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Maternidade, desejo e gravidez na adolescência

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Academic year: 2021

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HEONIR ROCHA Vice-Reitor OTHON JAMBEIRO

EDITORA DA UFBA Diretora FLÁVIA M. GARCIA ROSA

Conselho Editorial Antônio Virgílio Bittencourt Bastos

Arivaldo Leão de Amorim Aurino Ribeiro Filho Cid Seixas Fraga Filho Fernando da Rocha Peres Mirella Márcia Longo Vieira Lima

S u p l e n t e s

Cecília Maria Bacelar Sardenberg João Augusto de Lima Rocha Leda Maria Muhana Iannitelli Maria Vidal de Negreiros Camargo Naomar Monteiro de Almeida Filho

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Direção de arte da Capa e projeto gráfico Joenilson Lopes

Editoração eletrônica Joenilson Lopes

Ilustração da Capa - acrílica sobre canson (técnica mista) Zau Pimentel

Revisão final da Autora

Editora da UFBA

Rua Barão de Geremoabo, s/n – Campus de Ondina CEP 40170-290 – Salvador – BA – Tel/Fax: (71) 3263-6164 www.edufba.ufba.br

[email protected]

Biblioteca Central - UFBA N244 Nascimento, Eliane Maria Vasconcelos do.

Maternidade, desejo e gravidez na adolescência / Eliane Maria Vasconcelos do Nascimento. – Salvador : EDUFBA, 2002. 106 p.

ISBN 85-232-0275-7

1. Gravidez na adolescência. 2. Maternidade – Adolescência. 3. Adolescentes. 4. Adolescência. 5. Psicologia do adolescente. 6. Adolescentes (Meninas) – Compor-tamento sexual. 7. Adolescentes (Meninos) – ComporCompor-tamento sexual. I. Título. CDU: 618.2-053.6 CDD: 362.796

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para Eduardo, Daniela, Karina e Eduardinho, pelo prazer

de ter nossas vidas compartilhadas, dedico este trabalho.

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À Profa. Dra. Nilma de Castro Meira, sem o seu empenho e inicia-tiva o meu mestrado não se concretizaria.

À Profa. Dra. Teresa Pinheiro, pelas importantes contribuições sem-pre pontuais.

À Eduardo Nascimento, companheiro de todas as horas, pelas im-portantes intervenções.

Aos demais professores que participaram do curso de mestrado, pelo muito que me ensinaram.

Aos colegas do curso de mestrado, pelo apoio sempre irrestrito. Aos demais colegas, amigos e familiares pelas palavras de estímu-los sempre oportunas.

À Profa. Solange Maria do Nascimento Nogueira, pela forma cari-nhosa e cuidadosa na revisão do texto.

Ao Centro de Referência Isabel Souto - CRADIS, da Secretaria Esta-dual de Saúde - SEM, do Estado da Bahia, onde realizei os atendimen-tos clínicos, pelo apoio e confiança demonstrados em meu trabalho, na pessoa da sua diretora, Dra. Ozana Barreto, e pelo interesse, parti-cipação e dedicação das técnicas: Dra. Neuza Marques Nascimento e Dra. Ruth Rodrigues Gomes, e dos demais integrantes de sua equipe técnica e corpo funcional.

Às adolescentes, pois só através da escuta dos seus discursos, foi possível desenvolver o presente trabalho.

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Gravidez e maternidade na adolescência. A autora fala de um fato universal na vida humana, singular na vida da mulher – a gravi-dez, situando-o em relação ao desejo e aos delicados processos psíqui-cos que formam as bases para a construção da posição materna. Dife-rencia o ser mãe biológica e juridicamente - o laço biológico e de pa-rentesco que une o filho à mãe, e a maternidade como sentimento amoroso e responsável deste elo, apresentando conceitos e hipóteses psicanalíticas que fundamentam esta distinção e o que torna possível e impossível a maternidade, refletindo sobre as particularidades do processo em adolescentes.

Na maternidade, tem-se a qualidade e a condição de ser mãe. Cuidado, acolhimento, um imenso prazer em compartilhar foi a primeira resposta que obtive quando perguntei para uma adolescente (que só pretende ser mãe mais tarde...) quais as palavras que melhor caracte-rizam a maternidade. Muito amor; para ser responsável por um ser hu-mano a mulher precisa de muita força na cabeça e no coração, respondeu-me uma senhora, profissional de salário mínimo, uma dessas heroí-nas anônimas, mãe/pai responsável por duas filhas.

Limitando-me a essas duas rápidas respostas tem-se algumas das qualidades da posição materna, um lugar que é construído pela mulher ao longo do seu percurso existencial, cujos pontos nodais são discutidos, com a terminologia psicanalítica Lacaniana, nesta obra para os iniciados na psicanálise, e que merece uma segunda versão para os usuários dos serviços de orientação à mãe adolescente, popu-lação que motivou a autora a empreender uma reflexão sobre a para-doxal situação do ser mãe e não querer e não poder ser mãe.

Contrapondo com nossa primeira informal entrevistada que situa a maternidade em um momento em seu futuro, quando terá condições de cuidar e acolher um bebê, para as adolescentes objeto da pesquisa o

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profundas. Como planejar a sua vida e ter condições de situar uma gravidez como um sonho futuro, se o seu presente não lhe permite visualizar realizações futuras? Como questiona a autora no final do capítulo sobre maternidade e Édipo, como fica a gravidez para as adoles-centes a partir de 13-14 anos, idade onde a puberdade está se instalando, com todas as modificações que isto implica ao corpo, e como estão elas do ponto de vista de sua subjetividade, frente à maternidade que se aproxima? Em termos psicanalíticos é discutida a posição desiderativa da jovem frente à gestação, narcisismo, passagem pelo Édipo, castração, recalque e vicissitudes de sua resolução, castração, finitude e morte, reatualização de identificações.

Posição desiderativa que se estende dos fatores que facilitam a gravidez, ao momento de ter um filho nos braços e ter medo de segurá-lo, deixando o ato de assumir os riscos do cuidar para a avó, para a mãe da mãe que não consegue saber, afetivamente, que se tornou mãe. Como exemplificado em um outro contexto, aparece a propos-ta formulada por uma adolescente em um seminário sobre direitos sexuais reprodutivos, realizado pelo Centro de Referência Integral de Adolescentes, em Salvador – Bahia: devemos exigir que as avós tenham direito à licença maternidade! Ou, como ressaltado nas considerações sobre os casos que fundamentaram a dissertação, são filhos que nascem para serem senão criados, mas mantidos pelas avós, filhos que podería-mos dizer incestuosos, onde os vínculos entre mãe e filha estão acirrados numa dependência e rivalidade, onde o que importa é este lugar de mãe... Posição relacionada aos conflitivos desejos que no momento de “transar” distanciam o conhecimento dos métodos anticoncepcionais da sua utilização, vivendo a adolescente a prematura vida sexual na presentificação da ação, desvinculando-a das suas conseqüências en-quanto processo de geração de uma nova vida, como no dizer da ado-lescente do caso 1: eu pensei que comigo não aconteceria e aconteceu!

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cia, mecanismo de elaboração das desafiantes ambigüidades vivenciadas neste período de vida, possibilitando ter força na cabeça e no coração no dizer da mãe, nossa entrevistada.

Em relação à reatualização de identificações, destaco a função das imagens identitárias para definir um eu e um ideal com qualida-des suficientes para suportar as perdas e frustrações. Como ressalta a autora, as dificuldades de confrontação entre o eu e seu eu ideal, podem levar a jovem a uma movimentação, a um agir, onde as provas precisam ser experimentadas. E o conceito de ação tem em sua essência a possibili-dade de envolver o outro naquilo que é nosso, visto que mesmo sendo inicialmente individual outros aderem para refutar ou apoiar o em-preendimento. No seu agir, a adolescente sai do seu isolamento e torna-se parte de um grupo que irá, a bom gosto ou a contragosto, compartilhar as conseqüências do seu ato.

Como os conceitos psicanalíticos referem-se ao como a cultura foi internalizada pelo sujeito, fica uma questão sobre como as adoles-centes estudadas se situam frente à vida. Aparece, nas entrelinhas dos casos, a falta de ideais, deixando supor que a gravidez representa uma fuga onipotente que impede que a adolescente exerça o seu papel de ser responsável pela construção da realidade social, adiando a sua inserção na vida adulta responsável, retornando-a, pelo filho à prote-ção materna.

Ao procurar ser mulher, ao procurar responder como e quando vou ser mulher, a gravidez aparece como afirmação dessa posição, presentificando respostas futuras, subtraindo, como em um ato má-gico, o espaço da espera, as respostas futuras sobre o lugar de mulher sendo atualizadas e corporificadas no novo corpo. E aí tem-se o para-doxo: no encontro do corpo de mulher grávida depara-se com todos os desencontros com as possibilidades sociais de afirmação da condição de mulher independente, responsável pelos seus atos e pelo seu agir.

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desejos que impelem à gravidez, seguir os seus tortuosos caminhos procurando penetrar nas suas fantasias, conflitos e ideais é o que nos impulsiona o trabalho da colega Eliane Nascimento.

O livro que tenho o prazer de apresentar ao leitor originou-se de um trabalho meticuloso, cuidadoso, eticamente conduzido e susten-tado pela prática clínica da autora. Uma parcela das informações foi utilizada como diretrizes da sua dissertação no programa de Mestrado Interinstitucional em Teoria Psicanalítica UFRJ/UFBA, sendo o texto da presente obra. Espero que em uma nova publicação sejam incluídos os casos clínicos cujas discussões acompanhei, como coordenadora do programa do mestrado interinstitucional, e todas as profundas refle-xões que a autora optou para deixar para um outro momento, pela vontade de tornar o seu trabalho inicial disponível para os seus alu-nos no presente semestre, quando está sendo iniciado um curso de especialização em Teoria da Clínica Psicanalítica na Universidade Fe-deral da Bahia.

No momento em que vivemos sexo banalizado, erotismo comercializado, como docente, psicanalista, mulher e mãe congratu-lo a colega Eliane Nascimento pecongratu-lo empenho em escutar as adolescen-tes que procuraram apoio institucional do CRADIS para enfrentar o seu momento de gravidez não planejada. Escuta transformadora, pro-piciando à adolescente viver a condição de ser mãe, de sentir-se capaz de acolher, cuidar e participar, com prazer e amor, da vida do seu bebê.

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INTRODUÇÃO PSICANÁLISE E MATERNIDADE Maternidade e desejo Maternidade e Édipo Notas PSICANÁLISE E ADOLESCÊNCIA

Puberdade e adolescência: especificidades Adolescência e narcisismo Adolescência, temporalidade e morte Notas CASOS CLÍNICOS Contexto Caso nº 1 Caso nº 2 CONSIDERAÇÕES FINAIS Notas BIBLIOGRAFIA 15 19 25 31 40 43 43 53 67 74 77 77 80 85 93 97 99

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“Crescei e multiplicai-vos”Livro dos Gênesis 1,22

Não há determinação oriunda da palavra divina, pelo menos para os cristãos, mais imperativa e mais correspondida que a citada em epígrafe, como a máxima da reprodução humana. A população da Terra tem crescido em escala vertiginosa, e, ao alvorecer do Século XXI, são aproximadamente 6 bilhões os habitantes deste planeta. Isso significa que a população cresce a cada ano, numa proporção de 1,41% aproximadamente, segundo os estudos demográficos. O nível já foi mais intenso, uma vez que o surgimento dos métodos contraceptivos médicos (pílula e DIU), na década de 60, fabricados em escala indus-trial, fez com que esse ritmo de nascimento fosse arrefecido, princi-palmente nos países ditos do primeiro mundo Nos países do terceiro mundo, o impacto foi menor, porém bastante significativo, tendo o Brasil apresentado taxa de crescimento populacional de 1.99% em 1999, já em ritmo decrescente.

Destacamos também como significativo o aparecimento do vírus da Síndrome de Imunidade Adquirida, AIDS, que, nas últimas décadas, de 80 e 90, associou a experiência sexual à possibilidade de contamina-ção, doença e morte. O uso do preservativo, condom, ou camisinha, tem sido muito disseminado pelas campanhas publicitárias através da mídia, pelas suas possibilidades de prevenção frente à doença. Nunca um uso de preservativo foi tão maciçamente divulgado.

Após a expansão da ideologia hippie das décadas de 60 e 70 – com a bandeira do “faça amor não faça a guerra”, em que se pregava a experiência do amor livre, com a conseqüente derrubada dos tabus da virgindade e do sexo restritos ao casamento –, nunca a sexualidade esteve tão na mídia como na última década a de 90, com o terrível perigo da AIDS. A sexualidade entra em novos domínios, passa aos

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cuidados da saúde pública: é o prevenir, o sexo seguro. O sexo, esti-mulado na década de 70 como uma bandeira de liberdade, passa a ser amordaçado pelo fantasma da doença. Os jovens, desvencilhando-se de antigos tabus, defendidos ainda hoje pelos ideários de algumas re-ligiões tradicionalistas, experimentaram o sexo mais descomprome-tido, a experiência de ter diversos parceiros e uma sexualidade mais livre. Pura ilusão. A geração das flores não contava com os espinhos que a espreitavam e, menos de duas décadas depois, vê-se acorrentada, envolvida em látex, pelo uso da camisinha e pelo medo da contamina-ção e o risco de morte.

Vivemos hoje uma época de paradoxos, em que a erotização, nos meios de comunicação, tornou-se banal, com o estímulo aos jovens, principalmente aos adolescentes, para uma sexualidade sem compro-misso e fora dos preceitos ditados pela tradição. Os jovens criam no-vas condutas eróticas descomprometidas, as quais, na nossa socieda-de, podem ser exemplificadas pelo “ficar”. Essa é uma nova modalida-de modalida-de relacionamento entre os sexos, em que as trocas modalida-de carinhos e carícias se dão de forma menos comprometida possível, sem envolvimento amoroso romanceado, mas apenas submetidas a uma única regra, que é a da atração momentânea, em encontros rápidos. Podemos afirmar que sua maior característica é o imediatismo, defi-nido por um “aqui começa, aqui termina”.

Portanto esses relacionamentos constituem momentos prazerosos – às vezes, nem tanto – que os jovens se permitem como um escape à formalização de um namoro, de um compromisso ou de um apaixonamento, típicos do relacionamento amoroso no final do sécu-lo XIX e início do sécusécu-lo XX. O “ficar” – vocábusécu-lo que revela a ambi-güidade típica da adolescência, porque, na nossa língua, tem o signi-ficado de algo que permanece, totalmente distinto do sentido que lhe é atribuído pelos jovens – mostra que essas relações podem ser enten-didas como esquiva de envolvimento afetivo quando há realmente a questão da relação sexual, ou ainda uma forma de postergar o início

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1 7 das relações sexuais propriamente ditas, que atualmente têm início

muito cedo entre os adolescentes.

Lembramo-nos do depoimento de uma jovem de 15 anos que, entre dividida e arrependida pela ampla experiência de parceiros que já tivera ou com quem ficara, revelava medo de comprometer sua imagem entre os jovens e de ser taxada de “galinha” – palavra que traz a idéia de promiscui-dade – e dizia que era importante “ficar”, porque se aprende a beijar bem. O “ficar”, como nova modalidade de experiências eróticas entre os sexos, em nosso meio, é típico do momento, é efeito do surgimento do movimento hippie, e da proliferação da pílula anticoncepcional que pos-sibilitaram uma sexualidade mais livre e desvinculada do perigo de uma gravidez indesejada. Essa era um tormento para os jovens das gerações anteriores, tão bem ilustrada por Wedekind (1890), através do seu texto O despertar da primavera, onde trata da questão do despertar da sexuali-dade nos jovens. Sua personagem Wendla, uma adolescente, sucumbe a uma gravidez não desejada, pelas tentativas abortivas fatais.

É também contemporânea e muito polemizada a decisão governa-mental da França de distribuir aos jovens em idade de freqüentar o Liceu – portanto adolescentes – a pílula day after, com propriedades contraceptivas que evitam a gravidez indesejada.

Do “crescei e multiplicai-vos”, máxima bíblica, à erotização e à sexualidade descomprometida dos jovens deste início de século XXI, muitas coisas mudaram. Mas, no presente trabalho, o que nos inte-ressa, em particular, é focalizar a questão da sexualidade e da mater-nidade na adolescência, pois as diversas estatísticas apontam um número crescente de gravidez entre a população jovem em nosso país. No Brasil, a taxa de mães adolescentes aumentou de 9%, em 1970, para 12%, em 1990, conforme o Censo Demográfico do IBGE. Segun-do os daSegun-dos publicaSegun-dos pelos SUS, no ano de 2000, Segun-dos 2,5 milhões de partos realizados nos hospitais públicos, 689 mil foram partos de jovens de menos de 19 anos. Em 2002, em Salvador, 25% dos partos realizados pela rede pública foram de adolescentes.

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Neste trabalho, empreenderemos uma análise das questões relati-vas à maternidade, ao desejo e ao momento subjetivo próprio da jovem que engravida no período da adolescência.

Não tomaremos a questão da experiência do aborto entre as jo-vens. Segundo fontes informais, os índices dessa prática em nosso país são alarmantes, posto que as estatísticas oficiais só dão conta das jovens que chegam a ser internadas na rede hospitalar por compli-cações posteriores ao aborto, não incluindo os casos que não deman-daram a rede de saúde pública.

A gravidez na adolescência é, portanto, um fenômeno que ousa-mos chamar de sintoma social, pois, quatro décadas após o surgimento dos métodos contraceptivos em larga escala e mesmo com o aparecimento do perigo da AIDS, cada vez mais ele está presente no nosso meio.

No final século XX e início do XXI, com o surgimento das formas de comunicação mais sofisticadas, como a maciça circulação da mídia via TV, jornais, revistas, e com a expansão da internet, veículos onde as campanhas de prevenção circulam, é difícil pensar em jovens desinformados em relação aos meios contraceptivos, principalmente no ambiente urbano.

O que leva, então, no momento atual, esses adolescentes, cada vez mais jovens, ao encontro de uma gravidez não planejada? A partir do estudo da reativação da vivência edípica, do abandono dos objetos incestuosos e de toda a operação das novas identificações que isso requer, tomaremos os aspectos narcísicos dessas operações e suas re-lações com a questão da temporalidade e da morte, para entendermos o momento da adolescência e as repercussões advindas de uma gravi-dez não planejada nessa fase. Para isso, tomaremos o referencial teó-rico de S. Freud e J. Lacan como norteadores do presente estudo.

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Se há um tema ainda hoje sagrado, esse é o da maternidade, como muito bem nos atesta toda a cultura judaico-cristã, através das repre-sentações de pinturas e esculturas sacras, onde a imagem da materni-dade está intimamente associada à da Virgem Maria, símbolo maior do amor materno, que atinge a idéia de perfeição em sua possibilidade de entrega, doação, bem aventurança e santidade.

Essa visão povoa o imaginário popular, onde é construído o ideário da figura da mãe como abnegada e amantíssima, a que “desdobra fibra por fibra o coração”, como nos aponta o poeta Coelho Neto em versos de 1920, que se tornaram muito populares em nosso país e foram inclusive musicados.

Essa imagem idealizada tende a uma concepção de um amor total, que em nada se assemelha à realidade do dia a dia das mulheres, em sua existência cotidiana como mães. Sempre visto como algo tão bá-sico e intrínseco à condição de mulher, esse amor materno é presumi-do como de ordem instintual e estaria presente em todas as mulheres como da ordem da natureza, o que é atestado pelas inúmeras referên-cias à expressão “instinto materno”. Se recorrermos ao dicionário de Aurélio, veremos a concepção de instinto, aí veiculada:

Fator inato de comportamento, variável segundo a espécie, e que se caracteriza, em determinadas condições, por atividades elementares e automáticas: o instinto migratório de certas aves; o instinto de sucção nos mamíferos...1

Através dos tempos, a mulher foi concebida como um instrumento destinado à reprodução, possuidora de uma tendência natural, portanto instintiva, que a levava a desejar, amar, proteger, e criar a prole. Essa concepção, no senso comum, poderia ser tomada como uma das

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carac-2 0

terísticas de normalidade para a mulher. Como destaca Lo Bianco (1985), no seu texto intitulado A psicologização do feto, o papel da mulher con-fundia-se com o papel de mãe. A maternidade era vista como obrigató-ria e exigia dedicação exclusiva à atenção com as cobrigató-rianças, restringin-do-se as possibilidades de novos papéis a serem desempenhados pela mulher. Pode-se falar de uma época em que era acentuada a estabilida-de no papel da mulher como mãe. No texto citado, a autora estabilida-destaca várias bases que davam um lastro de ordem médica na visão da mulher como mãe: a concepção de sua forma física arredondada e a sensibili-dade particular, que predestinava a mulher para a maternisensibili-dade, bem como as concepções ligadas aos movimentos higienistas, dentro da me-dicina do início do século, que destacavam a importância dos cuidados maternos na manutenção da saúde e da vida dos filhos, além da própria concepção que as mães constroem em relação ao filho gestado.

Em Psicanálise, poderíamos destacar o trabalho de alguns teóricos em relação ao tema. Destacamos, aqui, a pesquisa realizada por Renê Spitz, nas décadas de 40 e 50, em que é comprovado, em bases expe-rimentais, que a criança muito nova, no seu primeiro ano de vida, ao perder as referências do seu contato com a mãe ou com o seu substi-tuto, passa irremediavelmente, por quadros graves de hospitalismo, marasmo, autismo e morte, principalmente com deterioração do seu psiquismo. Lembramos ainda que toda a chamada Escola Inglesa da Psicanálise, liderada pela eminente psicanalista Melanie Klein, desta-ca, em todo os seus trabalhos, a grande importância do vínculo do bebê à mãe, bem como toda relação que estabelece com o seio mater-no. Todas essas concepções indicam a posição da mulher como mãe, e têm, sem sombra de dúvidas, influído no imaginário que a população produz sobre o que é ser mãe. Isso também é revelado pela pesquisa de Lo Bianco, principalmente para a população mais favorecida cultural-mente no meio urbano.

O amor materno, no entanto, pode ser considerado como um tema tabu e até hoje não costuma ser questionado, inclusive dentro mesmo

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2 1 do âmbito da psicanálise, sendo poucos os autores que se dedicaram a

pesquisá-lo.

Como poderíamos pensar nessas questões, no raiar do século XXI, quando se constata que algumas mulheres decidem não ter filhos e isso não constitui objeto de espanto ou de celeuma, mas é entendido como algo da ordem de uma opção de vida? Que se passa em relação à questão da maternidade, nos dias atuais? Lembramos aqui o trabalho de algumas autoras que se destacaram na concepção de um novo lu-gar para a mulher na sociedade e muito contribuíram para que ques-tões eminentemente femininas fossem objeto de reflexão, discussão e questionamentos, incluindo-se aí a própria maternidade.

Simone de Beauvoir (1949), em seu livro O Segundo Sexo, traz para um primeiro plano a situação da mulher de uma maneira ímpar. O seu texto influenciou toda uma geração ligada ao movimento femi-nista de defesa dos direitos e da liberdade da mulher, tendo repercus-são em várias partes do mundo. A autora defende abertamente a tese de que não há instinto materno, que isso não se aplica à condição humana e que a atitude da mãe é definida pelo conjunto de situações vividas por ela. Poderá ser ambígua, portanto, a significação da gravi-dez, e a atitude da mulher pode ser ambivalente frente à maternidade. Eis uma passagem bastante esclarecedora do seu pensamento sobre essa questão:

Mas a gravidez é principalmente um drama que se desenrola na mulher entre si e si; ela sente-o a um tempo como um enriqueci-mento e uma mutilação; o feto é uma parte de seu corpo e um parasito que a explora; ela o possui e é por ele possuída; ele resu-me todo o futuro e, carregando-o, ela sente-se ampla como o mundo; mas essa própria riqueza a aniquila: tem a impressão de não ser mais nada.2

Com relação ao tema do amor materno, destacamos outra autora cujo trabalho foi marcado pelo pioneirismo. Refiro-me à psicanalista

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Margarete Hilferding que, em 1911, apresentou uma conferência à Sociedade de Psicanálise de Viena, em presença do próprio Freud, intitulada “As bases do amor materno”, onde questiona o amor ma-terno como da ordem do inato, sustentando a hipótese de que esse amor possa vir a ser adquirido após o nascimento, através do contato da mãe com o filho. A autora questiona o caráter instintivo e, portan-to, universal do amor materno, chegando mesmo a sugerir que algu-mas mães possam não amar a seus filhos:

...acontece freqüentemente que mães que muito se alegraram com a idéia de que um filho iria nascer ficam decepcionadas quando ele nasce e não experimentam verdadeiro sentimento de amor mater-no...3

Hilferding questiona a idéia que o amor materno seja inato, princi-palmente para o primeiro filho, propondo uma leitura psicanalítica para a questão, o que a coloca como pioneira em sua abordagem teó-rica sobre o tema, dentro da psicanálise, em particular, e nos textos que repensam a mulher, de uma maneira geral. Trata-se de tema po-lêmico por excelência, e Hilferding assume uma posição inovadora, pela abordagem bastante singular que defende nesse texto, avançadíssima para a época e para a própria psicanálise, como nos mostram, de forma esclarecedora, Teresa Pinheiro e Helena Vianna (1991), na pesquisa que desenvolveram sobre a vida e o pensamento dessa psicanalista pioneira, cujas idéias foram pouco difundidas até hoje, no meio psicanalítico.

Há ainda o livro de Elisabeth Badinter (1980), Um amor conquista-do: o mito do amor materno, que também promoveu celeuma quando do seu lançamento, pelo fato de a autora tocar num tema tabu: a relação da mulher com a maternidade. Ela questiona o senso comum, que concebe como pré-requisito para a normalidade da mulher a presença do amor materno, algo da ordem do natural, como se a maternidade e o amor que a acompanham estivessem inscritos e fizessem parte, desde

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2 3 toda a eternidade, da natureza feminina. Desse ponto de vista, a

au-tora questiona a visão corrente de que a mulher teria sido feita para ser mãe, e, ainda mais, uma boa mãe.

Tomando outras vertentes, essas mais surpreendentes, porém nem por isso tão raras, apontamos as notícias que nos chegam, via pági-nas policiais, de mães que matam os próprios filhos, colocando-os em privadas, ou abandonando-os dentro de sacos plásticos, em terrenos baldios ou matagais. Assuntos como esses, que a imprensa veicula freqüentemente, têm como efeito chocar a opinião pública.

Os casos existem, são noticiados e documentados, mas, e daí? Trata-se de exceção, de mulheres à beira do desespero, ou castigadas pela miséria social ou mental, ou ainda vítimas da psicose pós-puerperal? A escritora Marguerite Duras causou espanto na França, em 1985, quando escreveu um artigo no Jornal Libération a respeito do Caso Cristine V, suposta responsável pela morte do filho, fato que abalou a sociedade francesa na ocasião. Ela defendeu a idéia de que a maternidade pode ser um fracasso para a mulher e que essa pode, de fato, não amar o filho e chegar a destruí-lo.

Estamos frente a um dado que nos aponta o caráter profundamen-te ambivalenprofundamen-te da maprofundamen-ternidade, que se vai se revelando e se impondo como um ponto norteador em todo estudo que tome a experiência de gravidez e de maternidade como sendo o objeto de trabalho. Mas, como fica aí a questão do dito amor materno?

Não estamos tratando do aborto como método contraceptivo, situa-ção em que o desaparecimento do feto se faz de forma mais silenciosa, nas clínicas clandestinas, ou através das “curiosas”. Essa prática é amplamente usada em nosso país, acompanhada do uso indiscriminado do medicamento Cytotec, francamente abortivo e usado em larga es-cala e de forma também clandestina. Ainda hoje – e isso é surpreenden-te – talvez seja essa uma das técnicas de controle da natalidade mais utilizadas em todas as camadas sociais. Como é uma prática proibida em nosso país, não há tem estatísticas oficiais a respeito.

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Destacamos aqui as palavras de Chatel (1995), psicanalista fran-cesa, que tem se dedicado ao estudo da maternidade em seus diversos prismas, principalmente em relação aos aspectos de fecundidade, aborto, esterilidade e fecundação medicamente assistida e nos mostra, atra-vés dos seus trabalhos, a gama de sentimentos e desejos ambivalentes e contraditórios presentes nas fantasias e discursos maternos relati-vos à questão da maternidade: “À força de escutar o discurso de cada uma, fica claro que nenhuma gravidez ocorre por acaso. Há mesmo aquelas que foram feitas, o que é paradoxal, para serem abortadas...”4

Isso quer dizer que, após quatro décadas do surgimento da pílula anticoncepcional, as mulheres continuam engravidando, continuam abortando, gerando filhos não desejados que precisam ser eliminados, colocando cada vez mais em evidência que o amor materno é um mito ao ser considerado como algo da ordem da natureza, do instinto, ou mesmo do sublime, do religioso, do santificado.

A fecundidade humana e o amor materno não estão submetidos às leis da natureza apenas – e, portanto, dentro de uma concepção instintivista da mulher –, mas pertencem à ordem da cultura, da linguagem, sendo, portanto, mediados pelo simbólico, o que afasta o homem da ordem pu-ramente natural em sua sexualidade, premida pela ordem do desejo.

A maternidade é vivida pela mulher com intensos sentimentos con-traditórios e ambivalentes, frutos de desejos e fantasias não apenas conscientes, que a levam a buscar ou rejeitar a concepção, em movi-mentos dialéticos que a aproximam da vida, com a experiência da gravidez e nascimento, como também a levam ao encontro da morte, com a experiência do aborto. Isso nos é revelado ao longo da história da mulher, em que procriação, aborto e também o filicídio estiveram presentes. As práticas abortivas existem desde a antiguidade, e os his-toriadores nos relatam que, na Idade Média, o filicídio era, senão acei-to, pelo menos tolerado na sociedade.

A concepção, a gravidez, o desejo e a maternidade, no período da adolescência, são as questões que pretendemos analisar, acompanhando

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2 5 jovens que optaram por levar a gravidez adiante e viveram a

experiên-cia de ter um filho. Ao trabalhar a maternidade num enfoque da teo-ria psicanalítica, intentamos trazer mais uma contribuição ao tema.

Maternidade e desejo

Em Psicanálise, buscamos sempre o embasamento dos conceitos a partir da teoria de S. Freud, seu criador. Começamos por rastrear, em sua obra, a questão do desejo para o homem. Freud (1950[1985]), em seu texto princeps O projeto de uma psicologia científica, publicado só postumamente, traz um esboço de sua compreensão sobre o funcio-namento do que ele chama de aparelho psíquico, e introduz aí a noção de desejo.

Para Freud, o bebê, ao nascer, apresenta um estado de profunda insuficiência ou desamparo fundamental e se defronta com duas or-dens de estimulações: uma advinda do meio externo – de cuja intensi-dade o organismo tentará se defender através da fuga – e outra do mundo interno, ou seja, do próprio organismo, da qual não poderá se livrar. Pensa ele, então, que esse aparelho viverá uma experiência de tensão, se o nível de energia for muito alto, ou de alívio ou prazer, se a energia for num nível mais baixo. A essa tendência de o organismo manter o nível baixo de energia, ele vai chamar de Princípio de Prazer/ Desprazer. Sua idéia é de que o bebê usará o mecanismo de descarga para mantê-la num nível ideal.

O bebê deverá processar essas energias com os mecanismos de que dispõe, para se arranjar frente aos estímulos que lhe chegam. É o gri-to-choro do bebê, através do qual o adulto interpretará a forma como ele está lidando com essas cargas energéticas. Freud vai chamá-lo, nesse texto citado, de Nebenmensch, expressão traduzida por comple-xo do semelhante ou do próximo, a pessoa que cuida do bebê. Vale ressaltar que ele não nomeia de mãe, nesse momento, o adulto que

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atende à criança, apesar de sabermos que, na maioria das vezes, é ela que o atende.

Porém, nessa relação mãe-bebê, é que ela se apresentará como se-melhante, e atenderá ao choro do seu bebê. Cabe à mãe atendê-lo, interpretando o porque do choro, ou seja, dando-lhe significações. Além de dar o alimento, em seus cuidados, a mãe também lhe dá palavras, por estar inserida na cultura, portanto no simbólico, como, por exem-plo: “ele está com fome”, “ele está com frio”, etc. Trata-se, portanto, de um circuito de comunicação que instaura toda uma série de signi-ficações que a linguagem possibilita.

Dessa forma, o bebê só vai saber porque chora se a mãe atendê-lo e nomear-lhe as necessidades. Além disso, Freud, também nesse tex-to, vai nos mostrar que a mãe se oferece ao seu filho como imagem especular, e que o bebê passa a reconhecer a sua mão ao olhar a mão da mãe, e o seu grito ao ouvir a voz da sua mãe. Portanto a mãe serve de elo entre o bebê e o mundo, através do seu sistema de significações, por estar ela inserida num mundo de linguagem. Freud vai nomear esse cuidar do bebê de que o adulto se ocupa de ação específica, que tem como finalidade levar a criança a uma diminuição da tensão ex-perimentada pelo excesso energético, conduzindo-a a vivenciar uma hipotética experiência de satisfação.

O bebê, ao nascer, está completamente submetido às estimulações que chegam ao aparelho psíquico do interior do próprio corpo e com as quais deverá lidar. Se elas se intensificam, isso significa um perigo para a própria organização psíquica, cujo funcionamento exige uma quota de energia mínima.

O adulto, através da ação específica, é o responsável por promover alterações no ambiente, para que o nível de tensão seja diminuído, ofe-recendo, por exemplo, o seio ou a mamadeira, se o bebê tem fome. Essa relação com o Nebenmensch, através do semelhante, ocorre via apare-lho psíquico, em uma dupla via: é, portanto, a voz materna que faz essa passagem de um espaço psíquico ao outro em vias de organização.

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2 7 Como isso se processa? Para Freud, é nas séries de experiências, na

suas repetições – as quais promovem a satisfação advinda da dimi-nuição do estado de tensão – que se registram as facilitações, as tri-lhas que vão organizando o próprio psiquismo do bebê, através das representações. Quando atende ao estado de urgência do bebê, que é revelado pelo choro-grito, esse semelhante, por estar no registro do simbólico, responderá ao bebê como sendo do registro da demanda. Antecipa-lhe, pois, significações, dentro já das trocas simbólicas que a linguagem possibilita.

O grito já é um apelo do infans, mesmo que ele ainda não fale, e isso vai deixando marcas, funcionando como uma rede, base do psiquismo. É o que Freud vai chamar de representações, representa-ções de palavras e de coisas, antecipando, assim, as descobertas da Lingüística moderna. Essas primeiras experiências formarão as facili-tações, constituindo os caminhos ou cadeias diferenciadas onde irá se organizar a memória.

A mãe, quando atende ao bebê, está também demandando: “o que este menino quer?” Se ela também vacila, significa que abre aí uma hiância com relação ao seu próprio saber e antecipa um saber ao seu bebê.

Ao falar ao seu filho, a mãe predica uma série de enunciados, que são fruto de seu próprio desejo, marcados pelo registro imaginário. Por exemplo: “ele é lindo”, “ele é a cara do pai”, etc. É essa relação desiderativa que permite à mãe formular imaginariamente um filho, desde a etapa da gestação.

Do lado do bebê, ao vivenciar a diminuição de tensão, a mãe toma para ele o estatuto de objeto, porém objeto perdido quando ele experi-menta novamente o estado de necessidade, e, através do impulso psí-quico, tentará reinvestir a imagem mnêmica do objeto que propiciou a satisfação, abrindo, assim, as portas para a assunção de um objeto privilegiado, o objeto de desejo. Para Freud, o reencontro já será a lem-brança do objeto, ou a representação do objeto.

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A mãe toma, então, esse estatuto de objeto perdido, impossível, para o bebê. No intervalo dessa primeira e mítica experiência de satis-fação, nessa hiância, Freud vai colocar o movimento desiderativo para o bebê, que passará a buscar incessantemente esse objeto, com a fina-lidade de lhe propiciar a satisfação. Como essa não será totalmente possível, restará sempre algo no registro da falta, condição específica da posição humana, marcada pelo desamparo.

Na sua teoria, o desejo e a sua impossibilidade de satisfação toma-rão um lugar central, e é isso que movimentará o homem durante toda a sua existência, abrindo, assim, a dialética das suas relações de objeto.

A palavra desejo, na obra de Freud, tem mais de uma significação, uma vez que ele, em seus textos, utiliza mais de uma palavra em alemão com esse significado. O termo Wunsch, designa algo próximo à idéia de um desejo formulado, ou de algo que é almejado. Já as palavras Begierde e Lust têm um sentido mais próximo da noção de concupiscência, apetência e prazer.

Segundo Hanns (1996) em seu Dicionário comentado do alemão de Freud, teríamos as seguintes distinções do significado dos termos ha-bitualmente encontrados em diversas passagens da obra de Freud:

1. O substantivo Wunsch, é traduzido, rotineiramente, por desejo, o que é almejado, mais distante e idealizado, e está vinculado mais ao campo representacional.

2. Lust é habitualmente traduzido por desejo, prazer e vontade, no sentido de disposição de fazer algo e também no sentido de sensações corporais.

3. Begierde significa desejo intenso, sofreguidão, concupiscência.

Torna-se importante este destaque, porque Freud dá ao desejo uma dimensão do que está ligado ao prazer, à sexualidade, mas também ao que é da ordem da falta, ao que é buscado, almejado. E não é outro o movimento do bebê, nas suas relações iniciais, e no homem, durante

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2 9 toda sua vida. Na concepção dinâmica da teoria freudiana, desejo

re-montaria às primeiras experiências do bebê e seria a imagem mnêmica de uma determinada percepção que permaneceria ligada a uma marca da excitação, resultante de um estado de necessidade. Ao retornar a esse estado de necessidade, seria estabelecida uma vinculação, atra-vés da conexão a um movimento psíquico, no sentido de que seriam recarregadas as imagens-lembranças dessas primeiras experiências de satisfação, que poderiam se dar, inclusive, no nível alucinatório. Po-deríamos dizer que esse momento é mítico, e que a tentativa de restabelecê-lo é o próprio movimento do desejo; a reaparição do objeto supostamente possível de satisfazer o desejo seria o próprio movi-mento desiderativo.

Freud faz distinção entre necessidade e desejo. A necessidade adviria de um estado de tensão interna do organismo, exposto às estimulações quer do mundo externo como do interior do próprio corpo, que poderí-amos entender como da ordem do instinto, da ordem da natureza. Já a dimensão do desejo estaria em outra ordem que não essa, dita natu-ral. É o que Freud (1905) vai teorizar a partir do seu texto Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, com sua visão absolutamente nova sobre a sexualidade, criando os conceitos de pulsão, libido e objeto sexual. Essa teoria ele desenvolve durante toda sua obra. O mais importante a destacar aqui é a criação do conceito de pulsão, que ele situa num limiar entre o psíquico e o somático. A pulsão é sexual, e sua energia é a libido. Essa será investida nos objetos com uma força constante, em busca da satisfação. O seu caráter é estar intimamente ligada às representações e fantasias.

Num primeiro momento de sua teoria, ele vai opor as pulsões se-xuais ao instinto de sobrevivência. Ao longo do seu desenvolvimento teórico, ele descobre que a libido também investe no próprio eu, crian-do a sua teoria sobre o narcisismo (1914-1916), ponto fundamental em sua obra, que será ainda modificada em 1920, com a proposta de algo absolutamente novo no seu texto Além do principio do prazer. Aí

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são propostas as duas ordens de pulsão: pulsão de vida, Eros, e pulsão de morte, Thanatos, a quem ele vai relacionar todo movimento destrutivo, agressivo, nas relações com o objeto. Essa é sua visão final sobre a teoria das pulsões, e que será de fundamental importância para pensarmos a questão da ambivalência frente aos desejos da mu-lher quanto à maternidade.

Freud, ao criar a sua teoria da sexualidade, rompe com a noção na-turalista sobre o homem e pensa em outra ordem que não apenas a da natureza, formalizando, assim, uma distância abissal entre o que é da ordem da necessidade e o que é da ordem do desejo. Ele é absolutamente revolucionário, nesse momento, em relação à concepção sobre o papel da mãe, quando outorga a essa função uma dimensão sexual. Desco-bre, também, que é a própria mãe quem vai erotizar o corpo do bebê, nos seus cuidados gerais. Vejamos como ele destaca isso:

A relação de uma criança com quem quer que seja responsável por seu cuidado proporciona-lhe uma fonte infindável de excitação sexu-al e de satisfação de suas zonas erógenas. Isto é especisexu-almente verda-deiro, já que a pessoa que cuida dela, que, afinal de contas, em geral é a mãe, olha-a ela mesma com sentimentos que se originam de sua própria vida sexual: ela a acaricia, beija-a, embala-a e muito claramen-te a trata como o substitutivo de um objeto sexual completo. Uma mãe provavelmente ficaria horrorizada se lhe fosse dito que todos os seus sinais de afeição estavam despertando os instintos sexuais do filho e preparando-os para sua intensidade ulterior.5

O bebê, ao nascer, está mergulhado em seus desconfortos, e é a mãe que surge oferecendo-lhe o seio. Ele nem se percebe como uma totalidade, nem percebe a mãe como uma totalidade. A mãe é, portan-to, um ser que é marcado pela linguagem e também pela sua sexuali-dade, pelo seu desejo. Se o grito já é um apelo do bebê, mesmo que ele ainda não fale, é necessário que a mãe ou substitutos tenham condi-ções de nele investir libidinalmente como objeto de seus desejos, por-tanto dentro de um circuito pulsional e de um circuito de linguagem.

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3 1 É o que Jacques Lacan (1978), importante psicanalista

pós-freudiano, vai nos dizer no seu livro Escritos. Ele vai afirmar que a linguagem humana se constitui numa comunicação onde o emissor, o choro do bebê, vai ser significado pela mãe que lhe responde “você tem fome”; assim, a mensagem chega de forma invertida. Vejamos como ele trata essa questão: “...a linguagem humana constituiria pois uma comunicação onde o emissor recebe do receptor sua própria men-sagem sob uma forma inversa [...] A fala inclui sempre subjetivamen-te sua resposta...”6

O bebê saberá, portanto, que o que sente é fome, porque será assim nomeado pela mãe. Lacan vai chamar a mãe, ou seja, o lugar que ela ocupa, de Outro. As demandas são endereçadas ao Outro, que é o lugar também do código lingüístico. Importante é que, à demanda de leite por parte do bebê, a mãe lhe possa oferecer o seio – o alimento –, o sorriso, o olhar. Assim, ela também demanda ao bebê que responda ao seu desejo, dentro de um circuito pulsional e de linguagem que lhe é antecipado.

Mas, segundo a teoria psicanalítica, o fato de a mulher ocupar a posição desse Outro-materno desejante não é determinado pela natu-reza nem entendido como apenas da ordem de um instinto natural. Ao tomar o bebê como objeto dos seus desejos, a mulher é marcada pelas suas pulsões, a partir de um longo caminho até então por ela percorrido. Desde seus tempos infantis, nas brincadeiras de boneca, a menina já se preparava para essa função.

Maternidade e Édipo

Vejamos como Freud pensava sobre o desenvolvimento da posição feminina na mulher, sua relação com a maternidade e, conseqüente-mente, com a sua passagem edípica.

O conceito central da teoria psicanalítica, em torno do qual se po-dem conceber os destinos do sujeito humano, é o do recalque, conceito

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esse que se pode destacar como o alicerce da teoria psicanalítica. Ao propor que uma idéia incompatível com a consciência é dela afastada pelo processo do recalque, em função do seu conteúdo sexual incestu-oso, Freud, assim, descobre e sistematiza o funcionamento do in-consciente e estabelece a relação dessa idéia com a angústia de castra-ção. Ele formula e desenvolve esse pensamento ao longo de toda sua obra e o nomeia de Complexo de Édipo, a partir da relação que estabe-lece com o famoso mito de Édipo.

A angustia de castração é o resultado de um intrincado de fantasias e desejos relativos aos objetos incestuosos, que, em função do tabu do incesto, são abandonados, caindo sob a égide do recalque. Essa angús-tia adviria do fato de o ser humano nunca ser totalmente completo, angústia própria da divisão e partilha dos sexos. A percepção da dife-rença anatômica entre os sexos, pois, mobiliza a criança desde a tenra idade. Esse momento especial Freud chama de fase fálica, na qual o pênis é investido de valor fálico, e é visto pela criança de ambos os sexos como presente em todos. Vejamos seus desdobramentos.

Freud desenvolve sua teoria sobre o complexo de Édipo em várias passagens de sua obra. Porém é no seu texto Totem e Tabu (1912-1913) que apresenta suas noções mais originais a respeito. A idéia da trama, que o autor liga à tragédia grega de Sófocles, intitulada Édipo Rei, já aparece em seus escritos muito cedo, desde 1897, em sua correspon-dência com Fliess, onde defende, a partir de suas próprias experiências pessoais, a posição de que todo sujeito foi um dia um pouco Édipo, referindo-se ao enamoramento e à rivalidade com os seus genitores.

Vejamos de que se trata. Para ele, os pais são objetos privilegiados de amor, tanto profundamente amados e desejados quanto hostilizados. Porém são objetos interditados pela proibição do tabu do incesto. Por-tanto, são objetos de amor que necessitam ser abandonados pela premência da ameaça da castração, e deverão sucumbir ao recalque.

No menino, é o medo da perda do pênis, investido com valor fálico, que faz com que a passagem se dê, ou seja, os investimentos libidinais

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3 3 são abandonados e substituídos por identificações com os traços

des-ses objetos e a internalização da lei, representada pela autoridade do pai, introjetada na formação superegóica, que perpetua a proibição contra os desejos incestuosos.

Na menina, é a inveja do pênis, elemento constitutivo de sua se-xualidade. A marca da castração se efetivará pelo abandono dos obje-tos de amor incestuosos e pelas identificações que isso possibilita em ambos os sexos. O que Freud pretende, ao utilizar os elementos da história de Édipo, é demonstrar que ao sujeito humano estão interdi-tados os objetos incestuosos pelo tabu do incesto, e que esses sucum-bem ao recalque, condição de humanização e entrada na ordem da cultura. Estabelece, assim, outra abissal distância entre a ordem da natureza e a ordem da cultura.

É o pai que Freud vai indicar como o agente da castração e interditor dos objetos incestuosos. Para ele, o objeto mãe está para sempre perdi-do, porque a mãe, como objeto, está dentro do circuito da linguagem, dentro do sistema de representações. O bebê, ao entrar nesse circuito, continuará a ser objeto desejado e desejante. Como a mãe tem com a criança as primeiras relações e nem sempre está presente ou a satisfa-rá, ela se confronta com outro elemento, uma terceira posição, que é o lugar do pai, na teoria freudiana. A mãe é o primeiro objeto de inves-timento, tanto para o menino como para a menina, e o pai é o ele-mento terceiro nessa relação.

Jacques Lacan (1957-58), no seu Seminário sobre as Formações do In-consciente, aponta-nos que a castração é concebida também como uma lei, lei de interdição do incesto. Ele teoriza o Complexo de Édipo em três momentos lógicos, pensando a partir de elementos que podem intercambiar-se. A sua idéia é de que estamos frente a quatro elementos: o lugar do pai, da mãe, do filho e do falo. Esse último representaria tanto a falta como o desejo, aquilo que ilusoriamente completaria a falta.

O primeiro momento é o da identificação do bebê ao falo, objeto de desejo da mãe, e o seu desejo é ser o desejo da mãe. Aqui, a questão

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crucial para o bebê é ser ou não ser o falo. Daí a importância de que a mãe possa tomar o filho como portador de um valor fálico e possa dirigir para ele um olhar desejante. É necessário que esse Outro – lu-gar simbólico que a mãe ocupa, porque está na linguagem – crie ima-ginariamente uma relação libidinizada com o bebê.

Lacan vai nos mostrar, nos dois momentos posteriores da passa-gem edípica, a importância do terceiro elemento, o pai, que vai cortar essa célula narcísica, relação fechada entre a mãe e o bebê. No segun-do momento, é o pai que ocupa a posição de falo, como objeto de desejo valorado pela mãe, já que o bebê também não a completa. É o que ele nos afirma: “É no nome do pai que se deve reconhecer o supor-te da função simbólica que, desde a orla dos supor-tempos históricos, iden-tifica sua pessoa à figura da lei.”7

No terceiro momento, é quando nem ele, o pai, nem mais o filho podem estar no lugar do falo, porque estão todos submetidos à castra-ção, submetidos à lei da interdição do incesto, e estão na linguagem, no simbólico e, portanto, na cultura.

Freud cria, além de toda a sua teoria edípica, a noção da equivalên-cia simbólica, ao trabalhar a etapa anal em seu artigo de (1917) intitulado As transformações dos instintos exemplificadas no erotismo anal, através da sua experiência em atendimento psicanalítico a pacientes mulheres. Nesse texto, ele cita sonhos de pacientes e estabelece uma relação de substituição simbólica, através da equação fezes-pênis-filho, o que possibilitaria à mulher tomar o filho como sendo um substituto do pênis, sempre invejado e desejado, e como aquilo que ilusoriamente iria tamponar a sua falta, dando ao filho uma dimen-são fálica e o investindo libidinalmente.

Vejamos, no texto referido, como ele arma a idéia dessa equivalência: ... os conceitos de fezes, (dinheiro, dádiva), bebê e pênis mal se

distinguem um do outro e são facilmente intercambiáveis....” “... Isto se verifica com mais facilidade na relação entre “bebê” e “pê-nis”... Não pode deixar de ter significado o fato que na linguagem

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simbólica dos sonhos, bem como na vida cotidiana, ambos podem ser representados pelo mesmo símbolo ...” “...de tal modo que o desejo de um pênis e o desejo de um bebê seriam fundamental-mente idênticos...”8

Ao desenvolver a teoria do Édipo da menina, Freud se confronta com muitas dificuldades e a elabora a partir do desenvolvimento do Édipo no menino. Para a menina, a castração não poderia ser concebida como uma ameaça, posto que a ausência do pênis é uma constatação com a qual se confronta durante o seu desenvolvimento e uma ferida no seu narcisismo. O clitóris, percebido como um pênis pequeno, leva a menina a posições diferentes na sua passagem edípica, tanto em relação à sua entrada como a sua possível resolução. Freud apresenta muitas dúvidas em relação à saída do Édipo para a menina, e isso ele deixa claro em seus textos.

A fase edipiana se instala com o desejo de ter um filho com o pai, segundo a equivalência simbólica da série pênis = filho, para quem se volta a menina após abandonar a mãe como seu primeiro objeto de amor, pois a responsabiliza por tê-la feito incompleta, portanto sem pênis. Porém a mãe, para ambos os sexos, é o primeiro objeto de amor, e Freud destaca essa primeira fase de amor e enamoramento da meni-na por sua mãe. É, portanto, um movimento de decepção que leva a menina ao encontro do objeto pai, e a sua entrada no Édipo se dá pela constatação da ausência de um pênis e a inveja que isso lhe acarreta. Isto é fundamental, não só para entendermos a sexualidade da meni-na, mas também a sua relação com a maternidade, principalmente para pensarmos na gravidez não planejada na etapa da adolescência. Freud vai determinar uma diferença entre as possibilidades de dis-solução do Édipo para o menino e para a menina. No caso do menino, haveria a resolução do referido complexo pela ameaça de castração, que impõe ao menino a opção de abandono dos objetos incestuosos e a preservação do seu órgão, o pênis, narcisicamente investido.

A esse movimento Freud vai relacionar a internalização dos obje-tos incestuosos por identificação à autoridade paterna e à lei,

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culmi-3 6

nando com a resolução do complexo, sua substituição pelo superego e a entrada no período de latência, com todas as possibilidades sublimatórias que isso representa, pela utilização da energia sexual, da libido, para fins não sexuais.

Para a menina, Freud aponta a dificuldade dessa passagem e fala de dois momentos importantes em relação à sua sexualidade: um pri-meiro em relação à mudança de objeto, a passagem do objeto materno ao objeto paterno, como conseqüência do seu narcisismo afetado por não dispor do pênis, objeto valorado e marca da sua incompletude. Um segundo momento marca outra mudança fundamental em rela-ção à sexualidade da menina: é a mudança de órgão. Segundo Freud, a menina fará uma substituição do clitóris pela vagina como seu órgão eminentemente sexual. Para ele, há um desconhecimento por parte da menina da vagina como órgão importante da sua sexualidade futura. Essas questões teóricas levam Freud a concluir que a resolução do Édipo, na menina, é muito mais difícil, senão impossível, o que o leva a pensar que a castração já está instituída antes da própria resolução edipiana. Ele defende a idéia de que a resolução do seu Édipo possa passar por um recalque, ou ser lentamente abandonada, e até entrar no período de latência, com tudo o que isso acarreta.

É ainda no texto de 1931, Sobre a Sexualidade Feminina, que Freud vai falar da sua visão mais completa do Complexo de Édipo na meni-na, focalizando a sua relação prévia com a mãe. Falar do complexo de Édipo é, também e principalmente, falar de desejo. Pois os objetos in-cestuosos são frutos de intensos desejos pelos filhos e desejo significa também ambivalência, a presença de amor e de ódio. O desejo é, em sua essência, impossível de ser satisfeito, pela sua natureza pulsional e pela condição humana de insuficiência e incompletude. Portanto, a mãe é o primeiro objeto de amor, mas também de hostilidade, de quem a menina deverá se afastar para encontrar o objeto pai, passagem que, segundo Freud, possibilitaria sua entrada na posição feminina propri-amente dita.

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3 7 O que é uma mãe, para Freud? Já vimos que ele prefere usar o

termo Nebensmench, complexo do próximo, que seria o objeto perdido por excelência. Lacan nos ensina que a mãe, ao ser marcada pela cas-tração, não poderá completar seu bebê, nem ser por ele completada. Se ela opera como Outro, realizando a ação específica, intervindo na re-alidade, atendendo ao grito e dando-lhe palavras, ela também é quem dá consistência ao nome do pai, ao elemento interditor, operador da lei, que corta a ilusão da célula narcísica mãe/bebê. Lacan nos apon-ta, de forma incisiva: “Não deitarás com tua mãe, não reintegrarás o teu produto.”9 Mostra-nos a condição de entrada na cultura, efeito da

lei de interdição do incesto, do recalque e do complexo de Édipo. Freud (1908), através do seu texto Estudos sobre as teorias sexuais das crianças, chega a concluir pela primazia do falo, pois há, na fanta-sia da criança, a crença da presença do pênis em todos os seres vivos, tanto no homem como na mulher. Com relação à diferença anatômica entre os sexos, ele propõe duas possibilidades: para o menino, surge o medo de perder o órgão, e, para a menina, ela imagina tê-lo perdido. Frente à ameaça de castração, o objeto incestuoso é abandonado, su-cumbe ao recalque. É o próprio apogeu e declínio do complexo de Édipo. Mas em relação à menina? É o texto A Feminilidade (1932), apesar de ele próprio declarar que ainda é incompleto e fragmentário, o seu estu-do mais completo sobre a sexualidade da mulher. A menina também constata a diferença anatômica entre os sexos, sente inveja do pênis, sentindo-se incompleta por não possuí-lo, e atribui à mãe o fato de não dispor de um pênis. Além disso, as próprias frustrações relativas às suas pulsões orais, vividas quando do desmame, levam-na a se afastar do objeto materno. A inveja do pênis é o elemento constitutivo da sexu-alidade feminina, responsável, nessa etapa, pelo afastamento da meni-na do seu primeiro objeto de amor – a mãe –, aproximando-a do pai como novo objeto de amor. Buscará, pois, o que julga não possuir.

Freud vai pensar, então, como a menina buscará receber um filho do pai, como uma tentativa de se confrontar com a questão da

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castra-3 8

ção. É ao supor, para a mulher, a realização de um desejo, o desejo do pênis, que ele encontraria uma saída ou resolução para o Complexo de Édipo. É o desejo de um filho que possibilitará à mulher o acesso ao sexo e à maternidade. A castração continua determinante, já que a maternidade seria apenas uma possibilidade de mascarar essa falta. Seria, portanto, de importância capital essa relação prévia da menina com a mãe e essa passagem ou não para o pai, como objeto de amor, para entendermos a maternidade e, principalmente, a maternidade no período da adolescência.

Freud não deixou de declarar a sua dificuldade em teorizar a ques-tão da feminilidade, tema que foi e continua sendo, até hoje, motivo de estudos, discussões e de polêmicas dentro das diversas linhas teó-ricas em psicanálise.

M. Klein, importante teórica dentro da história da psicanálise, di-vergiu de Freud em alguns pontos teóricos e também em relação à sua concepção sobre o Édipo. Porém há um ponto em sua teoria, relativo à sexualidade da menina, que gostaríamos de destacar. Trata-se do pen-samento expresso em seu livro Psicanálise da criança, lançado pela pri-meira vez em 1932, portanto contemporâneo das obras de Freud a respeito desse tema. A partir da idéia de Freud da inveja do pênis na menina, ela vai apontar para uma questão que parece da maior im-portância para o nosso estudo em relação à questão da maternidade. Klein é contrária à posição de Freud de que a menina desconhece a existência da vagina, defendendo a idéia de que a vagina já possa ser algo presente nas fantasias das meninas, e isso bem precocemente. Pelo fato de não possuir o órgão peniano, pensa essa autora que a ameaça de castração se dá de forma totalmente distinta entre o menino e a meni-na. O que destaco como sua importante contribuição é a idéia de que a ameaça, para a menina, seria o medo de uma destruição do seu próprio corpo, e não apenas do pênis, como no caso dos meninos.

Vejamos como ela aborda a questão: “...o medo principal da meni-na é o de ter o interior de seu corpo roubado e destruído. Como

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resul-3 9 tado da frustração oral infligida pela mãe, a menina afasta-se dela e

toma o pênis do pai para objeto de gratificação...”10

A idéia de que o interior do corpo seja motivo de fantasias destrutivas, para a menina, aponta para uma vertente inteiramente nova, uma vez que, tanto para Freud como para M. Klein, é evidente que o fato de não ter os órgãos sexuais expostos como o menino e desconhecer a vagina, por sua disposição anatômica, marca uma diferença radical entre o de-senvolvimento da sexualidade do menino e o da menina. É esse aspecto do medo de destruição do interior do corpo que destaco e aqui volto a citá-la: “Devido ao medo de represálias que suscitam, essas fantasias

formam a base da mais profunda situação de angústia da menina...”11

Não tomaremos a teoria de M. Klein como referencial teórico do pre-sente trabalho. Apenas ressaltamos esse aspecto referente à leitura que ela faz do tipo específico de angústia vivida pela menina quanto à sua passagem pelo Édipo, pois pensamos que é de importante valor para o estudo da sexualidade feminina e da questão da maternidade, nosso objeto de estudo. Principalmente pelo fato de a experiência de materni-dade se dar, fundamentalmente, no corpo da mulher, no interior mesmo desse corpo, experiência essa que a natureza vetou ao corpo masculino. A teoria de Freud sobre a sexualidade feminina foi muito polemizada, principalmente pelos movimentos feministas contemporâneos, cuja lei-tura da obra de Freud apontava para uma visão preconceituosa em rela-ção à mulher. A sua dificuldade de teorizar a respeito da feminilidade é grande, e o próprio Freud não deixou de tornar isso evidente, chegando mesmo a tomar como enigma a questão da sexualidade feminina.

Mas, sem dúvida, a maternidade, o desejo de ter ou não ter filhos, a opção pelo nascimento ou pelo aborto, o vínculo que a mulher irá esta-belecer com seus bebês, tudo isso tem a ver com seus próprios desejos inconscientes.

Constatamos que, muitas vezes, a gravidez está acompanhada de relações bastante ambivalentes frente ao feto, como podemos ilustrar neste fragmento de caso clínico. Trata-se de uma mulher que, ao saber

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que estava grávida e abandonada pelo parceiro, fez uso do medicamento “Cytotec”, tomando exatamente a metade dos comprimidos que sabia serem necessários para que o aborto se efetivasse; como tem, em seguida, de fato, um sangramento, pensa ter abortado. Faz, então, procedimentos médicos claramente prejudiciais à gravidez, como exames radiográficos. Percebendo, depois, que continua grávida, tem todas as fantasias de que o filho nascerá com defeitos, faltando órgãos etc. Ao término da gravi-dez, nasce um bebê fisicamente normal, mas que apresenta, durante o seu desenvolvimento, dificuldades de organizar a sua fala.

Podemos afirmar que todas as gestações estão demarcadas pelos desejos inconscientes, pela sexualidade da mulher, e essa está total-mente implicada pela sua passagem edípica, o que caracteriza a sin-gularidade de cada sujeito frente a seu desejo, à sua relação com os objetos incestuosos e às suas identificações. Em relação a esse ponto, os psicanalistas estão de acordo, e a Freud devemos essa constatação. Como fica, então, a gravidez, para as adolescentes a partir de 13-14 anos, idade em que a puberdade está se instalando, com todas as modifi-cações que isso acarreta ao corpo? Como estão elas do ponto de vista de sua subjetividade, frente à maternidade que se aproxima? O que é, afinal, específico da puberdade e da adolescência? Como a psicanálise aborda essas questões? Esses são os temas que serão abordados a seguir.

Notas

1 AURÉLIO. Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. p.953.

2 BEAUVOIR, S. O segundo sexo. Tradução.Sérgio Milliet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p. 262.

3 HILFERDING, M.; PINHEIRO. T. e VIANNA, H. As bases do amor materno. São Paulo: Escuta, 1991. p. 89.

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4 CHATEL, M.M. Mal-estar na procriação: as mulheres e a medicina da reprodu-ção. Rio de Janeiro: Campo Matêmico, 1995. p. 36.

5 FREUD, S. Obras Completas. Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade. v. VII. Rio de Janeiro: Imago, 1975. p. 229-30.

6 LACAN, J. Os Escritos. São Paulo: Perspectiva, Função e Campo da Fala e da Linguagem em Psicanálise, 1975. p. 162.

7 LACAN, J. Os Escritos. São Paulo: Perspectiva, Função e Campo da Fala e da Linguagem em Psicanálise, 1975. p. 143.

8 FREUD, S. Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1975. As transformações do instinto exemplificadas no erotismo anal. v.XVII. p.161.

9 LACAN, J. Livro 5. As formações do inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999. p.209.

10 KLEIN, M. Psicanálise da criança. São Paulo: Mestre Jou, 1975. p. 260. 11 Ibidem, p. 260 Idem, p.260.

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Puberdade e adolescência: especificidades

O conceito de adolescência não advém do campo da Psicanálise. A palavra adolescência vem do latim adolescentia, que significa crescer, e pressupõe um processo, uma fase, uma evolução. É entendido, no senso comum, como um período que vai do início da puberdade até a idade adulta, fase demarcada por mudanças psicológicas e no corpo. Carac-teriza-se esse período como de uma crise – a crise da adolescência. Vejamos o que isso quer dizer.

Fala-se muito em crise, quando o assunto é a adolescência. O que isso significa? A palavra crise vem do grego krisis e tem sua utilização bastante influenciada pela concepção da medicina clássica, estando seu significado ligado à idéia de juízo, julgamento, escolha, ou seja, é o momento onde a enfermidade, em seu estado agudo, define as duas direções a seguir, o caminho da cura ou da morte. Tomemos, então, o aspecto de crise, como estado agudo, ou estado crítico que o indivíduo atravessa em sua vida quando chega à puberdade.

Alguns autores chegam a falar que a crise da adolescência é enten-dida também como a crise dos pais, quando a explosão pulsional do adolescente corresponde à revivência de forças pulsionais reprimidas nos pais, e que isso pressupõe, para eles, um trabalho de luto. A crise é tanto dos pais como do adolescente. Nessa fase, o adulto é questio-nado pelo jovem e pode, com um pouco de sorte, sair transformado dessa crise, tal é a experiência vivida por pais e filhos no período da adolescência, como se saíssem de uma análise, diz-nos a psicanalista Maud Mannoni em 1984, na abertura de uma jornada na França, cujo tema era exatamente a crise da adolescência.

Winnicott (1971), importante psicanalista inglês, frente à constatação da crise, defende a idéia que essa seja um momento com

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duração de um certo tempo, e o tempo é o remédio natural. Não se deve combatê-la, nem tentar curá-la, nem abreviá-la; trata-se de acompanhá-la e, se souberem, explorá-la para que o sujeito obtenha dessa fase o melhor partido possível.

Charles Melman (1999), psicanalista francês contemporâneo, de-fende a idéia de uma crise psíquica nessa fase, ao apontar que esse é um momento em que o sujeito não encontra o lugar de seu gozo. O adolescente estaria, assim, numa fase intermediária, frente ao adul-to, que já teria seu lugar conquistado em relação ao seu gozo.

Sendo ou não uma verdadeira crise, o importante é que o tema da adolescência não foi muito trabalhado no âmbito da psicanálise. Não há, pelo menos em volume de trabalhos produzidos nessa área, um grande interesse dos teóricos sobre a questão da adolescência. Encon-tramos muitos trabalhos cujo tema é a sexualidade infantil, os pri-meiros anos de vida. Puberdade e adolescência ficaram sendo como uma continuação ou repetição dessa etapa. Ultimamente, tem surgi-do um interesse maior sobre o tema, e alguns teóricos se dedicam a estudá-lo.

Freud já destacava essa fase, e trabalhou com a puberdade, apon-tando ser esse um período privilegiado. Falava não só da questão pulsional, como da mudança com relação ao objeto de amor, mos-trando, assim, que, nesse período, as fantasias da primeira infância são reativadas, e é um momento especial na vida do sujeito. Temos algumas questões a colocar, que antecedem a toda abordagem teórica que se queira dar ao tema. Sabemos que o sujeito, para a psicanálise, é um, não importa se criança, adolescente ou adulto. O que haveria, então, de especificidade nessa fase?

A adolescência é tomada como objeto de estudo nas áreas da an-tropologia e sociologia, com mais freqüência que na Psicanálise pro-priamente dita. Se tomarmos a questão pelo viés cronológico, encon-traremos imprecisões diversas, tais como textos que situam a adoles-cência a partir do 10 anos. Outros falam de púberes, de

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pré-adoles-4 5 centes, de adolescentes. Podemos também perguntar: um jovem de

19-20 anos é adolescente? Costumamos ouvir referência aos adultos da seguinte forma: “ainda é um adolescente!” Não importando se te-nha 20, 30 ou 40 anos.

Hoje em dia, os meninos e meninas de 10, 11 e 12 anos se intitulam de pré-adolescentes, encurtando, sem sombras de dúvidas, o período da infância e aumentando a fase da adolescência. Já vimos que, só pelo aspecto da cronologia, a questão da adolescência já suscita mui-tas dúvidas. Atualmente, em função da crise econômica e do desem-prego em nosso país, esse período está sendo mais prolongado ainda, frente às dificuldades que os jovens encontram de conseguir sua auto-nomia financeira e a independência da família parental.

Por outro lado, a história aponta-nos como constantes os concei-tos de infância e de vida adulta nas sociedades, não importando a ideologia que permeava a compreensão dessas duas etapas etárias da vida humana. Nos povos ditos primitivos, os ritos de passagem, ou rituais de iniciação, representavam uma passagem simbólica que de-marcava uma fase que o jovem atravessava e, com isso, conquistava um lugar no mundo dos adultos. Normalmente, eram provas doloro-sas, em que entravam em jogo aspectos de destreza física e de enfrentamento de perigos.

As etapas de iniciação normalmente envolviam o isolamento do jovem, o jejum, a flagelação, a transmissão de alguns segredos da tribo, a aprendizagem de narrativas ou de traços religiosos dos nati-vos. Em alguns povos, havia inclusive os rituais de circuncisão, para os meninos, e a clitoridectomia, nas meninas. O jovem sempre devia suportar essas provas sem reclamar, numa demonstração de autocontrole. É importante ressaltar, aqui, que o costume de isolar o jovem tinha também como finalidade a separação dos familiares, notadamente da mãe, o que representa uma saída desse vínculo.

Ao enfrentar as etapas guiado por adultos, o jovem púbere assegu-rava a sua entrada numa nova fase e um lugar de pertinência. Alguns

Referências

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