4.2. G UERRILHA MIDIÁTICA , PERFORMANCE E O CORPO FEMININO
4.2.2. Pussy Riot
O segundo exemplo que gostaríamos de abordar neste capítulo diz respeito a um grupo que em curto espaço de tempo conseguiu gerar um debate em torno de suas causas com repercussão internacional que até a finalização dessa tese permanecia em pauta.
O Pussy Riot é um grupo de punk rock feminista russo que foi formado em outubro de 2011. Surgiu em meio à crise política do país que previa a eleição do
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atual presidente Vladimir Putin, que atuava então como premiê. O país vivia a eminência de sua volta ao poder e muitos cidadãos rejeitavam a ideia, em função das acusações sobre a atuação política de Putin, que incluíam corrupção, monopólio governista dos meios de comunicação, repressão a protestos públicos, etc.
O grupo decidiu protestar por oposição ao governo de Putin, acusado também de limitar os direitos civis da população. A restrição de direitos feria igualmente os princípios feministas, pois algumas sanções se direcionavam às mulheres, como medidas de restrição ao aborto legal, por exemplo. Em entrevista78 do Pussy Riot a Henry Langston, do site Vice, entendemos que outras causas defendidas pelo grupo incluem a luta pelos direitos de gênero e LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros), o combate à dominação masculina nas áreas do discurso público e à falta de viés político na cena artística e cultural (Langston, 2012, online).
A atuação do grupo acontece por meio de performances de suas músicas em espaços públicos, de maneira rápida e inusitada, similares a flashmobs79. Alguns dos lugares são estrategicamente escolhidos, por representarem a instância de poder sendo questionada. Entre os “palcos” utilizados pela banda, foram escolhidos uma estação de metrô, o telhado de um centro de detenção em Moscou, a praça mais famosa da Rússia (a Praça Vermelha) e o interior uma
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Nesta entrevista como em outras que encontramos durante a pesquisa, as integrantes do grupo escondem suas identidades por meio das máscaras e utilizam nomes fictícios. Dessa forma, optamos por descrever as falas de modo generalizado.
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Aglomerações públicas organizadas por meios de ferramentas digitais de comunicação em computadores e aparelhos móveis. Em linhas gerais, trata-se de uma ação combinada em local específico, organizada de forma muito rápida. Podem ter objetivos estéticos, políticos ou apenas de entretenimento.
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igreja. As músicas têm letras agressivas e alvos pontuais, dos quais destacamos o governo de Vladimir Putin, a igreja Ortodoxa (que teria relações próximas com esse governo), a KGB80 e o machismo na Rússia.
Como nos coloca Barton (2012), o Pussy Riot surge em meio a uma geração de ativistas que tem realizado diferentes protestos pela Rússia demonstrando sua insatisfação política, alguns atuando também de forma bastante radical nos últimos anos. Entre eles, destaca-se o Voina, grupo de artistas russos atuante desde 2005 que realiza suas ações em espaços públicos usando como estratégias de ataque político intervenções em prédios e vias públicas, vandalismo, furtos em supermercados (shoplifting) e performances. Dentre as ações mais significativas, estão uma orgia performática no Museu
Biológico Estatal Timiryazev (2008)81 e o grafite de um imenso pênis de 65 metros de altura em uma ponte levadiça em São Petersburgo, localizada em frente ao
FSB (Serviço de Segurança Federal), sucessor da KGB (2010)82.
Assim, percebemos que há uma movimentação na Rússia que localiza as ações do Pussy Riot não como ações isoladas de um grupo feminista, mas inseridas dentro de uma tradição ativista russa movida por descontentamento político. As ações anteriores realizadas pelo Voina são bastante representativas para entendermos o tipo de atenção política requerida pelas integrantes do Pussy
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A KGB (Comitê de Segurança do Estado) era o principal órgão de serviços secretos da União Soviética. Funcionou entre 1954 e 1991.
81
Vídeo disponível em: < http://www.liveleak.com/view?i=a4d_1204458756>. Acesso em 13 dez. 2012.
82
Vídeo disponível em:
<http://www.youtube.com/watch?v=kMXQ3U3FSyw&feature=channel_video_title>. Acesso em 16 out. 2012.
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Riot. Observamos em ambos os grupos83 o gosto pela radicalidade nas ações, particularmente notável por acontecerem em um país cuja repressão e prisão de ativistas é uma realidade. É evidente também a opção pela performance em espaços públicos, a importância da localização da ação performática, com destaque para intervenções em prédios e espaços públicos significativos, o ataque a instituições (Igreja Ortodoxa) e organizações públicas (prisão, polícia, comitês) e, finalmente, um apreço pela diversidade.
No caso do Pussy Riot, a estratégia que fez com que o grupo ganhasse a atenção pelo mundo inicialmente se deu por meio de suas ações performáticas. Nas ações realizadas exclusivamente por mulheres, suas integrantes escolheram para aparecer publicamente vestidos bastante coloridos e um elemento estético que serviu tanto para proteger suas identidades como criar uma identificação para o grupo: a balaclava, igualmente colorida.
Entre as ações do grupo, duas se destacam pela projeção midiática que conseguiram. A primeira foi a performance na Praça Vermelha84 em janeiro de 2012 quando tocaram a música “Revolt in Russia, Putin’s got scared”85
, tendo à
sua frente a catedral de São Basílio e, do lado oposto, o Kremlin. A ação foi rápida, sob o clima severo de inverno em Moscou, mas devidamente registrada pela mídia corporativa e também pelo próprio grupo.
83
Tal sinergia está ligada ao fato de ambos os grupos fazerem parte de uma mesma cena ativista no país, mas também pelo fato de que duas das integrantes do Pussy Riot, Nadezhda Tolokonnikova e Yekaterina Samutsevich, serem também integrantes do Voina.
84
Vídeo disponível em: < http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=7kVMADLm3js>. Acesso em 04 out. 2012.
85
Letra e tradução em inglês disponíveis em: < http://lyricstranslate.com/en/putin-zassal- %D0%BF%D1%83%D1%82%D0%B8%D0%BD-%D0%B7%D0%B0%D1%81%D1%81%D0%B0%D0%BB- putin-wet-himself.html>. Acesso em 09 out. 2012.
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A outra ação se deu na Catedral de Cristo Salvador86, em 21 de fevereiro do mesmo ano. Desta vez a música performada foi Punk Prayer87, que critica o apoio da igreja ortodoxa a Vladimir Putin. A ação em si é muito rápida, dura cerca de um minuto, mas é devidamente registrada de vários ângulos por cinegrafistas e fotógrafos presentes no local. Durante a performance, as 5 participantes invadem o altar da igreja, colocam a música para tocar e encenam movimentos que lembram ora uma dança punk, ora um fiel ajoelhado e fazendo o sinal da cruz. A performance presencial obteve o olhar testemunhal de poucas pessoas, mas o que ocorreu depois dela foi muito em função do vídeo, editado e postado na internet, produzido com o objetivo inicial de ser o videoclipe da música. Dias depois da performance, exatamente um dia após a eleição de Putin, duas das integrantes foram presas, seguidas de mais uma. O que se sucedeu em seguida foi um debate acalorado em blogs, redes sociais e também na mídia corporativa a respeito do julgamento de Nadezhda Tolokonnikova, Yekaterina Samutsevich e Maria Alyokhina88, os limites da liberdade de expressão na Rússia e as relações entre a Igreja Ortodoxa e o governo russo.
86
Vídeo disponível em: < http://www.youtube.com/watch?v=grEBLskpDWQ>. Acesso em 04 out. 2012.
87
Uma versão para o inglês da letra é oferecida por Carol Rumen, do jornal britânico The
Guardian. Disponível em: < http://www.guardian.co.uk/books/2012/aug/20/pussy-riot-punk-prayer-lyrics>. Acesso em 09 out. 2012.
88
Em 17 de agosto de 2012 as três integrantes foram condenadas a dois anos de prisão por vandalismo e ódio religioso. Em 10 de outubro do mesmo ano, uma das acusadas, Yekaterina Samutsevich, foi libertada após pedido de recurso.
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Figura 4.4 - Performance do Pussy Riot na Praça Vermelha
(Fonte: Reuters). Disponível em: < http://www.full-stop.net/2012/08/17/blog/helen-stuhr- rommereim/pussy-riot-in-translation/>. Acesso em 09 out. 2012.
Os dois eventos, principalmente o segundo, fizeram com que o grupo ficasse mundialmente famoso. Em termos gerais, resumem-se ao que expomos acima. A opção estética multicolorida de apresentação do grupo, sua vertente feminista, as letras punk de cunho crítico, o registro e a edição de imagens amadoras e o compartilhamento pelas mídias digitais. O que nos interessa apontar aqui pode ser resumido nesta pergunta: qual a razão desse grupo em particular ter se destacado com a ação ativista?
As razões podem estar justamente nessa conjunção de fatores que o grupo conseguiu unir. A começar pela improbabilidade dos elementos presentes nas imagens ligadas à ação em frente ao Kremlin. Elementos completamente díspares (o prédio símbolo do poder na Rússia, mulheres em roupas coloridas, a música punk e um clima severo de neve que impediria o uso daquelas vestimentas). Na idiossincrasia da cena nasce o interesse midiático pelo tema. Porém, a junção de
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elementos por si só não basta para entendermos o fenômeno por completo. Para tanto, gostaríamos de apontar algumas características das imagens ligadas à banda que as tornam potencialmente eficazes do ponto de vista da construção de uma narrativa criada pelo grupo, compartilha em rede e alimentada pelas mídias corporativas.
A ação do Pussy Riot é iconográfica por nos remeter a imagens de uma cultura pop compartilhada por todo o mundo. Em primeiro lugar, temos a balaclava. O adereço está associado a uma cultura imagética ligada ao clandestino, à criminalidade e aos atentados terroristas. Além disso, funciona como um elemento que esconde a identidade das integrantes, preservado sua integridade e protegendo-as de perseguições políticas do governo russo. Uma das principais páginas em seu apoio no Facebook se chama We´re all Pussy Riot89, numa referência à possibilidade de qualquer um poder se tornar um membro do grupo, já que suas integrantes inicialmente não teriam a identidade revelada90. Finalmente, em função do colorido das vestimentas, também trazem à tona a memória das figuras dos super-heróis de histórias em quadrinhos que, da mesma forma, mantém identidades duplas.
89
Disponível em: <http://www.facebook.com/WeAreAllPussiRiot.>. Acesso em 11 out. 2012. O nome da página também faz menção à outra página do Facebook, We´re all Khaled Said, já comentada nesse trabalho no capítulo anterior.
90
Em diversas entrevistas, as integrantes do grupo aparecem com a balaclava e fazem uso de nomes fictícios. Com o processo da ação na Catedral de Cristo Salvador, a identidade aparece de forma brutal em função da alta exposição midiática das três acusadas. Porém, outra questão se coloca. Há dúvidas de onde estavam as duas integrantes que permaneciam presas até o momento de conclusão dessa tese ou até mesmo se realmente participaram da ação, já que não é possível reconhecê-las nos vídeos. Assim, o que é interessante notar é que a ação repressiva do governo russo se dá em função de uma ideia, mais do que da ação em si, não importando o ato individual, mas o coletivo.
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A utilização de máscaras faz referência ainda ao grupo feminista de artistas americanas, o Guerrilla Girls91, que se tornou conhecido nos anos 80 por suas ações que questionavam a pouca participação das mulheres no mercado das artes e nos museus. Sempre que apareceriam em público, suas integrantes utilizavam máscaras de gorilas que tinham como objetivo preservar a identidade das participantes perante o mercado artístico da época. Mesquita (2008) explica o propósito do grupo:
O Guerrilla Girls procurou “reinventar o feminismo” apresentando-se como um grupo anônimo formado por artistas, críticas de arte e ativistas. Desde então, as integrantes do coletivo aparecem publicamente vestidas com máscaras de gorila e usam pseudônimos de artistas famosas (...) para proteger suas identidades e despersonalizar suas demandas, que buscam conscientizar as pessoas sobre a ideia de um projeto político que examine as estruturas contraditórias da produção cultural (MESQUITA, 2008, p. 117).
É evidente também a menção do Pussy Riot à cultura punk, mas sobretudo ao movimento feminista americano do início dos anos 90, o Riot Grrrls, citado como uma das fontes de inspiração do grupo (Langston, 2012). Segundo Barton (2012), o Riot Grrrls disseminou-se como uma subcultura nos Estados Unidos ligada principalmente à cultura musical das bandas e à cultura escrita, por meio da produção de fanzines92. Entre as causas do movimento, estavam a legalização do aborto, o empoderamento feminino e a igualdade salarial entre sexos, além do combate à violência doméstica e o patriarcalismo. Entre as bandas ligadas ao movimento estavam Bratmobile, Sleater-Kinney, Heavens to Betsy, Huggy Bear e
Bikini Kill.
91
Website disponível em: <http://www.guerrillagirls.com>. Acesso em 11 out. 2012.
92
O manifesto original do movimento pode ser lido neste endereço. Disponível em: <
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O Riot Grrrls também estava conectado a uma cultura amadora independente, cuja dinâmica proporcionava a livre expressão, similar ao que parece acontecer agora na Rússia. Como nos coloca BARTON (2012, online), a banda Pussy Riot “também incorporou uma mudança na cultura que ecoa a cultura DIY93 que floresceu nas áreas Seatlle e Olympia de Washington no começo dos anos 90 – fanzines, bandas punk de garagem, um tom de irreverência selvagem e um desejo de questionar a tradição”94
.
Essas referências que se somam à atuação do Pussy Riot têm muito a ver com o aumento de troca de informação através das redes de comunicação, o que, por sua vez, faz com que cresça também o sentimento mundial de compartilhamento de uma cultura global. Valores, medos e motivações são divididos por meio de signos no ciberespaço. Esse movimento colabora com aparecimento de ações como essa que defendem valores locais, mas não necessariamente nacionais. Ao invés de clamarem por um ícone político ou levantarem os braços ao som do hino nacional, os ativistas escolhem chamar atenção para suas causas por meio de estratégias mais eficazes, como observamos nesse caso.
Bennett (2003) também acredita que o ativismo está ficando mais conectado a outros tipos de cultura. Ele propõe que a resistência está se tornando menos nacionalista e mais baseada em escolhas individuais e redes sociais.
93 “Do It Yourself” ou “Faça você mesmo(a)”. Cultura alternativa que propõe a substituição de
compras de objetos prontos pela produção criativa e independente feita por meio do artesanato e as artes.
94 Tradução própria. Trecho original: “also embody a shift in culture that echoes the DIY culture that
flourished in the Seattle and Olympia areas of Washington in the early 90s – fanzines, garage punk bands, a tone of wild irreverence and a wish to question tradition”.
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Imersos em fluxos de informação criados por mídias digitais pessoais e redes sociais, os memes trafegando por essas redes digitais podem interferir no estilo de vida da audiência. O mesmo está acontecendo com as redes ativistas. Bennett argumenta que “os memes que correm através das redes de ativismo global também viajam bem porque eles seguem sobre trajetórias de cultura cruzada produzidas pela própria globalização: marcas, filmes, música, celebridades”95
(BENNETT, 2003, p. 32).
É fato que a essa cultura pop presente nas ações do Pussy Riot são somados elementos que remetem ao poder e à tradição russos, o que gera um estranhamento inicial, mas que também proporciona prazer estético ao espectador. A atmosfera do vídeo da Praça Vermelha citado acima é bem descrita neste depoimento encontrando em um post96 sobre o grupo:
I’ve watched the video of the Russian feminist protest punk band Pussy Riot performing in Red Square quite a few times now, and every time I see it I start to feel a little emotional. They jump and scream in their rainbow colored ski-masks, bright dresses and tights, fists in the air, bare- armed in the middle of winter in Moscow. The Kremlin and St. Basil’s Cathedral, great symbols of centuries of Russian power — many times changed, but always repressive — loom overhead97 (STUHR- ROMMEREIM, 2012, online).
95
Tradução própria. Trecho original: “the memes that run through global activism networks also travel well because they ride on cross-culture carries produced by globalization itself: brands, movies, music, celebrities”.
96
Post é o termo para a publicação de textos em blogs. É indicado por data e hora de publicação.
97
Eu já assisti algumas vezes ao vídeo da banda punk de protesto feminista Pussy Riot performando na Praça Vermelha e a cada vez que eu o vejo, eu começo a me sentir um pouco emotiva. Elas pulam e gritam em suas máscaras de esqui cor de arco-íris, vestidos vivos e calças justas, punhos levantados, braços expostos no meio do inverno em Moscou. O Kremlin e a Catedral de São Basílio, grandes símbolos de séculos de poder russo – que mudaram muitas vezes, mas sempre repressivos – agigantam-se ao alto da cena. [Tradução própria]
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Acreditamos que o conjunto de fatores apontados acima, atrelados à estética amadora presente no modus operandi do grupo, assim como nos vídeos de suas ações, estão ligados ao prazer de fruição relatado pela espectadora acima. Há uma confluência de fatores que em grande escala colocam o poder na mão do sujeito comum (o amador) que vibra e torce ao ir de encontro com o objeto estético que lhe é oferecido. Não propomos de forma alguma aqui que as ações do grupo sejam apoiadas de forma unânime, pois sabemos que tanto na Rússia como pelo mundo, as opiniões são divergentes. O mais relevante é notarmos que em conjunto as ações de fato provocam, seja positivamente ou negativamente.
O radicalismo do Voina estava amparado em uma biopolítica que propunha, por meio da performance do corpo em situações de risco e limite, um afrontamento com os dispositivos de disciplina e controle do corpo. É o mesmo que acontece com o Pussy Riot, que tem a seu favor a amenização do seu radicalismo em função da alegria estética de suas vestimentas e do elemento feminino e juvenil, que torna as ações mais suaves para os olhares externos.
Por meio dessa leveza estética, observamos um debate público que parte de uma produção amadora, navega pelas mídias sociais e corporativas e atinge as instituições, particularmente neste caso a Igreja e os órgãos ligados ao governo russo. Há uma construção de significados que parte do amador que se arrasta pela multidão, transformando o objeto estético inicial em uma chave para a produção biopolítica que, como observamos aqui, de fato colocou as instituições disciplinares e de controle mencionadas por Foucault (1988, 2008c) sob uma óptica crítica. A forma como os significados desses elementos fundamentais de um Estado milenar e tradicionalista são deturpados por meio das invasões dos prédios e a ironização de seus métodos nas letras em performances do grupo mostram o potencial efetivo que as imagens amadoras podem provocar.
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É interessante notar também como a apropriação do elemento estético principal (a balaclava) transforma-se em instrumento de intervenção pública em favor do grupo. Depois de declarada a sentença às integrantes presas da banda, em agosto de 2012, um movimento concentrado em Moscou, mas disseminado por outras cidades como Belfast (Irlanda do Norte), Copenhagen (Dinamarca) e Varna (Burgária), tomou conta das ruas dessas cidades. A estratégia estava em “vestir” estátuas públicas com máscaras similares às balaclavas utilizadas pelas integrantes do Pussy Riot. A algumas estátuas eram “dados” também cartazes com os dizeres “Free Pussy Riot”, de forma a facilitar a comunicação, enquanto em outras havia apenas a intervenção da vestimenta.
Diversas das estátuas que sofreram a intervenção representam figuras ligadas ao poder (como os Partidários da Biolorússia, figura 4.5), mas também poetas e escritores. O que é importante notar é que, em função da alta exposição da imagem do grupo, o uso da máscara como é feito neste caso já está completamente tomado de significado.
Existe uma relação cíclica que se inicia pelas performances do Pussy Riot em espaços públicos simbolicamente significativos, entra em um circuito midiático em princípio alternativo e rapidamente transformado em pauta disseminada para blogueiros e editores e; finalmente, com o desfecho negativo do julgamento das integrantes do grupo, temos de volta a tomada estética do espaço público, desta vez por meio da apropriação simbólica representada pelas estátuas.
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Figura 4.5 - Intervenção na estátua “Partidários da Bielorússia” no metrô de Moscou.
Disponível em: < http://rt.com/art-and-culture/news/moscow-monument-pussy-riot-929/>. Acesso em 13 nov. 2012.
4.2.3. Femen
O terceiro e último exemplo que gostaríamos de explorar neste capítulo trata-se do grupo Femen. Ele nasceu na Ucrânia no ano de 2008 com o intuito inicial de protestar contra o turismo sexual e a prostituição do país. A partir do final