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STEIN, Susana A Por uma educação libertadora Petrópolis, RJ: Vozes, 1982.

COMUNITÁRIA

2. PSICOLOGIA COMUNITÁRIA CEARENSE

A psicologia comunitária cearense surge na década de 1980 com a proposta de ser uma psicologia diferenciada, pensando questões relacionadas ao contexto latino-americano. Uma psicologia pautada por um compromisso social com as camadas populares, visando à transformação social, à conquista de condições mais dignas e justas para essa classe social tão oprimida.

Essa transformação tem como ator o sujeito que se constrói em uma relação intrínseca à realidade concreta, transformando esta e a si mesmo no ato de agir no e com o mundo (LEONTIEV, 1978). Dessa forma, compreende-se o indivíduo como ativo na sua história, pleno de potencial transformador. Essa relação do homem com o espaço em que vive torna-se objeto da psicologia mediante reflexo psíquico do modo de vida comunitário:

Podemos dizer que a Psicologia Comunitária estuda o modo de vida da comunidade e do município e de como este se reflete e muda na mente de seus moradores para, de novo, surgir transformado, singularizado em suas atividades concretas no dia-a-dia do lugar (GOIS, 2005, p.51-52).

É fundamental clarificarmos por que a comunidade surge como

locus primordial de teorização e de atuação da psicologia comunitária.

Rios (1987, p. 59) definiu o termo como: “Um grupo humano vivendo em uma área geográfica, contígua, caracterizado por uma trama de relações e contatos íntimos, possuindo a mesma tradição e os mesmos

interesses, mais a consciência da participação em idéias e valores comuns.”

Para Góis (2005), a comunidade corresponde a um lugar de convivência direta e duradoura, em que o sujeito se constrói à medida que interage e estabelece vínculos afetivos com os demais sujeitos e compartilha problemáticas, desafios e um mesmo sistema de representações.

Para a psicologia comunitária, a comunidade é marcada pela pluridimensionalidade, resultando da síntese de aspectos físicos, históricos, culturais e sociopsicológicos. Portanto, configura-se tendo em vista sua territorialidade – não necessariamente bem demarcada, sobretudo em espaços urbanos – e seu sistema de atividades, que contribuem para sua organização concreta. Tal sistema implica um sistema simbólico composto, por exemplo, por valores construídos, compartilhados, tencionados e transformados no decurso dessa historicidade. Góis (2005, p. 89) define esse sistema de atividade comunitária da seguinte forma:

Podemos dizer que a atividade comunitária é a atividade prática e coletiva realizada por meio da cooperação e do diálogo em uma comunidade, sendo orientada por ela mesma e pelo significado (sentido coletivo) e sentido (significado pessoal) que a própria atividade e a vida comunitária têm para os moradores da comunidade.

A atividade comunitária se constitui por uma dimensão instrumental e por outra comunicativa. A primeira refere-se à interação do indivíduo com instrumentos, interferindo na realidade presente. Podemos considerar, por exemplo, a elaboração de um projeto, organização de um encontro, ocupação de um terreno ou construção de casas em mutirão. A segunda relaciona-se à interação com outros indivíduos no seu meio social. Essa dimensão comunicativa é observada nas interações, conversas, trocas de experiências e diálogos que ocorrem nesses espaços.

Sob tal perspectiva, a comunidade se apresenta não só como um espaço territorial, mas também como um lugar que possui uma subjetividade que se construiu e se constrói mediante interlocução com outros contextos e interação cotidiana entre os atores sociais que a integram.

Há, portanto, uma dinamicidade intersubjetiva que, apesar de permeável a influxos macrossociais e intercomunitários, possui especificidades no que diz respeito, por exemplo, a uma trajetória de formação específica e a uma complexa linha de desenvolvimento cultural (VIGOTSKY, 2001). Tal linha, a partir da teoria histórico- cultural, engloba seu sistema semiótico, suas formas prementes de sobrevivência, de organização para o trabalho e de simbolização do espaço, seus padrões de conduta, seus modos e espaços de participação social e de encontro interpessoal, mediações e redes de apoio sociopsicológicas que ali são produzidas e legitimadas.

Por meio desse raciocínio, o sentimento de pertença, a vinculação a um território, bem como a ligação a processos históricos semelhantes e a códigos culturais compartilhados são aspectos que constituem decisiva influência nos processos de formação subjetiva do morador de uma comunidade, seja ela urbana, seja ela rural (GÓIS, 2005). Esses processos são eminentemente relacionais, na medida em que suas vias de produção radicam-se, simultânea e integralmente, na vivência e nas atividades semióticas. Em Leontiev (1978 apud GOIS, 2005, p. 98), observamos que “[...] a consciência individual do homem só pode existir nas condições que existe a consciência social [...]”. Assim, a consciência humana é composta por uma consciência individual e por uma consciência social, numa relação contínua, dinâmica e mutável.

A partir da necessidade de compreensão desse processo de transformação sujeito-comunidade, a psicologia comunitária utiliza o método dialógico-vivencial (GÓIS, 2008) para conhecer e aprofundar a leitura dessa realidade concreta da comunidade. Como o nome indica, esse método tem como premissas básicas a vivência da comunidade e o diálogo com seus atores, seus grupos e suas instituições. Entende-se por diálogo (FREIRE, 1988) um encontro amoroso em que indivíduos partilham saberes, conhecimentos, formas de compreender e sentir a realidade, respeitando um ao outro, suas formas de expressão autênticas. Vivenciar o modo de vida comunitário significa compartilhar junto a pessoas da comunidade sentimentos, sentidos, significados que surgem a partir do seu dia-a-dia naquele lugar. Nesse momento vivencial, o psicólogo comunitário, mesmo enquanto agente externo que assume um papel diferenciado e reconhecido pelos moradores, se presentifica, ao abrir-se para vivenciar e compartilhar dramas, lutas, alegrias e conquistas.

Assim, essa atuação permite que o profissional em psicologia não apenas conheça esse lugar por meio de uma mediação pelo diálogo e pela vivência, mas também se transforme nesse trabalho, instaurando seu compromisso e dos moradores para a transformação e o desenvolvimento daquele lugar.

A Psicologia Comunitária deve se preocupar com as condições do modo de vida do lugar (internas e externas) que impedem aos moradores se tornarem sujeitos de sua comunidade, e as que os fazem sujeitos dela, ao mesmo tempo em que, no ato de compreender e compartilhar a vida comunitária com os seus moradores, trabalhar com eles a partir dessas mesmas condições, na perspectiva da autonomia e libertação, deles e do próprio psicólogo (GÓIS, 2005, p. 52).

Podemos ver a importância desse método quando observamos a obra de Freire (1988). Esse autor trata do ciclo ação-reflexão-ação, um movimento pelo qual o sujeito age sobre o contexto no qual se insere, mas também pensa sobre esse agir, reflete sobre ele, no intuito de compreender e elaborar sua atuação para, em seguida, agir novamente. Esse distanciamento do meio concreto, por alguns momentos, contribui para que o sujeito não se encontre apenas no ativismo, dentro de sua comunidade, agindo sem refletir sobre as implicações e sobre o sentido do trabalho que realiza.

Torna-se pertinente ressaltar que a atuação do psicólogo, ou do estudante de psicologia, pauta-se no trabalho com grupos e na ação coletiva. Ainda nesse sentido, não se define como um ato de estender um conhecimento aos que “não possuem nenhum tipo de saber” ou possuem “saberes ilegítimos”, mas sim como um processo cooperativo que envolve diferentes sujeitos e saberes. Essa prática em psicologia é também pedagógica, pois busca trabalhar a partir do que existe, do que todos os sujeitos já possuem de conhecimento, para dar saltos cada vez maiores nessa aprendizagem contínua do viver. Busca-se, assim, sempre respeitar as formas de saber, tanto do saber psicológico, como do das outras pessoas que participam das intervenções, pois todos têm a construir, em uma forma participativa e justa de construção coletiva.

Com o respaldo do paradigma da gênese sociohistórico-cultural das funções psicológicas exclusivas aos seres humanos (VYGOTSKY, 2001) e, conseqüentemente, da pertinência da atividade colaborativa na

construção de processos de aprendizagem e de desenvolvimento, podem-se supor repercussões positivas na constituição sociopsicológica do morador, a partir da interação entre as pessoas que formam a trama comunitária e do fomento à criação de espaços de integração entre grupos que atuam em tal contexto. Além disso, essas interações criam condições para outros processos, como a ampliação de possibilidades de leitura da realidade por meio do aprofundamento da consciência (FREIRE, 1980) e o fortalecimento do valor pessoal e do poder pessoal (GÓIS, 2003) dos partícipes.

O sujeito comunitário não aprofunda a consciência apenas se adequando, aceitando a realidade como lhe é dada, mas conhecendo-a, questionando-a, transformando-a. Nesse sentido, a psicologia comunitária tem um papel importantíssimo ao problematizar como o sujeito percebe seu modo de vida, como o modifica e que recursos ele e a comunidade possuem para alcançar essa transformação.

A partir de um paradigma de cooperação, a atuação da psicologia comunitária fundamenta-se na dialogicidade com aqueles que compõem a dinâmica comunitária. Por isso, preconiza-se e privilegia-se o encontro entre homens e mulheres para, por meio da práxis (ação-vivência- diálogo), fazerem-se humanos e sujeitos pronunciantes do mundo, modificando-o a fim de potencializar interações cada vez mais complexas e emancipatórias, e que primem pela valorização das singularidades e pelo desenvolvimento com eqüidade do corpo social.

Dessa forma, a atuação da psicologia comunitária na comunidade implica o reconhecimento das pessoas envolvidas – acadêmicos e moradores – como sujeitos cognoscentes, pronunciantes da realidade que os mediatiza e, portanto, produtores de um conhecimento e de uma ação sobre ela (FREIRE, 1988). Pressupõe, além disso, uma ação compartilhada e construída coletivamente pelos sujeitos.

Assim, a psicologia comunitária acredita que o sujeito pode se apropriar de sua realidade de forma concreta, simbólica e afetiva, tendo a capacidade de transformá-la. Para facilitar essa apropriação, o psicólogo comunitário lança mão de metodologias participativas (GÓIS, 2005; THIOLLENT, 2005; MONTERO, 2006) como a observação-participante, a pesquisa-participante, a ação-participante e o planejamento estratégico participativo. Há um vasto acervo de instrumentos e técnicas, dentre os quais é importante destacar o círculo de cultura (FREIRE, 1980), o círculo de encontro, o mapeamento

psicossocial, as rodas de diálogo, os grupos de produção, os fóruns, as caminhadas pela comunidade, os encontros de quarteirão, os diálogos a dois, os exercícios de biodança, as diversas modalidades de oficinas, como a de arte-identidade, e a dramatização (GÓIS, 2003). Todos eles objetivam a elaboração conjunta de propostas de desenvolvimento humano, comunitário e social, e convergem para o fomento da participação efetiva dos moradores da comunidade, concebendo-os como co-produtores do conhecimento e co-promotores de transformações da realidade em que estão inseridos.