O conceito de adolescência não advém do campo da Psicanálise. A palavra adolescência vem do latim adolescentia, que significa crescer, e pressupõe um processo, uma fase, uma evolução. É entendido, no senso comum, como um período que vai do início da puberdade até a idade adulta, fase demarcada por mudanças psicológicas e no corpo. Carac- teriza-se esse período como de uma crise a crise da adolescência. Vejamos o que isso quer dizer.
Fala-se muito em crise, quando o assunto é a adolescência. O que isso significa? A palavra crise vem do grego krisis e tem sua utilização bastante influenciada pela concepção da medicina clássica, estando seu significado ligado à idéia de juízo, julgamento, escolha, ou seja, é o momento onde a enfermidade, em seu estado agudo, define as duas direções a seguir, o caminho da cura ou da morte. Tomemos, então, o aspecto de crise, como estado agudo, ou estado crítico que o indivíduo atravessa em sua vida quando chega à puberdade.
Alguns autores chegam a falar que a crise da adolescência é enten- dida também como a crise dos pais, quando a explosão pulsional do adolescente corresponde à revivência de forças pulsionais reprimidas nos pais, e que isso pressupõe, para eles, um trabalho de luto. A crise é tanto dos pais como do adolescente. Nessa fase, o adulto é questio- nado pelo jovem e pode, com um pouco de sorte, sair transformado dessa crise, tal é a experiência vivida por pais e filhos no período da adolescência, como se saíssem de uma análise, diz-nos a psicanalista Maud Mannoni em 1984, na abertura de uma jornada na França, cujo tema era exatamente a crise da adolescência.
Winnicott (1971), importante psicanalista inglês, frente à constatação da crise, defende a idéia que essa seja um momento com
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duração de um certo tempo, e o tempo é o remédio natural. Não se deve combatê-la, nem tentar curá-la, nem abreviá-la; trata-se de acompanhá-la e, se souberem, explorá-la para que o sujeito obtenha dessa fase o melhor partido possível.
Charles Melman (1999), psicanalista francês contemporâneo, de- fende a idéia de uma crise psíquica nessa fase, ao apontar que esse é um momento em que o sujeito não encontra o lugar de seu gozo. O adolescente estaria, assim, numa fase intermediária, frente ao adul- to, que já teria seu lugar conquistado em relação ao seu gozo.
Sendo ou não uma verdadeira crise, o importante é que o tema da adolescência não foi muito trabalhado no âmbito da psicanálise. Não há, pelo menos em volume de trabalhos produzidos nessa área, um grande interesse dos teóricos sobre a questão da adolescência. Encon- tramos muitos trabalhos cujo tema é a sexualidade infantil, os pri- meiros anos de vida. Puberdade e adolescência ficaram sendo como uma continuação ou repetição dessa etapa. Ultimamente, tem surgi- do um interesse maior sobre o tema, e alguns teóricos se dedicam a estudá-lo.
Freud já destacava essa fase, e trabalhou com a puberdade, apon- tando ser esse um período privilegiado. Falava não só da questão pulsional, como da mudança com relação ao objeto de amor, mos- trando, assim, que, nesse período, as fantasias da primeira infância são reativadas, e é um momento especial na vida do sujeito. Temos algumas questões a colocar, que antecedem a toda abordagem teórica que se queira dar ao tema. Sabemos que o sujeito, para a psicanálise, é um, não importa se criança, adolescente ou adulto. O que haveria, então, de especificidade nessa fase?
A adolescência é tomada como objeto de estudo nas áreas da an- tropologia e sociologia, com mais freqüência que na Psicanálise pro- priamente dita. Se tomarmos a questão pelo viés cronológico, encon- traremos imprecisões diversas, tais como textos que situam a adoles- cência a partir do 10 anos. Outros falam de púberes, de pré-adoles-
4 5 centes, de adolescentes. Podemos também perguntar: um jovem de
19-20 anos é adolescente? Costumamos ouvir referência aos adultos da seguinte forma: ainda é um adolescente! Não importando se te- nha 20, 30 ou 40 anos.
Hoje em dia, os meninos e meninas de 10, 11 e 12 anos se intitulam de pré-adolescentes, encurtando, sem sombras de dúvidas, o período da infância e aumentando a fase da adolescência. Já vimos que, só pelo aspecto da cronologia, a questão da adolescência já suscita mui- tas dúvidas. Atualmente, em função da crise econômica e do desem- prego em nosso país, esse período está sendo mais prolongado ainda, frente às dificuldades que os jovens encontram de conseguir sua auto- nomia financeira e a independência da família parental.
Por outro lado, a história aponta-nos como constantes os concei- tos de infância e de vida adulta nas sociedades, não importando a ideologia que permeava a compreensão dessas duas etapas etárias da vida humana. Nos povos ditos primitivos, os ritos de passagem, ou rituais de iniciação, representavam uma passagem simbólica que de- marcava uma fase que o jovem atravessava e, com isso, conquistava um lugar no mundo dos adultos. Normalmente, eram provas doloro- sas, em que entravam em jogo aspectos de destreza física e de enfrentamento de perigos.
As etapas de iniciação normalmente envolviam o isolamento do jovem, o jejum, a flagelação, a transmissão de alguns segredos da tribo, a aprendizagem de narrativas ou de traços religiosos dos nati- vos. Em alguns povos, havia inclusive os rituais de circuncisão, para os meninos, e a clitoridectomia, nas meninas. O jovem sempre devia suportar essas provas sem reclamar, numa demonstração de autocontrole. É importante ressaltar, aqui, que o costume de isolar o jovem tinha também como finalidade a separação dos familiares, notadamente da mãe, o que representa uma saída desse vínculo.
Ao enfrentar as etapas guiado por adultos, o jovem púbere assegu- rava a sua entrada numa nova fase e um lugar de pertinência. Alguns
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desses antigos costumes ainda podem ser encontrados em algumas tribos, inclusive no Brasil, como é o caso, por exemplo, da tribo tenetehara da Amazônia, que ainda mantém o costume de isolar os jovens nesse período da vida familiar e tribal.
Isso foi se perdendo, e hoje os nossos jovens têm apenas as insti- tuições e os modelos escolares, cujas provas privilegiam apenas os aspectos intelectuais e de aprendizagem, não ficando claro, para eles, a conquista de um novo patamar. Em nosso meio, temos apenas o acesso à universidade, que se realiza através da prova seletiva do ves- tibular. A experiência de prática de esportes não está vinculada a algo que privilegie o acesso a algum patamar especial, pois apenas o aspec- to competitivo é destacado. A obrigatoriedade do alistamento militar, para o jovem, em nossa sociedade, não mantém o aspecto simbólico de acesso a um lugar a partir de uma conquista. Podemos ainda pen- sar nas festas sociais de 15 anos e nos trotes, quando da entrada na universidade, como resquícios desses antigos costumes.
Ritos de iniciação ainda podem ser observados em alguns rituais religiosos que mantêm iniciação para os seus membros, embora res- trita à própria comunidade, como é, por exemplo, o caso do candom- blé, que mantém algumas cerimônias iniciáticas, cuja importância maior consiste em poder receber uma entidade, com uma mudança de identidade, o que implica alcançar um lugar especial, com nome pró- prio, com poderes e deveres específicos dos filhos dos santos.
O conceito de adolescência é relativamente recente. Nasceu no oci- dente e é visto de diferentes maneiras a partir da evolução e da cultura da sociedade a que o jovem pertença. A adolescência, que não é sinô- nimo de juventude, é um fenômeno determinado pela puberdade e entendido a partir das condições específicas da cultura em particular, fora das quais ela não ocorreria.
Nem sempre se concebeu a adolescência como hoje é percebida em nossa sociedade, pois as etapas de vida do homem foram vistas de diversas formas. Dentre várias concepções que nos são apresentadas
4 7 pelos historiadores, escolhemos a de Ariès (1975), no tratado Le grand
propriétaire de toutes choses, de seu livro A história social da criança e da família.
1. INFÂNCIA Compreende o período do nascimento até os sete anos, quando se plantam os dentes. A criança não pode ainda falar bem.
2. PUERITIA Estende-se dos sete aos catorze anos, quando a criança ainda é como a menina dos olhos. Etapa que era con- fundida com a adolescência.
3. ADOLESCÊNCIA Nessa fase, a pessoa já é grande o bastan- te para procriar e cresce, recebendo força e vigor da natureza. Inclui o período dos 14 aos 28 anos, mas pode prolongar-se até os 30 ou 35 anos.
4. JUVENTUDE É a plenitude da vida e pode se estender até os 50 anos. A pessoa já tem força para ajudar-se ou ajudar aos outros.
5. SENECTUDE Meio caminho entre a juventude e a velhice, caracteriza-se pela gravidade nos costumes e nas maneiras. A partir dos 50 anos.
6. VELHICE Vai até os 70 anos ou até a morte. Última etapa da vida humana.
Essas fases da vida não correspondem apenas a etapas biológicas, pois, além de dar ênfase à questão cronológica, referem-se, principal- mente, a funções sociais. Observamos que juventude não significa a força da idade, nem idade média, e não havia lugar para a adolescên- cia, tal como a concebemos hoje. Até o século XVIII, adolescência foi confundida com a infância. Importavam os aspectos de dependência que a idade representava.
Freud não usa muito o termo adolescência em sua obra. Em contrapartida, utiliza em seus textos o termo puberdade, quando quer
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referir-se a essa etapa do desenvolvimento, marcada, principalmente, pelas mudanças que o biológico impõe ao corpo. A importância que dá a essa fase é revelada pelas teorizações apresentadas no texto de 1905, intitulado Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, onde escreve sobre as transformações da puberdade. Vejamos como ele trabalha, nessa época, esta questão
A chegada da puberdade opera mudanças, para dar à vida sexual infantil a sua forma final, ou seja, a etapa genital. Freud aponta, aí, as formas de investimento libidinal em novos objetos eróticos. Nessa fase, há uma metamorfose no corpo real, ou seja, o púbere habita um corpo que lhe é estranho, num continuo processo de mudança, mar- cando um desintrincamento imaginário da relação com sua auto-ima- gem e com esse novo corpo, marcado por surgimento de pêlos, desen- volvimento de músculos, mudança de voz, aparecimento de curvas, sangue, seios, espinhas e esperma.
Freud considera esse um novo momento privilegiado do despertar da pulsão, pelo real biológico, pela premência da sexualidade e pela produção hormonal do jovem. Vai destacar dois pontos importantes na sexualidade do jovem nessa fase. O primeiro é o novo objetivo se- xual, capaz de unificar todas as pulsões parciais, que ficariam subor- dinadas ao primado da zona genital e ligadas aos órgãos sexuais, in- timamente relacionados à reprodução da espécie. O segundo fator importante, que destaca na vida sexual dos jovens, é o caminho rela- tivo à convergência de duas correntes libidinais dirigidas aos objetos, a corrente afetiva (amorosa) e a corrente sensual (erótica), ambas dirigidas para o mesmo objeto e com o mesmo objetivo sexual: a busca do mais alto grau de prazer ligado ao ato sexual, ao orgasmo, enfim, à função reprodutora da espécie.
Caracteriza Freud a puberdade como uma etapa de profundas mo- dificações na vida sexual do jovem, quando importantes operações estão presentes. Ao distinguir o pré-prazer, ligado às pulsões parciais, próprias da sexualidade infantil, do prazer final, satisfação derivada e
4 9 própria da relação sexual, ele demarca uma fronteira entre as formas
de experiência de prazer da infância, e novas formas de prazer, só possíveis a partir do surgimento das mudanças corporais que a puber- dade imprime ao corpo.
São novos, portanto, os objetos e novas as formas de prazer que se abrem ao sujeito, a partir das transformações puberais e da entrada na adolescência. Freud não pensa em etapas estanques, no desenvol- vimento da sexualidade, nem entre a vida infantil e a fase genital. Ele destaca que, muito cedo, durante a própria infância, as zonas genitais já são capazes de promover estimulações e sensações eróticas para a criança, podendo ser passíveis de fixações que poderão influir na vida sexual futura da pessoa. No texto citado, Freud escolhe a palavra lust, em alemão, que quer dizer, desejo, prazer, vontade, no sentido de sen- sações corporais, como destacamos no início deste estudo.
Freud destaca, porém, que apenas nessa fase, a puberdade, é que irá ser estabelecida a distinção nítida entre os caracteres masculinos e femi- ninos dos indivíduos, ou seja, a própria posição sexual se definiria como resultante dos traços identificatórios e através das escolhas dos objetos sexuais. Para ele, antes da puberdade, as atividades auto-eróticas, das zonas erógenas masturbatórias, seriam indistintas entre os dois sexos.
Lembramos, aqui, a noção da bissexualidade, tão cara a Freud, e sua original concepção a respeito da libido, a energia pulsional. Ele defende a idéia de que uma pulsão é sempre ativa, mesmo que tenha um objetivo passivo. Para ele, os conceitos de masculino e feminino estão diretamente ligados à noção de atividade e passividade, sendo assim uma noção muito original relativa à sexualidade. Isso vem à tona na passagem da adolescência, quando se fazem presentes novas escolhas de objetos amorosos. Vejamos como ele destaca isso:
Todo indivíduo, ao contrário, revela uma mistura de traços de cará- ter pertencentes a seu próprio sexo e ao sexo oposto, e mostra uma combinação de atividade e passividade, concordem ou não estes últimos traços de caráter com seus traços biológicos.1
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A puberdade irá abrir caminhos distintos entre os jovens. Para a menina, cuja excitação sexual se verifica com freqüência por espasmos clitorianos, ele vai mostrar o que será necessário para que uma moci- nha se transforme em mulher. Se, para os rapazes, a puberdade provoca uma elevação da estimulação libidinal, para as moças haveria uma nova onda de recalque de sua sexualidade, principalmente clitoriana.
Freud levanta aí a hipótese de que esse recalque se dê ligado aos aspectos de atividade na jovem, que ele chama de posição masculina da libido. É o que ele destaca como recalque puberal específico para a menina. Já para os meninos, ele coloca, de forma bastante distinta, o que seria um aumento de sua atividade, já apontando para as distin- ções em relação à sexualidade para cada sexo, nesse momento organizador, que é a puberdade.
O importante, nesse caso, é que Freud fala de um tempo necessário para que se dê a passagem da sexualidade púbere para a sexualidade genital, na mulher. A idéia da supervalorização sexual só emerge, com toda força, em relação à mulher, se ela se contém e nega sua sexuali- dade. Ele fala de um tempo em que a mulher pode ficar anestésica, tratando das dificuldades na passagem da zona erógena clitoriana para a vaginal propriamente dita, destino final da sua sexualidade. Chamamos a atenção para o fato de ele referir-se a esse recalque puberal só em relação à menina. O que quer dizer com isso?
Freud, nesse caso, está nos apontando algo da ordem da organiza- ção da sexualidade, pois já vimos que o recalque é uma operação que tem como finalidade afastar da consciência uma representação, em função do seu conteúdo sexual. Mas não se trata de qualquer repre- sentação, senão daquelas que estariam ligadas aos desejos incestuo- sos, os objetos interditados pela proibição do tabu do incesto e seus derivados.
Ele poderia estar também refletindo a partir de dados relativos ao momento histórico e cultural de sua vida, quando a sexualidade das jovens era, sem dúvida, muito mais reprimida socialmente do que a
5 1 dos rapazes. A situação, hoje, é bastante distinta, em nosso meio,
pois não há mais a repressão, como em sua época, mas todo um mo- vimento de estimulação à erotização dos jovens, à sexualidade mais livre e sem compromisso, o que é típico da atualidade, como já nos referimos anteriormente.
Temos, portanto, dois pontos a destacar em relação à sexualidade da jovem. O primeiro é a referência que Freud faz a um tempo, nessa organização, a um movimento da mulher que se contém e nega sua sexualidade, que podemos ler como sendo um movimento de postergação da sua vida sexual dita genital, para se colocar como identificada a esse lugar de objeto supervalorizado sexual. Sobre o outro momento, ele fala de algo da ordem do anestésico, em que a sexualidade genital da mulher não se estabeleceria, como uma difi- culdade de passagem da zona erógena clitoriana para a genital. Isso poderia acarretar a experiência de frigidez, que é o que entendemos pela palavra anestesia por ele escolhida.
Há ainda a idéia de uma maior propensão das mulheres à neurose e especialmente à histeria. Pensamos que é importante situar os textos de Freud, escritos numa época em que a mulher sofria de extrema repres- são em relação à sua sexualidade, o que certamente justificava a sua idéia, pela freqüência de casos de histeria feminina que lhe chegavam ao consultório. Hoje, sabemos que a sintomatologia tem se modificado, principalmente em relação às mudanças do comportamento sexual das mulheres. Estamos falando da síndrome do pânico, dos quadros de de- pressão e melancolia e das enfermidades psicossomáticas, tidas como típicas do momento que estamos vivendo.
Na vida dos jovens, a puberdade vai estabelecer a primazia das zonas genitais, e Freud destaca que é no mundo das idéias, portanto das representações, que a escolha dos objetos é realizada na vida dos jovens em amadurecimento. Está, portanto, restrita ao terreno das fantasias. Ele está aí se referindo aos primeiros objetos de amor, cujo investimento libidinal é intenso, como já vimos ao tratar do Édipo. No
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seu texto de 1914, Sobre o narcisismo: uma introdução, que faz parte dos seus trabalhos intitulados de Metapsicologia, Freud vai estabele- cer as formas de escolha e de relação de objetos.
A primeira forma de escolha do jovem, que ele chama de anaclítica ou de ligação, teria o apoio, como modelo, dos primeiros objetos de amor: as pessoas que se ocuparam dele, alimentaram-no, cuidaram dele e o protegeram (a mãe ou substituto). Um outro tipo de escolha de objeto, que ele vai chamar de narcisista, tomaria como modelo seu próprio eu, e procuraria a si mesmo como objeto amoroso. A escolha se daria em função do que ele próprio é, pelo que ele próprio foi, do que ele gostaria de ser, ou de alguém que foi, uma vez parte dele mesmo. Apesar de colocar formas distintas de escolhas objetais, Freud de- fende que ambos os tipos de escolhas estão abertos para cada indiví- duo, mas que pode haver um predomínio no tipo de escolha de objeto para cada um. Cremos, então, que essa nova onda de recalque a que se refere Freud esteja relacionada aos objetos incestuosos, que agora, no período puberal, deverão ser definitivamente abandonados e substituídos.Vejamos:
Quando ao mesmo tempo em que as fantasias claramente incestu- osas são superadas e repudiadas, completa-se uma das mais signifi- cativas e também mais dolorosas realizações do período puberal: o desprendimento da autoridade dos pais.2
Ele destaca, assim, que o investimento libidinal de uma criança nos pais, objetos incestuosos, como já sabemos, e sua passagem pelo Édipo, são marcos muito importantes na sua organização psíquica e irão interferir no momento da puberdade e na entrada da adolescên- cia, porque vão apontar as escolhas de objetos que se estabelecem nessa etapa e as identificações que se organizam aí, as quais determi- nam sua posição frente à própria sexualidade.
É, portanto, na fase em que estão se afastando dos objetos incestuo- sos e experimentando os primeiros envolvimentos amorosos ainda muitos
5 3 marcados por essas escolhas que acontece a experiência da gravidez
não planejada na adolescência, cada vez mais cedo em nosso país.