A mensagem psicografada, conforme visto, se classifica como prova documental, consistindo em um escrito através do qual se reproduz graficamente o pensamento de alguém, de modo a provar um fato ou a existência de um ato juridicamente relevante.
A psicografia constitui documento em sentido estrito. Isso porque, diferentemente do instrumento, é documento elaborado sem a pretensão de servir como meio de prova, e, por isso, não precisa preencher as solenidades estabelecidas em lei, vindo a ser eventualmente utilizado para provar os fatos nele relatados.
3.4.1 Procedimento probatório do documento psicografado
3.4.1.1 Proposição, admissão e produção da psicografia
Por ser prova documental, a mensagem psicografada pode ser oferecida em qualquer fase do processo criminal. É o que dispõem os artigos 23180 e 40081 do Código de Processo Penal. Há, porém, algumas normas que devem ser observadas quanto a sua propositura. Dessa forma, a carta psicografada, caso seja um daqueles documentos essenciais à propositura da própria ação, deve ser oferecida juntamente com a denúncia ou queixa- crime. Ademais, em se tratando de delito sujeito à competência do Tribunal do Júri, a psicografia, bem como qualquer outro documento não poderão ser juntados aos autos na fase de alegações finais, nos termos do artigo 406, §2º, do Código de Processo Penal. E, ainda no que se refere procedimento do júri, não se admite a leitura ou produção, no plenário, de um documento psicografado que não tiver sido comunicado ao adversário com antecedência de, pelo menos, três dias do julgamento, nos termos do artigo 475 do Código de Processo Penal.
Requerida a produção da prova psicografada, caberá ao juiz avaliar se a prova foi proposta em momento adequado e se o fato a ser provado é daqueles que imprescinde de prova. Em seguida, o magistrado deve verificar se a prova em questão preenche os requisitos de admissibilidade, pertinência, concludência e possibilidade. Vale lembrar que, conforme analisado acima, esses três últimos requisitos dependem do fato que se deseja provar através da psicografia, enquanto a admissibilidade é elemento inerente à própria natureza da prova psicografada. Presentes todos esses elementos, o magistrado estará obrigado a admitir o ingresso da prova documental em questão, qual seja, a psicografia, sob pena de ferir o direito subjetivo à prova.
Por fim, a parte adversa será intimada para que, no prazo legal, conteste ou não a
80 Art. 231. Salvo os casos expressos em lei, as partes poderão apresentar documentos em qualquer fase do
processo.
veracidade do conteúdo do documento ou a autenticidade da assinatura.
O autor do documento é toda pessoa que deu origem ao documento, seja ele o realizador (ou autor material), seja o autor do fato documentado (a quem se atribui a autoria do fato narrado).
A mensagem psicografada trata-se de documento particular, vez que não está entre aqueles documentos formados e lavrados por oficial público que esteja no exercício de suas funções e a exerça dentro do limite de suas atribuições. Pelo contrário, a carta psicografada é elaborada por um particular.
Desse modo, diferentemente dos documentos públicos, a psicografia não é documento autêntico, ou seja, por não haver a participação de agentes públicos aos quais se atribui fé pública, não há certeza de que o autor do documento é realmente aquele que nele é indicado nem que o que nele se relata é verdade. Caso contestada, a autenticidade do documento privado e, por conseguinte, da psicografia pode ser provada por todos os meios admitidos em direito. Comprovada a autenticidade do documento privado, ele recebe a denominação de documento autenticado.
Ressalte-se que, em se tratando de documento particular assinado, de regra, desde que não haja dúvidas quanto à sua autenticidade, as declarações dispositivas e enunciativas diretas presumem-se verdadeiras em relação às partes. Não seria diferente com as declarações contidas nas cartas psicografadas.
A parte contrária à proponente, entretanto, poderá alegar, no prazo legal, a existência de vícios no documento psicografado. Tais vícios podem ser referentes às formalidades externas impostas aos documentos (extrínsecos) ou relacionados à substância do ato ou fato nele relatado (intrínsecos).
A falsidade pode se apresentar como vício de vontade ou de instrumento. Assim, a parte que alegar vício de vontade em relação à mensagem psicografada deve provar que as palavras daqueles a quem se atribui a autoria foram resultado de dolo, coação, fraude etc. Caso a parte adversa alegue vício de instrumento, deve provar a falsidade material, ou seja, que o documento falso foi criado ou que se trata de documento existente que fora adulterado ou modificado. Não cabe aqui aduzir a falsidade ideológica de uma psicografia, vez que, em
se tratando de documento privado, a introdução de afirmativas falsas configura, na verdade, vício de vontade.
O Código de Processo Penal prevê, a partir do artigo 145, o incidente de falsidade, através do qual se pode aduzir a falsidade instrumental de um documento. Nos documentos privados, como a carta psicografada, o único vício instrumental que pode ser alegado é o de falsidade material. Os vícios de vontades devem ser provados por outros meios admitidos em direito.
Como se pôde perceber, o ônus da prova de falsidade incumbe a quem alega. Porém, caso seja contestada a assinatura da mensagem psicografada, caberá à parte que produziu o documento a prova de sua autenticidade. É nesse contexto que surge a necessidade de um exame pericial da grafia daquele a quem se atribui a autoria do documento psicografado, merecendo esse assunto especial destaque. Desse modo, a grafoscopia é importante instrumento que irá auxiliar na utilização da psicografia como meio de prova.
A grafoscopia é um conjunto de normas, princípios técnicos e procedimentos que orientam os exames de autenticidade e de autoria gráfica, possibilitando uma análise concludente dos resultados. O exame de autenticidade gráfica é aquele em que se busca a certeza de que a psicografia provém do autor nela indicado. Trata-se de uma averiguação da assinatura nela contida. Já o exame de autoria gráfica objetiva definir o autor material do documento psicografado, o seu realizador.
Assim, para descobrir se a assinatura da mensagem psicografada é efetivamente da pessoa a quem é atribuída ou se o realizador do documento psicografado é uma certa pessoa, é preciso realizar um levantamento de dados da grafia da pessoa a quem se atribui a assinatura ou a autoria do texto e comparar com os elementos gráficos existentes no documento psicografado. In casu, conforme se extrai do artigo 17482 do Código de Processo
82 Art. 174. No exame para reconhecimento de escritos, para reconhecimento de escritos, por comparação de
letra, observar-se-á o seguinte:
I – a pessoa a quem se atribua ou se possa atribuir o escrito será intimada para o ato, se for encontrada; II – para a comparação, poderão servir quaisquer documentos que a dita pessoa reconhecer ou já tiverem
sido judicialmente reconhecidos como de seu punho, ou sobre cuja autenticidade não houver dúvida; III – a autoridade, quando necessário, requisitará, para o exame, os documentos que existirem em arquivos
ou estabelecimentos públicos, ou nestes realizará a diligência, se daí não puderem ser retirados;
IV – quando não houver escritos para a comparação ou forem insuficientes os exibidos, a autoridade mandará que a pessoa escreva o que lhe for ditado. Se estiver ausente a pessoa, mas em lugar certo, esta
Civil, o material gráfico padrão pode ser colhido em quaisquer documentos que a família do
de cujus reconhecer, ou que já tenham sido judicialmente reconhecidos como de seu punho,
ou sobre cuja autenticidade não houver dúvida. Quando necessário, a autoridade requisitará os documentos que existirem em arquivos ou estabelecimentos públicos, ou nestes realizará a diligência, se daí não puderem ser retirados.
Ressalte-se, mais uma vez, que, em se tratando de exames de autenticidade gráfica, não haverá dificuldades para se chegar a uma conclusão segura, exceto quando houver insuficiência de padrões para levantamento das constantes e variáveis gráficas ou mesmo insuficiência de substância gráfica (assinaturas diminutas). A verificação da assinatura não consiste em averiguar se duas assinaturas são perfeitamente iguais. Pelo contrário, quando existem duas assinaturas iguais em todos os seus pormenores, uma delas será falsa, vez que não há entre duas assinaturas verdadeiras igualdade absoluta.
No exame de autoria gráfica, será necessária, para uma conclusão categórica, uma quantidade maior de substâncias gráficas a serem trabalhadas. O perito, como já salientado outrora, terá que encontrar na psicografia característicos suficientemente reveladores, em quantidade e em qualidade, da identidade, excluindo qualquer possibilidade de erro.
3.4.1.2 Valoração da prova psicografada
Após os três primeiros momentos do procedimento probatório, quais sejam, a proposição, a admissão e a produção da prova, chega-se ao momento final da valoração da prova psicografada.
O sistema de valoração da prova adotado no Brasil é o do Livre Convencimento Motivado. Há, porém, uma exceção a esse sistema, pois, em relação aos jurados que compõem o Júri Popular, aplica-se o sistema da Íntima Convicção, no qual o julgador tem total e irrestrita liberdade para avaliar a prova, podendo decidir de acordo com a sua vivência ou opinião pessoal. Não há, portanto, necessidade de motivação das decisões do Tribunal de Júri.
última diligência poderá ser feita por precatória, em que se consignarão as palavras que a pessoa será intimada a escrever.
Diferentemente, no sistema da Persuasão Racional ou do Livre Convencimento Motivado, o juiz se encontra livre para formar seu convencimento acerca da veracidade dos fatos alegados, desde que fundamente suas decisões nas provas legalmente produzidas no processo. É nessa oportunidade que o magistrado avaliará o conjunto probatório e decidirá de acordo com a sua convicção.
A prova psicografada, após a sua propositura, admissão e produção, será valorada pelo magistrado, podendo influenciar a sua decisão em maior ou menor grau, de acordo com o juízo de valor que o órgão julgador faça de seu conteúdo. Isso porque, como qualquer outro documento, a psicografia pode relatar fatos não verídicos, como também é possível que relate fatos que venham a contribuir decisivamente para o deslinde da causa. Desse modo, o magistrado deverá analisar com razoabilidade o conteúdo da mensagem psicografada, devendo levar em conta que a psicografia é apenas um dos elementos do conjunto probatório e, por isso mesmo, não pode ser analisada isoladamente.
Por fim, veja-se a análise de Antônio Edving Caccuri:
[...] Dentre os milhares e milhões de litígios civis e criminais que a justiça é chamada a solucionar, pode-se conceber a ocorrência de casos em que uma mensagem psicografada tenha condições de servir como meio de prova, ou seja, de esclarecer algum aspecto decisivo ou de relevo para a sua solução. A prova é um dos temas fundamentais do Direito Processual (tanto civil como penal). E o processo é o instrumento por meio do qual o Estado, através do Poder Judiciário, resolve os conflitos de interesse que assumem a forma de litígios civis e penais.
4. Vale a pena lembrar que, no sistema penal em vigor no Brasil, nenhum tipo de prova (confissão, testemunha, documento, perícia) tem valor absoluto. Em outras palavras, o julgador tem liberdade para, em maior ou menor grau, valorar a prova, ou seja, para, em cada processo, atribuir a cada prova e ao seu conjunto o valor que pareça ao órgão julgador mais jurídico, mais certo, mais razoável, mais justo.
5. Em suma, existe a possibilidade de a mensagem psicografada servir, em algum processo, como meio de prova, assim se relacionando o tema, portanto, com o Direito.83