que ela flua bem. Como já disse na resposta anterior, hoje, nós estamos jul- gando milhares de recursos que, muitas vezes, são discussões pontuais, discussões que só existem em talvez dois ou três casos a mais ou em nenhum outro. O que nós precisamos, a meu ver, é rever-
ter o nosso tempo e a nossa energia para julgar recursos que resolvam o problema de milhares de pessoas, já que estamos falando de um tribu- nal superior. É a distinção que se faz entre ins- tâncias ordinárias e instâncias extraordinárias.
Temos uma excelente estrutura de trabalho – excelente em todos os sentidos, recursos ma- teriais, humanos; mas o volume é tão brutal que a eficácia desses recursos acaba diluída. Se tivés- semos um terço desse volume, por exemplo, conseguiríamos fazer um trabalho excelente. Por que o trabalho não é excelente? Porque não é possível, o volume não permite. Os recursos, que são muito bons, acabam sendo dragados ou diluídos no meio desse monte de trabalho – muitas vezes, trabalho que poderia ser facilmen- te resolvido em segundo grau. Esse é o ponto. Agora, competência recursal e originária tem que existir. O fato é que nossa principal com- petência recursal está sendo minimizada ou não está funcionando bem.
Apesar de avanços nos últimos anos, o Poder Judiciário, e particularmente os tribunais superiores, são ainda ambientes predominantemente masculinos. A Sra. poderia compartilhar conosco como a questão de gênero impactou e impacta a sua trajetória pessoal?
Muitos já me perguntaram isso. Eu acho que esse cenário se deve a uma multiplicidade de causas. Acredito que a primeira causa seja o fato de as próprias mulheres não se arriscarem a buscar posições tão altas. Explico: cada vez mais, as faculdades de direito tem mais alunas mulhe- res do que alunos homens. Como leciono há muitos anos, posso afirmar que houve uma mudança e que atualmente as classes têm mais meninas. Na universidade, você vê uma prepon- derância feminina, mas no mercado de trabalho essa realidade não se repete. No mercado de trabalho do setor público – setor que conheço melhor – existe um contingente feminino des- proporcional àquele que se vê na faculdade de direito. A magistratura é, dentre todas as carreiras públicas, a que tem menos presença feminina. Eu acho que isso também se deve ao fato de as próprias mulheres acharem a magistratura ex- tremamente exigente, absorvente e difícil. Eu já tive muitas alunas que falaram: “Professora, adora- ria ser magistrada, mas vou ser procuradora do muni- cípio para trabalhar menos e conseguir compatibilizar o trabalho com minha vida familiar, meu marido e meus filhos”. É uma escolha perfeitamente com- preensível. A mulher normalmente quer cons- tituir família e ter filhos e, às vezes, parece que a magistratura acaba sendo um tabu.
A par disso, acho que há mais dificuldade para as mulheres serem promovidas. Em uma socie- dade como a nossa, em que culturalmente se tem a ideia do marido/homem provedor, é muito mais comum ver um homem buscando postos melhores e promoções, já que a ambição é algo diretamente associado ao masculino. Isso complica muito a vida das mulheres. Na posição em que eu cheguei, há um complicador adicio- nal: as mulheres representam apenas 19% dos
membros dos tribunais superiores. No STF, de 11 ministros, apenas 2 são mulheres. No STJ, de 33 ministros, apenas 6 são mulheres – e já adian- to que não há perspectiva de aumentar esse número tão cedo. Em tribunais superiores, nós estamos submetidas a um contexto político, e não apenas jurídico. No STF, por exemplo, a escolha é totalmente política.
Então, acredito que são vários os fatores que levam a esse cenário de desigualdade. Primeiro, me parece que as próprias mulheres têm uma inibição de tentar um cargo de maior exigência e maior absorção de tempo. Depois, culturalmen- te, a busca por um maior posicionamento pro- fissional não é algo intimamente ligado ao femi- nino. E, por fim, em tribunais superiores, há também uma questão política de indicação – e os homens estão muito mais acostumados a transitar nesse meio do que as mulheres, basta ver a representação feminina no Congresso Nacional. É a mesma coisa, no Judiciário isso se repete.
Atualmente no Brasil, muitos têm defendi- do a necessidade de uma reforma tributária. Existe uma percepção de que a carga tri- butária no Brasil é muito elevada e que o sistema em si é excessivamente complexo. Como a Sra. enxerga essas percepções?
Temos sido muito instados a falar sobre a re- forma tributária ultimamente, mas eu não estou otimista com essa reforma. Acho que ela não vai atacar os principais pontos que precisariam mu- dar. Vou fazer rapidamente uma síntese do que é meu pensamento. Acho que o momento atual é a pior oportunidade possível para fazer uma reforma tributária estrutural. Em razão da co- vid-19, uma série de medidas foram autorizadas e adotadas, inclusive medidas fiscais, porque a situação é absolutamente excepcional. O mundo nunca viveu o que estamos vivendo. A reforma tributária vem sendo discutida há décadas e, até hoje, nunca conseguimos fazer uma reforma estrutural – o máximo que conseguimos, em 2003, foi alterar alguns pontos do sistema tribu- tário nacional pela EC n.º 42/20003. A ideia,